Olhos da Meia-noite
7 Humanos e Vampiros
Notas iniciais
A noite estava apenas começando, e Milena queria aproveitá-la. Lady Anthonya não era a favor, afinal, Milena era apenas uma Criança da Noite, sob sua tutela. E o que mais a amedrontava era a Jyhad.
— Não creio que seja a hora de sair...
— Não precisa preocupar-se comigo, senhora. Eu sei o que não devo fazer.
— Milena, quero que saiba que no mundo aí fora não existem bonzinhos. Você encontrará outros clãs, que adoram brigar. Cuidado.
— Eu sei. Tomarei cuidado.
— Bem, você faz parte de sétima geração de vampiros. É bastante forte, mas ainda é uma Criança da Noite.
— Sétima geração de vampiros?
— Sim. A partir dos Antediluvianos, contamos as gerações. Eu fui abraçada por um Tremére da quinta geração, portanto, sou da sexta, e você, da sétima geração. Isso nos faz mais fortes, pois, quanto maior a geração, menos pontos de sangue temos, mais fracos somos. Você pode encontrar algum vampiro mais fraco, apenas por ser de uma geração mais avançada que a sua. Mas, se ele for bem treinado, poderás sair perdendo.
— Não se preocupe. Tomarei cuidado.
Milena sai da sala num vôo pela janela. Lady Anthonya a observa sair, e fica parada, no centro da sala, com os olhos fechados, até não sentir mais o cheiro de sua aprendiz.
Milena passa por lugares que antes costumava freqüentar, e se lembra de seu antigo namorado. Não sabia o que havia acontecido, mas era melhor que não o visse mais. Ele não iria gostar de vê-la. Apesar de não estar mau, muito pelo contrário, achava que estava até mais bonita, mais sensual... mas era melhor não vê-lo mais.
Resolveu entrar num bar. Estava cheio e, àquela hora da noite, somente gente barra pesada. Mas Milena não se importava mais com isso. Agora, podia defender-se sozinha, pelo menos, tinha certeza que para derrubá-la teriam que suar muito.
Ao entrar, todos olharam para ela. Esguia, Milena não titubeou e continuou andando até o balcão. Sentou-se num banco e esperou o barman se aproximar.
— Vodka pura com gelo.
— Pode deixar.
Milena nunca tinha tomado bebida forte, mas aquela noite teve vontade. Apesar de nem conseguir tocar no copo. O gosto não era dos melhores, parece que tudo perdia o gosto e o tempero depois que se tornou um vampiro.
— Até que enfim uma carne nova no pedaço.
Milena ouviu a voz de trovão no meio do bar, mas nem piscou. Continuou olhando para seu copo. Algumas pessoas no bar riram. Cachorrão se aproxima de Milena.
— E que curvas dessa gata!
Milena gira no banco e se depara com um troglodita, com cabelos compridos emaranhados, braços musculosos expostos, mostrando tatuagens de diversos dragões, suas pernas metidas num jeans rasgado, e com a sola da bota amassava um cigarro no chão. Em sua orelha, brilhava um piercing. Ela apenas encara-o, deixando-o nervoso. Dava para sentir o cheiro.
— Adoro quando uma garota me olha assim! Fico louco!
As pessoas riem. Milena não se move. Cachorrão continua provocando.
— Linda! E que pele! Tô louco prá mergulhar nessa pele, e sentir o cheiro dela!
— Cachorrão, já chega!
A voz vem do fundo do bar, para onde todos olham, com exceção de Milena e Cachorrão, que continuam se encarando. Ricardo se levanta de sua mesa ao fundo e se aproxima dos dois.
— Eu decido quando já chega.
Cachorrão segura bruscamente os cabelos de Milena, aproximando seu rosto do rosto dela.
— Pare com isso, deixe a garota!
Mas Cachorrão não se importa com os apelos de Ricardo. E nem era preciso. Milena dá uma joelhada entre as pernas de Cachorrão, que se afasta gemendo.
— Sua vadia desgraçada!
Milena se levanta e fica de pé na frente dele, que tira da cintura uma adaga.
— Você agora vai ver só uma coisa, vagabunda!
Milena dá um salto e fica de pé no balcão.
— Como ela fez isso?
Ricardo pensava que Milena precisava de ajuda, mas estava enganado. Milena dá um chute na mão de Cachorrão, atirando a adaga longe. Salta e se segura em uns ferros no teto do bar, batendo com os dois pés no peito de Cachorrão, que com o impulso cai longe, derrubando umas mesas. Milena estende a mão para Ricardo.
— Vem.
Ricardo segura a mão de Milena e no segundo seguinte se vê ao seu lado, em cima do balcão. A essas alturas, todo o bar está em polvorosa, todos brigando entre si.
— Vamos sair daqui.
Milena corre por cima do balcão seguida por Ricardo, até saltar à porta do bar. Deitado no chão, Cachorrão vê os dois saírem.
— Vadia... você me paga!
Fora do bar, Milena e Ricardo caminham em silêncio. Chegam à mesma rua escura, onde Milena passou pela morte. As lembranças daquela noite estão vivas dentro dela, até parece sentir a dor novamente. Toda essa concentração foi quebrada pela voz de Ricardo.
— Eu não sei o seu nome.
— Milena. E o seu?
— Ricardo.
— Obrigada, Ricardo. Você foi muito legal me defendendo lá no bar.
— Apesar de você não precisar?
Milena e Ricardo sorriem.
— Como você fez aquilo?
— Aquilo o quê?
— Aquele salto, cair de pé no balcão, caramba! Foi demais!
— Digamos que... eu tenha boa impulsão!
Milena pára de caminhar.
— Bota impulsão nisso!
— Shhhhhh!
Milena pede silêncio.
— Aconteceu alguma coisa?
Milena tapa a boca de Ricardo com uma das mãos, e se encosta na parede de um casarão, segurando Ricardo contra seu corpo. Sem luar, a noite estava incrivelmente escura. O cheiro de vampiro estava impregnado no ar. De acordo com a coleção de essências de sua senhora, podia reconhecer o clã Malkavian. Seria perigoso estar ali, ainda mais com um humano por perto. Podia ouvi-los conversar, eram dois.
“— Cara, a Fome tá pegando!”
“— Fala não, Lázarus. E o pior, é que eu tô sentindo cheiro de caça.”
Milena focaliza os olhos para o fim da rua. Vê os dois Malkavian caminhando.
“— Mas tem um vampiro com ela. Só que não tá comendo!”
“— Vamos lá, quem sabe ele divide com a gente!”
Os dois Malkavian começam a correr e Milena se desespera. Milena se abraça com Ricardo e os dois voam para o telhado do velho sobrado. Mal tocam os pés nas antigas telhas, os dois Malkavian chegam.
— Ora, ora, ora. O que temos aqui!
Ricardo não entende absolutamente nada. Olha para Milena, mas ela se coloca em sua frente, de costas para ele, olhando nos olhos de Lázarus.
— Uma Tremére. Posso sentir o cheiro no ar. Que tal... dividirmos a caça?
— Ele não é caça... e não se aproximem!
— Uhuuuuuu! E é brabinha! Melhor ainda.
Milena solta Ricardo, mas fica em sua frente.
— Se você não vai dividir, a gente vai aí pegar.
Lázarus salta para cima de Milena, que faz o mesmo. No ar, Milena arranha o braço de Lázarus, arrancando a manga de sua camisa.
— Vadia!
Milena rapidamente fica entre Ricardo e Lázarus, cujo braço se regenera rapidamente.
— Não queira saber o que aconteceu ao último que me chamou de vadia.
Lázarus salta para Milena, que, abraçando Ricardo, rola no chão, passando para o outro lado. O outro vampiro Malkavian, apenas observa. Lázarus bate nele.
— Idiota! Faça alguma coisa!
O Malkavian se aproxima de Milena, que se transforma, seus caninos crescem e ela dá um rugido, como de leão, e ele volta para o lado de Lázarus.
— De jeito nenhum. Ela é muito forte!
— Tenha certeza disso!
Lázarus salta novamente e Milena estende a mão direita, mantendo Lázarus no ar.
— Tremére duma figa! Me ponha no chão!
— Saia de perto de mim e desse humano! Ou vai se arrepender! Saiba que sou mais forte que você e seu clã!
— Como pode ter tanta certeza?
— Sou da sétima geração.
O rosto de Lázarus mudou. Pelo visto, o plano de Milena teria dado certo. Apelou para sua geração. Não tinha certeza da geração de Lázarus, mas, ao cortá-lo no braço, sentiu seu sangue um pouco mais fino; não tinha certeza, mas ele podia ser de uma geração avançada, apesar de bem treinado. Como imaginou, ele não sabia que era apenas uma Criança da Noite.
— Ponha-me no chão!
Milena abaixa a mão suavemente, Lázarus aterriza do mesmo modo.
— Vamos embora. Mas saiba que isso não vai ficar assim!
Milena vê os dois Malkavian descerem do telhado devagar e fica alerta, até sentir seu cheiro longe. Retraindo seus caninos, volta-se para Ricardo, assustado.
— O... o... que aconteceu? Eu....
— Você precisa descansar.
Milena toca a testa de Ricardo, descendo os dedos até a ponta do nariz. Seu corpo amolece e ele desmaia nos braços de Milena. Ela procura em seus bolsos sua carteira e não encontra um endereço. Erguendo-o nos braços, segue seus instintos; procura na noite o cheiro do rapaz e segue-o, até achar seu lar. Um apartamento com varanda, ela o deixa descansar e procura uma janela aberta. Abre a porta por dentro e o leva para sua cama. Deitando-o lá, fica parada, observando-o dormir. Em seu pescoço, uma veia pulsa, mexendo com os instintos animais de Milena, que fecha os olhos e sai pela janela, voando para a noite.
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