Once Upon a Time: O Arcano X
2 ★ A Rainha gentil
Notas iniciais
Susana repousou os braços nos apoios de seu trono naquele maravilhoso pavimento. Com os cabelos a cair-lhe os ombros, estes erguiam-se em seu mais absoluto tom negro. Os olhos azulados e os lábios carnudos e levemente moldados em cores carmesim, faziam dela a figura mais bonita de toda aquela terra. A moça respirava tranquilamente, deixava que a visão perpassasse por aqueles vitrais tão significativos, por aquelas paredes de pedra que há muito haviam sido construídas. Dos quatros irmãos, ela era a que mais reservava-se a ficar naquele lugar. Gostava de poder ouvir o povo, de sentir que podia governar e ser boa para eles.
Susana nunca teria acreditado que metade daquilo pudesse acontecer, caso Lúcia não os tivesse insistido tanto em cruzar aquele guarda-roupa. Não acreditava em destino, mas acreditava na mudança das coisas. E após um tempo ela viveu para tentar mudar as coisas para aqueles que tinham bem menos do que ela. A moça não era a mais querida inicialmente, não entendeu quando recebeu o título de “A Gentil” por parte de Aslam. Pouco depois percebeu que o seu poder era tão grande a ponto de ver a pessoa que ela se tornaria.
– Majestade, não sei se me permite, mas por que não foi caçar alces com seus irmãos?
Frida, uma das amas, apareceu vindo da porta lateral da sala. Vestia-se com as roupas feitas de algodão e padrões dos funcionários. Muitas vezes era vista não com serva, mas como uma conselheira amiga. Quando sentia saudades os pais, Susana recorria ao seu colo. O lado sentimental da moça era mais reduzido e oculto do que a de lúcia, no entanto, não era pior. Sentia como uma humana, ou melhor, como uma filha de Eva deveria sentir tudo aquilo que a afligia o peito. Repousou as mãos nos joelhos:
– Em alguns momentos eu gosto de me reservar para ficar aqui, é como se sempre fosse entrar alguém para falar comigo. É bom saber que não se precisa ditar apenas regras, como também, poder ajudar os outros. – Susana respondeu ao encarar gentilmente o rosto da serva.
– Sabe, majestade, achei que seria a que eu menos me daria bem nesta realeza. Duvidei muito e achei equivocado o título ao qual Aslam lhe atribuiu, mas hoje eu vejo o plano maior que ele tinha da situação toda. Está se tornando uma Rainha maravilhosa, querida. – Frida disse com as mãos juntas.
Apesar de lisonjeada para com as doces palavras de Frida, Susana juntou as mãos no colo, abaixou tranquilamente o rosto em serenidade. Era tão forte, mas tão frágil, que toda a força era capaz de obscurecer qualquer traço que a fizesse doce. Levada como chata na maior parte do tempo, com o passar deste, já não fazia questão de desmentir:
– Eu não sei até quando vou ser capaz de aguentar, sinto saudades de casa. Sinto saudades da minha mãe.
Frida achegou-se mais ao trono de Susana, pondo-se bem próxima dela. Estendeu a mão cordialmente e fez menção de pedir a mão da outra. Quando a Rainha compreendeu seu sinal, eis que elevou sua mão até a dela. A serva cobriu sua mão:
– Não está aqui obrigada, correto? Pode voltar a hora que quiser, eles vão entender. Só que precisa saber, você tem o direito da escolha e não pode ficar nos dois. Você elege as prioridades da sua vida. – Frida afagou sua mão carinhosamente. Os traços ternos de seu rosto com idade avançada e a cumplicidade em seu olhar, mesmo que dissesse a ela uma dura realidade, lhe confortavam.
– E os meus irmãos? Nunca nos separamos, nem mesmo quando a guerra nos atingiu.
– É dessas escolhas que falo. Quem sabe um deles não aceite ir embora contigo?
– Eu acho que não. Pedro e Edmundo tem exércitos, Lúcia tem as aventuras que tanto ama. Isso os dá o que precisam para viver. De certa forma também me dá, porém, há coisas que estão apenas do lado de lá. – Enfatizou a última palavra.
Nárnia também era sua casa, conhecia cada pedaço, mesmo sabendo que sempre haviam mais deles a serem descobertos, Susana queria ficar lá, como também queria estar com os pais, a guerra já havia cessado. Puxou parte do vestido e o endireitou no colo. A saia longa roxa perdia-se tantas vezes no chão.
Enquanto a mulher lhe dizia mais algumas palavras, a Rainha olhou para a frente e viu três vultos correndo pelo portal maior do salão dos tronos. Edmundo pulava nas costas de Pedro tentando pegar algo e Lúcia ao seu redor. Viviam como crianças, mesmo sendo adultos. Ela era a mais crescida.
– Me devolve a maçã, eu vi primeiro. – Berrava Edmundo.
– Não mesmo, peguei quando caiu ao chão. – Pedro segurou o fruto nas mãos e jogou para cima, Lúcia tentou pegar.
– Sejam cavalheiros e irmãos amorosos, deixem a maçã para mim. – Protestou a mais nova.
– Nossa, quanta briga por uma maçã, tem tantas no castelo. – Susana falou de seu lugar, já que Frida havia se retirado calmamente.
– Mas essa maçã não é o prêmio, mas sim, o mérito de tê-la. Achamos perto do lampião, numa árvore nova. – Pedro explicou ao sacudir o outro no chão.
A morena em negativa com a cabeça, disse:
– Se vão brigar por algo, briguem pela liderança dos exércitos e defendam Nárnia. Isso seria útil, rapazes. E Lúcia, por que não está aprendendo com o curandeiro a ministrar elixires? Seria bom também.
– Você bancando a chata do grupo sempre, não é mesmo, Susana? – Edmundo falou ao mexer nos cabelos negros como os dela.
Não os deixava saber, no entanto, sentia-se ofendida com cada vez que a nomeavam de algo ruim, e até mesmo chata estava incluído no grupo dessas palavras. Relevou e manteve seriedade no que dizia posteriormente:
– Todos somos Reis e Rainhas, está na hora de começarem a se portarem como tal. – Levantou-se de seu trono e ao ficar de pé o vestido caiu – Me fazem pensar porque não vale a pena estar aqui. Deveriam viver em prol do povo, não de vocês.
– Somos jovens agora, Susana, e vamos ser por muito tempo. Há hora para isso chegar. – Pedro falou colocando a mão no cabo da espada. Como de costume, era o que mais gostava de se por na frente dos quatro. De ser magnífico.
– Todos crescem uma hora, a menos que você seja Peter Pan, alguém que nenhum de vocês são. – Susana contrapôs.
– Então, neste caso, seremos jovens mesmo. – Ele disse pertinente.
– Bom para vocês, porque eu estou cansada. Já está na hora de um pouco de realidade e de amadurecimento. – Majestosamente puxou parte do vestido par ao lado e caminhou a dirigir-se para fora do recinto. Não era a dúvida que a matava, mas a certeza de que se ela se fosse, eles estariam perdidos sem ordem.
(...)
Deitou-se abaixo da macieira com todo conforto que poderia ter naquela terra. Nunca era demais, sempre a mesma, boa e velha sensação de paz com a natureza. Todos os vazios da vida se iam quando o faziam. Poderia gostar de qualquer outra árvore naquela propriedade, mas não, a macieira era a sua favorita. Não sabe quando chegou ali, porém, sabe que tinha a certeza de fazer parte dali desde o começo daquele lugar. Storybrooke fica não muito distante, quer dizer, o centro urbano.
Conveniou-se com o campo, ligar-se com a simplicidade. Christian Earheart olhou o céu e mordeu a maça em sua mão manteve uma mão na qual encostava a cabeça. A grama espessa e convidativa conseguia o atrair todas as vezes em que a olhava. Não possuía funcionários, trabalhava sozinho, afinal, era apenas ele naquela grande casa. Sem família, sem companhia, sem nada. Em sua concepção, tinha a si mesmo, a melhor coisa que poderia possuir. É, o ego era um tanto elevado, mas ele sabia como agradar pessoas.
Sua forma física negaria que era tão rústico quanto podia-se ver. Christian era um homem bonito, tendo seus 24 anos, os cabelos pretos e os olhos azuis fortes eram seu traço mais atraente. O corpo forte e bem cultivado foi consequência de tudo quanto carregava para a propriedade. Não chamava de fazenda, seria hipocrisia, pois considerava fazendas como ambientes totalmente campestres, coisa que sua propriedade pecava em tantas partes.
Saboreou o fruto suculento e cruzou uma perna em cima da outra a admirar o céu maravilhoso, as nuvens, toda sua magnificência. Evitava pessoas, era esse o maior motivo de estar na parte rural de Storybrooke, um pouco para além da floresta. Quando todas as mudanças começaram a interferir nos contos, pode contemplar todo a mutação destes, no entanto, não via nenhuma em si. Continuou sendo a mesma pessoa. Ou quem sabe tenha se tornado outra pessoa? Christian não lembrava. Tudo que recordava era do come e do meio de sua história, já que vivo não poderia ter um fim.
Saboreou um pouco mais da maçã, até que ouviu um barulho vindo de alguns metros de distância. Assemelhava-se com alguém caindo. Levantou rapidamente e correu até o outro extremo velozmente. O corpo que se levantava do chão resmungava algumas coisas inaudíveis. Era uma moça.
– Senhorita, está bem? O que houve? – Perguntou.
– Funcionou? Eu consegui? Eu não acredito. – A menina olhava suas vestes e incrédula estava sua face bela.
Christian achou ela louca inicialmente. A dama incrédula o olhou primariamente e percebeu o vexame que posteriormente tinha dado. Puxou as abas da saia do vestido e elegante ela pronunciou:
– Rainha Susana, a gentil.
Rainha Susana? Como assim? Nunca tinha ouvido falar dela, eis que segui ua encarando e achando-a mais louca do que antes.
– Mesmo eu estando compreensiva, mas por que não fez reverência nenhuma?
– E por que eu deveria reverenciar você? Existem muitas Rainhas aqui. – Disse Christian.
– Mas eu sou a única Rainha, quer dizer, a Lúcia também. Aliás, Nárnia me parece tão diferente agora. – Ela olhou ao redor, os olhos percorreram cada aspecto da paisagem.
– Nárnia?
– É, não é onde estamos? – Seu rosto mudou para susto.
– Não, você está em Storybrooke, Maine. E já que acredita nessa ficção toda de reino, aqui também pode ser a terra dos contos de fadas. – Christian explicou.
– Era bom demais para ser verdade. – Uma expressão desapontada surgiu no rosto de Susana. Acreditou que o portal a levaria para Nárnia, mas como em todos os momentos desde que os perdeu, estava ainda mais longe dos irmãos e da família.
– Olha, acho que você não está bem, não quer entrar? Pode descansar. – Christian tentou parecer solícito para com a situação.
– Eu estou perfeitamente bem. – Susana expressou seu desgosto através do tom grosso – Esse negócio não presta, nem para isso serviu.
Susana atirou uma velha lanterna de aço no chão e ela girou até parar perto da margem da estrada de barro. Era de caráter antigo, tal qual a maioria das coisas naquela cidade.
– Calma, por que não tentar conversar sobre o que houve? – O homem tentou outra vez, e estava se sentindo estranho, pois ele não fazia o tipo solidário ao extremo.
– Estava tentando voltar para Nárnia, achei que se eu encontrasse um velho objeto de lá, ou que teve contato com seu universo, poderia conseguir um portal, uma forma de liberar a magia interior e retornar para lá. Eu resisti por tanto tempo, creio que não faz mais efeito – A mulher olhou para a lanterna caída – Devo os ter perdido realmente para sempre.
Desde que perdeu os pais, Pedro, Edmundo e Lúcia, tornou-se Susana uma pessoa mais reservada, consumida pelo fantasma da depressão. Sonhava com um casamento, com crescer, mas jamais pensou que tudo aquilo poderia acontecer. Casou, virou uma mulher influente na sociedade britânica, no entanto, nada daquilo foi o suficiente para que ela pudesse repor o vazio no peito, porque nenhuma riqueza traria sua família de voltar. E descobriu que sonhou as piores coisas e não deu valor ao simples que possuía. Por muitos anos tentou acreditar de novo, tentou voltar para Nárnia, ainda achava que os irmãos estavam lá, porém, nenhuma tentativa trouxe resultado, até ali. E um não satisfatório.
– O que é Nárnia? – Perguntou o homem.
– Nárnia é meu reino, quer dizer, é minha segunda casa. Era. Já não sei mais de nada. É um Reino enorme, tem terras como estas, mas é gracioso em cada pedra. Viajamos para lá pela primeira vez através de um guarda – roupa. Era uma passagem secreta, mágica, minha irmã mais nova havia ido primeiro, e nenhum de nós acreditava naquela baboseira de terra encantada. Até o dia e que nos vimos dentro dela. É uma longa história, mas fomos Reis de lá.
Christian não podia desacreditar em Susana, aliás, como poderia estando numa terra de contos de fadas? Haviam tantas terras no mundo encantado, que Nárnia podia ser uma terra desconhecida por ele. Se bem que nunca lembrou de conhecer outra parte além de Storybrooke. Era complicado.
– E onde estão seus irmãos?
Ah, se Christian soubesse o quanto aquela pergunta a feriu por dentro. Ferida, entristecida, mesmo assim ela ergueu o rosto em força:
– Meus irmãos faleceram, meus pais também. Estava viajando num trem ao qual eu provavelmente não peguei, estava ocupada tentando ser a adulta perfeita. Na verdade, eu nunca quis se ruma adulta perfeita, eu sempre quis ser perfeita, e bem, tive minhas consequências.
Sem parentes para o causar tal dor, Christian não sabia a dor dela, todavia, sentia-se no dever de ser solidário:
– Sinto muito por eles, Rainha Susana.
– Não tem família? – Ela perguntou.
– Não.
– E como pode existir sem família?
– Não sei, sinto não poder responder sua pergunta. – Deu um sorriso de canto, os lábios se torceram. Ele era bonito – Me parece que veio num portal, mas cadê ele?
– Sumiu. Nem sei como vou voltar para Londres, fui estúpida de acreditar. Sou um caso perdido, estou condenada a terminar sozinha, talvez eu aprenda o quão ruim consegui ser na vida. – Susana disse dando uma breve risada de deboche de si mesma ao final.
– Ei, não é porque a sua história teve um final triste, que significa que ela não possa mudar. Na cidade existe alguém que eu acredito poder ajudar o seu caso. – Christian disse.
– Isso é alguma piada?
– Não, não é. Eu não tenho muito contato com a cidade, não me pergunte o motivo, mas estou lidado neste lugar, mas estou disposto a ver o que podemos fazer. Vamos procurar o autor. – O rapaz enfiou as mãos nos bolsos da calça.
– Autor?
– É, ele é responsável por todas as histórias. Achar os seus irmãos, ou melhor, reencontrá-los depois da morte é o seu final feliz, e não importa, o que busca é um final feliz, e ele é o mestre nisso. O que me diz?
Susana pareceu ponderar momentaneamente, pesou os lados, as perdas, chegando à conclusão de que não poderia ficar pior. Olhou novamente para a lanterna no show, esta que Christian abaixou e tomou nas mãos, devolvendo para ela:
– Aceito a proposta, Senhor? Não sei seu nome ainda.
– Christian Earheart, ao seu dispor.
A moça segurou a lanterna nas mãos e quase pôde sentir a presença de Edmundo. Se era mesmo verdade do homem, ela conseguiria vê-los novamente e toda a dor finalmente chegaria ao fim. Ela poderia se perdoar e pedir perdão.

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