Olhos de Vidro

1 Capítulo 1 — "Blake and White"


Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura.

— Emily, a gente já está ouvindo essa música da Selena Gomez pela sexta vez. — Kendall deu uma parada e então prosseguiu. — Acho que decorei a letra de Same Old Love. Meu novo crush não vai aprovar isso, ele curte Beatles, Emily.

Acho que Kendall imagina que eu não estou prestando atenção em quase nada do que ela diz, estou fitando além da janela do carro, além das casas no centro de Delaware, além desse pequeno fim de mundo que eu adoro e muito. Desde ontem estou sentindo algo estranho.

— Ai, Meu Deus, Emily! — exclama Kendall no banco do motorista. — Você está muito estranha, está menstruada ou algo assim? A gente está quase chegando no evento e você aí com essa cara de enterro, é só uma exposição de fotos idiotas!

Entendo a indignação de Kendall, o tipo caladona e solitária não me caia bem, então decido abrir jogo.

— Estou com um sentimento estranho desde ontem. — disse olhando para o nada, para casas no meio do nada, pessoas que não significam nada.

“Kendall tinha um monólogo, um pequeno discurso que já ensaiou”, presumo.

— Ems, se tem uma coisa que os meninos não gostam, é de garotas com uma pegada gótica e triste. — esbocei um pequeno sorriso, só amigos conseguem te fazer sorrir quando você não tem motivos para isso, prosseguiu. — O estilo Isabella Swan, do Crepúsculo, saiu de moda, “fia”— Kendall gostava de usar expressões estranhas, porém muito engraçadas, quando fico triste ou pensativa. — Até por quê, você não leva jeito para ser uma EmoGóticaRockeiraSolitária. — falou tudo junto e sorrindo.

— Ken, sei lá, eu… — dei uma pausa e continuei — Meu sentido feminino está tentando me dizer algo. — conclui. Kendall estava estacionando em frente a recepção do evento.

— Adoro quando você usa as palavras “feminino” ou “feminista”, isso me lembra que não somos lésbicas. — rimos e juntas saímos do carro.

Kendall está muito bonita, seus cabelos loiros naturais estavam soltos, caídos sob o longo vestido preto que usava e um belo salto. Eu também não estava mal, meu vestido vermelho, tomara que caia, era todo rodado nas pontas, bem antes de chegar aos meus joelhos e estava usando um salto preto que fica bom com qualquer roupa, até um uniforme de empregada. Passei a mão nos meus cabelos em um rabo de cavalo bem alto, que como consequência, trouxe com sigo uma enorme dor de cabeça que passava aos poucos.

Entramos e logo todos os meninos do time de futebol americano estavam nos olhando, as meninas dos outros cursos que eram do campus, nos olharam dos pés a cabeça, Kendall nunca ligou para nada disso, mas eu sempre achei que aquilo não passava de uma fase, de besteira de adolescente, reparar nas vestes, no jeito e no dinheiro. Coisas tão superficiais, tão superficiais quanto aquelas garotas, que não passavam de piscinas infantis. Até agora Thomas não respondeu nenhuma das duas mensagens que deixei. Não gosto de bancar a namorada grudenta, mas ele nunca foi de fazer isso, de perder uma prova importante do curso, de perder um dos únicos eventos de fotografia do ano.

— O Sr. Jones tá vindo, ai, Meu Deus! — exclamou Ken que já estava com uma taça de vinho.

O Sr. Jones, professor de história da fotografia era um solteiro gato, pelo qual todas babavam, até mesmo eu no início do curso, mas percebi que sua relação com seus alunos é restritamente profissional. Ele estende uma taça de champanhe para mim, pego e observo que ele tem outra, e que está pela metade.

— Sua foto está no outro lado do salão. — afirma ele sorrindo — Fiquei feliz em saber que decidiram incluir na exposição, ao lado dessas outras maravilhas…

E eu realmente estava grata, gostaria de ter meu namorado para comemorar agora, pois não é qualquer calouro que tem uma fotografia na exposição dos Maurice, eles eram extremamente seletivos, percebi isso quando a senhora Matilde Maurice, fez o garçom voltar duas vezes a cozinha para trazer o melhor vinho do evento.

Caminhei até o outro lado da sala com Sr. Jones, Kendall já estava na segunda taça de vinho e eu não a via há uns cinco minutos. O título da fotografia era “O Solitário”, um rapaz estava usando uma camisa caqui, perto de duas árvores cheias de flores cor-de-rosa bem claras, ele estava apanhando uma das flores e foi quando eu tirei a foto. O único problema era que eu não conhecia ele, era engraçado também, não saber quem é o cara na foto que você tirou.

— Essa é uma foto muito boa, entendi a proposta, não tem muita originalidade, se é que me permite dizer, mas é realmente muito boa, mas e ele? Descobriu quem é o modelo misterioso? — essa pergunta já me fiz tantas vezes.

— Gostaria de saber também — sorri delicadamente.

— Além de tudo a foto tem um mistério? — o Sr. Jones riu e me fez refletir uns dois minutos sobre o garoto alto, branco, que usava uma camisa cor de terra, apanhando uma flor — Não acredito que ele esteja apanhando flores para a namorada… — afirma Sr. Jones com descontração — Que tipo de jovem faz isso pela namorada nos tempos atuais? Nem eu mesmo faço isso.

Após nossa conversa o professor precisou dar uma palavrinha com a senhora Maurice, Kendall estava conversando com Nathan, o capitão do time de futebol, pareciam um casal de filme americano, sinto nojo. Abro a bolsa pequena que trouxe e tiro meu celular de dentro, ligo para Thom, não entendo essa mudança repentina de hábitos, ele nunca sumiu assim, é tão ou mais pontual que eu. Caixa de mensagem, assim guardo o celular na bolsa.

Olho ao redor, a música ambiente me dá sono, pessoas olham minha fotografia, reconheço uma delas. Lindsay Foster, cursa Artes Cênicas, é a queridinha da universidade. Desde palestras a propagandas, Lindsay realmente tinha um carisma indiscutível, era magra e bonita, fácil de qualquer cara se apaixonar, todas querem ser suas amigas, todas querem ser iguais a ela. Ela é o que os meninos querem ter e o que as meninas querem ser, eu era a única exceção.

Meus pais como a maior parte desta classe, me ensinaram que desde pequena eu tinha que ser “eu mesma”, mas só aprendi isso com os filmes que vi, todos que se faziam passar por uma coisa não eram, acabavam sozinhos no fim e se tinha algo que eu não gostaria era ficar só. Um garçom meio desajeitado e nervoso passa pelo grupo que observa minha fotografia, ouço a voz de Lindsay e vejo sua mão indicar algo na foto.

— Sam? — chamou a amiga — Esse é o James, não é? Eu dei essa camisa para ele. — afirma Lindsay e quando torna a aportar, seu cotovelo se choca com a bandeja prateada do garçom, que portava taças com vinho, que agora, escorria pelo vestido rosa claro que usava, se ouve o som das taças quebrando. Sr. Jones chega rapidamente, como um policial das séries de TV.

— Meu Deus, vamos? — arregalou os olhos e ordenou ao garçom — Chame o pessoal da cozinha para darem um jeito aqui e, ah, Meu Deus, Lindsay! — Seu jeito de falar era engraçado, ele me olhou por um instante e pediu para que eu fosse ali.

Ressentida, caminhei até eles, Lindsay me fitou por inteiro.

— Emily você poderia dar uma força a Lindsay, imagino que vocês garotas entendam de manchas, e, além do mais, ela se distraiu olhando a sua fotografia. — sorri para a moça do vestido manchado de vinho, e para minha surpresa e sorri de volta, então diz:

— Emily, é que o rapaz na sua foto é o meu namorado, James. — ela ri e não parece estar chateada com o ocorrido, quem sabe ela é realmente uma boa pessoa ou uma boa atriz.

— Nossa! — digo — Eu realmente não sabia, nunca vi o rosto dele, só achei diferente, um rapaz pegando uma flor, já que os meninos de hoje só pensam em sexo… — Nós rimos, Lindsay, Samantha (sua escudeira) e eu, o senhor Jones já tinha desaparecido.

— Você pode me ajudar mesmo? — ela não parecia muito confiante na minha habilidade de ajuda, então para provar que sou boa nisso.

Depois de ter tirado a mancha de vinho do vestido rosa de Lindsay, que não parava de falar sobre sua vida e planos, caminhamos pelo corredor até chegarmos a sala principal novamente. Lindsay estava linda como antes, e pronta para fazer o discurso do evento e anunciar os premiados da noite.

— Muito obrigado Emily, você é um anjo. — Lindsay falava enquanto dava mais uma olhadinha no vestido — James teve um problema, vai se atrasar, queria tanto apresentar vocês antes do discurso… — parou para respirar e prosseguiu —Então, o dever me chama.

E ali foi, a garota sensação do campus, bela, falante e agora, limpa, graças a mim, que sou um “anjo”. Lindsay Foster se posiciona em frente ao microfone, ao seu redor a decoração é impecável, mas nada tira o brilho de seus cabelos loiros e de seus olhos verdes.

— Boa noite a todos. — breve pausa para que todos prestem atenção — Bem-vindos à recepção e celebração anual de fotografia da universidade de Delaware! — as palmas começam a surgir. Lindsay sorri alegremente — Bom, como aluna e coordenadora dos eventos da universidade, quero agradecer a todos pelo apoio, e em especial, a Emily Johnson, por ter salvo o meu vestido esta noite. — ela sorri, as palmas se direcionam para mim, sorrio e levanto as sobrancelhas para ela tento esboçar um sorriso, que, por Deus, espero que tenha sido convincente — Obrigada, Emily! — pausou e olhou em direção a porta de entrada.

E então, por uma fração de segundos, todo o mundo, todas as pessoas, tudo estava lento, não lento tipo devagar, mas lento como se o mundo estivesse parando, ao passar pela porta. James, a criatura mais linda que já existiu e existe na face da terra. Eu sei, eu sei, eu tenho namorado, mas por favor, eu não to morta.

— Quero agradecer também ao meu namorado, James Riley, que mudou para este curso e começa amanhã — continuando o discurso, ela contou as várias vantagens da universidade e agradeceu milhões de vezes.

A senhora Maurice, e seguiu para as premiações. -E na categoria, “Paisagens”, o vencedor é Thomas Blake! — ouço os aplausos e fico furiosa. Eu nem ao menos sabia que ele estava concorrendo e porque diabos ele não está aqui? — Meus parabéns, Thomas! — conferiu o papel e tornou aos anúncios — E na categoria “Originalidade”, indicada pelo senhor Jones e o conselho de imagem e vídeo da família Maurice, — pausou mais uma vez, deduzi que ela curtia um suspense, mas eu nem conhecia essa categoria de que falava, não chegaria nem perto de ser indicada, senhor Jones disse que faltava originalidade na foto e os Maurice, nem sabem da existência dessa foto, nem se deram o trabalho de passar pela parede onde ela está — e a vencedora é Emily Johnson! — exclamou ela toda contente como se fossemos amigas de anos. Mas isso não importa agora, todos estão aplaudindo e eu devia estar me sentindo bem, mas nem tanto, claro, uma caloura acaba de ganhar um prêmio em uma nova categoria e ela está sorrindo agora.

Caminhando em direção ao palco e abraçando a garota sensação, mas isso tudo não faz muito sentido sem a pessoa que prometeu estar ao seu lado em todos os momentos e eu levo a sério todas as promessas. Pego um troféu que tem formato de uma câmera fotográfica feito em cristal. Mas, quando estava prestes a começar a falar, pela porta de entrada, o detetive Haynes, amigo do meu pai, passa pela porta acompanhado por outros dois policiais, não consigo falar, então ele diz:

— Emily, vamos precisar que você venha conosco. — paraliso.

— Ela está recebendo um prêmio! — exclama Lindsay. Vejo Kendall em meio as outras pessoas me fitando. Vejo James olhando minha foto premiada, ele me olha.

— Thomas Blake está desaparecido a três dias, todas suas roupas sumiram, encontraram o carro dele na saída da cidade, abandonado. Precisamos te fazer algumas perguntas.

Caminho em silêncio até o detetive, ele passa a mão pela minha cintura, com o troféu na mão e todas as pessoas da festa olhando para mim, me pergunto: Como Lindsay consegue, estar no centro das atenções, embaixo de holofotes? James Riley e Lindsay caminham na mesma direção, estão olhando, Kendall segue a mim e ao detetive Haynes. E depois de tudo isso, só o que quero saber é, onde está Thomas?

Notas finais
Se você leu até o fim, obrigado(a), muito obrigado(a) mesmo, se quiserem comentar, caso achem que eu deva melhorar e etc, eu juro seus dedos não vão cair. Obrigado gente.