Em uma loja de uma cidade pacata, próxima da capital, Misael Giuliani termina, finalmente, de limpar o chão da loja de Seu Benjamin, o bondoso senhor que o deixou trabalhar em sua mercearia, o ajudando com tudo. Desde vendas, limpeza, guardar produtos, organizar o estoque e fazer algumas poucos entregas.

— Senhor Ben, já acabei de limpar o chão, tem mais alguma coisa que possa fazer pelo senhor?

Benjamin Franciscano é um senhor com cinquenta e seis anos, que vive sozinho desde que a esposa morreu e os dois filhos foram estudar fora. E cuidar sozinho de sua loja já não é tão simples, seu corpo as vezes dói e o jovem Misael Giuliani foi uma benção que veio para ajudá-lo, e para fazer companhia para ele.

— Eu presumo que não, meu rapaz. Aliás, Misael, você não tinha comentado que iria na festa de carnaval de hoje a noite? O tal baile de máscaras. — Ben pergunta enquanto passa a mão pelo curto cavanhaque grisalho que possui.

— Ah, sim. Eu estou pensando em ir. Aproveitar um pouco, uma noite de festas, que mal faz, não? — Misael ri, se apoiando na vassoura.

O velho sorri, comendo de uma das bolachas no prato sobre o balcão do caixa.

— Pode ir para casa então, se arrumar, creio que o movimento aqui vai ser baixo por causa disso. Pode ir, meu rapaz. Mas esteja aqui amanhã. Vai chegar um carregamento e gostaria da sua ajuda com as caixas e para organizar tudo.

— Pode contar comigo, chefe. — O rapaz sorri, tirando o avental que usa na loja e indo até a sala de funcionários, retornando já com sua touca laranja, cobrindo seus curtos cabelos castanhos.

O dono da loja acena enquanto vê o funcionário partir. Misael está feliz por poder ir a festa. Sempre quis ir mas a situação sempre foi complicada. Alguns minutos de caminhada e ele já está na frente do prédio simples em que mora. De quatro andares, pintado de marrom mas a pintura já está desbotando e lascando. Ele entra, subindo as escadas até seu apartamento. Vazio, como sempre.

Misael é um jovem órfão, que sempre cuidou de si mesmo. Agradece por não ter memórias de seus pais biológicos pois sente que isso faria ele se perguntar os motivos de ter sido deixado no orfanato em que cresceu. Ele nunca foi adotado por ser considerado agitado demais, sem grandes sonhos e por eventualmente quebrar algumas coisas. Depois de um tempo, ele também não era adotado por ser velho demais. Mas ele nunca ficou triste por isso, pois sempre dava um jeito de estar confortável dentro de sua vida.

Misael, hoje, aos vinte anos, não tem grandes sonhos. Gosta de uma vida simples como a que leva. Tem um emprego fixo, um apartamento pequeno, mas agradável, e não tem grandes preocupações. Vez ou outra se dava ao luxo de beber um vinho, comer algo mais refinado. Contudo, não se importava de passar o dia comendo pão, café e bolachas. Mas hoje é diferente. Ele poderia colocar uma máscara, e ser quem quisesse. Festejar o quanto quiser, indiscriminadamente. Festejar, dançar, beber, comer, beijar e rir. Sobretudo viver. Ele tira sua camisa verde de botões e sua calça jeans surradas e vai para o banheiro, entrando no box do chuveiro e sentindo a água cair por sua pele morena, lavando seu corpo enquanto cantarola uma canção. Ele pega um pouco de xampu e começa a lavar seu cabelo, o esfregando e depois o enxaguando, passando um pouco de condicionador depois. Ele ergue a cabeça e deixa o condicionador escorrer pelo seu corpo, sacudindo o cabelo com suas mãos, que vão lentamente caindo até sua cintura, passando pelo seu peito e barriga.

Ele acaba seu banho e se seca tranquilamente, saindo do box e vestindo uma calça social, de um tom bordô. Misael coloca uma camiseta social azul bebê, deixando os últimos botões abertos, mostrando um pouco de sua barriga. Por cima ele veste um coletinho azul marinho xadrez, com as linhas dos quadrados em branco. Ele raramente usa essa roupa, por falta de motivos para trajar algo tão formal, mas Misael gosta muito de como fica com aquelas roupas, por mais que fujam do seu estilo casual e simples de se vestir. Ele havia comprado uma máscara durante a semana, uma máscara de cor amarela, com aberturas para os olhos e dois buracos simples e pequenos para as narinas. Havia uma boca, com uma expressão de medo, com os buracos para os olhos expressando essa mesma emoções, as sobrancelhas exageradas.

Apesar de apreciar a festa nas ruas, a simplicidade que existe em festejar junto com todos, ele conseguiu um ingresso para essa festa de gala, em uma grande e famosa cada de festas, muito bem frequentada e muito bonita. A casa de festas e confeitaria Napolitana. Misael sempre que lê ou pensa no nome do lugar pensa se os doces mais caros seriam de napolitano. Nessa festa só estaria a nata da cidade, e até de fora, o que significa que lá haveria a melhor comida, a melhor bebida, a melhor música e o melhor tratamento.

Ser tratado bem, não é algo exatamente comum. As pessoas nos bairros mais simples tendem a se tratar bem pelo bem da convivência e pela simplicidade da vida. Mas lugares assim, lugares mais requintados, são espaços onde Misael costuma ser visto como ralé, como plebe, como um qualquer. Não que ele exatamente ligue, mas existe certo gostinho em ser bem tratado. E ele aproveita cada momento disso. Ele bebe das mais variadas bebidas. Da cerveja mais choca, até o whisky mais refinado. Come também, desde alfajores baratos que alguém, ainda mais humilde que ele, vende pelas ruas; até os mais requintados doces e salgados entregues por garçons em bandejas ali na festa.

Misael dança. Com homens e mulheres, em duplas, trios, em grupos. Até mesmo sozinho. Ele respira cansado e sente que precisa ir até o banheiro. Ele apressa o passo até um banheiro dentro do lugar e suspira aliviado enquanto se alivia. Ele volta para a festa, e esbarra em alguém. Alguém vestido em uma roupa rosa, de um material que parecia couro, ao menos dava a aparência. A pessoa também usa uma espécie de capa, azul marinho. Sua máscara cobre todo seu rosto, deixando apenas aqueles dois olhos, que pareciam duas belas esmeraldas, o encarando. Misael fica sem ar por um momento.

— Peço desculpas — ele diz, após um tempo sem dizer nada, apenas realizando a beleza que aquela pessoa possuía.

— Não há porque se desculpar, meu caro. Acho que me distrai um pouco com — a pessoa faz uma longa pausa, colocando a mão no queixo e então rindo — acho que me distrai com o nada. Pelo visto já bebi bastante.

Ambos riem e Misael nota que pela voz e forma do corpo, a pessoa a sua frente deveria ser um homem.

— Posso me desculpar pelo esbarrão com uma dança? — Misael pergunta, estendendo a mão.

A pessoa ri, tímida, colocando a mão sobre aonde deveria estar sua boca.

— Não vejo porque negar um pedido desse. — Ele segura, delicadamente, a mão de Misael. — A propósito, sequer me apresentei. Onde estão meus modos? Me chamo Giovani.

— É um prazer, senhor Giovani, me chamo Misael.

Os dois caminham juntos até aposta de dança e ambos começam a dançar, de vários jeitos, em vários estilos. Começam dançando separados, seus corpos se movendo livremente enquanto seus olhos mantinham-se fixos um no outro. Misael sorri, sentia-se alegre, talvez pelo álcool em seu corpo, talvez por ser um dia de alegria ou talvez houvesse algo na presença daquele sujeito que o alegrou.

— Você dança bem — Misael fala, ao pé do ouvido de Giovani, levando o corpo para perto dele num movimento suave. — E acho que nunca te vi por aqui.

— É minha primeira vez aqui. Vim pelas festas e para resolver umas coisas. — Giovani responde, seu cabelo loiro sacudindo enquanto ele dança.

— E gostou da cidade? — Misael pergunta, ficando a cada passo mais próximo do rapaz a sua frente.

— Está ficando cada vez melhor — ele responde, baixo o bastante para só Misael ouvir.

Misael sorri, tímido.

— Isso foi uma cantada ou…

Giovani ri.

— Cantada, sim — ele responde, dançando enquanto brinca com sua capa, se movendo ao redor de seu parceiro de dança. — Bela a mascara a que você tem. Escolheu por algum motivo? Você sente medo de algo?

— Quem não sente?

— Ótimo ponto.

— A sua também é muito bonita, parece coisa de Veneza. Muito bonita. Simboliza o quão bonito você é?

Giovani ri, tímido, desviando o olhar para o piso do lugar.

— Isso foi uma cantada — Misael fala, com uma voz risonha.

— Ah, sério? — Giovani questiona, rindo.

Misael faz que sim com a cabeça três vezes, e os dois riem. A música muda para algo mais devagar comparado a anterior, agitada e com ritmo forte. Giovani deixa seu corpo se aproximar ainda mais do rapaz, tocando seu peito enquanto ambos dançam devagar, seus corpos se movendo de maneira suave, solta. De um lado para o outro, o mundo ao redor fica desfocado, conforme Misael encara cada vez mais aquela máscara, só lhe permitindo ver aqueles dois olhos. Que o encaram com fervor, fixos. Olhos que sorriem. As mãos de Giovani vão até os ombros de Misael, se apoiando ali enquanto dançam. O outro rapaz engole em seco, respirando fundo e colocando as mãos na cintura dele, suavemente.

Misael não era alguém introvertido ou que não conseguia ficar e beijar com outras pessoas, só naquela noite conseguirá um bom número. Não que contasse, que se gabasse disso. Contudo aquele rapaz, Giovani, está lhe deixando com a barriga gelada, com receio, ansioso. Talvez fosse aquela máscara, a beleza de sua fantasia. Ou algo naqueles olhos, naquela voz suave e macia. No toque de sua mão, macia. A cacofonia daqueles vozes ao redor deles, das mil conversas, gritos, risadas e o fervor da festança parecia um mero sussurros comparado ao quão focado Misael está em admirar Giovani, mesmo vendo tão pouco. O rapaz se estica, por ser um pouco mais baixo, e sussurra no pé do ouvido do parceiro:

— Quer ir 'pra uma outra festa? Uma algo mais privada. Digo, er, não me leve a mal, não estou dizendo que queria te levar 'pro hotel, mas — a voz de Giovani, que havia ficado afobada, volta ao normal após uma breve pausa — só acho que isso merece algo mais calmo. Quero dançar contigo em um lugar melhor. Quero ouvir mais de você. Sabe, conhecer você melhor.

Misael fica confuso. Aquele lugar é o mais requintado que ele conhece. É a primeira vez em muito tempo que ele vem ali, visto tamanha é a classe daquele lugar.

— É que, tipo, aqui é o melhor lugar da cidade — ele justifica. — Digo, onde quer me levar?

— No hotel onde estou, vai ter uma festa lá, já está tendo. E é algo bem simples e calmo, mas é bem bonito, te juro!

A voz de Giovani é algo doce de se ouvir. Aqueles olhos implorando para Misael aceitar. O coração dele sente um pingo de receio, de medo, mas seu corpo quer ir. Ele quer passar mais tempo com aquele rapaz. Ele sorri, gentilmente, acariciando a nuca do rapaz, sentindo os cabelos dele entre seus dedos.

— Vamos só tomar uma última coisa e daí vamos então, pode ser? — Misael sugere.

Giovani faz que sim e ambos atravessam a pista de dança, chegando até o bar do local, onde um homem alto esfregava um copo com um pano.

— O que vão querer? — Ele pergunta.

Misael olha para Giovani.

— Bem, eu vou querer um copo de whisky — o rapaz em traje rosa pede. — E você, Misael, o que vai querer?

Ele pensa um pouco.

— Acho que vou querer um… vamos começar com um Redbull com whisky e depois me vê uma tequila.

O bartender gestua a cabeça positivamente, e começa a preparar ambos os pedidos, primeiro a de Giovani, pela simplicidade, e depois a de Misael. Nesse momento, o rapaz tem um vislumbre do rosto de seu parceiro. Vê o queixo dele, sem nenhuma barba aparente e com a pele lisa. Ele vê os lábios, nem muito finos e nem muito carnudos. E inegavelmente bonitos. Misael engole em seco e desvia o olhar, contendo um sorrisinho.

Os copos, com cada bebida que ele pediu, é deixado a frente de Misael, sobre o balcão. Ele dá um gole do whisky com Redbull e fecha os olhos, fazendo uma careta pelo gosto forte percorrendo sua boca e, subsequentemente, sua garganta. Giovani sorri e coloca sua mão sobre a dele, que está em cima do balcão. Misael leva o olhar para ele e vê aqueles olhos, esmeraldas moldadas debaixo daquela máscara, fitando ele. Talvez desejo, curiosidade, interesse.

— Pode beber com calma. E pode deixar que eu pago. — Giovani pisca o olho direito.

— Opa! — Misael exclama, rindo e levemente zonzo pela subita entrada de uma forte quantia álcool.

Giovani ri.

— Mas me diga, o que você faz? Digo, me fale de você — Ele pergunta.

— Ah, eu trabalho num armazém, numa vendinha de um senhorzinho. Não paga muito mas é o suficiente — Misael explica. — E eu também não sou alguém de grandes necessidades.

Ele dá mais um gole de sua bebida.

— E você, Gio?

— Bem, eu, — ele dá um gole de sua bebida, ficando girando a bebida no copo — eu trabalho com vendas. Também como gerente de uma empresa.

— Uau, estou diante de um figurão então. Digo, não querer parecer algo burro dizendo isso mas é algo grande, sua posição, parabéns pelo cargo. — Misael ergue o copo, em um brinde.

Giovani brinda com ele, dando outro gole de seu whisky enquanto seu companheiro dá um longo gole, fechando os olhos mais uma vez por causa do gosto forte.

— E vai ficar por aqui mais quantos dias? — Misael indaga.

— Fora hoje, mais dois dias — Giovani explica.

— Entendo. Poxa, isso é triste — Misael resmunga. — E o que planeja fazer nesses dois dias?

— Amanhã tenho uma reunião de tarde e na sexta uma de noite. Fora isso? Espero que possa me dar boas dicas. — Giovani aproxima um pouco o rosto.

— E…

— Sim, isso foi uma cantada.

Eles riem e bebem mais, com Giovani acabando seu copo antes. Misael já havia terminado o whisky com Redbull e começa a beber a tequila, acabando o copo em dois longos goles. Ele se levanta de supetão e sente seu corpo ficando para trás, sua pressão subitamente baixando. Giovani o segura.

— Misael, você 'tá bem?

— 'Tô sim, pressão só caiu um momento — Misael explica, se levantando. — E então, vamos?

Os olhos de Giovani sorriem e ele faz que sim. Os dois saem daquela festa, rindo. Abraçados, o braço direito de Misael passando pelos ombros de Giovani enquanto o esquerdo do rapaz em trajes rosas está na cintura do outro rapaz. Eles pagam as comandas e param na porta do lugar, a confeitaria e casa de festas Napolitana, Giovani retira seu celular do bolso, para que possa chama um uber para que ambos pudessem chegar até o local mas Misael, ao notar, coloca a mão em cima do braço do rapaz e fala:

— Creio que seja melhor irmos caminhando, Gio.

— Ué, mas por quê? — O jovem indaga.

— As ruas estão, no geral, cheias. Vai demorar horrores até chegarmos onde quer que seja seu hotel. Onde ele fica aliás?

Giovani mostra em seu celular o endereço e Misael coloca a mão no queixo, erguendo o olhar e cerrando os olhos. Ele sabe onde é mas está com dificuldade de lembrar como chegar até lá. Ele pega a mão de Giovani e desce os primeiros degraus abaixo, puxando o rapaz de leve. Ambos atravessam as ruas da pacata porém festiva cidade. Rindo e conversando. Conversando sobre suas vidas, sobre bebidas, sobre festas, sobre música. Assuntos iam e vinham com uma fluidez incrível. Misael vê encanto na gentileza e no jeito doce de Giovani, enquanto Giovani gosta do jeito brincalhão de Misael e de seu jeito simples. Eles chegam até o tal hotel, que fica em uma rua que se divide em duas, tal qual um “Y”.

O lugar é bonito, com muitos cômodos revestidos por madeira, muito bem encerada. Há muito adereços e detalhes dourados, espelhos e enfeites. Misael fica de queixo caído com tamanha beleza.

— Então, você está hospedado aqui? — Ele pergunta, admirado.

— Sim — Giovani responde, tímido.

Misael assovia.

— Acho que esse é um dos lugares mais chiques da cidade. Digo, não quero soar, sabe, alguém… Não sei. Eu ‘tô admirado de estar aqui. — Misael desvia o olhar, tímido.

Giovani segura sua mão.

— Não há porque ficar com vergonha, e agora que você está aqui, por que não aproveitar? — O rapaz fala, buscando soar acolhedor e confortar Misael.

Ambos se dirigem ao andar abaixo do térreo, onde havia um amplo salão de festas. Misael não consegue segurar sons de surpresa e contemplação conforme adentra aquele lugar. Sala de recepções com garçons servindo pequenos aperitivos e bebidas e belas taças. Mas não é lá que Giovani quer estar com Misael. Eles atravessam uma pista de dança.

— É aqui? — Misael pergunta, erguendo o tom de voz para sobrepor a música alta. — Não muito diferente da onde estávamos, só mais cheio e com a música mais alta.

— Não! É mais para baixo — Giovani fala, o puxando.

— Devo ficar desconfiado? — Misael retruca.

Giovani se vira e faz que não com a cabeça. Eles ainda estavam com as máscaras e essa mesma balada onde estão segue o mesmo tema de festa. Os olhos daquele rapaz seguem sendo tão instigantes a Misael que ele suspira.

— Podemos parar aqui e beber alguma coisa? Digo, estamos perto do bar — Misael pergunta.

— Claro, podemos sim — Giovani responde.

Eles se aproximam do bar, Misael um tanto quanto afastado devido a estranheza que as coisas seguem. Giovani está ao seu lado, casbiçaido.

— O que vão querer? — O garçom do lugar indaga.

Giovani move o olhar para seu companheiro.

— Ah, eu acho que vou querer um copo de vodka — Misael fala, se inclinando no balcão. — Me dê algo forte, sei lá pode ser um copo de smirnoff.

— Eu acho que vou querer uma gin tônica — Giovani fala, colocando o braço no balcão, se apoiando.

— Ei, ‘tá tudo bem?

— Está sim, eu só, sei lá, não quis te parecer suspeito nem nada. Queria te levar ‘pra um lugar bacana, mas se quiser podemos ficar aqui mesmo — Giovani olha para Misael, mas seus olhos tentam fugir de encarar os olhos dele.

— Pode ser, Gio — Misael fala e coloca a mão no ombro dele. — E não há necessidade de ficar tristonho. Não quero você assim.

Misael tira sua máscara e bebe de seu copo, virando ele de uma vez só. Ele bate o copo no balcão e respira fundo. Giovani encara o rapaz, o vendo beber. Vendo, enfim, seu rosto. Misael olha para ele, vendo-o encará-lo enquanto bebia, e sorri para o rapaz, estendendo a mão.

— Podemos dançar, se quiser.

Giovani bebe um gole da sua gin.

— Seria uma grande honra para mim — Giovani fala, segurando gentilmente a mão do parceiro.

— Bem, primeiro termine de beber então — Misael fala. — Ei, garçom, meu bom, me veja uma caipirinha, fazendo o favor.

O garçom começa a preparar e Misael chega mais perto de Giovani. Ainda curioso para ver todo o rosto do rapaz mas sem coragem para pedir ainda.

— Então, digo, eu presumo que você seja, sabe, solteiro. — Misael gira o resto de vodka em seu copo.

— Sim, por quê? — Giovani pergunta, mexendo em seu cabelo.

— Só puxando conversa.

Um silêncio surge entre os dois, com o garçom chegando com a bebida, que Misael bebe rapidamente, com Giovani acabando a sua. Giovani dá dois passos, mais animados, para a pista de dança. Ele estende a mão para seu parceiro, que olha e sorri, colocando sua máscara e aceitando, segurando sua mão e indo para próximo dele, ambos caminhando para a pista de dança.

E a partir desde ponto, a memória de Misael se fragmenta. Em um clarão que acaba em escuro. Ele acorda e começa a se mexer devagar, em uma cama. Antes que conseguisse verdadeiramente acordar, sua cabeça dói. Ele se encolhe de dor, como aquilo doía. Ele sente um lenço, fino e sedoso, sobre seu corpo e o puxa para cobrir o resto de seu corpo. O quarto está escuro mas não o bastante, a luminosidade dói. Demora um pouco até a dor aliviar para ele descobrir a cabeça e se sentar na cama, e ver que não está em casa, na sua casa. Há um papel sobre um criado mudo, ele o pega e cerra os olhos para ler, buscando suprimir a dor.

“Tem um copo de água com um remédio para dor de cabeça do seu lado. Presumo que vai acordar com ressaca. Hidrate-se” é o que diz o papel. “Hidrate-se” está sublinhado várias vezes. Misael toma do remédio e massageia a testa. “O que aconteceu ontem?” Misael se indaga, repetidas vezes. Não consegue se lembrar. Ele se lembra de ir dançar com Giovani, mas e depois? Ele sente pancadas constantes na cabeça, a dor indo e vindo. Ele se levanta. O quarto em que esta é bonito, bem arrumado. Ele vê sua máscara em cima de uma mesinha, junto da máscara de Giovani.

“Será que ele me trouxe para o quarto dele? Eu estou no hotel ainda?” Misael se questiona. No impulso, ele vai abrir a janela e grita de dor, a luz invadindo brutalmente seus olhos e o fazendo fechar as cortinas rapidamente. Sua cabeça volta a doer violentamente. Ele olha para si mesmo e enfim nota que está só com uma cueca. Seus olhos se arregalam, passando a procurar sua roupa pelo quarto mas não a encontra. Ele se pergunta o que houve. Ele encontra na mesa também sua carteira e seus demais pertences, como chaves e celular. Ele se senta na cama de volta e começa a pensar. Giovani iria voltar em algum momento. Ele se deita e fecha os olhos. Consegue se lembrar de ir dançar. Dançou com Giovani e depois tudo fica enevoado. Lembra, subitamente, de estar sentado em uma cadeira naquele lugar, junto de várias pessoas. Ele estava suado, muito suado e ofegante.

Giovani chega diante dele e fala:

— Onde tu tava? — A voz de Giovani estava repleta de preocupação.

Então tudo fica escuro de novo. A sua próxima memória é dele de costas para uma porta, encarando a rua, junto de Giovani, ambos rindo e bêbados. Misael falando:

— Cara, eu ‘tô muito mal. ‘Vamo pegar um táxi?

E a memória acaba. Na seguinte, estão na praia, e ele está com a camisa encharcada e com uma garrafa de Sidra Cereser. Giovani ria muito. Eis que a memória clareia mais um pouco e ambos estão sentados na areia, com Giovani em seu colo, bebendo da garrafa que Misael segura.

Misael, no quarto, sente a vergonha tomar conta de si ao pensar naquilo e sente seu corpo gostar da memória, tendo que respirar fundo. Precisa se acalmar e pensar. Precisa lembrar de tudo o que houve. Ele lembra de estar, depois daquilo, no mar. De braços abertos e encarando o nada. A próxima memória volta e é ele agarrado em uma grade com alguém puxando ele.

— Me solta, eu sou livre! — Misael se lembra de dizer.

A memória acaba, e na próxima ele está em um elevador, confuso. Ele olha ao redor e vê Giovani, sem a máscara, a sua direita. Mas não lembra de seu rosto direito, ele não conseguia manter a vista focada e os olhos totalmente abertos de tão zonzo que estava. Ele olhou para o outro lado e viu um casal, que sorria constrangido. Ele baixa o olhar e tinha um garotinho abraçado ao homem, que fazia carinho na cabeça do garoto.

Na próxima memória, Giovani está cuidando dele, no banheiro dando tapinhas nas costas de Misael conforme ele vomitava. Depois disso, ele se lembra de se deitar com ele, só de cueca.

Ele ouve a porta do quarto abrir e rapidamente sai de suas memórias.

— Misa? Você já acordou? — Misael ouve.

Uma pessoa entra, em uma camisa social azul escura e uma jeans simples. Seu cabelo é loiro, longo e preso em um rabo de cavalo com um pouco caído sobre a testa. Ele vê aqueles olhos, verdes, bonitos e sinceros, e sabe quem é aquele. Giovani.

— Eu te trouxe roupa limpa e um chinelo. É simples mas foi o que eu pude achar — o rapaz fala, tímido. — Como você se sente?

Ele passa muito tempo apenas encarando o rapaz, de queixo caído pela beleza de Giovani.

— Confuso. Eu não lembro direito de muita coisa, er, acho que te devo desculpas.

— Pelo que? — Giovani questiona, se sentando na cadeira da mesinha, após a puxar para perto da cama.

— Você teve que cuidar de mim, eu acho. Lembro de você me ajudando a vomitar.

— E evitar que você pulasse uma grade para uma propriedade privada e te perseguir correndo só de cueca — Giovani complementa, rindo suavemente. — Foi divertido, se me permite. Você foi a melhor companhia que eu poderia desejar.

O garoto deixa uma sacola na cama e Misael a pega.

— Não precisava.

— Você precisa de roupas.

— Quanto foi?

— Relaxa, pode ficar de boa com isso — Giovani fala.

— Como você está? Não ‘tá com ressaca? — Misael questiona.

— Pior que não — Giovani se levanta da cadeira e se senta ao lado de Misael.

— Enfim. — Misael engole em seco, com ele agora ao seu lado, ele sente a mão de Giovani ficando sobre a sua. Ele sorri. — Eu me sinto mal de perguntar isso mas a gente fez algo de noite? Digo…

— A gente ficou. Bastante. Nos beijamos e nos abraçamos até não podermos mais. A gente bebeu também, mais você do que eu — Giovani conta, mexendo no cabelo.

— Eu me lembro de boa parte disso.

— E como se sente? — Giovani se vira na direção dele.

— Bem, sinceramente? Me arrependo somente de não lembrar — Misael ri. — Chegamos a, sabe… — Misael faz um gesto com as mãos

Giovani ri da timidez dele por saber como é. Ele passa a mão pelos cabelos de Misael.

— Não concorda comigo que seria errado eu ter feito sexo com alguém bêbado demais para conseguir vomitar sozinho?

— Você tem um ótimo ponto, obrigado. Não que eu não fosse aceitar, mas sinceramente, obrigado.

— Não vejo necessidade de pedir obrigado, digo, isso é algo muito, uh, sabe? Básico. — Giovani dá os ombros e passa a mão pelo pescoço e vê as marcas que acabou deixando.

Misael aproxima o rosto e beija Giovani, devagar porém não por muito tempo. A dor permanece.

— Bebe mais água. — Giovani se estica, pega a sacola que trouxe e tira uma garrafa d’água. — Bebe. Você precisa se hidratar.

— Ah vai cuidar de mim agora? — Misael ri e pega a garrafa.

— Não seria nada mal — Giovani responde, acariciando os cabelos do parceiro enquanto ele toma da água. — Bom eu vou precisar sair daqui há pouco para ir fazer umas coisas. Mas eu amaria poder sair contigo de novo.

— Podemos jantar juntos. Ou só passear pela praia. Ver um filme. — Misael começa a listar, animado.

— Eu amaria cada uma dessas opções.

Misael fica encarando o rosto de Giovani, alisando seu rosto. Encarando cada parte para memorizar, com medo de que viesse a esquecer. Com medo que jamais visse de volta. Mas sabe que, não importa o que aconteça, sempre vai lembrar daqueles olhos, duas esmeraldas. Não importa a máscara que esconda o resto.

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