Notas iniciais
Gente, voltei e nem se passaram sete meses!! 8D *solta fogos de artifício* Estou me organizando melhor pra escrever, não vou abandonar vocês por muito tempo mais! Esse capítulo ficou bem reflexivo, mas é uma parte importante pra entender o que se passa com nossa heroína nessa batalha final. Boa leitura, pessoal! ♥ (agradecimento às duas pessoas que ajudaram a betar o cap: TheWickedSwan e Ursa =)

Emma fitou o corpo do homem estirado no chão. Sob a luz trêmula das chamas ao redor, a esparsa mancha de sangue mais parecia uma poça de piche, contaminando o solo árido. O líquido rubro escorreu até tocar-lhe a ponta da bota, percorrendo seu contorno lentamente até que seus dois pés estivessem envoltos, como se ela magicamente se erguesse sobre as águas de um mar escarlate.

A loira já havia tirado mais vidas do que podia contar nos dedos, mas matar nunca lhe fora agradável. Era apenas um desvio ocupacional necessário. Ainda mais daquela forma. Procurou pelo sentimento de desconforto que geralmente a acompanhava em suas execuções, mas desta vez não o encontrou. Ao invés disso viu o reflexo de seus olhos, que brilhavam como duas esmeraldas fluorescentes. E uma estranha sensação de ira, que vinha acompanhada de algo mais... E não era apenas a dor em suas costelas.

Desde que o espírito se manifestara em seu interior, o corpo de Emma sofrera algumas mudanças, comportamentais e fisiológicas. Mas a sensação naquele momento específico era algo diferente do que ela já havia sentido até então. Era como se todo aquele poder não fosse suficiente. Na verdade, parecia que poder algum seria capaz de saciar o buraco negro que crescia em seu peito. Não sentiu arrependimento, tão pouco pena do homem. Fitara-lhe os olhos e cravara a estaca em seu peito, sentindo até um pequeno lampejo de prazer.

Olhando para seu rosto, Emma perdia lentamente a conexão com seu verdadeiro eu, incapaz de diferenciar suas emoções genuínas das criadas pela força que dobrava suas vontades. Sentia uma influência pairar sobre ela, mais intensa do que antes. Uma energia diferente, que não parecia vir de dentro de si. Algo... Intenso. Sombrio. O soar das palmas interrompeu sua reflexão.

— Eu certamente não esperava presenciar isso. — as palavras de Hook misturaram-se aos seus aplausos, num tom de aprovação verdadeiro e perturbador — Acho que estamos cheios de surpresas essa noite.

Emma viu o homem se aproximar, saindo da passagem escura entre o banco e a prefeitura. A palavra "surpresa" realmente era uma boa definição para a cena seguinte. Com quase nenhum esforço, Hook puxou uma corda. Na outra extremidade, mancando de forma desajeitada sem sua bengala, Gold marchava de cabeça baixa, desprovido de qualquer sinal de protesto ou intenção de lutar. A energia, o olhar desafiador e orgulhoso que a Ranger conhecera em seu primeiro encontro com o famoso banqueiro de Storybooke, certamente haviam abandonado aquele homem.

Mas o mais inesperado ela encontrou alguns centímetros abaixo do semblante de Gold: envolta numa atadura claramente improvisada, o ponta de seu braço terminava em uma extremidade interrompida, onde deveria estar sua mão.

Emma ouviu alguns tiros distantes, lembrando-a de que apesar de sua recente vantagem com a explosão no Granny's, o combate ainda se desenrolava em outras partes da cidade. Fato que também a alertou da situação perigosa em que se encontrava. Seu olhar procurou a pistola, jogada há poucos metros.

— Eu não faria isso, se fosse você. — Hook também fitou a arma.

— Acho que foi o mesmo pensamento de seu "colega". — Emma desviou o olhar para o corpo sem vida do homem, sentindo a necessidade de provocar mesmo estando em clara desvantagem.

O pirata sorriu em retribuição ao desaforo da loira, o que seria de uma boa caçada sem provocações iniciais entre presa e predador.

— Só temos uma diferença primordial... — ele puxou a corda com mais força, fazendo o banqueiro cambalear até seu lado. Ergueu a pistola de cano longo e encostou-a na têmpora do homem — Um bom jogador sempre tem com o que barganhar.

A Ranger riu.

— E o que o faz pensar que o banqueiro é uma moeda de troca pra mim? Talvez ele até mereça seu destino.

Tentou convencer a si mesma de que a frase era um blefe estratégico, mas as palavras saíram com mais naturalidade do que esperava. Ela lutava internamente, de um lado sua moral infalível de Ranger, do outro, a sinceridade egoistamente humana que todos possuem, mas lutam para mascarar.

O mundo muitas vezes é naturalmente egoísta. Não na conotação narcisista da palavra, mas no sentido de apego excessivo a si mesmo em detrimento dos interesses alheios. O que na natureza faz bastante sentido em várias ocasiões. Apesar de frágeis e em fase de crescimento, os filhotes são os últimos a comer. Leão e leoas tem prioridade na hierarquia, pois deles depende a segurança e a manutenção do bando. Não é crueldade, é apenas a lei da sobrevivência.

Mas o que diferencia humanos dos demais seres irracionais é a capacidade de combater essas manifestações primitivas e fazer prevalecer o senso de justiça maior e a compaixão. Era sobre essa linha tênue que a Ranger travava sua disputa mental. Instinto selvagem versus razão emocional.

Em situações normais, a loira nunca seria alvo dessa indecisão. Emma havia nascido com uma habilidade nata de empatia, de sobrepor o bem comum em detrimento do pessoal e havia dedicado sua vida a defender os que de ajuda precisavam. Mas ela sinta-se qualquer coisa no momento, menos normal. Sua capacidade de julgamento estava nublada, seus pensamentos eram desviados para uma rota alternativa... Um caminho mais fácil e sedutoramente perigoso, onde sua raiva e impulsividade não precisavam ser controladas. Ah, pois ela tinha um lado sombrio. Todos têm.

Por um momento o devaneio da loira levou-a para várias milhas dali, em distância e tempo, quando ela era apenas uma garota inexperiente e dormia sob o céu estrelado do acampamento indígena...

***

— Existe uma antiga lenda Cherokee que meu pai me contou uma vez...- o ancião despertou a atenção dos jovens olhinhos inocentes que fitavam-no do outro lado da fogueira — Foi passada a ele por meu avô, e assim foi transmitida por várias gerações... E agora eu lhes conto, pois ela representa a base do ensinamento de nosso povo.

Emma encarava o índio, com admiração. Seu corpo já não era jovem e a aparência frágil mal parecia ser capaz de sustentar um olhar tão intenso e cheio de sabedoria. Ainda assim, ele era seu maior ídolo e a pessoa mais forte de espírito que conhecia. Todo órfão vez ou outra é refém do sentimento de abandono, mas a pequena Emma não poderia ter desejado uma família melhor para lhe acolher. Sentada de pernas cruzadas ao lado da prima e do pequeno guaxinim, ela ouvia com atenção os ensinamentos de seu pai adotivo.

— Existem dois lobos que habitam o coração dos homens. — ele gesticulou na direção das crianças, que instintivamente olharam para o próprio peito — Um deles representa o amor, a paz, a esperança, a verdade, a serenidade... O outro, é o ódio, o orgulho, a mentira, a impulsividade... Eles estão em vocês, em mim, e até nos homens brancos que desconhecem sua existência. Mas eles vivem numa luta constante e eterna... — ele fez uma pausa.

Emma apoiou o rosto nas mãos, vidrada na explicação do Grande Águia.

— E qual deles vence? — a indiazinha estava curiosa sobre o desenrolar da história.

— Aquele que você alimentar. — o velho índio respondeu Pocahontas, mas era Emma quem ele fitava diretamente nos olhos.

***

Salvar Gold ou obter a vantagem? Emma sabia que se colocasse a vida do homem de lado, com algum esforço, poderia inverter as posições ali. A questão que pairava era justamente essa. Uma parte de si queria deixar o homem à própria mercê, afinal, o banqueiro não era nenhum santo e o destino em que se encontrava havia sido consequência de suas ações no passado. Por outro lado, não era seu trabalho aplicar a justiça cega, sem tomar lados?

Nenhuma pessoa é blindada aos pecados do mundo, o que não justifica resolver as situações como um animal selvagem.

Por mais que sua razão lhe lembrasse desse último detalhe, os dedos da loira balançavam no ar, atraídos pela pistola tão perto de si.

Hook interpretou as intenções de Emma, divertindo-se com a situação. Nem mesmo a salvadora de Storybrooke parecia disposta a baixar as apostas para salvar o banqueiro. O que lhe agradou de certo modo, por pensar que seu maior inimigo possuía a capacidade de ser tão desprezível. Mas ele não pretendia perder a vantagem.

— Entendo que não queira arriscar sua posição nesse combate, afinal... — ele encarou a Ranger, com um sorriso nos lábios — Você é a peça de maior valor nesse tabuleiro de xadrez.

Emma fitou o homem de volta e foi tomada por uma sensação de profundo desconforto. O modo como ele sorria, a tranquilidade em sua voz... Hook vira o que ela fora capaz de fazer, mas não parecia nem um pouco preocupado. O que poderia ter dois significados, ou era completamente louco e confiante em suas próprias habilidades, o que Emma achava pouco provável pela forma estratégica como ele atuara até o momento; ou ainda tinha outra grande carta surpresa para jogar. Precisava se precaver; aquele calafrio em seu corpo queria lhe alertar de algo, e ela pretendia escutar.

Com o canto dos olhos, ela vislumbrou movimentação no telhado da prefeitura. Carter havia acabado de se colocar ali, provavelmente procurando uma melhor mira. Após a explosão no Granny's, alguns entulhos da parede lateral e uma árvore próxima aos trilhos bloqueavam parcialmente a visão para onde ela e o pirata se encontravam.

— Então... — Emma precisava parecer inabalada e ganhar algum tempo — Acho que não parece preocupado com a possibilidade de eu lhe colocar uma bala na cabeça. Você tem um refém para lidar, já eu...

Emma abriu um sorriso forçado, tentando jogar com o que tinha.

Não pareceu surtir efeito no homem, que sorriu ainda mais de volta. Dessa vez Emma viu algo além do divertimento maléfico de antes, uma maldade que parecia ter sido arquitetada minuciosamente para esse momento. Aquele era o semblante da vingança, ela o reconheceu porque há menos de dois minutos ele estava em seu rosto.

— Já você... — Hook deu um risinho. Ele gesticulou com o gancho de metal, em direção à ponte de madeira, ao final da linha de ferro.

A Ranger não pode evitar o magnetismo que atraiu sua atenção para aquela direção. Tampouco foi capaz de evitar a pontada que lhe tirou a respiração em seguida. Pouco a pouco, o contorno das figuras tornou-se visível à luz do fogo que queimava o velho Saloon. Regina, Henry, e Mary Margaret estavam amordaçados e caminhavam na direção deles sob a condução de três dos capangas de negro. Em seus olhares Emma viu as lágrimas do desespero e o medo, mas em Regina ela pensou ter visto algo mais... De qualquer forma, seus punhos se cerraram e ela soube que não tinha mais um segundo a desperdiçar ali.

— Acho que deve reconsiderar minha colocação. — Hook disse, satisfeito ao perceber que o efeito que ele esperava na Ranger havia sido alcançado — Coloque as mãos para cima e vamos conversar.

Antes de obedecer ao homem, Emma procurou por Carter disfarçadamente. Seus olhares se encontraram e ela percebeu que o Ranger estava pronto para atirar. Com um leve gesto negativo ela cancelou o ato e enquanto erguia as mãos acima da cabeça, sinalizou com os dedos o código combinado entre os dois anteriormente. Hook não era o único que tinha cartas na manga, ela só estava torcendo veemente para não ser obrigada a utiliza-las. Mas a situação atual exigia medidas drásticas, e agora sua esperança repousava sobre a pistola do homem que ela menos gostaria de depender: o pai de Henry.

Hook esbanjou um sorriso largo ao ver a salvadora em submissão. Ainda possuía muitos pontos fracos da loira para explorar e pretendia aproveita-los, mesmo que o alvo principal de sua ira não fosse ela.

Emma sentiu o sangue pulsar acelerado em suas veias, quando viu Carter sumir sorrateiramente nas sombras. Lutava para prosseguir com o plano bolado de improviso e não ceder às vontades brutais que assolavam seus pensamentos naquele exato momento. Mas ao final daquela noite, alguém alimentaria o lobo errado.

Notas finais
A parte da lenda Cherokee é real, adaptei ao contexto da fic, mas é uma história famosa desses índios, se procurarem no senhor Google vão encontrar depois =D Gosto bastante dela! Gente, preciso dividir uma coisa com vocês. Estou viciada num novo ship (talevz tenhamos fanfics num futuro), que é meu novo bebê ♥ Quem já viu Wynona Earp? Recomendo super, Wayhaught é vida!!Desdafio vocês a assistirem um vídeo das duas no youtube e não se apaixonar u_u E sabe o que é melhor ? (além das atrizes serem mega fofas com os fãs e o casal ser perfeitoo) - É CANON!! Segura essa, sapatão u_u haha Comentem comigo depois se conhecem, se gostaram ou se querem fic 8D Abraços!! E até o próximo cap desse velho oeste que ta pegando fogo!! - literalmente. rs
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.