Olhos insanos
1 Prefácio
Notas iniciais
[...]
Chiados invadem a linha.
– Alô?
– Oi, amor? É você?
– Sim, querida, sou eu.
– Tudo bem com você?
O chiado aumenta.
– Tudo sim, e com você?
– Bem, estou...
– O que foi?
– Só que ultimamente ando ouvindo coisas estranhas e recebendo algumas ligações assustadoras...
Por um momento, a conversa é cortada por mais barulhos.
– Que tipo de ligações?
– Algumas delas falavam sobre a viagem da minha mãe para a França, outras não tinham sentido... Somente algumas frases em outra língua.
– Que estranho... Tome mais cuidado.
– Será que eu poderia dormir hoje na sua casa?
– Não sei, por que hoje tenho uma reunião muito importante com empresários japoneses e não sei que horas volto... Você vai ficar bem?
– Vou. Só que agora tenho que desligar por que a água do chá já ferveu e vou desligá-la.
– Tudo bem, tchau amor.
– Tchau, beijos.
O telefone desliga.
[...]
– Essa foi uma das ultimas ligações registradas no celular de Richard. Vamos ouvir a próxima, que foi registrada às 23h39min do mesmo dia.
[...]
– Alô?
– Richard é você?
– Sim, como estão indo as coisas por ai?
– A reunião teve uma pequena pausa... Foi o tempo de eu ligar pra você agora. Você recebeu alguma daquelas ligações enquanto eu estava aqui?
– Bem, sim... Essa foi a mais estranha delas...
– O que houve?
– Primeiro tocou-se o telefone, pensei que era você, foi correndo atender, a voz que soou era tão amedrontadora, tão horripilante... Começou falando uma citação sobre o apocalipse, depois dava pra ouvir outras pessoas falando ao fundo, parecia um ritual, fiquei com medo, mas ao mesmo tempo congelada e não conseguia desligar o telefone... Por fim, uma gritaria tão alta, tão desesperadora, ecoou pelos meus ouvidos e o pavor me fez desligar o telefone...
– Querida, vá dormir... Amanhã, vou até a sua casa e passarei o fim de semana com você.
– Tudo bem...
A ligação é finalizada.
[...]
– A próxima ligação é a ultima, podemos ver que os acontecimentos passam a fluir de forma diferente.
[...]
– Alô... Richard?
– Olá querida, pensei que já havia dormido.
– Onde você esta amor?
– Chegando em casa...
– Querido, estou com medo... As vozes que ouço ficam soando em meu ouvido...
Chiados começam na chamada.
– Que chiado é esse?
– O meu celular anda meio estranho...
O barulho aumenta muito.
– Querida?
As vozes se misturavam com o barulho ensurdecedor no telefone.
– Richard?
– A... amor? – Um grito seguiu a pergunta, vazio, ecoou de forma assustadora.
– Querida? Querida? – Richard urra de dor seu grito pavoroso enche os ouvidos de agonia de quem estava ouvindo a gravação.
A chamada se encerra.
[...]
– Bem, esta ligação foi feita às 02h49min da manhã da quinta para a sexta. Senhores, o que sabemos sobre as duas pessoas dos telefonemas?
– Ele: Richard Antoni Marchell, 1m80cm, 36 anos, caucasiano, nascido no Canadá e estava na Inglaterra a negócios. Ela: Candece Shane, 1m75cm, 32 anos, caucasiana, loira, nascida na Inglaterra.
– Muito bom o que houve após a ultima ligação?
– A policia foi chamada e quando chegaram à casa de Candece, ambos os corpos estavam mutilados e o sangue das vitimas fora usado para desenhar um circulo em volta dos corpos.
– Certo. Por falta de informações, vamos revogar esta reunião até amanha. Boa noite.
Um dia depois dos assassinatos, a polícia se reúne novamente para discuti-los.
– Soube que recebemos o laudo dos legistas.
– Segundo o laudo, os corpos foram cortados com algum tipo de machado, pois eles tinham marcas de varias tentativas, bem profundas, de cortes. Nas casas não tinha nenhum tipo de vestígio de arrombamento de portas ou de marcas de digitais, eles foram perfeitos.
– O que sabemos sobre os telefonemas que a Candece recebia?
– Nada senhor...
– Como assim “nada”?
– As ligações foram feitas por celulares diferentes em plano pós-pago e não foram registrados antes de serem efetuadas as ligações, após isso trocaram os chips, quebrando os antigos.
– Vamos investigar melhor estas ligações. Quero que descubra tudo o que puderem sobre as vítimas e entrem em contato com os parentes próximos delas... O mais rápido possível.
__________
[...]
– Amor?
– O que foi Filipe?
– Venha ver, acabo de terminar minha ultima obra!
– Você pode lê-la para mim?
– Claro...
“Naquele momento:
Já não sabia o que era, onde estava...
Já não distinguia o que era verdade ou não...
Já não sentia orgulho de mim mesmo...
Já não conhecia o meu mundo...
Mas, sabia que poderia fazer mais...
Distinguia as cores da vida...
Sentia que uma palavra mudava tudo...
Conhecia o “outro.”
– Que lindo Filipe!
– Obrigado.
– Vou colocar essa junto às outras para imprimir tudo e mandar para a editora.
– Tudo bem querido, vou preparar o nosso jantar.
[...]
– Eu estava terminando meu livro... E então, algumas coisas estranhas começaram a acontecer.
– Que tipo de coisas, senhor Filipe?
– Primeiro, o computador começou a abrir janelas com escrituras antigas; e não parava, eu tentei fechá-las, mas, cada vez que eu clicava, outras janelas se abriam...
– E o que você fez depois?
– Puxei a tomada do computador, mas mesmo assim ele não desligou, era como se eu não tivesse controle sobre ele e a energia utilizada vinha de outro local. Após isso, um vídeo começou a rodar, parecia um grupo, todos encapuzados e com túnicas pretas. Um deles, que estava no meio, tinha um livro nas mãos e citava algumas frases, e após isso, tudo se apagou e não conseguia mais ligar o computador.
– Mais alguma informação a completar?
– Não, do que eu me lembre, é só isso.
– Tudo bem, o seu caso será analisado e entraremos em contato assim que possível.
__________
– Senhor não posso lhe assegurar que vamos ganhar esse caso, pois processar uma companhia de ônibus por danos morais, não e fácil, já que eles têm muito dinheiro e poder sobre o governo.
– Não importa, eu vou ate o fim com isso, não aguento mais esperar um ônibus especial com um motorista bondoso que pare para que eu possa subir. Só por que sou paraplégico e uso cadeira de rodas, não quer dizer que não possa ser tratado como uma pessoa normal.
– Vou mandar seu caso para ser avaliado e espero que logo chegue o resultado.
– Certo, vou pra minha casa descansar um pouco.
“Meu nome é Eduart, tenho 23 anos e sou paraplégico. Venho a algum tempo enfrentando um processo contra uma empresa de ônibus.
Comecei a gravar minha vida, cada passo que faço, para que se acontecer alguma coisa comigo, haja provas de quem fez e o que fez.
Quando cheguei a minha casa, notei que uma coisa estava diferente... Havia um pacote grande em frente a minha porta. Entrei e o abri... Dentro havia um DVD e algumas folhas escritas com símbolos antigos... Consegui entende-los já que estudo arqueologia e conheço muito bem a língua falada, era latim.
Quando coloquei o DVD para rodar, primeiramente apareceu um homem parado, ele estava com um livro em sua mão (parecia uma bíblia). Logo após ele estava no meio de mais oito pessoas encapuzadas que se posicionaram ao redor de uma fogueira que queimava um livro como o que ele tinha em mãos. Percebi que se tratava de um ritual de oferenda onde se ofertava uma alma para certo Deus e ele jogava uma “bênção” sobre eles.
Ao fim do vídeo, a pessoa que aparece no começo volta e tira o capuz... Vê-se uma mascara em sua face, toda dourada e assustadora. Ouve-se um grito ao fundo e tudo se apaga.”
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