Once Upon a December...
1 000 - Prólogo
Notas iniciais
Alemanha, 1917
Mesmo com a guerra, a pedido da mulher, aquela casa agora possuía um moderno rádio e, ao que parecia, aquele era o momento perfeito para uma boa sinfonia. A chuva caia pesadamente e os trovões retumbavam no céu enquanto a mulher respirava com dificuldade, tentando diminuir a dor que, contraditoriamente, apenas aumentava. Era impossível segurar ou interromper aquilo, mas em um desesperado ímpeto de acabar com a dor, a mulher fazia forças para empurrar de volta a cabeça que ansiava para nascer.
– Empurre, não segure! – Dizia uma segunda voz, gritando por cima do barulho da chuva, dos gritos desesperados da futura mãe e da sinfonia que tocava no volume máximo. – Estou aqui, não se preocupe.
A parteira tentava reconfortar a mulher com uma leve carícia em seu braço quando sentiu as unhas dela cravando-se em sua pele e se esforçou para não gritar. A mulher precisava que ela fosse forte pelas duas.
Exausta, a mãe não conseguia mais segurar a criança. A dor já era tão grande que deixava de ser sentida e, naturalmente, o bebê escorregou para a vida fora de sua progenitora. Enrolando-o em uma toalha, a parteira levou a criança até a mãe, que mal tinha forças para segurar o garotinho que acabara de nascer.
– Friedericht... – Ela balbuciou, antes de embalar o bebê no sono e adormecer com ele.
[...]
Polônia, 1934
As notícias sobre o Partido Nazista se espalhavam rapidamente pela Europa, e o medo começava a se instaurar em todo lugar. Uma guerra podia ser sentida por aqueles que era um pouco mais sensíveis e aquele era o momento em que todas as mães judias desejavam que seus filhos fossem abençoados pelo Senhor, para que nada de ruim acontecesse com eles. Talvez as preces fossem ouvidas e Hitler nunca chegaria a fazer mal a ninguém.
Era exatamente essa prece que uma mãe em especial fazia. Ela acreditava que seu Salvador pouparia sua criança que estava prestes a nascer de qualquer mal que pudesse vir a lhe acontecer. Deitada na cama, fazendo força para que o bebê tivesse a benção do Senhor, a mulher chorava, segurando com força um terço, rezando entre as lágrimas até a menininha nascer.
[...]
Alemanha, 1935
Com seus recém-completados 18 anos, o jovem ariano se divertia com seus amigos. Estavam em um bar, mesmo que não pudessem beber, podiam aproveitar da diversão gratuita e, talvez, se esquecer por alguns momentos sobre a grande crise que se alastrava cada vez mais pela Alemanha. Comiam e se permitiam beber uma garrafa de refrigerante enquanto riam animadamente, falando sobre as garotas que lá estavam.
Foi quando o homem entrou. Vestido com o uniforme militar e a inconfundível faixa vermelha com o símbolo daquilo que parecia ser a única esperança da nação.
– Olá, por favor, um minuto de sua atenção, senhores, senhoras? – Pedia o homem fardado, subindo em uma mesa. – Muito bem, obrigado por estarem aqui essa noite. Agradeço a cada bom alemão e alemã por estarem aqui. Nossa crise causa muito medo e é algo triste de se ver nessa grande nação. Mas vocês estão aqui. Estão dizendo não aos problemas e tentando fazer nossas vidas melhorarem.
O jovem sentado ao balcão com os amigos parecia interessado, e seus amigos também, o que aquele homem estava falando era, no mínimo inspirador.
– Aqui, vocês mostram que os alemães são um povo unido e que não está destinado a ficar atrás do resto da Europa. E é por isso que precisamos de pessoas como vocês. Alemães de verdade que estão dispostos a lutar por uma boa causa que irá fazer nosso amado país voltar a ter o reconhecimento e poder que merece. Juntem-se a nós nessa luta, nosso Führer precisa de homens e mulheres do povo, pessoas como vocês e eu que não querem viver uma vida miserável e não quer dar essa vida para nossos filhos e filhas. Juntem-se ao Partido e eu garanto que nada poderá nos impedir!
Descendo da mesa, o militar foi aplaudido pela maioria. A possibilidade de sair daquela crise que já durava anos era tentadora, e foi exatamente por isso que Friedericht se inscreveu no dia seguinte. Um rapaz ariano, forte e na flor da idade, pronto para servir seu país.
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