On a Highway To Hell

2 Capítulo 2 - House of Night


E nesse caderno temos nosso dossiê... desculpe, não, não sou Pedro, nós cinco iremos escrever nesse caderno, é o nosso relato e, apesar de não admitirmos, nosso desabafo. Sou Carlos e sinceramente não penso ser um prazer, pois nós tememos que isso sirva aos próximos combatentes, caso nós venhamos a não continuar nessa lu.. quer saber? Que o eufemismo se ferre, caso nós não sobrevivamos. Caso não sejamos capazes de vencê-los, ao menos deixaremos isso para que alguém seja capaz do que não fomos. Mas me recuso a escrever como se já estivesse morto, isso aqui não é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Eu estou vivo. Apesar de não ver muitas chances, a não ser que acabemos com isso logo. E pensar que entramos nessa por causa de uma chuva, por causa de uma chuva descobrimos a verdade. E não, não fomos valentes, não importa o que os outros digam, nós saímos de lá apavorados e se não houvesse a chance deles nos ouvirem, teríamos berrado por nossas mães como um bando de garotinhas. E uns de nós tem vocação para isso. Não, isso foi brincadeira. Eu acho... ao menos espero... acho que contariam, mas, hei, vampiros são reais, eles estão dominando a Terra. Já não sei mais nada... mas divagações a parte, melhor contar o que houve.

A chuva caía em uma quantidade absurda e, para nossa infelicidade, havia também raios. Corremos para o casarão onde os vampiros ficavam, mesmo sabendo que não era permitido. Um novo vampiro chegara. Ouvimos toda a explicação e vimos sua prova, como deveriam fazer para mostrar que era um vampiro.

E vimos então a morte.

Era uma garota jovem, da nossa idade, vimos sua expressão de terror, ouvimos seus berros, ouvimos seus pedidos de socorro. Ouvimos as risadas maquiavélicas dos seres da escuridão, vimos a satisfação deles a cada lágrima da menina. E, sobreposto a tudo, ouvíamos nossos corações acelerados e nossos cérebros berrando que aquilo não podia ser verdade. Seres nascidos das trevas. Amaldiçoados. Seres que já nasceram destinados ao mal e escolheram não lutar contra isso. Seres que decidiram não revogar o mal já trazido do ventre e se tornaram assassinos. Seres que não só nos deixaram aterrorizados como enojados. Seres que agora teríamos que enfrentar. Verdades que não poderíamos mais negar e medos que teríamos de encarar. Num dia só nossa vida virou de ponta cabeça.

Então quando saímos do estágio de achar que estávamos doidos, de achar melhor ir tratar a cabeça, decidimos que não íamos deixar isso continuar... bom na verdade isso foi depois do Pedro brigar com a gente e dizer que fugir não adiantaria em nada. Eu já estava com as malas prontas, mas quando ele tem razão, tem razão. C'est la vie. Não adiantaria reclamar mesmo, aquela voz irritante dentro das nossas cabeças já estava dizendo "você devia se envergonhar, deixando pessoas boas morrerem pra salvar esse seu traseiro egoísta.” Na verdade essa é a versão censurada... A minha vozinha não é lá muito educada. Mas está sempre certa. E isso chega a ser irritante.

Agora estamos aqui, vivendo debaixo de uns escombros enquanto esperamos nossa próxima identidade para podermos comprar comida e todo o necessário. Empregos temporários, tudo para nos manter. Pior para o Pedro, que nem pode aparecer mais durante o dia, pelo risco de um dos nossos antigos colegas o vejam. Nós estamos sempre diferentes, mas ele, o papel dele nesse plano, ele não pode mudar. Ele é um vampiro, eles estão lá sempre iguais. E nisso ele finge não sentir saudade de ser ele mesmo. De correr lá fora. Ele sempre esteve tão apavorado quanto nós, mas também sempre esteve com a gente, mantendo todos nós juntos e mediando a situação.

Eu nunca achei que a minha vida poderia mudar num dia, nunca acreditei que um acontecimento inesperado poderia revirar a minha vida. Sempre achei que isso era impossível, que todas as minhas decisões juntas formariam não só o que eu sou como a minha vida, não achei que apenas uma escolha, mais especificamente a de entrar naquela casa, pudesse me levar a algo tão longe do que minha vida era antes disso. Mas aqui estou. Filosofia um pouco mudada, mas de pé.

E no final das contas acho que é isso que vale. Nós estamos bem e fortes. Unidos. Cada qual a sua característica. Pedro, nosso encorajador que nos mantem unidos; eu, que tenho que baixar a bola desse pessoal de vez em quando, o realista; Márcio, nosso brincalhão até mesmo fora de hora; Pablo, nosso nerd introvertido, que nos arranja tudo e faz com que nossos planos deem certo e Victor, nosso pessimista que apesar de tudo está ao nosso lado.

Todos nós éramos órfãos e nos mantínhamos juntos para afastar a solidão, pouco a pouco nos tornamos muito mais. Agora não vejo somente amigos quando olho pra esses caras, vejo a minha família, o que me faz pensar que vamos conseguir porque estamos juntos, e que com certeza eu vou chutar a bunda de uns vampiros miseráveis no fim disso tudo.

Se preparem monstros, aqui vão os heróis! E sem cueca por cima das calças. Mas voltando ao meu serviço, voltando a realidade, isso realmente será difícil e até mesmo doloroso. O que não significa que vamos perder, só que vamos penar um pouco. Mas se for pra continuarmos juntos... isso vai valer a pena.

E cortando todo o nosso ar tranquilo chega correndo nosso brincalhão numero um. Advinha quem quer escrever agora. Está pulando em mim e me atazanando para pegar logo o caderno, o que é no mínimo doloroso porque ele é maior que eu. Bom, vou passando pra esse pirado o caderno e torcendo para que isso acabe bem. E se possível, logo. Espero que quando volte a escrever nessas páginas tenha boas notícias e maiores esperanças. Enquanto isso, que apenas ria e implique com o Márcio , enquanto sorrio feliz olhando para os meu colegas. Afinal, apesar de tudo, eu estou aqui, com a minha família, por pior que seja eu não estou sozinho, e agora que olho para esses caras, vejo que nunca mais estarei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.