Once Upon a Time - Lua de Sangue
14 Toda Magia vem com um Preço: Azul é a cor do Mal - Parte II
Notas iniciais
—O que é uma Tenebrae Mortis? — Belle estava ligeiramente irritada. Apesar de ter a perfeita consciência da amizade de Rumple e Regina, era difícil se conformar de que seu homem tinha mais em comum com outra do que com ela.
“Péssimo momento para ataques de ciúme, Belle.”, pensou ela. “Mantenha a calma, respire fundo”.
Rumple suspirou.
—Há um motivo. Para eu não ter contado tudo quando contei a história de Malévola.
—Então você ocultou partes? — Belle arqueou as sobrancelhas. Já imaginava. Depois de um tempo, era difícil se surpreender com Rumple.
—É, e tem um motivo para isso. Belle, acontece que as pessoas estão assustadas com tudo isso. É difícil acreditar nessas coisas que acontecem atualmente. Viemos de um mundo com ogros, fadas, e maldições, mas é estranho pensar que, de um dia para outro, mais da metade da população de Storybrooke morreu. Para você ter noção, o cemitério é incapaz de abrigar mais pessoas em seu interior. A maioria dos corpos terá de ser incinerada.
Belle sentiu algo se mexer em seu interior. Algo ruim. Ela estava horrorizada, embora já imaginasse aquilo também.
—Então, no fim das contas, enquanto eu contava para todos a história de Malévola, eu decidi que eles não precisavam saber de tudo. E você também não precisa.
Belle olhou para ele, com raiva.
—Rumplestilstskin… Eu fui raptada da minha família por você. Depois eu fui expulsa de seu castelo por você. Eu fui aprisionada pela Rainha Má porque ela queria atingir você. Fiquei vinte e oito anos presa num hospício, sem memórias, por você. Quase fui morta por Gancho porque ele queria atingir você. Depois, quando eu me finalmente me lembrei, meu próprio pai quase me fez perder tudo por você. E logo após isso, o Gancho voltou, atirou em você, e me fez perder todas as minhas memórias. Por você. Eu fui enganada pela Rainha Má, que me deu lembranças falsas, e vivi como uma prostituta por semanas. Tudo isso porque? Ela queria atingir você. Quando eu finalmente me lembrei, você foi embora e me deixou sozinha, suas últimas palavras sendo uma despedida seca. Eu chorei por você todas as noites. Mas você voltou. Voltou só para morrer novamente, na frente de todos, num sacrifício. E eu chorei novamente por você. Eu voltei para a Floresta Encantada, Rumple, e por você eu quase morri. Eu vi você sendo controlado por Zelena. Vi você sendo obrigado a fazer coisas ruins. E por você eu chorei novamente.
—Belle…
—Não, Rumplestilstskin. NÃO! Desde que eu te conheci, eu só chorei. Mas sabe porque eu continuo com você? Sabe porque eu ainda estou aqui, do seu lado? Porque nem toda a nossa relação foi choro. Porque houveram risadas, houveram beijos, houve AMOR. E é por esses momentos que estou aqui, com você.
Rumple a abraçou.
—Belle…
—Não, Rumple. Eu cansei, cansei, de chorar. Cansei de ser a donzela que toma tiros, que perde a memória, que é raptada, que é sempre jogada de lado… Eu te amo, você consegue entender?
Pequenas lágrimas brotavam nos olhos de Rumple, e ele a abraçou.
—Eu também te amo, Belle. Eu também te amo…
—Então me conte, Rumple, porque eu cansei de ser defendida. Cansei de ser protegida por você. Cansei de perder você toda e toda vez. Cansei de ser boazinha e sorridente para todos. Cansei…
Rumple olhou espantado para Belle, e sorriu. Quando tinha conhecido ela, ela era apenas uma menina. “Estou vendo uma mulher desabrochar agora”, pensou Rumple, admirado. Sempre tinha amado Belle por sua coragem e por sua força, mas agora…
E Rumple contou a verdade para Belle. Pois ele sabia agora. Sabia que, mesmo com Belle se assustando, os dois estavam juntos. Sempre estiveram.
***
—Malévola, Malévola… Eu sempre apostei todas as minhas moedas em você, e percebo que sempre tive razão. — Disse a voz, carregada de frieza. Não existia calor naquele lugar. Era uma espécie de clareira no meio da floresta de Storybrooke, criada pela Fada Negra, para conversar com seu Mestre.
—Chegou a hora, não chegou? — Disse Malévola. Seu interior estava ansioso; muito em breve, ela conseguiria o que sempre quis.
—Sim. As Trevas despertaram, criança, e você tem de estar consciente disso.
Malévola assentiu, respirando o ar frio. Quando a aurora daquele dia tinha acontecido, Malévola sentiu algo diferente em seu âmago. Sentia-se cada dia mais poderosa, cada dia mais vingativa. Cada dia menos humana.
—Você estará disposta a fazer todo o Mal necessário para atingir seus objetivos, Malévola? — Perguntou a Voz. Malévola bufou.
—Você duvidou disso por algum minuto?
A voz assentiu, parecendo contente. Se bem que “alegria” era um sentimento destinado a humanos. Era difícil admitir que fosse possível que as Trevas sentisse algo.
—Então que a destruição comece.
***
Will ainda morava nas florestas. Embora grande parte dos Merry Men estivesse morta, alguns ainda viviam naquele acampamento. Porém, recentemente, tinha recebido uma mensagem de Ashley. Uma mensagem que parecia realmente urgente.
Enquanto estava sendo no sofá da sua casa, Will percebia que precisaria sair de Storybrooke o mais rápido possível...
—Você veio! — Disse uma voz, que exibia traços de preocupação, medo e alívio. Will virou-se para trás, deparando-se com Ashley.
A mulher estava pálida, e parecia não estar bem. Seus olhos tinham olheiras e estavam vermelhos, como se ela tivesse passado grande parte do dia chorando. Suas mãos tremiam um pouco, mas seu olhar tentava transparecer confiança.
—Ashley! — Will tentou parecer… Educado, talvez? Ashley sentou-se ao seu lado, suspirando.
—Tenho que te contar uma coisa.
—Conte-me.
—Eu descobri o porque de, tanto Anastasia quanto Thomas, terem se esquecido de tudo…
***
Cruella afagou algumas de suas últimas Tenebrae Mortis. Eram pedrinhas negras, tão escuras como a noite, sem brilho, e frias ao toque. A De Vil gostava daquilo.
—Seu trabalho está feito? — Perguntou Cruella para o homem ao seu lado. Ela pôde sentir o homem assentindo.
—Ótimo. Trouxe os corpos?
O homem pareceu irritadiço quando Cruella virou-se para ele. Vestia um sobretudo preto, e tinha um chapéu cobrindo os longos cabelos castanho-escuro. Era jovem, não poderia passar dos dezesseis.
—Quando eu disse que fiz o trabalho, eu o fiz.
Cruella levantou as sobrancelhas. Olheiras brilhavam entre os olhos daquele garoto, e sua postura era curvada, provavelmente de culpa pelas vidas que tinha tirado. Havia raiva em seu olhar; Cruella farejava ódio como ninguém, e aquele garoto estava carregado dele.
—Você me odeia, garoto? — Perguntou Cruella, sussurrando. O garoto não respondeu, o que fez a mulher sorrir.
—Sabe, garoto, uma vez, há muito tempo atrás, eu fui pequena como você. Apenas uma serva do bem, nada mais do que isso. Mas algo aconteceu comigo, e então…
O garoto permaneceu em silêncio, e Cruella deu de ombros.
—Conhece a história da Malévola, garoto? Sabe o que realmente aconteceu com ela? — Cruella não esperou ele responder, e continuou.
—Ela era uma Fada, garoto. Uma bela e forte Fada Primordial, que vivia ajudando pessoas e coisas a serem felizes e satisfeitas consigo mesmas. — Argh, pensou Cruella, enojada.
“Dizem que quem criou o mundo era alguém bom. O Representante do Bem, é assim que chamam ele. Dizem que ele ficou poderoso demais, e criou as Primordiais para cuidarem de sua criação. Esse homem tinha um irmão, sabe? Esse irmão, com inveja do poder do Representante do Bem, tentou unir a Magia à Escuridão… Nos tempos passados, no início do mundo, não existiam os chamados “sentimentos ruins”. Junto com a Magia Negra, naquele dia, nasceu também o Ódio, menino.”
Cruella pôde sentir o menino se arrepiar, e sentiu-se contente por isso.
—Quando esse homem tornou-se a Escuridão, seu irmão, o Representante do Bem, o aprisionou. A Escuridão, desde aquele dia, tomou como missão tomar tudo aquilo que pertencia ao irmão… Sabe o que ele fez, moleque? Percebeu em Malévola (antes chamada de Branca) a oportunidade de disseminar o Mal pelo mundo. Fez com que ela salvasse um Príncipe, primeiramente.
—Como? — O garoto, confuso, arrependeu-se da pergunta segundos depois de ter feito ela. Cruella riu para si mesma. “O moleque está curioso quanto as origens do Mal…”.
—A Escuridão mudou a rota da carruagem de um príncipe. Depois, fez com que alguns homens tivessem o desejo de atacá-la. Sim, garoto, a Escuridão disseminou o desejo da cobiça em alguns homens, e o circo estava montado. Malévola encontrou um príncipe e sua noiva sendo atacados e salvou-os. E por fim, se apaixonou.
“Estava tudo nos planos da Escuridão. Ele, enquanto via na doce Fada Branca nascer amor, fez de tudo para que nascesse no Príncipe Alistair cobiça pelo poder. Sussurrou ao Rei, pai do garoto, que o filho conhecia uma Primordial e que sabia meios de tirar o Poder dela. E o circo viu sua primeira faísca se acender.”
—Malévola foi dilubriada, e tentaram tirar os poderes dela. Quando conseguiram, ela deixou de ser Fada, sendo expulsa dos Céus. E a Escuridão viu seus planos se concretizarem… Afinal, tinha trabalhado tanto para que Malévola visse a si mesma fraca e indefesa, com ódio das suas Irmãs Primordiais… Sim, garoto, o plano deu certo. A Escuridão foi até Malévola, e tomou-a para si como um garoto toma para si um brinquedo.
“Sabe quem comanda a todos nós, garoto? Essa Escuridão. Ele, o irmão do Representante do Bem, está em algum lugar, conversando com Malévola, discutindo detalhes do Plano, garoto.”
Cruella olhou para o menino, e se impressionou. Ele estava com as sobrancelhas arqueadas, parecendo não se importar.
—Você não entende, não é? Não entende a importância da história que lhe contei, agora… Pois bem, garoto. Olhe para essas pedrinhas. — Disse Cruella em tom de desafio, balançando as duas Tenebrae que tinha para ele enxergar. — Sabe o que elas fazem? Se você desejar qualquer coisa, essas pedras realizam. Independente de ser algo ruim ou algo bom, algo compatível com as Leis da Magia ou não… Malévola agarrou essas pedrinhas para ter o Poder, e depois deu-as para mim. Faça como ela. Pense nisso tudo como um Grande Plano Escuro, e agarre a oportunidade. Pois você nunca mais verá sua família. Nem seus amigos, nem seus amores… Seremos só nós. Nós, eu, Malévola e a Escuridão, somos sua nova família.
O garoto sorriu com zombaria. “Audacioso ele, hein?”, percebeu Cruella. Ela gostava daquilo. Audácia.
—E o que você sabe sobre família, mulher?
Cruella sorriu.
—Definitivamente nada, garoto. Tendo a Escuridão como pai…
***
As batidas na porta assustaram Ashley. Ela estava consolando um desesperado Will, que tinha acabado de escutar o porque de sua mulher ter se esquecido dele.
Nenhuma palavra havia saído da boca daquele homem. Ele parecia muito obstinado a não demonstrar sentimentos.
—Wow! — Exclamou Ashley, quando abriu a porta. Parados na sua frente, olhando para ela… Estavam Thomas, Anastasia e Tremaine.
—Olá, Cindy! — Disse Tremaine, fazendo menção de entrar. Ashley ergueu as sobrancelhas.
—Bateu a cabeça forte demais, querida? O que você pensa estar fazendo quando…
—Estou salvando seu casamento, sua vida e a felicidade da minha filha. — Disse Tremaine, sem alterar a voz. — Preciso de mais motivos, ou esses já bastam para sua mente limitada?
Ashley ficou vermelha de raiva, e encarou Thomas. Seu marido estava diferente desde a última vez que tinha visto ele. Seus cabelos estavam mais aparados, e seus olhos brilhavam com mais intensidade. “Como se ele estivesse vivendo feliz para sempre… Com Anastasia”.
Ella sentiu o estômago afundar. Quase trinta anos de casados, e ela e Thomas nunca tinham vivido um “felizes para sempre” com durabilidade maior que alguns meses. Agora Thomas e Anastasia, com apenas algumas semanas, pareciam ter tido cinquenta anos de casado e terem um fogo no olhar de alguém que ainda está conhecendo seu parceiro.
“Será isso o amor verdadeiro?”, pensou Ashley, com o peito doendo. Seria a felicidade dela e de Thomas pura ilusão? Teria Thomas nunca amado Ashley…?
—Minha mãe, hum… Contou para nós uma história. — Disse Anastasia, dando de ombros.
—Segundo ela, houve um certo feitiço que trocou memórias, ou algo assim. — Disse Thomas, também parecendo desinteressado. Ashley olhou para Tremaine, desconfiada.
—Você?
—Sim, eu.
—O que você pretende, Tremaine?
Tremaine abriu um sorriso assustador.
—Oras, minha cara… Eu pretendo trazer alegria a todos, apenas.
***
—Ora, ora… A Fada Azul está aqui. — Sussurrou Cruella, sorrindo. A Madre Superiora tremeu, assustada.
—Rowenna… Oras, minha filha… — A Madre forçou um sorriso. Estava assustada, Cruella podia farejar seu medo. Suas pálpebras tremiam a todo instante, e suor escorria por sua testa.
—Lugar estranho para um encontro, não? — Perguntou a Madre, olhando para o local. As duas estavam no meio da floresta, perto de onde Malévola conversava com a Escuridão.
—O que você faz aqui?
A Madre mordeu os lábios e deu de ombros.
—Eu vim me entregar, Rowenna.
—Não me chame assim! — Vociferou Cruella, olhando ameaçadoramente para a mulher. A Madre deu de ombros.
—Cruella é um nome tão horrível…
—Que seja. Foi ele o que eu escolhi, e será ele que você dirá a partir de agora. Vamos, fale logo. O que você quer?
—Eu venho com um acordo, C-Cruella.
—E…? — Cruella arqueou as sobrancelhas.
—Eu me entrego para você, e você tem a sua vingança. Mate-me se quiser, filha. Me torture, me esfole… Mas não revele meus segredos para Storybrooke. Por favor, eu te peço.
—Oh, você me pede?
—Sim… Minha morte te acalmará, não é mesmo?
Cruella se aproximou, e olhou nos olhos daquela mulher. Ela parecia ter medo; não pelas vidas dos cidadãos da cidade que ela jurou proteger; e sim pela sua própria vida.
—Você me abandonou, sua desgraçada. Se eu te matasse agora e deixasse você se tornar uma mártir para todos, eu estaria te perdoando.
“E acredite, mamãe, eu não perdôo fácil”.
FLASH — Floresta Encantada, milênios atrás
Joanne tinha aceitado sem pestanejar o trabalho oferecido por Malévola. Era uma garota pobre, que conseguia dinheiro mendigando pelas ruas e fazendo certos serviços. A prostituição não era algo de que ela gostasse, mas era algo necessário. Os homens pagavam muito bem por algumas horas, dinheiro suficiente para um pão ser comprado.
Quando aquela mulher misteriosa tinha chegado à Joanna, oferecendo um mundo novo onde ela não passaria fome, nem teria de se deitar com homens por dinheiro, Joanna não pensou duas vezes.
“Você agora é uma serva do mal”, tinha lhe dito Malévola, após levá-la para uma caverna sombria e lhe dar comida.
Joanne estava grávida de cinco meses. Suas barriga já estava grande, e ela podia sentir o bebê se agitar lá dentro. “Malévola me disse que esse bebê é forte… Provavelmente me renderia dinheiro”, pensava Joanne. Assim que tinha posto os olhos na mulher, a Fada Negra tinha lhe proposto uma vida melhor; é claro, por um preço.
“O bebê, Joanne”, tinha lhe dito Malévola. “Se me entregar o bebê, você está garantida na vida”.
A prostituta também sabia a resposta para essa proposta, segundos depois de ter sido feita. “Eu nunca quis o bebê”, pensou ela, olhando para sua barriga. “Que Malévola a leve e a tome para si”.
Quando Malévola chegasse, Joanne diria para ela. Diria que o bebê estava entregue, diria que preferia subir na vida a ter que cuidar de uma criança. Entregaria sua filha Rowenna assim que ela nascesse.
***
—Sabe como é crescer sabendo que sua mãe te abandonou, literalmente? — Perguntou Cruella, os olhos saltando de raiva. A Madre tentava apaziguá-la, sem sucesso.
—Filha… Rowenna…
—NÃO ME CHAME DISSO, SUA…!
—Eu posso ter te abandonado. Sim, eu te abandonei. Mas, segundo a Lei das Fadas…
—É bom você pegar essas leis e enfiar todas elas no meio do seu…
—Rowenna, nunca é tarde para amar alguém. Nunca é tarde para… — A Madre Superiora sorriu, oferecendo um abraço para a filha.
Cruella estava estupefata com a ousadia daquela mulher. Depois de tudo, estava tentando suborná-la e oferecendo abraços, como se fosse um boa mãe ou algo do tipo. “Ridícula. Essa mulher é ridícula.”
—Por favor. Eu posso ter te abandonado, mas… Esse é meu último desejo antes da morte. Um abraço. Um abraço da filha de que eu me arrependo de ter abandonado.
Cruella esperou, quieta, que a Madre viesse abraçá-la. No fundo, bem lá no fundo, Cruella sempre havia esperado por aquele momento. O momento em que reencontraria sua mãe.
—Oh, filha… Eu me arrependo tanto… — Sussurrou a Madre, enquanto envolvia Cruella num abraço. “Eu não vou permitir essa palhaçada por tanto tempo”, disse Cruella para si mesma. “Vou conceder esse último desejo e pronto: depois eu a mato”.
—Eu me arrependo tanto de ter algum dia deixado que o sêmen de algum homem germinasse em mim e gerasse você… — Sussurrou a voz da Madre, o que arrepiou Cruella. Joanne foi rápida demais; sacou uma faca comum e espetou-a com força no pescoço de Cruella.
Dizem que os gritos de Cruella de Vil soaram por toda a cidade de Storybrooke. O sangue jorrava em abundância do pescoço da mulher, a faca transpassando-o.
—Sua… — Cruella morreu antes de poder dizer qualquer coisa. A Madre Superiora olhou para os lados, temerosa de que Malévola a surpreendesse.
A mulher que antes era a Fada Azul saiu correndo para a escuridão da floresta, seu âmago sofrendo um misto de medo e prazer. Pois ninguém poderia descobrir seus segredos. E ela faria de tudo para escondê-los.
***
—É sério mesmo? — Perguntou Belle. Estava sem fôlego depois de tudo o que Rumple havia contado para ela.
—Sim, é sério. É tão difícil acreditar que a Fada Azul não nasceu Fada? Ela era apenas uma prostituta mortal que vendeu a alma para Escuridão; e a filha também. Depois, quando a Escuridão começou a perder para a Luz, ela se escondeu e se fingiu de coitada; usou de todos os seus artifícios para se tornar uma Fada.
—Mas isso é impossível. Quero dizer… Como assim?
Rumple deu de ombros.
—É difícil de explicar. Dizem que ela usou alguns Tenebrae Mortis para ganhar asas; e usou toda a sua inteligência e astúcia para virar a Chefe das Fadas. — Belle estava realmente estupefata. Rumple achava graça daquilo. Tinha apenas contado o mais leve dos podres da Fada Azul, e já tinha quase provocado um ataque de susto na namorada.
Rumple também nunca imaginara aqueles podres da Fada Azul. Tudo o que sabia tinha sido contado pela própria Cruella, enquanto o Senhor das Trevas era controlado pelo poder da adaga, que estava em posse de Malévola. A De Vil alegava ter sido entregada às Trevas pela mãe; desde pequena tinha sido criada como um monstro. Quando era adolescente, Cruella dizia ter fugido, após ter roubado todo o estoque de pedrinhas negras, as Tenebrae. A mulher alegava ter utilizado-as para manter a juventude; e também para, vez ou outra, exercer o poder em algum lugar.
—Essas Tenebrae são realmente tão poderosas? — Perguntou Belle. Rumple grunhiu. Tinha prometido confiar na namorada e contar tudo para ela, mas era difícil. Haviam certas coisas que eram melhores escondidas do que reveladas.
—São. Foram criadas pela própria Escuridão para dar Poder e Magia aos seus asseclas. Atualmente, há poucas disponíveis. Dizem que têm o poder de fazer qualquer coisa, até mesmo de ultrapassar os limites das Leis da Magia.
Belle levantou as sobrancelhas.
—E qual é o preço de usá-las? — Rumple quase proferiu um “Essa é minha garota!” após aquela pergunta. Depois de tanto tempo com Rumplestilstskin, era de se imaginar que a garota soubesse que toda Magia tem um preço.
—Sua alma. Dizem que, se você usa uma Tenebrae, parte da sua alma se esvai. Se você usa duas, metade dela vai embora. Dizem que, quando você usa a sétima, não há mais alma em você. A partir daí, seu corpo será como uma árvore; vazio e sem vida. Quando a pessoa morre, ela se torna escrava da Escuridão. Seu espírito retorna, e para cada Tenebrae usada, são mil anos de servidão.
Um calafrio percorreu a espinha de Belle.
—Cruella é filha da Fada Azul, correto? Então ela existe faz mais de mil anos, certo? Quanto você acha que ela usou de Tenebrae?
—Ao certo? Ela deve ter usado pedras suficientes para ficar mais vários milênios presa às Trevas.
“Pois quando você se entrega à Escuridão, não é possível mais voltar.”
***
O altar estava completo.
Haviam velas dispostas em círculos; vários círculos, treze ao todo. Malévola tinha pegado a poeira que antes tinham sido corpos vivos; o pó que tinha sobrado da explosão no Granny’s. Todas aquelas pessoas, carbonizadas, estavam ali, distribuídas pelos círculos.
Malévola também tinha guardado o coração de metamorfo; o coração de Ruby, a menina-lobo de quem ela havia ordenado a morte há poucos dias, estava disposto na frente da placa de pedra, cheio de sangue seco, duro e frio.
“O coração de um metamorfo poderá ressuscitar o Escuro”, pensou Malévola, enquanto olhava o trabalho que havia feito. Velas, almas trituradas e queimadas, o coração de um metamorfo… Tudo o que ela tinha feito até o momento refletia naquele ritual; tudo, desde o momento que aceitara ser serva da Escuridão, tinha refletido naquele momento.
***
A Fada Azul estava satisfeita consigo mesma. Tinha matado Cruella; finalmente, podia ficar tranquila. Era solitário e assustador estar no meio de uma floresta; ainda que fosse dia, ainda que os raios de sol iluminassem as frestas mais escuras, aquele lugar dava arrepios em qualquer um.
Enquanto andava, ela percebia que nunca havia amado a filha. Nem um pouco. Tinha dado ela para as Trevas; e se esquecera da existência da mesma após alguns meses. Só havia realmente se lembrado dela quando Malévola chegou em Storybrooke, senão…
Sempre tinha sido esse o plano da Fada. Enganar Cruella com uma história de “arrependimento, busca pelo perdão, e suborno” para depois matá-la. “E deu certo, pelo visto”, pensou a Fada, sorrindo. Sua única preocupação agora era com Rumplestilstskin. Ele estivera perto demais de contar a verdade para todos. E Malévola, logicamente, que ameaçava afundar a cidade (e o mundo) numa Escuridão profunda e talvez irrevogável.
O barulho de passos quebrando madeira encheu o ar. A Madre sentiu um calafrio percorrer o corpo.
—Mãe… Que bom que você está aqui. — Disse uma voz. Joanne fechou os olhos, tentando acreditar que era apenas uma ilusão.
—Estou aqui, mamãe. Bem aqui. — Sussurrou Cruella, no ouvido de Joanne. A última coisa que a Fada Azul sentiu antes de morrer foi um vazio que corroeu todo o seu âmago.
Cruella olhou para a mãe, agora caída no chão. Tinha feito questão de matá-la da mesma maneira que a outra tinha tirado sua vida: com uma faca atravessando o pescoço. Observou o cadáver por um tempo, o sangue jorrando do pescoço lentamente.
“Vaca inútil.”, pensou Cruella. “Diz entender de magia, mas não percebeu que não é possível matar quem já está morto”. Cruella de Vil já havia morrido faz tempo; porém, por ter usado mais de duzentos Tenebrae, tinha sido condenada a passar a eternidade servindo a Escuridão. Não havia envelhecido desde então.
Fazia muito tempo que Cruella era um fantasma fingindo estar vivo.
Com um estalar de dedos, o menino de sobretudo preto apareceu na sua frente.
—Carregue esse cadáver. Rápido, logo o ritual irá começar. — Cruella queria parecer irritada, mas não estava. Fazia tanto tempo que sonhava com o momento que veria sua mãe morrer… “O mundo é injusto. Injusto e irônico.”, pensou ela. Se a Fada Azul pudesse saber que seu corpo seria usado para ressuscitar o Mal…
Oh, se ela soubesse…
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