Se o mundo fosse um jardim a beleza de minha mãe de certo a destacaria como flor; Era uma mulher alta de curvas definidas e lábios molhados e desenhados por pintores celestes, infelizmente sua beleza era escondida em uma maldita doença. Sua cabeça parecia ser vaga ou apenas ocupada por reflexão tão profunda que tornava sua fala inexistente, seus movimentos eram trêmulos e normalmente acompanhados por outra pessoa, a única coisa que permanecia era o seu olhar... Seu olhar esverdeado era contornado por trevas, e sua pupila parecia ser distinta de uma cor, e sim descrito por sentimentos de contemplação. Sai de casa em tempos em que sua sanidade era plena e seu desejo de observar e analisar era espontâneo e contínuo, me formei em Direito no centro do país, até que me ligaram. Relataram-me que tudo começou em uma tarde de julho, ela andava pela casa, mas parecia não reconhecer o espaço em que habitou por tanto tempo – “Onde estou? Quem é você? Por favor, me diga onde estou.” – Foram as suas primeiras palavras depois de horas perambulando pelo casarão. Nos dias doravante ela passou a mudar, parecia um espirito desencarnado no corpo errado, então um dia ela caminhou até seu quarto e ficou de cócoras, e se manteve em silêncio.

“O silêncio é o preparo de uma arma, talvez jamais disparada.”

Quem me aguardava na casa eram Barnabas e Berenice, os sobrinhos mesquinhos de minha mãe que me apressei a expulsar a golpes da casa. As próximas noites passei desperto com um copo de gim, toda noite tinha alguém para me dizer que minha mãe não iria desejar me ver assim, ver... Com os seus olhos. Suas pupilas dilatavam em tons amarelados que retiravam a magia que estava ali presentes, seu corpo parecia ser sua prisão, então ela dormiu.

Não sei o que me aconteceu... Apenas... Ela dormiu, a coitada não conseguia mais ver, nem ouvir, nem falar, ela não reagia... Alguém precisava ter a sua visão, nervo após nervo eram cortados por uma faca velha e suja, o sangue manchava a minha mão sem experiência clínica, minha mãe grunhia... Mãe... Sua doença a impossibilitava de sofrer, a dor quando sentida não tinha a permissão do corpo de ser manifestada.

No dia seguinte bani todos os empregados da casa, ninguém poderia saber daquilo. Minha mãe andava com uma enorme faixa branca amarrada a onde os seus olhos já estiveram, em sua demência ela respondia a minha voz com um ranger de dentes de pavor, o meu toque em sua pele gerava um bambear em seu andar, talvez ela chorasse em sua prisão. Guardei seus olhos em potes negros que se localizavam no escritório de meu falecido pai, de noite eu os retirei e os passei de mão em mão, a magia ainda estava neles, o amor pelo mundo estava em minhas mãos. Coceiras doentias na parte superior de minha cabeça me perturbavam então como vindo do nada o horror e o medo se depositaram em meu coração, depois veio à fúria, esmaguei um dos olhos em minha mão. Imperfeito, imperfeito. A loucura e insanidade me percorreram o corpo e me fizeram em correr em gritos pela casa, peguei uma das facas antigas de minha mãe e cortei o meu olho esquerdo, minhas forças físicas e mentais foram exauridas e cai no chão da cozinha, sangrando, então ela apareceu. Seus passos ainda trêmulos a trouxeram até mim, a vi me encarar e sentir a minha presença, o seu outro olho rolou no chão e parou na minha frente, ele me analisava... E por Deus, depois de seu luto silencioso, eu a vi sorrir... Não como um humano, e sim como um demônio vindo das mais profundas grutas do abismo. Meus olhos se fecham, só ouço uma risada abafada, nada vejo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!