Omnia's

1 Conto Um - Durante a noite


A escuridão o cerca, puxando seu corpo para dentro de si. Ele tenta lutar contra ela, berrando, tentando se libertar. A atração aumenta, o vencendo aos poucos. Ele não vê mais nada, nada mais existe. Ao seu redor, apenas escuridão. Seus braços, suas pernas… Seu corpo inteiro já não existe mais. Sua consciência parece ser a única que permanece intacta.

— O que faz parte de mim, faz de você também, criança. Deixe-me entrar. — De dentro das trevas a voz saiu, perfurando seus ouvidos.

Aiden acordou assustado, olhando à sua volta. “Ah, era só um maldito pesadelo afinal.” Estava escuro, mas não tanto quanto no sonho ruim. A luz da lua, que atravessava o vidro da janela do pequeno cômodo com intensidade, era capaz de iluminar bem seu quarto. Com as mãos, ele procurou sua bombinha de asma. “Onde a coloquei? Justamente agora ela some?” Sua respiração estava ruim, falhando. O ar entrava com dificuldade, e saía de forma ainda pior. Depois de torturantes minutos com a maldita falta de ar, ele a encontrou. Estava perdida embaixo de seu travesseiro. “Finalmente…” Aliviado, levou-a até sua boca, pressionado a parte superior dela, fazendo com que o remédio saísse diretamente para sua via respiratória.

Ele repetiu o processo mais duas vezes, até que voltou a respirar normalmente. Sua irmã, que dormia na cama ao lado da sua, nem sequer se moveu durante seu ataque. Continuava dormindo como uma pedra, tranquila, em seu mundo de sonhos infantis. “O mundo pode acabar, mas essa menina não levanta de jeito algum. Como consegue?”

Eram 3h00 e ele estava sem sono. O pesadelo, unido à sua asma, estragou sua noite. Quando for 7h00 ele terá de ir à escola. Felizmente, já decidiu que matará aula. Era sexta-feira e o garoto não queria estudar. Desde a segunda-feira que ele planejava sumir no final de semana. Ken sabia de tudo. Ele estava arrumando as coisas para ambos partirem em direção à sua casa nas montanhas, ao sul da cidade. Lá, ele poderia dormir tarde, comer o que quisesse, mesmo que fossem doces e outras besteiras. Até poderia ficar sem tomar banho. Um paraíso para moleques preguiçosos. Aiden levantou da cama, abriu a porta com o máximo de cuidado possível, e caminhou pelos corredores, indo em direção às escadas. Nas paredes, quadros de seus antepassados estavam pendurados por todo canto. “Fotos de velhos penduradas por mais velhos. Que legal.”

Na beirada das escadas, carpetes brancos para limpar os pés antes de qualquer um entrar nos quartos. É como chamar todos ali de porcos de uma forma sutil. Aiden, por isso, adorava sujar de propósito o chão sempre que chegava do colégio, depois de mais uma aula cansativa e inútil de esportes. Aquela aula só servia para fazê-lo suar como um camelo no deserto. Mas também era útil para irritar seus avós. Deitar na cama, todo imundo e suado, deixava os velhos loucos. Quando tentavam pegá-lo, ele fugia pela janela, ficando escondido por algumas horas na casa de Ken, seu amigo de infância. Na casa do amigo, ele jantava, jogava vídeo game, se divertia falando mal dos outros, essas coisas idiotas de meninos. Era como a casa da montanha, só que menos divertida e com regras a seguir. Os pais de Ken estavam lá, então os garotos tinham de respeitar todas as regras que eles davam. Mesmo assim, ele conseguia fugir um pouco da vida chata que tinha com seus avós e sua irmã. Então, quando já era tarde demais para levar broncas, ele voltava. Preocupados, seus avós acabavam esquecendo de tudo e o mandavam subir. Inocentes demais. Se soubessem que o moleque sempre ficava na cada de Ken nesses seus sumiços... Manipulação básica, simples e eficaz. Mema ria da situação, dizendo que seu irmão ainda iria se ferrar por ficar aprontando tanto. Ele acreditava não aprontar tanto assim. Para ele, o pessoal que ficava demais no seu pé, não o deixando viver do jeito que queria. É muito melhor o deixar livre e solto do que tentar controlá-lo. Quando isso acontecia, ele dava um jeito de se livrar. Aiden desceu as escadas, degrau por degrau, no mais puro silêncio. Se não fizesse ruído algum, poderia encher o prato e subir antes de irem ver. Queijo, leite e pão. Tudo o que seus avós não queriam que ele comesse antes do café da manhã. “Comer de madrugada estraga seu apetite e o faz passar mal,” diziam. Bem, ele não estava nem aí para isso. Se estivesse com fome, ele comeria. Ele estava sem sono, e aquele maldito pesadelo o deixou nervoso a ponto de fazê-lo acordar sem ar, então precisava comer para ver se retomava a vontade de dormir. Antigamente funcionava. Acordava assustado no meio da noite e seus pais lhe davam leite com bolachas, acalmando-o. “Vamos ver se agora o mesmo acontece.” A sala estava em total escuridão. Tomando cuidado para não tropeçar e arrebentar seus dedos dos pés nos móveis, ele andou lentamente entre eles. Se chutasse a mesa ou o sofá, gritaria de dor. E, se gritasse, acordaria a casa toda. “Por favor, não encontre os móveis da pior maneira. Caminhe com cuidado, idiota!” Sussurrou para si mesmo.

Aiden desejou ser uma coruja naquele momento, ou qualquer coisa que visse no escuro. Com as pontas dos dedos de ambas as mãos, Aiden se apoiava nas partes mais altas dos móveis, evitando acertá-los com os pés. “Ótimo, metade da sala já passou, falta apenas a outra metade. Até que funcionou bem andar assim.” Quase ao final do cômodo, ele já podia ver o vão que separava a sala da cozinha. Ao lado, estava o interruptor. Ao terminar sua aventura no meio do escuro, a sala finalmente havia ficado para trás e o interruptor estava logo à sua frente. Estendendo a mão sobre ele, Aiden pressionou o botão na parede, e a luz acendeu. Por um tempo, seus olhos doeram, fazendo-o perder a noção do espaço. Ele tampou os dois com as mãos, protegendo-os e esperando que se adaptassem àquela luz. Ao se acostumar à escuridão da sala enquanto tentava atravessá-la, era óbvio que a luz da cozinha quase o cegaria quando fosse acesa. “Burro, deveria ter pensado nisso antes.” Pensou irritado. Sem contar a meia escuridão do seu quarto, dos corredores e das escadas. Maldita lâmpada potente. Ideia de seus avós, claro. Não enxergavam muito bem e, por isso, achavam que ninguém enxergava também. De setenta anos para quatorze a diferença era grande, alguém precisava avisá-los disso.

A cozinha era grande. Tinha duas geladeiras, um freezer importado gigante e um fogão de dez bocas. Os armários eram extensos e espaçosos, escondiam as paredes de uma ponta à outra. A mesa não era tão grande, mas podiam se sentar até oito pessoas com folga. Os velhos acreditavam que o segredo de uma casa feliz era uma cozinha bem cuidada e muita comida nas dispensas. Sei lá se isso era verdade, mas Aiden concordava com tudo. Quanto mais comida, melhor. O garoto abriu os armários, pegando um prato de porcelana e um copo de vidro lá de dentro, e os colocou sobre a mesa enquanto puxava uma das cadeiras para trás. Ele foi até uma das geladeiras, a que o queijo e os leites eram mantidos, e os pegou. Primeiro, o queijo caseiro feito por sua vó. Não havia nada igual quando se falava sobre o sabor daquilo. Aiden colocou o queijo ao lado do prato e foi buscar a caixa de leite em seguida. Voltou até a mesa, pegou o leite e encheu o copo até a boca. Um copo grande, bem exagerado como sempre. Ele não tomava leite puro, odiava o gosto de nata que ele tinha, então ficou na dúvida entre café e achocolatado. Depois de alguns minutos pensando, decidiu ficar com o café. Mais rápido e menos trabalhoso na hora de misturá-lo ao leite. “Foi a melhor escolha.”

Agora que o leite já estava pronto, ele pegou uma faca pequena e cortou o queijo em algumas fatias grossas. Sua avó cortava tudo em pequenas e finas fatias quando servia o café da manhã para eles. O pão, o queijo, o presunto, a mortadela, tudo! Com ele não tinha essa. Não gostava que ficassem regulando nada, principalmente comida. “Ou vai ou racha.” Se é para comer, que seja direito. Pois bem, com o prato cheio de queijo e o copo, de leite, faltava apenas o pão. Era o mais fácil, pois ficava em cima da mesa, coberto por um tecido fino, que o protegia das moscas noturnas. Enfim tudo estava pronto, e ele só tinha de voltar para o quarto com aquilo tudo nas mãos. Ao olhar novamente para a mesa, ele notou a cadeira fora do lugar, lembrando que a havia puxado com a intenção de se sentar e comer ali mesmo. Mas, se comesse ali, alguém poderia descer e o pegar. Ele ficaria de castigo por semanas sem comer nada agradável. Tomar sopa todos os dias seria um inferno. Porém, se comesse em seu quarto, poderia esconder o prato e o copo até que seus avós não estivessem mais em casa. Aí, era só descer, lavar e guardar. Claro que eles notariam a falta de alguns pedaços grandes de queijo e do pão. O leite nem tanto. Mas era só culpar a Mema ou ficar calado. Sem provas, sem criminosos, certo? Ele era um gênio! Ou pensava ser um. Pois bem, para voltar em segurança até seu quarto, tinha que pensar em uma forma de fazê-lo. Já que era assim, mãos à obra. Aiden foi até o armário e pegou uma bandeja grande de plástico. Ela era feita justamente para carregar muitos itens juntos. Pratos, copos e pães, por exemplo. Bem o que ele precisava naquele momento. Depois de preparar tudo, andou até a borda da cozinha e olhou bem para a sala. A luz, que saía da cozinha, era capaz de iluminar boa parte do cômodo, facilitando sua memorização. A luz forte servia para alguma coisa além de cegá-lo, afinal. Se ele soubesse onde estava cada móvel, poderia evitá-los sem correr o risco de tropeçar em algum deles. Por dez minutos, analisou cada centímetro daquele lugar. Prestando muita atenção, observou a mesa de vidro ao centro, cercada pelos sofás e a mesinha que apoiava o telefone e o abajur. Praticamente sem piscar, encarou os móveis atenciosamente. Certo, agora que estava tudo em sua cabeça, só restava seguir em frente. Voltou até a mesa e pegou a bandeja com o prato, o pão e o copo com leite. Em seguida, foi até o interruptor e o desligou. A luz se foi e a escuridão tomou o lugar novamente. No entanto, mesmo sem conseguir ver nem um único mosquito à sua frente, agora ele era capaz de lembrar onde estavam todos os móveis. Um a um, foi desviando deles enquanto seguia até as escadas. Em segundos, já estava em frente ao começo delas, deixando os móveis para trás no escuro. Subiu com calma os degraus. Além de não fazer barulho algum, não queria que caísse tudo no chão. Conquistar aquilo foi difícil e arriscado, perder seria desastroso. Fora de cogitação. “Ande devagar, otário. Cuidado com isso, muito cuidado.” Sussurrou. As escadas terminaram, levando-o de volta ao corredor que levava aos quartos. O mais difícil tinha acabado. Tudo o que precisava fazer agora era ir até seu quarto e aproveitar aquele banquete da madrugada. Nas pontas dos pés, seguiu pelo corredor, chegando cada vez mais próximo da porta. Tocou a maçaneta, girando-a delicadamente. O som de destrave ecoou pela casa inteira. Ele nunca viu uma maldita maçaneta fazer tanto barulho. Assustado, o garoto olhou para o quarto dos seus avós, já esperando algum deles saindo dali e o levando pela orelha até a sala. Lá, sermões e mais sermões viriam, destruindo o que restava de sua noite, e acabando com seu lanche noturno. Porém, nada aconteceu. Nem um nem outro saiu. A casa permaneceu como antes, em absoluto silêncio. Aiden abriu a porta e rapidamente foi até a cama, deixando a bandeja em cima dela. Voltou até a porta e a fechou. Claro que não antes de dar mais uma última olhada no corredor e no quarto dos velhos. Mais uma vez, nada. Tranquilo, voltou até a cama, sentando-se na beirada dela. Ele já se preparava para apreciar seu lanche quando percebeu que Mema estava acordada, o encarando de forma estranha. Os olhos dela pareciam brilhar. “Deve ser a luz da lua.” Pensou.

— Vim buscar o que é meu. — Disse Mema.

— Como assim buscar o que é seu? — Perguntou Aiden.

— Se quer comer, que vá buscar sozinha. Mas tire os olhos da minha comida, principalmente do meu leite. Ah, e não esqueça que, se pegarem você, nunca me viu comendo de madrugada. — Aiden sussurrou o mais alto que podia. Naquela casa, e naquele horário, qualquer som se tornaria um trovão. Se a maçaneta fez aquele barulho todo, imagina uma conversa. Mema, sem mover um único músculo que fosse, continuou encarando-o sem piscar. Ela provavelmente escutou suas palavras. Só não escutaria se fosse surda, claro. Apesar de Aiden não poder dizer o mesmo de seus avós, infelizmente. São meio cegos e lerdos, mas não surdos. Uma pena, porque, caso fossem, ele não precisaria de tanto cuidado para conseguir um pouco de comida. Mema, então, se levantou de sua cama e caminhou lentamente até Aiden. Com o rosto quase grudado ao seu, ela esticou seu braço fino e delicado em direção ao garoto, travando sua mão direita no pescoço dele, enforcando-o. Seu estômago gelou instantaneamente. Aiden se debateu, derrubando a bandeja no chão, espalhando toda a comida. Ele tentou se soltar, forçando Mema para trás. Mas a menina usou uma força monstruosa contra ele, lançando-o contra a parede novamente. Sem reação e em choque, ele começou a perder o ar de novo. Sua visão ficou sem foco, trêmula, e sem cor. Os olhos de Mema transbordavam um brilho forte, esbranquiçado. O mesmo brilho que ele pensou ser consequência do reflexo da luz lunar em seus olhos, agora, estava a poucos centímetros do seu rosto. Ao fitá-los, ele percebeu que não existia nada além do forte brilho. Os olhos de Mema sumiram enquanto o aquilo explodia para fora de suas cavidades. Era poderoso, mas não era capaz de ferir seus olhos como a lâmpada da cozinha chegou a fazer. Aiden tentou gritar, chamar por alguém, porém sua voz não saía. Nem ar ele tinha mais, imagina voz. Aiden começou a perder a consciência, ficando tonto e caindo lentamente para o lado. Quase inconsciente, o garoto sentiu a força de Mesma enfraquecendo, aliviando um pouco a pressão sobre seu pescoço. A falta de ar diminuiu, fazendo-o voltar a respirar um pouco melhor depois disso. Sua visão, antes trêmula e sem foco, estava retornando aos poucos. Com seu sentido praticamente todo de volta, ele pôde ver os olhos de Mema em sua cabeça novamente. O brilho cessou e a cor natural, a castanha, estava lá. O olhar sinistro da menina sumiu, deixando apenas um rosto perdido e inocente em seu lugar. Mema tirou a mão de seu pescoço, se levantou e caminhou de volta até sua cama, deitando nela e adormecendo, como se nada tivesse acontecido. Na manhã seguinte, quando Aiden contou isso aos seus avós, eles disseram que ele estava ficando maluco e passando mal graças às refeições que fazia escondido nas madrugadas. Para eles, o garoto estava vendo coisas, tendo alucinações. Ele pensou algumas vezes que poderia ter sido algum tipo de alucinação, sim. Achou que estava ficando maluco, também. No entanto, ele sabia que aquilo foi real demais para ser uma mera alucinação. No fundo ele sabia. Ele se lembrou de como teve de ficar o resto da noite acordado, com medo, esperando outro ataque de sua irmã. Ele não veio, mas a sujeira do prato e do leite, ambos caídos no chão do quarto, estava lá pela manhã, esperando para ser limpa por ele assim que seus avós acordassem. Talvez, para dois velhos, aquilo pareceu uma história maluca, inventada por um garoto que só se mete em problemas e que sempre se entope de comia no meio da madrugada. Entretanto, para ele, foi bizarra e insanamente real. Quando o horário da escola chegou, ele esperou sua irmã se arrumar para, então, começar também. No caminho até o colégio, Aiden contou a Ken o que aconteceu em sua casa, durante a madrugada. Contou detalhe por detalhe. Ken riu, dizendo que o garoto havia usado algum tipo de droga ou coisa parecida. O irônico era ele saber que Aiden era asmático e, por isso, não podia usar droga alguma, mesmo se quisesse. Nem mesmo Ken usava, era um mistério saber de onde ele tirou aquela ideia idiota.

— Cuidado! Olha sua irmãzinha, de dez anos, escondida no mato. Nossa, ela tem uma boneca nas mãos! Socorro! — Gritou ele, tirando sarro. Pelos quarenta minutos que separavam a casa de Ken da escola, Aiden sentiu vontade de bater nele com um pedaço de madeira. Já quase na entrada do colégio, Ken disse que queria passar na loja do velho senhor Dof para comprar algumas bolachas antes de irem para a aula. A mochila dele sempre tinha mais doces e bolachas que cadernos dentro. Ninguém entendia como ele nunca havia repetido de ano.

A loja era tratada como o paraíso da molecada. Crianças e adolescentes estragavam seus dentes graças às maravilhas daquele lugar. Aiden também era um deles. Mas nem tanto quando Ken. Viciado em bolachas de chocolate com recheio de morango, ele sempre comprava de duas a três delas por dia. Aiden quase nunca tinha dinheiro, então Ken comprava, pagava e o garoto ajudava a comer. Nada mais justo. Ken pegou tudo o que queria, colocou em uma cesta e foi até o balcão pagar. A fila não era grande, tinha sete pessoas apenas. Em minutos, a fila terminou, sobrando apenas os dois. Ken, então, se dirigia ao Senhor Dof para pagar sua compra quando Mema entrou na loja com suas amiguinhas.

— Oi, irmão. — Disse a menininha. — Seu sorriso era tão doce quanto alegre.

— Oi. — Respondeu Aiden, sem reação.

— Você saiu ontem à noite? — Perguntou ela. Havia preocupação em sua voz.

— Sim, fui dormir na casa de Ken. Ele me ligou, pedindo para que eu o ajudasse em algumas coisas. — Mentiu Aiden.

— Liguei? — Ken perguntou. — Aiden deu-lhe uma leve cotovelada em suas costelas em resposta à sua desagradável surpresa. Ken se tocou, concordando com o garoto em seguida. Aiden estava perdido ali. Não tinha ideia do que fazer ou falar caso sua irmã continuasse com a conversa. Para a sorte do garoto, Mema foi chamada naquele instante por suas amigas, saindo correndo através da porta da loja, se despedindo dos dois. Aliviado, Aiden se apoiou no balcão enquanto esperava seu amigo pagar as compras. Ao saírem da loja, Ken imediatamente se virou para Aiden e questionou como ele conseguia imaginar alguém tão doce e meiga, como Mema, estrangulando seu próprio irmão. Aiden não tinha a resposta para essa pergunta. Ele não sabia nem se estava certo ou se tinha ficado maluco. Na noite daquele mesmo dia, e ainda com medo, ele não dormiu perto de sua irmã. Foi para a sala e ficou lá, tentando pegar no sono enquanto prestava atenção no quarto, que agora era apenas de Mema. Porém, a noite passou calma e serena. Nada aconteceu. O amanhecer surgiu, e isso o deixou confuso. Por um momento, ele se lembrou do olhar puro de Mesma. Desde criança Mema jamais mudou seu jeito de ser. Era a imagem perfeita de sua mãe. Ele Também se lembrou do dia em que sua irmã o cobriu, achando que ele estava doente, preocupada consigo. Claro que era apenas mais uma desculpa do garoto para poder matar aula, mas que não deixava de ser uma lembrança de como sua irmã se preocupada com ele. Ela agia com ele exatamente igual sua mãe o fazia com seu pai. Mesmo convivendo ao seu lado, ele tinha se esquecido destas lembranças. Foram as palavras de Ken que o fizeram se lembrar de quem sua irmã era para ele. Com tudo isso em mente, e vendo que sua irmã precisava mais de ajuda que o egoísta irmão dela, Aiden decidiu parar de sentir medo. Ele prometeu dar um jeito de ajudá-la, mesmo sem ter a mínima ideia de como conseguiria. Com uma nuvem de dúvidas pairando sobre ele, o garoto saiu de casa sentindo um misto de medo, frustração e raiva, e seguiu para o colégio. Conforme caminhava pela rua, ele pensava em diversas coisas que poderiam ser o problema de Mema. Demônios, fantasmas, ETs, doenças mentais, etc. Mas nada fazia muito sentido. Aiden nunca foi muito esperto, e isso dificultava na hora de pensar. Acreditar no sobrenatural também não fazia muito o seu jeito. Entretanto, ele temia que, mesmo escolhendo não sentir mais medo e decidindo ajudar sua irmã, a sua realidade já havia se tornado uma só naquele momento. Ele estava sozinho. Completamente sozinho. Porém...

- Olá, Aiden. — Disse o homem. — Em seu caminho, parado diante do garoto, estava seu professor, e antigo amigo de seus pais, Gin.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.