Olimpo esquecido
8 Ísis, rainha da China
Notas iniciais
Antes de Ísis humanar-se na China medieval, Amon acompanhou-a para conhecer aquele que seria o amante de sua mulher. Adentraram num palácio deslumbrante, com corredores luminosos, em cujo lugar mulheres da corte caminhavam na ponta dos pés. Quando chegaram aos aposentos do príncipe, um rapaz totalmente viciado em ópio encontrava-se recostado entre lençóis de seda, fazendo nada além de fumar, enquanto as concubinas beijavam-no, sem que ele fizesse sua parte no embate amoroso. Amon ficou pasmo. Podia-se viver cada hora do dia sem fazer nada, afinal, e ter prazer o tempo todo com um harém como aquele. Ísis olhou-o curiosa e perguntou-lhe:
— Vai ficar com ciúmes dele? Acho que vou ser uma beijoqueira...
E riram juntos, pois Amon sabia que Ísis nunca amaria um Earthmam. Eles eram péssimos amantes, e as damas faziam aquilo em troca de uma boa vida, num palácio que lhes desse proteção, comida, roupas lindas, bem diferente das filhas da China, que morriam de fome nas áreas rurais Afinal, o que a Terra gerava era para os exércitos e para a nobreza; o que restava para as famílias do campo era quase nada.
Depois percorreram a cidade, em busca de uma família para Ísis encarnar.
Ísis nasceu de uma mãe carinhosa, amorosa, numa casa que possuía um belo jardim, e em cujo lugar três irmãs brincavam desfrutando da infância. Eram muito bem vestidas, cabelos bem arrumados, e Ísis amou-as desde sempre. O sofrimento, porém, entrou na sua vida quando seus pés foram quebrados, enfaixados, e ela não podia mais caminhar de tanta dor. Seu primo Osíris ajudou-a carinhosamente durante o martírio, pois a carregava no colo e a sentava junto às rosas perfumadas. Também fazia seu retrato com nanquim, pois ele era um excelente pintor. Quando ela voltou a caminhar, Osíris acompanhava-a como cão de guarda. Frequentavam peças de teatro ou faziam compras para a família, e também a auxiliava na limpeza da casa, já que suas irmãs casaram cedo. Nenhuma de suas irmãs fora escolhida como concubina no palácio, e o que restou para elas foi um marido que lhes garantisse a sobrevivência.
Quando o príncipe Kao-Tsung assumiu o trono, o velho rei chamou a todas as meninas púberes do reino para formar o harém do novo rei. Ísis foi vestida com roupas especiais, reservadas para a ocasião, e Osíris levou-a ao palácio na carruagem da família. Ajudou-a a descer, e a viu caminhando entre muitas jovens, com o coração partido. Ela era tão linda que, com certeza, seria escolhida pelo rei. E ficou ali, no meio da rua, como um tonto, sem atinar para mais nada.
Dentro do palácio, naquele dia, havia duzentas moças recém-saídas da infância, ajoelhadas, à espera de serem examinadas pelo imperador Kao-Tsung. Ele desfilava entre elas e, quando se sentia atraído por alguma, fazia-a levantar o rosto. Quando ele viu a pele delicada de Ísis, um calafrio percorreu sua coluna, pois ela era perfeita. Mandou-a levantar-se, girar, e percebeu que por baixo de sua roupa havia quadris fortes, bumbum empinado, seios ainda pequenos, mas ela era simplesmente maravilhosa. Depois Kao-Tsung escolheu mais oito meninas, só para agradar a seu pai.
Quando Osíris soube que Ísis nunca mais sairia desse palácio, ele perguntou a si mesmo o que iria fazer para vê-la novamente. E seu pai, adivinhando seu tormento, deu-lhe um sábio conselho: “Candidate-se como guarda do rei”.
Osíris vestiu sua melhor roupa e se dirigiu ao palácio, pois Kao-Tsung, além de mulheres para o desfrute, necessitava de homens fortes para defendê-lo. Osíris era exímio nas artes marciais e possuía um complexo forte. Era imbatível com a espada e, além do mais, tinha um talento incomum para descobrir inimigos. Seu sonho era ser soldado de guerra, mas cuidar de Ísis dentro desse palácio havia se tornado algo mais do que necessário.
Enquanto Osíris solicitava trabalho aos administrantes da guarda imperial, Ísis conhecia a exuberância. Dentro do palácio tudo era perfeito: havia o brilho do ouro nos bordados das roupas, nas cortinas, nos móveis, nas paredes, e, além do vermelho carmim, ele representava o reino, o poder, e ambas as cores eram símbolos da nobreza. Mas um aposento chamou mais sua atenção enquanto caminhava: havia quinze moças debruçadas no chão, escrevendo com um pincel grosso sobre um pano. Ela ficou fascinada, pois seu sonho era aprender a escrever. Assim que uma senhora a descobriu, invitou-a para entrar, para que conhecesse o interior da sala. E recebeu nos braços um livro grosso com pinturas de casais fazendo amor. Olhou para a senhora, com rosto perplexo, e ela lhe disse com um sorriso na boca:
— Esse é seu dever daqui em diante minha bela: fazer nosso amado imperador feliz. Estude bem esse livro, pois, se ele gostar de você, poderá vir a ser sua favorita.
Ísis olhou para as poses eróticas e sorriu, porque eram figuras estilizadas se contorcendo como acrobatas. Estudou cada página com atenção; depois, abraçou sua nova amiga. E, finalmente, foi ao encontro do seu destino: fazer o rei feliz! Riu novamente, pois suas irmãs mais velhas também a tinham instruído nos mínimos detalhes sobre o mesmo tema, mostrando-lhe tudo com charges que elas mesmas desenharam.
Ísis entrou numa banheira perfumada, seus cabelos foram lavados com delicadeza, e depois maquiaram-na e a vestiram como uma rainha. Foi-lhe colocado um vermelho fogo na boca, muitas flores nos cabelos, um vestido suave, cor laranja e, nos pés, sandálias douradas.
Depois de ver cinco gurias saírem aos berros dos aposentos do rei, pois Kao-Tsung não fazia cerimônias para possuí-las, Ísis sentiu um calafrio na espalda. Corria o boato de que ele também gostava de bater. Mas ela levantou o queixo e entrou na sala, onde a fumaça do ópio se misturava aos aromas de incenso e outros perfumes variados. E Ísis entregou-se ao estuprador. Fez tudo que lhe foi pedido sem reclamar, não chorou, não gemeu, e sorriu para seu imperador com sorriso angelical, o tempo todo. Kao-Tsung ficou tão feliz com Isis, que enviou todas as suas amantes para fora, e pediu para Ísis que o beijasse do pescoço até os pés. Isis lambeu-o em cada canto, acariciando-o com as mãos, enquanto ele fumava seu cachimbo, e suspirava de felicidade.
Kao-Tsung nunca mais a deixou sair de seus aposentos. Durante dez dias, Ísis foi a única mulher na sua suíte, de dia e de noite. Kao-Tsung sequer fumava mais, pois estava convertido num toro viril, que desejava ter muito filhos com essa mulher maravilhosa. Comiam nessa suíte, tomavam banho juntos, e Ísis era uma escrava dos desejos do imperador. Fazia suas vontades com um sorriso na boca, e era uma amante de tempo integral, que esfregava suas costas, limpava seus pés, dava-lhe comida na boca, e o fazia feliz no amor.
E foi assim que Kao-Tsung se apaixonou loucamente por Ísis, casando-se com ela numa festa exuberante, em meio à felicidade da realeza, pois o imperador deixaria um herdeiro como mandava a tradição. Além do mais, a China usufruía de um período de paz, e Kao-Tsung nunca perseguira inimigo nenhum. Também nunca fizera nada relevante, mas era um homem bom, embora o vício do ópio fosse sua marca negra.
E o plano que Ísis e Amon arquitetaram, antes de encarnarem, começou a dar certo. Enquanto fazia-o feliz durante a noite, Ísis lhe perguntava sobre seus problemas do dia a dia. Conversavam somente durante as noites ardentes, pois nenhuma mulher podia fazer parte de seu ministério, nem de sua equipe de conselheiros reais. E Ísis dava-lhe pareceres, sempre sorrindo com cara de anjo.
E os anos transcorreram.
Ísis, nos seus dias de sangramento, ficava livre para estudar ou passear. Aprendeu os símbolos e seu significado, estudou desenho e pintura, e, quando Osíris chegava perto dela, era uma grande felicidade. Ele sempre lhe trazia algo de casa: um pão, um bolinho, uma sobremesa, que ela devorava com alegria.
Mas, entre os membros do círculo real, Ísis começou a ser odiada por causa de sua influência sobre Kao-Tsung. Todos os homens inteligentes do reino sabiam que ele era idiota, viciado e nunca tivera participação ativa no governo. Era um homem que fazia o que seus conselheiros mandavam ou aquilo que o velho rei aprovava. Por esse motivo, quando a saúde do velho rei se agravou, Kao-Tsung ficou em perigo de morte, pois ainda não tinha nenhum herdeiro inteligente para o trono. E Ísis corria o mesmo perigo desse triste fim.
Osíris estava tão apavorado que, no dia em que Ísis conseguiu permissão para visitar sua família, ele próprio cuidou de sua segurança. Acompanhou-a durante o chá familiar e depois convidou-a para ver as rosas do jardim, que estavam maravilhosas. E, sem rodeios, falou-lhe:
—–Tens que ter um filho!
— Eu sei! Pensas o mesmo que eu? Estou no período fértil!
E Ísis não falou mais nada. Osíris abraçou-a com força, levantando-a no ar. Possuí-a imediatamente, para engravidá-la e salvá-la da morte. Infelizmente, chamaram-nos de casa. Beijaram-se pela última vez, pois sabiam que isso nunca mais se repetiria. Ísis retocou o batom na boca, e regressou ao convívio familiar.
O nascimento do filho de Kao-Tsung deu garantia ao reinado, e os inimigos o deixaram em paz. Ísis passou a sentar no escurinho, na parte de trás do trono do rei, entre cortinas, e soprava-lhe conselhos no ouvido nas suas reuniões mais relevantes. A China estava cada vez mais rica, e os povos vizinhos a olhavam com ar de cobiça. Osíris contava para Ísis de cada intriga palaciana, e Ísis contava para Kao-Tsung no aconchego da cama. Depois, o rei castigava seus inimigos com rigor ou os enviava a cuidar de fronteiras em lugares longínquos.
Mas Kao-Tsung morreu quando seu filho ainda era um adolescente, e Ísis declarou a si mesma como “conselheira do novo imperador”, até o dia que ele atingisse a maioridade.
Infelizmente, o filho de Ísis seguiu o exemplo de Kao-Tsung e se viciou em ópio. Rodeou-se de um harém com muitas meninas púberes, mas também gostava de visitar lugares duvidosos em busca de amantes, as quais o infectaram com uma doença mortal, a sífilis. Osíris viu seu filho morrer ainda na juventude, e proteger Ísis dos ardis para derrubá-la nunca ficou tão difícil para ele. A China tinha, na ocasião, setenta milhões de habitantes. Passava por um período de grande prosperidade, fazia comércio com a Índia, era visitada por grandes mercadores estrangeiros, o que originou também o surgimento dos primeiros bancos chineses. Havia também o fulgor das artes, o fortalecimento dos exércitos e uma revolução interna para assumir o trono era agora um perigo terrível, pois deixaria a China enfraquecida, à mercê de hordas bárbaras.
Com a ajuda de Osíris, que lhe mostrava cada oponente vivo, Ísis tornou-se um monstro. Não tinha piedade contra quem a desafiasse, pois, a estabilidade o reino estava em primeiro lugar. Nunca uma imperatriz matara tanta gente, já que seus opositores se multiplicavam a cada dia. Porém, embora seu nome tenha ficado para a história como uma assassina cruel, a grandeza da China nunca foi derrubada sob seu reinado, nem por seus inimigos, nem por ninguém.
O único opositor impiedoso, que os atacou sem compaixão, foi o tempo, que foi envelhecendo-os, e, num dia terrível, Osíris morreu, partindo sem piedade o coração da imperatriz. Ísis deu-lhe um enterro cheio de luxo, chorou suas lágrimas no escuro de sua suíte, e nos anos seguintes ela se aposentou. Viveu o resto de sua vida num lugar solitário, rodeada de jardins floridos e de uma pequena corte que cuidou dela até sua morte.
Amon, que vivera uma vida cheia de glórias na Inglaterra, como o grande mágico druida, Merlin, morreu, deixando uma cidade moderna, governada por gente inteligente, e disse a si mesmo que a China deveria estar convertida num reinado poderoso, pois Ísis era a mulher mais inteligente da Terra. Esperou que seus dois filhos, que o acompanharam em vida, morressem: Tuth, que fora Lancelot e membro da tábula redonda; e Belisa, que fora Guinevere e a esposa do rei Arthur. E, com seus dois filhos, viajou direto para a China para ver sua amada.
Porém, Ísis ainda estava viva, e Amon a viu chorando a morte de Osíris como uma viúva. E o pior de tudo: viu o próprio Osíris, como espírito, abraçando-a desde a vida após a morte. Amon sentiu uma dor tão profunda no peito, como mil punhais cravando-o sem piedade, e percebeu que só podia dar fim a essa dor com a vida. Deu uma virada para se perder ao longe, em busca de uma mulher para encarnar, sem que Tuth nem Belisa conseguissem adivinhar o seu paradeiro final.
Quando Ísis morreu, a primeira coisa que viu por cima dela foi Osíris, beijando-a na cara, na boca, enquanto lágrimas corriam pelo rosto dele. A segunda coisa foi dois irmãos que estavam abraçados, tristes, sentados no chão, olhando-os de longe. E Ísis lembrou quem era, o que é que estava fazendo naquele lugar, e um arrepio percorreu-a por inteiro.
Osíris, de espírito feliz, mudou-se para uma alma aflita em minutos. Ísis soltou-se dele, correu para longe, perguntando aos gritos por Amon. Depois ela se perdeu na imensidão, com seus filhos, no maior desespero. Osíris, perplexo com a mudança brusca de sua amada, gritou-lhe de longe:
— Eu vou te amar para sempre!... e não interessa de quem sejas, pois eu vou te roubar!...
E a busca por Amon começou. Percorreram todos os planetas, um a um, as Luas de todos eles e, finalmente, em Plutão, Ísis começou a chorar as mais amargas lágrimas que um espírito pode derramar. Amon vivera uma vida de asceta para não a trair, e ela amara Osíris, como a um irmão, mas como é que iria explicar isso para Amon?
Então um anjo veio em sua ajuda. Levou-a até uma cidadezinha da Itália, onde Amon estava encarnado, com três anos de idade. O anjo procurou uma mulher recém-casada, por perto, e a empurrou no ventre dela com força. Ísis teria que fazê-lo se apaixonar por ela, mais uma vez, como se isso fosse a primeira vez na vida deles.
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