Notas iniciais
Espero que gostem.

Não sabia meu nome, mas sabia que odiava hospitais. Eram frios e estéreis, cheiravam a desinfetante, desespero e morte. O policial foi embora e logo os médicos começaram uma série de exames. Verificaram minhas pupilas, fizeram radiografias. Tiraram meu sangue. Fizeram um curativo na lateral da minha cabeça e limparam vários ferimentos. Deram-me um quarto particular, me enfiaram um cateter intravenoso, que passou a injetar em mim “fluídos para eu me sentir melhor”, e saíram.

Por fim, entrou uma enfermeira com um carrinho repleto de instrumentos sinistros e uma câmera.

Para quê a câmera?

Calada, ela me deu uma camisola áspera de hospital para eu vestir e ensacou minhas roupas. Sorriu ao olhar para mim, exatamente como fizera o policial: um sorriso falso e bem adestrado.

Como conseguia reconhecer esses sorrisos tão treinados?

— Precisamos fazer mais alguns exames enquanto espera as radiografias ficarem prontas, senhora Crampbon. — Ela me segurou delicadamente pelos ombros e me fez deitar no colchão duro. — Também precisamos fotografar suas lesões. Não se preocupe, sua agente foi avisada que está aqui.

Agente?

Olhando para o teto branco, era difícil encher os pulmões de ar. Piorou quando ela me posicionou com as pernas quase para fora da cama. Fiquei escandalizada tamanha a vergonha.

É tão constrangedor. Prendi a respiração.

O pensamento não era daquele momento.

— Relaxe, garota. — A enfermeira foi até ao lado do carrinho. — A polícia já contatou seu marido e família, logo estará no conforto de sua casa.

Eu realmente era casada como desconfiei.

Percebi gostar disso, do mistério.

Ela pegou uma coisa comprida e fina que cintilava à luz intensa do quarto.

Alguns minutos depois, lágrimas corriam pelo meu rosto. A enfermeira parecia acostumada com aquilo, porque ela fez o que tinha de fazer e saiu sem dizer uma palavra. Me encolhi sob o cobertor fino, trazendo os joelhos para o peito. Fiquei ali com meus pensamentos vazios até adormecer.

Sonhei que caía, no escuro, caía sem parar, . Ouvi gritos, sons estridentes que eriçaram toda a minha pele; em seguida, nada a não ser um som baixo e acalentador.

Ao acordar na manhã seguinte, decidi começar com pequenas coisas: Qual era meu nome? Era “Mariana Crampbon”? Devia ser, mas não achei nada. Rolei até ficar de costas na cama e berrei quando o cateter repuxou minha mão. Ao meu lado, havia um copo plástico com água.

Fui me sentando devagar e peguei o copo, que tremeu em minha mão, borrifando água no cobertor.

Água... Tinha algo a ver com água. Água escura e oleosa.

A porta se abriu, a enfermeira estava de volta, acompanhada do médico que me examinara na noite anterior. Um sentimento de familiaridade acompanhou-o. Eu gostava dele. Seu sorriso era genuíno e paternal.

— Lembra de mim?

Não respondi na hora, e o sorriso dele não vacilou.

— Sou o doutor Waston, eu cuido de você há alguns anos. Só quero fazer umas perguntinhas.

As mesmas perguntas que todo mundo já tinha feito: Qual era meu nome? Eu sabia como tinha ido parar na estrada ou o que eu estava fazendo antes do policial me encontrar? A resposta para todas aquelas perguntas era a mesma: não.

Foi aí ele passou para outras perguntas.

— Você participou da produção “O sol é para todos”?

Meus lábios ressecados racharam quando sorri.

— Sim. Fui a Pamela Morphon, a personagem principal que fala sobre injustiça racial e tipos diferentes de coragem.

O doutor Waston aprovou com a cabeça.

— Ótimo. Sabe em que ano estamos?

Arqueei uma sobrancelha.

— 2018.

— Sabe em que mês?

— Março. — Umedeci os lábios, começando a ficar nervosa. — Mas não sei qual é o dia.

— Hoje é dia 12 de março. Segunda-feira. Qual é o último dia de que se lembra?

Torci a barra do cobertor entre os dedos e arrisquei um chute.

— Domingo?

A boca do doutor voltou a formar um sorriso.

— Tem que ser há mais tempo. Você estava desidratada quando a trouxeram. Pode tentar de novo?

Poder, eu podia, mas do que iria adiantar?

— Não sei.

Ele perguntou mais algumas coisas, e quando a auxiliar de enfermagem trouxe o almoço, descobri que não gostava de purê de batata. Arrastando o cateter, equipamentos e suporte como se fossem bagagem, olhei para uma completa estranha no espelho.

Nunca tinha visto aquele rosto antes.

Notas finais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.