Once Upon A Prophecy

11 Part II: The Priest and Storybrooke


Notas iniciais
ESTOU VIVA!

Allister abriu os olhos antes de o despertador tocar. O quarto estava escuro e a lua ainda iluminava o céu. Eram 4 horas da manhã, numa quarta-feira. O relógio deveria despertar dali a exatos 30 minutos, mas Allister não sentia vontade de voltar a dormir, então se levantou da cama, desarmou o velho relógio e espreguiçou.

As noites estavam virando um martírio, os sonhos o castigavam dia após dia. Ele nem sequer lembrava-se da última vez que tivera uma noite decente de sono. Tudo por causa dos sonhos, tudo por causa dos malditos sonhos que o atormentavam, tudo por que seu corpo traidor se recusava a seguir o caminho duramente traçado por ele.

Allister passou a mão pelos curtos fios de cabelo castanho que cresciam em seu coro cabeludo. Ele teria que cortá-los novamente e logo, a seita não aceitava sacerdotes com cabelo ou pelo em qualquer lugar do corpo. Mas, ele não estava muito preocupado, não no momento pelo menos, o sonho era mais importante, o sonho era uma afronta a sua religião, a sua vida.

O quarto em que morava era simples. Uma cama de solteiro, um armário velho, um altar e um banheiro. O sacerdote não precisava mais do que isso para viver confortavelmente bem. O mosteiro só serviria o café da manhã a partir das 5:00, então Allister ainda tinha tempo de sobra para as preces da manhã e para a sua punição. Seguiu para o modesto altar que fora construído bem debaixo da única janela do aposento. Uma pintura de uma espada envolvida em chamas era rodeada por duas estátuas, uma de pedra e uma de bronze. A de pedra retratava um homem grande, com ombros largos, músculos definidos, uma longa barba e seminu, sendo coberto apenas por uma túnica da cintura para baixo. A de bronze era de um homem mais novo, coberto por um capacete decorado com um par de asas de falcão, uma armadura com o desenho da espada em chamas marcado em seu peito, uma espada e um escudo. Eram as estátuas do sábio e do espadachim, ambos representavam a sabedoria e a força, as duas faces do grande Deus Prateado. Num degrau abaixo do desenho e das estátuas, estava uma caixa comprida e fechada em cima de um pano também estampado com espada em chamas.

Allister se ajoelhou perante o altar, disse suas preces, rogou perdão ao sábio e pediu para o guerreiro guiar seus braços na adoração que se seguiria. Levantou-se e retirou a túnica marrom que vestia. Dobrou-a e a depositou na cama. Respirou fundo e coberto somente com suas roupas debaixo, voltou a se ajoelhar perante o altar. A caixa era simples e de madeira, uma bem clara, quase branca. Abriu-a e de dentro retirou o objeto que purificaria seu corpo. O Azorrague era um pequeno chicote composto por um punho de madeira, onde Allister seguraria e oito pequenas cordas. Cada corda era enfeitada por pequenas pedrinhas pontiagudas.

Esticou o Azorrague, fez mais uma pequena oração, segurou o punho de madeira e com golpes precisos e rápidos, se auto flagelou por vários minutos. O ato demonstrava sua adoração pelo Deus Prateado, mostrava seu desespero em se manter sempre puro e principalmente, mostrava seu desejo de perdão. Seus pecados, os pecados cometidos naquele sonho, deviam ser punidos e Allister punia a si mesmo para o prazer de seu Deus.

Sentindo dor, Allister não pensava no sonho. Sentindo dor, aquele sonho era só isso: um sonho. Quando as cordas chocavam com sua carne e as pedrinhas abriam feridas, Allister deixou uma lágrima escorrer por seu rosto. Odiava aquele sonho, odiava sua carne fraca e odiava ainda mais seu coração pecaminoso.

O rapaz sonhava todas as noites com uma mulher, uma linda senhorita da cidade. Os dois estavam na praça central de Storybrooke, conversando debaixo das estrelas. A lua brilhava, grande e branca no céu. O Deus Prateado era a única testemunha de quando Allister declarara para aquele demônio de mulher e ela o beijara. Ele ainda podia sentir seus lábios suaves, o jeito que suas mãos delicadas o acariciavam, os olhos que pareciam brilhar e o modo como aquele gemidos saíram de seus lábios doces...

Começou a se golpear com mais força e rezava, implorava, para que o Deus tirasse aqueles pensamentos pecaminosos de sua mente. Ele rezava pela purificação e se para isso fosse necessário derramar mais de seu sangue. Deuses, ele o faria, ele o faria mil vezes.

Por fim, a dor foi muita e Allister soltou o Azorrague. Respirou pesadamente por muitos minutos enquanto suas costas latejavam. Ele podia sentir o sangue escorrendo e manchando o chão. Depois, olhando para a estatua de pedra do sábio, forçou-se a levantar e cambaleando, foi até o banheiro, onde ligou o chuveiro e sentou no chão. Ainda tentava se recuperar da dor. A água fria se chocando contra suas costas feridas não aliviava a culpa.

Por que ele? Por que, de todos, seria ele o tentado pelo Cruel?

Ouviu a porta abrir e fechar. Ouviu passos silenciosos pelo quarto andando de um lado para o outro. Cada Sacerdote, quando estava no Mosteiro, tinha a ajuda de um Aprendiz. Normalmente jovens de 12 anos ou mais novos, que faziam tarefas básicas, como estender a cama, limpar o Azorrague, limpar o chão e em tudo mais que o Sacerdote precisava. Tudo.

Allister se forçou a levantar. Desligou o chuveiro, se enrolou numa toalha e saiu do pequeno banheiro. Dimitri já estendera a cama, limpara o chão e no momento, limpava o Azorrague.

- Bom dia, Dimitri. – disse com a voz fraca e se arrastou para a cama.

O rapaz o olhou com surpresa, guardou o Azorrague dentro da caixa e se levantou rapidamente para ajudar a Allister. O jovem de 11 anos não falava, mas ouvia. O Primeiro Sacerdote achava que Dimitri fizera um voto de silêncio quando ainda mais novo. Ninguém sabia o porquê. O resto da rotina foi feito em silêncio. Allister não se sentia disposto a puxar conversa e pela primeira vez, sentiu-se grato por ser servido por um rapaz mudo.

Dimitri tomou-lhe a toalha e o secou. O aprendiz era alto para a idade, mas muito magro, tinha bagunçados cabelos negros (ainda não fizera os votos, portanto não tivera os cabelos raspados) e olhos também negros. Seu rosto era largo e seus lábios, finos. Di era bem desengonçado, mas Allister não duvidava que quando crescesse, o jovem aprendiz arrancaria suspiros das fieis.

Depois de seco, o aprendiz limpara os ferimentos e por fim, Allister, novamente em sua túnica marrom, descia as escadas dos quartos e se dirigia para a cozinha. Dimitri o seguia, como sempre, em silêncio. O rapaz o olhava com preocupação, mas o sacerdote preferia ignorar. Ninguém tinha que saber o que se passava em seu coração, já bastava a vergonha em ter que encarar seu Deus com tanto pecado florescendo em sua mente.

- Irei para o primeiro culto hoje, Dimitri. – informou ao aprendiz. – Não tomarei o desjejum com vocês. Um café é só o que preciso pela manhã. Pretendo entrar logo em jejum. O Festival da Luz será em poucos dias e desejo passar o dia do nascimento do nosso Deus com o espírito puro.

O rapaz assentiu furiosamente. Parecia feliz.

O mosteiro era sempre silencioso. A maioria dos sacerdotes ainda meditava e a maioria dos aprendizes ainda dormia. A cozinha também estava vazia. Dimitri se sentou numa das grandes mesas e um empregado foi servi-lo. Allister foi direto para a cozinheira e pediu por um café negro, forte e amargo.

- Só isso, vossa santidade? – indagou a velha mulher lhe estendendo a xícara velha com o liquido negro e quente.

- Sim, obrigado. – tomou um pequeno gole e sentiu o liquido queimar sua língua e descer pela garganta.

Olhou ao redor. O refeitório era imenso com várias mesas compridas estendidas horizontalmente. Um sacerdote tomava o desjejum no fundo da sala, cinco aprendizes se espalhavam pelo salão, cada um com um copo de café e um prato com uma coisa branca, que Allister se lembra de comer durante sua aprendizagem. Quando era muito cedo, os empregados tinha a tarefa de servir cada um separadamente, mas durante o horário de pico, cinco cozinheiros enviariam cinco enormes caldeirões cheios daquela comida branca e gosmenta e os aprendizes fariam fila para o desjejum. O cozinheiro despejaria a comida num prato e um ajudante entregaria um copo de café. Aos sacerdotes que não possuíam um culto se sentavam e eram servidos individualmente com café, ovos e bacon. Já, os sacerdotes que possuíam um culto comiam em alguma lanchonete ou o desjejum levado por algum fiel.

Allister comia normalmente na Granny’s, exceto naquele dia. Ele só queria café. Deixou a xícara com a velha mulher, se despediu de Dimitri que lutava para comer a gosma branca e rapidamente saiu do Mosteiro. Estava cansado, mas tinha um culto para ministrar.

Storybrooke era uma cidade tranquila e com leis rigorosas. O primeiro culto do dia era obrigatório para todos e o não comparecimento por razões, que não de saúde, era punido com chibatadas na praça pública. Cinco da primeira vez, dez da segunda, quinze da terceira e assim por diante. Felizmente, ninguém passou da segunda vez.

Chegou à igreja ainda cedo. Eram 6:00 e o culto só começava às 8:00. Abriu a igreja, acendeu incensos, se ajoelhou no altar e orou. Orou por muito tempo. Ouviu mais pessoas chegando a igreja, ouviu o grupo de música se preparar, ouviu os fieis mais fervorosos chegarem. Por fim, se levantou e esperou.

Quando eram 8:00 horas da manhã em ponto, todo barulho cessou. Allister só observou. Ele conhecia cada rosto daquela parte de Storybrooke, conhecia os poucos fieis e conhecia os fervorosamente fieis. Ele conhecia histórias do passado, vida amorosa, vida profissional e provavelmente até os pratos que cada um consumia pela manhã na Granny’s. Por exemplo, o Mr.Gold no fundo na igreja vestido num terno negro não sorria aquela manhã, o homem desprezava aquele lugar e provavelmente, Allister sabia, que Gold tinha brigado com o filho pouco antes do horário matinal da celebração. A prova era o rapazinho sentado ao lado de Lacey com os olhos tristes. A própria bibliotecária estava irritada, o que era raro na sempre doce Senhorita Lacey. Gold era um dos homens mais ricos da cidade, a Igreja Prateada ainda controlava mais do que ele, entretanto Gold era muito influente. A pequena família tomava o desjejum todos os dias de manhã na Grannys: Panquecas para o jovem Abel, bolo e chá para Lacey e um café forte para Gold.

No banco a frente de Gold, estava a juíza da Cidade, Regina Mills. A autoridade jurídica de Storybrooke era perigosa e Allister tentava ignorar o olhar de desdém e deboche durante a celebração. A juíza usava um terno feminino negro, uma blusa social branca e um colete de Oxford também negro. Os curtos cabelos negros balançaram quando olhara para o lado e respondera alguma pergunta de Pam. Ah, a maior delinquente da cidade, Pam ou como o Primeiro Sacerdote Magon a chamava: Maleficent. O apelido pegara e todos a chamavam de Mal. A mulher tinha longos cabelos loiros com mechas negras, um sorriso malicioso e olhos claros. Pam era dona da boate no limiar da cidade. Allister e outros sacerdotes já tentaram entrar na justiça várias vezes para fechar a boate, mas Regina nunca deferia o processo a favor deles. Os fieis mais fervorosos faziam passeatas em frente a boate e distribuíam panfletos. Pam ria deles diariamente. Regina os ignorava. Certa vez, perguntaram para o grande Primeiro Sacerdote Magnus o porquê ele não decretava com a voz da Igreja sobre os perigos da boate de Pam e usava do castigo físico para punir os impuros frequentadores da boate. A resposta fora simples: “Ainda não é hora. Se os espremermos demais, eles sairão por entre nossos dedos e os perderemos para sempre.” Ambas tomavam o desjejum juntas. Regina se servia de panqueca de maçã e café, enquanto Pam ficava com brownies e chá.

Ao lado de Pam, estava Viviane. Essa era a mais perigosa de todas. Viviane ia a todas as celebrações, mas havia boatos, que Allister acreditava absolutamente, sobre a verdadeira fé da mulher. Ela era pagã. Acreditava numa deusa e não no Deus Prateado, mas Magnus era bondoso e fazia vista grossa contra tamanha ofensa. Ela vestia um longo vestido azul claro. Os cabelos estavam presos numa grande trança e ela sorria de algo que Pam falava. Viviane não aparecia muito na Granny’s, mas quando, por insistência de Pam, ela aparecia, sempre trazia alguma fruta e pedia por chá.

Mais a frente, na terceira fileira, estava Mary Margareth e seu marido, David. Os dois estavam sérios, sem conversar ou rir. Ambos olhavam miseravelmente para o altar. Allister soube que eles perderam um bebê há pouco tempo e que o Deus Prateado os abençoasse futuramente para terem uma criança forte e saudável.

Pediu por atenção e iniciou a celebração.

Notas finais
Não me odeiem?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.