Olhos insanos

5 Capítulo 4


Capítulo 4

O enterro de Elizabeth foi realizado em um sábado e estava chovendo, lá estavam seus pais, Eduart e os irmãos e mais alguns parentes próximos de Elizabeth, como amigos e primos. Muitos choravam enquanto o caixão era enterrado.

Quando Eduart chegara a sua casa, estava chorando, não conseguia conter a emoção e o sentimento de solidão que o rodeavam. Foi direto para seu quarto e se trancou.

Naquele cômodo havia poucas coisas, uma cama de solteiro, um guarda-roupas já usado, uma velha estante onde ficava seu computador que fora um presente de Elizabeth. O velho quarto era pintado em bege, já desbotado com o tempo.

Eduart ficou deitado em sua cama por um bom tempo, até que, deprimente demais, sentou-se em sua cadeira de rodas e entrou no pequeno espaço que havia na estante onde ele poderia mexer no computador. Passou a noite toda em claro, Pedro e Henrique não sabiam o que era pior, o irmão naquele estado, ou o fato de que eles não podiam fazer nada pra ajudá-lo.

– Já faz mais de 20 horas que ele está infernado naquele quarto, temos que tirá-lo de lá imediatamente – Pedro dizia com um tom preocupado e abatido.

– Eu também acho, mas o que podemos fazer pra ele sair de lá?

– Tenho uma idéia – Pedro estava contente com a idéia que acabara de ter – mas vou precisar da sua ajuda.

– O que for necessário.

Henrique foi a um chaveiro e comprou uma chave-mestra para abrir a porta do quarto de Eduart. O chaveiro vendeu sem nem perguntar pra ele iria utilizá-la.

Ao chegar a sua casa, Henrique deu a chave para Pedro que foi silenciosamente para o quarto de Eduart. Colocou seu ouvido sobre a porta e não ouviu nada. Pôs-se a abri-la rapidamente e com o maior cuidado possível.

Fez um grande esforço para porta não ranger. Em vão. Acabou perdendo o equilíbrio e caiu fazendo um barulho incrivelmente alto, Eduart estava em seu computador e olhou para a cena. Teria rido se não fosse pelo fato de que seu irmão estava invadindo sua privacidade.

– O... O que você está fazendo aqui? Não sabe que quero ficar em paz?

– Desculpe Eduart, mas eu estava ficando preocupado, você não come, não toma banho e não sai da frente deste computador desde ontem, acho que...

– Você não tem que achar nada. Deixe-me em paz.

– Mas... Eduart você não...

– Saia.

Horas depois, Eduart saiu do quarto e foi direto para o banheiro, tomou uma ducha rápida e comeu um pão, voltou rapidamente para o seu “inferno particular” sem dizer sequer uma única palavra aos irmãos.

Passou muitos dias com essa mesma rotina, não comparecia as sessões de fisioterapia e estava cada vez mais viciado no seu pequeno mundo. Até certo dia em que em seu computador apareceu um mensagem muito estranha.

Endereço de IP rastreado e bloqueado...

A partir daquele dia, não se preocupava mais com seu computador e parafernálias semelhantes.

Os irmãos estranharam a mudança radical no comportamento de Eduart que dizia querer voltar aos estudos e as sessões de fisioterapia. Havia um estranho sorriso macabro em seu rosto, imperceptível aos irmãos que espantados com a reviravolta nem deram importância.

Era dia 15 de janeiro de 2008, um sol exuberante, verão. Pedro e Henrique tinham bons empregos em uma empresa estatal que pagava um salário de R$ 2000,00 pra cada um. Eduart recebera uma proposta incrível da faculdade, que tinha vários contatos com empresas interessadas em seus melhores alunos. Ele começara a trabalhar com uma equipe de pesquisadores que estavam realizando um projeto sobre a civilização grega. Recebia um bom salário, R$ 3500,00 por mês.

Conseguiram, em fim, comprar uma casa própria financiada por um banco que fazia vários projetos de construção de casas a um preço abaixo dos encontrados nas imobiliárias.

Eduart não tirava por um único segundo, Elizabeth da cabeça. Tudo que fazia lembrava-o de seu amor perdido. Às vezes ficava angustiado, às vezes ria das coisas que faziam juntos e acaba dando errado e ambos caiam na gargalhada.

Em seu trabalho, Eduart dividia uma grande sala com outros três integrantes do grupo de pesquisas e buscas arqueológicas. Na mesa ao lado à sua, sentava-se Roberto, um homem alto e moreno tinha os cabelos curtos e bem alinhados. Era uma pessoa simpática e inteligente, tirava proveito de qualquer informação que dispunha e utilizava-a a seu favor. Do outro lado, sentava-se Mirian, uma mulher na casa dos 40 anos de idade, mas que estava em plena ascensão psicológica, já que era uma das pessoas mais brilhantes do ramo. Tinha cabelos longos e negros, brilhantes. Era uma pessoa bonita, mas um pouco abatida pelo tempo, mesmo assim, nada mudava sua simpatia e bom-humor de todos os dias. À sua frente, estava Max, um homem que aparentemente tinha seus 48 anos, mas que na verdade tinha apenas 32. Era raquítico, baixo, magro e não era muito bom quando o assunto era historia de antigas civilizações, mas estava naquela equipe porque sabia mais do que ninguém, decifrar antigas escritas e códigos utilizados pelo povo das épocas passadas.

Para ir ao trabalho, Eduart costumava utilizar os ônibus que circulavam pela cidade – já que existiam muitos com acentos para deficientes. No começo, os ônibus paravam normalmente para que ele pudesse subir, mas com o passar do tempo, os motoristas começaram a se incomodar com o fato de perder muito tempo para que Eduart subisse para o ônibus.

Alguns dias se passaram e Eduart, que já ficara irritado com a situação, contratou um advogado para processar a empresa de ônibus.