Olhos de Ressaca

1 Eu fui e ainda sou um covarde


Notas iniciais
OIEEE, PEOPLES!!! Então, sou nova aqui no Nyah, mas vim tentar a sorte aqui com vocês também, então espero que gostem da fanfic ♥33 Boa leitura, Obs.: Sei que já fiz esse aviso, mas queria reforçar que essa fic já foi postada também por mim no Spirit, e o link do meu perfil está no Disclaimer.

Era tarde de verão em Forest Lake, e o tempo parecia se estender mais a cada hora, fazendo com que os minutos se tornassem eternos. Na verdade, todos os dias eram assim nessa pequenina cidade pacata, cheia de pessoas comuns e de cotidiano simples.

Não era à toa que assim que eu terminei o ensino médio, a maioria das pessoas de minha turma saíram da cidade em busca de novos horizontes, para longe desse tedioso lugar.

E você deve estar se perguntando, o porquê de eu estar reclamando tanto, mas ainda estar aqui. Bom, a resposta é simples, e são os meus pais.

Sim, pode parecer ridículo, mas meus pais tem um mercadinho local, que eu, como seu único e amado filho, herdarei depois que eles decidirem se aposentar. Bem, essa não era "exatamente" a razão, porque antes de mim, eles tiveram um outro herdeiro, o meu irmão mais velho, que acabou morrendo em um acidente de carro alguns anos atrás, bem no ano em que eu "meteria o pé" de Forest Lake. Me lembro dos olhares presos ao nada, os choros, a depressão, e todo o resto. Eu simplesmente não podia ir embora da cidade depois desse infortúnio, então larguei as minhas oportunidades em uma universidade no exterior, e resolvi tomar frente dos negócios da família...e ficar preso eternamente em Forest.

Agora era um homem prestes a fazer vinte e dois anos, empilhando latas de atum em uma pirâmide simétrica, enquanto meu pai recolhia o dinheiro das caixas registradoras, pronto para finalizar mais um dia de trabalho.

— Filhão, eu vou depositar esse dinheiro lá no cofre do escritório, e caso alguém entre, só avisa que fechamos, okay?- meu pai pediu, me dando dois tapinhas nas costas.

— Claro, pai.- dei um sorriso mínimo, lhe levantando um dedão positivo.- Pode deixar.

— Valeu, parceiro.- falou, apertando meu ombro, antes de desaparecer em seu escritório.

Continuei a executar minha tarefa, quando ouvi o sininho da porta de entrada tocar, anunciando a chegada de alguém. Automaticamente iria pedir para essa pessoa ir embora, mas algo acabou me impedindo de o fazer.

Era uma garota mais ou menos da minha idade, muito bonita. Usava um shortinho jeans de cós alto todo rasgado, uma regata branca com o símbolo dos Rolling Stones, e botas pretas cano alto. Era alta, de pele bronzeada, e cabelos castanhos que se encontravam tingidos de loiro graças à californiana que ficava muito bonita nela.

"Uma garota da cidade grande" eu presumi rapidamente, não tirando a minha atenção dela. Até diria que nunca havia visto antes aquela garota, mas aqueles seus olhos negros não conseguiam esconder quem era ela.

— Chris Sullivan?- perguntei, um tanto quanto acanhado.

— Sou eu mesma.- soltou um de seus sorrisos.- Saudades de mim, Bocó?- riu, abrindo os braços para que eu a abraçasse, e eu o fiz.

Christina Sullivan havia sido uma das garotas mais amadas da cidade, não só pelo seu carisma, como por também sempre fazer parte dos comitês que a escola organizava para os eventos públicos. Era de tudo no colégio: A mais inteligente, divertida, popular, atleta...e a mais bonita também.

Seu visual estava muito diferente do de quando havia saído para a cidade grande, mas não era de se esperar algo fora disso. Afinal, foram bons quatro anos longe de Forest, e a cidade costumava fazer isso com as pessoas.

Perguntei o porquê dela ter voltado após tanto tempo, e Chris me disse que a vida dela estava um desastre, e ela ter aproveitado que estava começando as férias de verão para dar uma pausa de todo o estresse. Disse também que enquanto ela se perguntava o que poderia tirá-la daquela depressão, a primeira coisa que ela se lembrou foi de mim e de nossos momentos quando adolescentes. Iria ficar durante uma semana em Forest, e queria reviver os velhos tempos comigo, quando brincávamos no lago, corríamos em um campo aberto que havia por ali, ou nos deitávamos para ver o pôr do sol no ponto mais alto de Forest Lake, que era o Colina Forest.

Claro que não neguei o seu pedido, afinal não estava tão diferente dela, entregando a minha vida ao tédio. E assim se sucedeu nos dias seguintes, com nós dois nos divertindo como as duas crianças inconsequentes que éramos. Aos poucos fui percebendo que não era só seu visual que havia mudado, mas o seu humor também. Parecia um pouco mais cínica, rude, mas nada que diminuísse o meu carinho por ela.

A cidade grande realmente pode transformar as pessoas...

De contrapartida, a cada duas palavras que a Chris dizia, ela conseguia encaixar uma frase dizendo que eu não havia mudado em nada.

Vai ver Forest Lake seja a causa de eu ter permanecido o mesmo...

"Mudar é bom, Bocó" ela repetia sempre para mim, como se fosse uma espécie de mantra que eu deveria praticar.

Agora era o fim da tarde do último dia dela em Forest, então resolvemos aproveitá-lo assistindo na colina, o sol que se punha no horizonte. Eu estava deitado com as pernas cruzadas e as mãos embaixo da cabeça, enquanto Chris estava sentada em "perninha de chinês", fumando um de seus inúmeros cigarros. Outro mau hábito que ela havia adquirido em sua nova vida na cidade grande.

Nunca havia visto alguém ser tão apegado à nicotina como ela, que eu percebia ser capaz de fumar um a dois maços de cigarro por dia, além de o cheiro da fumaça particularmente me incomodar, e muito. Porém, por ela eu seria capaz de suportar quantos cigarros fossem necessários, para não precisar me afastar dela.

Deveria estar lhe observando por tempo demais, pois assim que seus olhos se encontraram com os meus, pude ver um meio sorriso se formar em seu rosto, enquanto dava uma tragada em seu cigarro, logo depois deixando sua fumaça escapar por entre seus lábios. Seus olhos negros ainda fixos em mim, pareciam brilhar mais através da fumaça, me deixando totalmente cativo. Muitos diziam que os olhos claros eram os mais belos, mais exóticos. Contudo, ali estava eu encantado pelas íris escuras daquela garota tão peculiar.

"Olhos de ressaca" pensei "Olhos esses que me puxam para baixo, sem esforço algum, mas que ao mesmo tempo parecem me puxar para a superfície para retomar o fôlego".

— Deveria parar de babar, Bocó.- soltou uma leve risada, encarando a ponta de seus pés, fazendo com que seus cabelos caíssem em cascata. Era ridículo, mas cada movimento seu parecia me encantar.

— Não estou babando.- menti, negando com a cabeça.- Só estou contente por te ver assim, mais...feliz. E pensar que se você ficasse aqui, todos os dias poderiam ser assim.- soltei essa proposta de forma subliminar.

— Sim, se eu ficasse aqui, todo dia seria calmo...porém, muito previsível também, não acha?- fez careta, me encarando de soslaio.- A cidade grande pode não ser o cúmulo das gentilezas e da calmaria, mas a imprevisibilidade é o que dá todo o brilho para o lugar. É por isso que eu vou voltar.- ela deu um grande sorriso, como se as lembranças de sua nova vida fossem boas.- Sem falar que pelo o que eu permaneceria aqui?

"Por mim" foi o que eu quis dizer, mas as palavras simplesmente não vieram à minha boca. Então em resposta, apontei para as ruas de Forest Lake, que se estendiam abaixo de nós.

Chris olhou para onde eu apontava e soltou uma risada sem humor, enquanto dava mais uma tragada em seu cigarro, permanecendo em silêncio por mais alguns segundos, enquanto me encarava com aqueles seus olhos de ressaca.

— Se eu realmente tivesse voltado aqui por Forest Lake, não teria ido embora na primeira vez, né?- soltou a fumaça entre seus lábios, enquanto apagava o cigarro no chão.- Sabe de uma coisa, Tristan?- me chamou pelo meu nome pela primeira vez desde que chegou, o que me causou certo desconforto.- Forest Lake é um lugar muito bom, e eu sei disso. Afinal, cresci aqui e vivi a maior parte da minha vida correndo por essas ruas. Todavia, aqui é um lugar apenas para pessoas com a vida feita.

— Como assim?- franzi as sobrancelhas, não entendendo bem o seu raciocínio.

— Forest é um bom lugar para se criar uma família, morar após a aposentadoria, mas não é um lugar para nós jovens. Tristan, o mundo inteiro está girando, enquanto essa pequena cidadezinha se encontra congelada, sem nenhuma aventura a oferecer...e você sabe disso.

— Está dizendo que eu estou desperdiçando a minha vida?- perguntei um tanto irritado, não gostando nada daquela insinuação.

— Não, estou dizendo que a vida é pequena para se dar ao luxo de ficar parado em um só lugar. Sem se arriscar, se divertir, se apaixonar loucamente, apesar de poder quebrar a cara mais vezes do que poderia quebrar aqui em Forest...Se você está negando a si mesmo essa dádiva, aí não é culpa minha.- retrucou rude, acendendo mais um de seus cigarros, enquanto me lançava um olhar frio.- Quando o ensino médio estava acabando, você e eu cansávamos de fazer planos do que fazer com nossas vidas, de meter o pé de Forest. Mas quando chegou a formatura, só eu parti, enquanto você ficou. O que te fez ficar?

— Você sabe o que foi.- murmurei baixo, cerrando os punhos.- Eu não podia abandoná-los daquele jeito...Não depois do meu irmão.

De repente, Chris se calou de súbito. Até abriu a boca para tentar falar algo, mas nenhuma palavra saía de sua boca. Ficou calada, como estivesse refletindo, por mais alguns segundos, até levar o cigarro aos lábios e lhe dar mais uma tragada.

— Eu sei o quanto a morte do Mark os afetou, mas eles teriam te entendido.- falou baixo, sem olhar nos meus olhos.- Você não pode doar a sua vida dessa forma, como se não se importasse, pois eu sei que você se importa.- então seus olhos de ressaca se encontraram nos meus, um tanto quanto piedosos.- A única pessoa que pode e está te prendendo aqui, é você, Tristan.- ficou em transe por alguns segundos, até chacoalhar a sua cabeça, e expirar a fumaça em sua boca.- Mas você é quem sabe. Agora, eu só quero aproveitar esse fim de tarde.- sorriu, se deitando ao meu lado, se acolhendo debaixo do meu braço, enquanto sua mão ficava sobre o meu peito, me acariciando.

Aquele momento simplesmente não tinha como ser mais perfeito, tirando o fato de a minha cabeça ainda estar tentando processar suas palavras. E foi no meio de tanta reflexão, que eu me perguntei se o motivo de eu ter permanecido em Forest era realmente pela morte do meu irmão...E eu percebi que não era.

Sabia que meus pais me entenderiam caso eu resolvesse ir embora, mas será que eu realmente queria ir? Sempre fui uma pessoa muita boa para falar, mas na hora da ação sempre fui muito "pé atrás".

Estaria eu, desperdiçando a minha vida?

Não sabia ao certo, mas resolvi que iria aproveitar os meus últimos momentos ao lado da Chris, que parecia emanar um calor que aquecia não só o meu corpo, como o meu coração também.

Na manhã seguinte, quando chegou a hora da Christina partir, me candidatei a acompanhá-la até o pequeno aeroporto da cidade. Ela não tentou mais me persuadir a sair de Forest, apenas agradeceu pela semana que ela disse ter se divertido demais.

— Se cuide, Bocó.- me abraçou, chamando-me novamente pelo apelido que até então ela havia abolido.

Nos separamos do abraço, muito próximos, enquanto nossas respirações se colidiam uma com a outra. Seus olhos de ressaca encaravam os meus enquanto engolia em seco, descendo aos poucos para os meus lábios.

Se estivéssemos em um filme, essa seria a hora em que nos beijaríamos intensamente, e ou teria a ideia de fugir com ela para a cidade grande, ou ela decidiria ficar comigo em Forest Lake por toda a eternidade...porém, não estamos em um filme.

Sim, eu poderia tê-la beijado, mas a que custo?

Chris iria voltar à sua nova vida no exterior, a vida que ela amava. Jamais poderia obrigá-la a ficar aqui comigo, quando ela mesma deixou claro que pretendia viver altas aventuras, e Forest jamais poderia lhe proporcionar isso.

Eu poderia ir embora de Forest Lake, e ser feliz com ela...mas simplesmente não dava. Na primeira oportunidade que tive há alguns anos, eu não saí porque tinha medo, e resolvi me esconder atrás da perda do meu irmão. Foram apenas quatro anos, ainda não havia sido tempo o suficiente para meu pensamento realmente mudar.

Então apenas me afastei dela, e a assisti passar para a zona de embarque, um pouco antes de ela se virar uma última vez para mim, e me acenar em despedida.

"Poderia ter sido uma aventura e tanto" pensei, enquanto depositava minhas mãos no bolso.

Porém, eu fui e ainda sou um covarde...

Notas finais
BJUS & MORDIDAS DE WALKERS
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!