On the clock
1 Forever is a long time
Notas iniciais
Adam Parrish nunca teve tempo para relacionamentos.
Ele tem bastante certeza de que seus colegas do ensino médio o descreveriam mais como reservado do que amigável. Cordial, se quisessem ser gentis. Ele nunca foi próximo de ninguém nos empregos que teve, e Adam já teve muitos empregos.
Quando Adam entrou na faculdade e pôde enfim abandonar Henrietta, ele estava satisfeito com a ideia de nunca mais ver nenhuma daquelas pessoas na vida. Não que Adam odiasse toda a população da cidade; ele só não se sentia ligado a elas. De fato, dois anos depois da mudança, Adam não acha que nenhuma daquelas pessoas o reconheceria.
Isto é, até ele ouvir alguém chamando-o e dar de cara com Richard Campbell Gansey III, parado a menos de três metros dele.
Por um instante, Adam não sabe como reagir. Gansey, como todos o chamavam na escola, parece exatamente o mesmo, com aquele sorriso inabalável e a postura confiante de quem sabe exatamente o que estava fazendo. Adam consegue visualizá-lo com o suéter da Aglionby, parado ao lado de seu Camaro laranja berrante incrivelmente não prático e pedindo ajuda para consertar o motor pela milionésima vez.
— Parrish – repete Gansey, e é só então que Adam nota que ele estendeu a mão. Ele aceita o cumprimento apressadamente. – Quanto tempo. Você parece ótimo.
Adam murmura um “você também”, porque é verdade, embora isso não facilite as coisas. Ao invés do uniforme da escola particular para garotos, Gansey está usando uma camisa polo ofensivamente verde-limão, o que parece combinar com ele, de certa forma. Alguém que dirige aquele Camaro – isto é, supondo que o Camaro continue vivo – não pode ter bom gosto em relação a cores.
— Você também veio procurar o professor Malory? – continua Gansey.
Porque, é claro, eles não estão parados ao lado do Camaro em uma ruazinha empoeirada de Henrietta. Os dois estão de pé no escritório do professor responsável pelo departamento de história da universidade, que não está presente no momento.
— Me disseram que ele deve chegar logo – responde Adam, finalmente se recuperando do choque de reencontrar o... amigo? Apesar do que aconteceu na formatura, ele acha que eles mal chegam a conhecidos. – Você também estuda aqui?
— Aqui? Ah, não. O professor é um velho amigo – Gansey dá de ombros. – Eu só queria uma opinião.
Um silêncio desconfortável recai sobre o recinto, até Gansey quebrá-lo:
— Então, hm, como estão as coisas? Você ainda está com a...como era o nome dela?
— Blue – Contra a própria vontade, Adam nota a aspereza na própria voz. – Não. Ela terminou comigo antes da formatura. Como você deve se lembrar.
A declaração paira pesada entre eles como uma nuvem de chuva.
O fato é que houve mesmo uma garota chamada Blue, e ela definitivamente terminou com Adam antes da formatura, porque, caso contrário, Adam e Gansey nunca teriam terminado aos beijos em uma sala de aula vazia. Eles nunca falaram sobre o assunto, mas está implícito em todas as interações que tiveram desde então.
Sem pensar no assunto, Adam diz:
— E o que aconteceu com o Lynch? Vocês ainda... – Ele não sabe como terminar a frase. A relação entre Ronan Lynch e Richard Gansey sempre foi um mistério para ele.
Gansey limpa a garganta, parecendo desconfortável.
— Ele, quer dizer, nós... Não era assim.
Adam ergue as sobrancelhas.
— Não? Ele pareceu bastante chateado naquele dia.
Ronan Lynch foi o pobre coitado designado pelo universo para interromper o momento íntimo entre Adam e Gansey. Adam realmente achou que fosse levar um soco.
— Ronan é meu melhor amigo – diz Gansey, em voz baixa. – Isso é tudo.
Adam apenas assente, e sufoca a faísca imediata de esperança que surge em seu peito. Ele esperara superar esse sentimento com o tempo, mas Gansey continua tão estranhamente familiar, cordial de uma forma tão completamente diferente de Adam que ele não consegue evitar sentir certa fascinação.
Adam ainda não encontrou uma resposta quando o professor Malory irrompe na sala, parecendo furioso. A cólera dele parece se atenuar ao ver Gansey, e Adam rapidamente sai do escritório para dar-lhes privacidade.
Quase uma hora depois, quando Adam termina de falar com Malory e deixa o escritório, Gansey ainda está parado à porta, parecendo inseguro de um jeito que Adam nunca viu e que não combina com ele.
— Algum problema? – pergunta Adam, porque não consegue se conter.
— Não. Eu só estava pensando se você queria, sei lá – O olhar de Gansey vai do chão para os olhos de Adam e então para os lábios deste. – Ir comer alguma coisa? Você sabe, pôr o papo em dia.
Adam arqueia uma sobrancelha.
— Pôr o papo em dia.
— Vamos lá, Parrish, um cara pode ser antiquado se ele quiser – Gansey parece recuperar um pouco da confiança habitual. O sorriso dele é brilhante o suficiente para dissipar a nuvem pesada entre os dois. – Jantar por minha conta. O que me diz?
Adam faz os cálculos. Ele acha que pode dispensar algum tempo para esse relacionamento em particular.
Nas semanas seguintes, Gansey passa a procurar a “opinião” do antigo professor com cada vez mais frequência. Coincidentemente, ele sempre aparece no escritório nos horários em que Adam está presente. Coincidentemente, eles sempre acabam saindo para comer alguma coisa juntos. Se torna uma rotina que Adam nunca achou que fosse bater com sua rotina habitual, mas, de certa forma, funciona.
Um dia, quando os dois estão esperando o sempre atrasado Malory, Adam finalmente toma coragem para trazer o acontecimento da formatura à tona. Gansey ri, e diz:
— Meu Deus. Nós éramos tão jovens.
Adam sente o estômago afundar. Ele se xinga mentalmente.
— É. Adolescentes, certo?
Gansey olha para ele com o canto do olho.
— Não que sejamos muito velhos agora.
Adam sorri. Esse escritório empoeirado e antiquado provavelmente não é o lugar mais adequado, mas ele se inclina e beija Gansey mesmo assim. Nesse momento, Adam Parrish acha que tem todo o tempo do mundo.
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