Olimpo No Brasil - O Elmo Perdido

1 ᴪ O vendedor de frutas vira um boi gigante


Tá, tudo bem se o Theo quer jogar videogame o dia todo. Como se aquele fanático por cemitério e terror já não jogasse isso praticamente todo dia.

Ah! Desculpa a informalidade de minha parte. Meu nome é Core, vivo com o meu pai, o Ricardo.

Eu passo praticamente o dia no colégio, mas agora nas férias as coisas estão muito mais chatas.

Meu pai vive trabalhando, e o Theo não sai de casa nem se dissessem que está tendo liquidação na loja gótica. Então estou aqui, em meu apartamento, curtindo uma música e tentando esquecer o frio das férias de julho.

Enquanto estava anotando os afazeres de hoje, a campainha tocou. Era só o Theo, dizendo que a mãe dele tirou o videogame dele, e que agora não tinha mais nada para fazer na sua casa. Claro. Eu sou a última esperança dele, como sempre, até quando tem prova de geografia e ele esquece igual da última vez.

Disse para o Theo entrar, ele se sentou na cadeira da cozinha e eu fiz o meu maravilhoso almoço, e perguntei se ele queria.

- Não, Core. – disse Theo. – Só o meu videogame de volta.

- Para com isso Theo! Que chato! Videogame, videogame, videogame… você não pensa em outra coisa?

- Castlevania.

- Deixa pra lá! Você só vai fala em videogame. Vamos falar sobre outra coisa! Sobre nossa vida!

- Tá. – disse Theo, um pouco desanimado. – Queria às vezes saber quem é o meu pai.

- Você acha que eu não queria saber quem é a minha mãe? É muito, muito chato não saber quem você é.

- Lembrar do meu pai me dá tristeza. Não quero saber disso. E sobre Halloween? Já está chegando!

- Estamos em julho Theo!

- Mesmo assim. Deveríamos ir à festa a fantasia do curso de inglês. Onde eu faço curso de inglês.

- Você vai fantasiado de que?

— Talvez de Death, ele é o deus da morte no Japão. Ou talvez de Alucard. É Drácula ao contrario sabia? Um dos personagens do Castlevania.

- Não pode ir simplesmente de Morte ou de Drácula?

- Tá, vou de Drácula então. E você?

- Abóbora.

- Abóbora? – perguntou Theo surpreso. Eu sinceramente não sei por quê. Afinal um cara que queria ir de Alucard, ou seja lá que nome for, não deveria achar abóbora estranho!

- É abóbora. Que parte você não entendeu? Preciso soletrar? A-bó-bo-ra.

- Hahaha. – disse Theo com sarcasmo. O que saiu um pouco errado, já que pareceu uma lula rindo, e quem teve que fazer força para não rir foi eu.

- Bom. – disse, limpando o prato e colocando uma colher de abóbora na boca. – Acabei de comer minha fantasia. Tem ambrosia, quer comer?

- Ambrosia? O que é isso?

- Você sabe como é o deus da morte no Japão, mas não sabe o que é ambrosia?

- Se soubesse não estaria perguntando, né Core?

- Boa resposta. – admiti. – Ambrosia é a comida dos deuses do Olimpo, e néctar é a bebida.

- Como você conseguiu comida dos deuses?

- No restaurante ali do lado. – disse com inocência, e um pouco de sarcasmo.

- Mas um cara não se deu mal com os deuses por pegar néctar deles? – perguntou Theo. Não precisei nem pensar. O nosso professor de história falou essa história. Mas senti pena do Theo, afinal, os níveis de TDAH dele são altos, e ele não deveria ter prestado atenção quando o professor falou. Mas isso já está na cara dele.

- Sim, o Tântalo. Ele quis pegar o néctar dos deuses, mas eles disseram que não. Então ele perguntou por que e os deuses responderam: porque sim. Aí ele teve um piti geral, cortou o próprio filho e serviu aos deuses. E a última que percebeu foi a Deméter. Coitada. Aí o puniram, assim não poderá comer e nem beber nada, nunca mais.

- Só de falar nisso me deu fome. Então acho que vou aceitar a ambrosia dos deuses.

Peguei um pedaço e coloquei no prato.

- Você tem néctar para acompanhar?

- Mel?

- Néctar é mel?

- É. Bom mel eu tenho. Vou pegar um pouco e colocar em um copo em formato de cálice.

- Então tá. – disse Theo. Eu coloquei o mel e nós começamos a comer. – Muito doce.

- É. Mas é bom.

- Uma verdadeira refeição grega. Você tem iogurte grego?

- Tenho Theo.

- Está bem. Vamos comer também!

- Você está com uma lombriga dentro da barriga por acaso?

- Na verdade o nome técnico é solitária. Eu acho que é uma Tânia.

- Tênia.

- Ainda bem! Não era possível que o nome da minha tia fosse de uma lombriga!

- Eu achava que fosse solitária! – disse, em meio de risadas. Theo sorriu e deu sua última garfada na ambrosia.

Isso que eu gosto do Theo. Ele é simpático. Usa tênis cinza geralmente, coisas de caveira, tem um anel de esqueleto e uma caneta de caveira que luta boxer que ele comprou numa feira no centro do Rio. Sim, nós moramos no Rio de Janeiro!

A forma física dele é engraçada. Eu o adoro! Tem cabelo partido para o lado direito, cabelo preto prateado, 1,65 e deve calçar 38, ele é bem pálido, ao contrário de mim que curti bastante a praia no verão passado.

Ele usava um óculos com uma fina armação cinza, de pelo menos 7 graus, ele não via nada sem eles.

Começamos a comer o iogurte. E o Theo falou:

- Conhece outro mito grego?

- Ah vários! E o que você quer saber? – perguntei.

- Bom, uma vez o professor de história disse sobre os 12 olimpianos. Qual são eles?

- Aposto que deve saber quais são os três grandes. – disse, tentando incentiva-lo.

- Zeus, Poseidon e meu preferido, o Hades. – disse Theo. Eu percebi que ele tinha tudo para ser filho de Hades, ou um parente próximo, primo talvez.

- Isso. As irmãs deles são: Hera, Hestia e Deméter. Teve algumas deusas que juraram não ter relacionamentos com homens.

- Hestia, Atena e… e…

- Ártemis.

- Isso Ártemis. Deusa da caça, eu acho. E da lua. Bom… — disse Theo, dando uma última garfada. – Sabia que o meu nome é um nome grego?

- Jura? – perguntei. – O meu também. Core é a Perséfone, o nome dela antes de ir para o Hades.

- Hades comeu ela? – perguntou Theo assustado. Achei surpreendente na verdade, achava que comer as pessoas deveria ser comum no videogame dele.

- Não! Hades é o nome do lugar! – eu disse, exclamativa. – Que tal irmos para o centro? Dar um rolé?

- Pode ser… — disse Theo desanimado. Nós jogamos fora os potes de iogurte e fomos para o centro.

É bom na Av. Presidente Vargas às vezes, pois é bem perto do centro. Tem muitos prédios altos, eu e o Theo fomos até a Praça Tiradentes, e pegamos um sorvete.

- Como está o seu sorvete de chocolate hein Theo? – perguntei. Theo demorou um pouco para responder, mas por fim:

- Congelei o cérebro. – disse ele, com as mãos nas têmporas. Suspirei. Achava que ele ia falar algo de inteligente dessa vez, mas de novo, ele falou alguma idiotice.

- Bom, eu gosto de morango. – eu disse, para puxar papo e dei mais uma lambida.

- Que bom. – ele disse. – Frutas são saudáveis. Ah, acabo de me lembrar: Mamãe deu 10 reais para comprar farinha e ovos, vamos lá ao supermercado?

- Tá. – respondi, um pouco sem animo. Atravessamos a rua até o Supermercado Intercontinental. Lá dentro, Theo estava tentando decifrar o que a mãe dele escreveu. Eu li, em 10 segundos, enquanto o Theo deve ter ficado meia hora para descobrir que marca a mãe dele escreveu.

- RENATA! RENATA! – eu disse sem paciência.

- Que Renata? É farinha, farinha! – disse ele.

- Renata é o nome da marca! – eu disse. Peguei o pacote de farinha e coloquei na cesta. – Ovos eu acho que você sabe pegar né?

- Sim. São meia dúzia de ovos. O que é meia dúzia mesmo? – perguntou Theo de sacanagem.

- Palhaço. – eu disse, dando um tapa no ombro dele. – Vou à seção de frutas. Tá legal?

- Claro. Me encontra na praça Tiradentes. – disse ele. Ele pegou uma caixa de ovos e colocou na cesta, e foi para o caixa pagar.

Fui até a parte das frutas, peguei algumas maçãs, algumas laranjas e outras frutas, como kiwi e abacate. Então encarei uma fila para conseguir etiquetar.

- Fila grande não? – perguntou uma moça, com um bebê a minha frente.

- Sim. E ainda dizem que as pessoas não tem uma vida saudável. Isso me lembra de que preciso pegar um cereal. – eu disse, saí da fila para o corredor de biscoitos, e um microfone começou a falar pelo supermercado.

- O supermercado vai fechar em 5 minutos, por favor, encerrem o dia. – disse a voz.

Depois de 1 minuto tentando decifrar as marcas e pegar a correta, pois as letronas não ajudam nada, peguei um cereal Moça da Nestle e fui pesar as frutas.

Não havia mais ninguém. A mulher que tinha o bebê tinha acabado de etiquetar a fruta, e foi correndo para o caixa. Só havia o vendedor, eu dei as fruta para ele.

Ele colocou as frutas na balança e etiquetou. Nesse momento, olhei para o supermercado. Estava vazio. Sem ninguém. Já estava fechado. As serrandas estavam abaixadas. Theo devia estar se perguntando onde eu estava.

O cara sorriu maquiavelicamente para mim, e tirou o pescoço, como uma máscara de látex, revelando pelos nele, e quando tirou a cabeça da máscara, lá estava uma enorme cabeça de touro. Era o Minotauro. Ele bufou para mim, e veio o cheiro de carne. Acho que ele estava no setor errado.

- Core! – bufou o Minotauro. – Precisamos de sua alma!

- Vai ficar querendo! – eu disse com medo e a voz trêmula. Ele partiu para mim, deixando o balcão e a balança caírem e minhas frutas também. Sem ter nada o que fazer, peguei um abacaxi e joguei nele.

Ele bufou e eu prendi a respiração. O Minotauro partiu encima de mim, de novo, e eu me esquivei e sai correndo para o corredor de biscoitos.

Lá eu abri um pacote de cookies e joguei como uma arma ninja. Mas o Minotauro se esquivou para o biscoito, o que achei interessante, e abriu a boca e comeu os 3 biscoitos que eu lancei.

- Ferro. – eu disse para mim mesmo. Saí correndo, as luzes estavam apagadas, o que dificultou um pouco. Jogava os biscoitos para trás com esperança de acertar o Minotauro, sem olhar para ele.

Estava na seção de frios. Abri um frizzer e tirei as carnes e joguei para ele. Ele pegou e começou a comê-la. Não esperava que isso acontecesse, mas já era um começo.

Quando acabou ele partiu com os chifres e eu naturalmente saí correndo, peguei uma faca que estava encima do balcão e tentei me defender. Mas o monstro ia pular e mim e eu joguei a faca. Ela bateu no coração dele, eu achava que ele ia morrer, ou sei lá, se desintegrar. Mas ele tirou com a facilidade que agente tira um carrapato.

Agora ele estava usando a faca ao seu favor. Voei para o setor de pães e peguei uma baguete e comecei a lutar com ela. Então pensei: E se eu fizesse uma ponta e atravessasse o Minotauro?

Comecei a comer a baguete, até fazer praticamente uma lança que machucou meu dedo. Então fui para o ataque.

Subi nas costas do Minotauro, e agarrei-o pelos chifres. Então fiquei indo para um lado e paro o outro, enquanto ele andava em círculos. Foi uma viagem bem turbulenta. Te aconselho a ir com uma agência de turismo ao invés de Minotauro.

Eu caí. Então tentei acertar o coração dele, que nem esgrima, mas errei o ponto e me auto feri no braço.

Fui pegar um Trident de melancia, ele me deixa mais forte, então parti para o Minotauro. Errei o golpe, mas algo mais maneiro ainda aconteceu. O chifre dele caiu.

- Ih! – eu achava que tinha feito uma coisa ruim. Ele bufou e me fitou com fúria, mas nesse momento ele desapareceu em pó. – Ih mais ainda!

Eu peguei o chifre e saí correndo, com a baguete na mão. Abri a portinha de uma das serrandas com a ponta da minha “espada” e saí correndo daquele lugar.

- Core! – disse Theo, ele saiu correndo e me abraçou. – Estava preocupado! Você não voltava!

- É. – eu disse.

- Isso é uma baguete? – ele me perguntou.

- Longa história.

- O que houve? Você está ferida!

- Não me diga. – eu disse. – O que houve é que eu lutei com o Minotauro, só isso.

- Com o Minotauro?! – perguntou Theo confuso. – Aquele que o Perseu derrotou?

- Na verdade foi o Teseu, mas tudo bem. Vamos até a lanchonete Midway, e lá a gente conversa. – nós fomos até lá.

Theo e eu nos sentamos e ele entrelaçou os dedos com as mãos apoiadas na mesa.

- Eu estava lá, no corredor de biscoitos, quando o cara disse que a loja ia fechar. – eu disse.

- Sério? – ele me perguntou. – Eu também ouvi!

- Essa não é a parte interessante! – eu disse alto, as pessoas olharam para mim. Eu corei. Não é atoa que o meu nome é Core. – A parte interessante é que todos saíram e só eu estava lá, e o vendedor de frutas. Ele tirou a máscara, era o Minotauro e a gente lutou, eu fiz uma espada de baguete e peguei um chiclete, e por último matei o Minotauro e peguei o chifre dele!

- Uau! – disse Theo. – Vamos para casa, vou dormir lá com você!

- Dormir? – perguntei, terminando o meu suco. – Lá no meu apartamento?

- Não quer ficar sozinha depois disso né? – perguntou Theo.

- Não, claro que não. – falei com sinceridade. – Vamos para sua casa, para pegar suas coisas.

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