Olhos Tristes
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Então, esta é a minha primeira fanfic do ZAYN. Eu a escrevi já tem um tempinho, mas só agora decidi publicar. Espero que gostem! Por favor, comentem dizendo o que acharam! Obrigada!
Xoxo
Aconteceu em uma tarde perfeitamente comum. As coisas mais extraordinárias acontecem nos momentos em que estamos com a guarda baixa. Tipo naqueles dias em que somos pegas no meio das tempestuosas ruas londrinas, com um guarda-chuva quebrado e um cabelo caoticamente bizarro. É algum tipo de piada interna do Universo. E eu era a palhaça naquele dia.
Eu entrei de qualquer jeito na primeira loja que vi pela frente, sem nem me importar em olhar o nome. O dono pareceu assustado quanto eu fechei violentamente a porta, tentando conter a fúria do vento e evitar que o lugar inteiro se alagasse. Eu arruinei completamente o chão dele, que só então eu percebi que era completamente coberto por um carpete marrom-claro. Oops.
— Boa tarde. — Eu cumprimentei no pior dos humores. — Desculpa. — Acrescentei, mais gentilmente, tentando me acalmar.
— Boa tarde — Ele respondeu, parecendo confuso. Ele claramente não sabia o que fazer. Mas se recuperou rapidamente. — Por favor, entre! Posso pendurar seu casaco, madame? Você deve estar congelando!
— Obrigada — Eu disse em tom de desculpas, tirando meu casaco encharcado e entregando-o para ele. Minha blusa preta não estava muito mais seca.
Só então eu olhei em volta. A loja era pouco maior que o meu apartamento, mas confortável. A julgar pela decoração e pelo tipo de móveis, eu rapidamente adivinhei que se tratava de uma cafeteria. O cheio também entregou tudo. O dono me guiou a um assento nos fundos da loja, próximo ao fogo. Em frente a ele, havia uma mesinha de madeira baixa para as pessoas colocarem suas xícaras.
Eu me sentei ali, imediatamente me sentindo melhor. Eu gosto de lareiras. Elas sempre me fazem me sentir melhor por alguma razão. Talvez porque elas me lembrem que eu estou vivendo a vida dos meus sonhos de quando era adolescente. Quero dizer, quando eu era adolescente no Brasil, tudo o que eu queria era ir para um lugar onde eu pudesse realmente apreciar uma boa lareira. Agora eu tenho isso aqui na chuvosa Londres.
— Você gostaria de um pouco de chá? — O velho homem perguntou.
Eu estava prestes a responder quando a porta foi escancarada de novo, assustando a nós dois. Um homem entrou cambaleando, de cabeça baixa, tentando lidar com o vento furioso que vinha do lado de fora. O dono da loja correu até lá e o ajudou a fechar a porta, não sem alguma dificuldade. Para garantir que ela não seria aberta de novo daquele jeito brusco, ele a trancou e pôs uma barra de ferro através dela.
— Isso deve servir. Eu sinto muito, mas este estabelecimento não será abrigo para mais nenhum pedestre. — O velho assentiu, como se tentasse convencer a si mesmo de que tinha feito o melhor para o seu negócio. — Eu sinto muito, sir. O senhor está bem? Posso pendurar seu casaco?
O recém-chegado então levantou a cabeça e meu coração congelou por um segundo. Sem chance! Mas eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar. Não havia dúvidas.
— Obrigado. — Ele disse, tirando o casaco. A voz! Uma das minhas vozes preferidas no mundo!
Ele então olhou diretamente para mim, aparentemente me vendo pela primeira vez. Eu tentei agir normalmente, mas a julgar pelo olhar dele, eu provavelmente fiz algum tipo de cara ou movimento estranho. Eu queria falar, mas meu cérebro estava totalmente em branco, então foi ele quem teve que começar a conversa:
— Oi — Ele disse em uma voz baixa, olhando para baixo. Tão tímido! Eu sabia que ele era tímido! Ele é adorável! E eu estava apavorando o coitado com minhas péssimas maneiras! Que vergonha, menina!
— Boa tarde! — Eu finalmente consegui me controlar e tentei sorrir para ele, ignorando o fato de que meu rosto provavelmente estava vermelho pimentão, considerando o calor repentino nas minhas bochechas. Matando a fangirl que eu estava tentando sufocar dentro de mim, ele retribuiu o sorriso.
— Você gostaria de uma xícara de chá? — O dono da loja estava completamente alheio a tudo. Ele não fazia ideia de quem era seu cliente. Não eu, quero dizer. Ele. — Agora, acho que você vai querer vir e se sentar perto do fogo — O velho homem orientou — é bem mais quente aqui. Aposto que a senhorita não vai se importar, não é? A propósito, o que você disse que queria beber mesmo, madame?
Me fala, o que acontece quando você pega duas pessoas tímidas que nunca se encontraram antes e as coloca para sentar uma de frente pra outra em uma cafeteria aleatória? Exatamente. Rolou aquele contato visual estranho, depois nós dois olhamos para baixo, para a mesa, e não dissemos nada por um momento. Aí nós dois começamos a nos sentirmos sem graça por não responder ao pobre homem (bom, eu sei que eu fiquei sem graça) e olhamos de volta para ele e respondemos ao mesmo tempo:
— Chocolate quente! — Nem preciso dizer que isso levou a outra troca de olhares estranha e a um profundo silêncio constrangido.
— Chocolate? — O dono perguntou, como se essa fosse a coisa mais inesperada do mundo. — Bom, vai ser isso, então. Com licença. — E para o meu desespero, ele saiu por uma pequena porta que ficava num canto, que eu presumi que levava à cozinha.
Eram o meu melhor sonho e o meu pior pesadelo combinados. Sonho: encontrar um dos meus ídolos aleatoriamente. Pesadelo: ser deixada sozinha com um estranho, sem saber como começar uma conversa.
Conforme os segundos se alongavam, meu coração pareceu encolher enquanto o meu estômago se revirava desconfortavelmente. O que eu podia dizer? Eu sabia tudo a respeito do homem sentado à minha frente. Literalmente. Mas como saber que ele tinha medo de altura me ajudava? Aliás, não era estranho que eu soubesse disso, sendo que nunca o encontrei antes? Que ótimo! Como eu falo com ele sem parecer esquisita? Como eu ignoro todas as informações aleatórias sobre ele surgindo na minha mente e finjo que sou uma pessoa normal?
— Anna — Eu estendi a mão para ele. Ah, é assim que se faz! Valeu, personalidade impulsiva!
Ele olhou para a minha mão, parecendo meio inseguro por um momento, mas então, para o meu grande alívio, ele a apertou.
— Zayn — Ele sorriu.
Aparentemente, eu não fui a única que não conseguiu lidar com aquele sorriso, porque como por magia, a luz caiu naquele exato momento e as lâmpadas se apagaram. Nós dois olhamos para cima. Felizmente, o fogo ainda estava queimando forte na lareira, então nós não fomos deixados no escuro total, mas eu percebi que o Zayn se encolheu levemente no assento, parecendo desconfortável. Ele tem medo de escuro, aquela vozinha me lembrou. Eu tive que segurar a vontade de me levantar, ir até lá e abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem.
— Ninguém entre em pânico! — O velho homem gritou da cozinha. — O fogão ainda vai funcionar sem energia! O chocolate quente continua a caminho!
Zayn e eu rimos, e eu fiquei feliz em ver que ele relaxou um pouco.
— Eu estava quase entrando em pânico — Ele comentou.
— Eu também. Tava surtando legal aqui.
Nós rimos levemente de novo eeeee... o silêncio estranho voltou. Legal. O que eu digo agora? Eu peço um autógrafo? Uma selfie? Eu finjo não saber quem ele é? Mas ele provavelmente sabe que eu sei. Quero dizer, eu sou uma garota que claramente tem menos de sessenta anos (eu espero que isso esteja claro). Eu duvido que tenha qualquer pessoa abaixo dessa idade neste país que não tenha ouvido falar de Zayn Malik. Então o que eu faço agora?
— Que tempestade, hein? — Clima. Sempre fale do clima. Britânicos amam falar sobre o clima.
— É.
E pessoas tímidas não gostam de conversa furada, sua idiota.
Silêncio estranho, silêncio estranho, o que eu faço, o que eu...?
— De onde você é, Anna?
Anna? Quem é Anna? Ah, é. Esse é o meu nome. Espere um minuto. Zayn Malik acabou de dizer o meu nome?
— Ahnm? — Olha que resposta brilhante, povo!
— Você tem um sotaque diferente.
— Ah... E-Eu sou do Brasil.
— Brasil! Eu amo o país!
NÓS TAMBÉM TE AMAMOS!! Pera. Nós não estamos no Twitter. Isto é a vida real. Má ideia gritar isso pra ele no momento.
— Sério?
— Sim, eu já estive lá uma vez.
Ele está me testando? O que eu digo agora? “Eu sei”? Ou eu pergunto “sério?” de novo? Isso vai me fazer parecer retardada?
— Que legal! Do que você gostou mais lá? — Ok. Isso serve. Boa, Anna!
— De tudo. O país é maravilhoso. O sol, as cores… Tudo é tão diferente daqui.
— O sol. Verdade. Eu sinto falta dele neste exato momento.
Ele riu. Era tão fácil fazê-lo rir, mesmo com as minhas piadas ruins! Tinha como ele ficar mais fofo?
— Há quanto tempo você está em Londres? — Ah, legal. Eu estava sendo entrevistada pelo meu próprio ídolo. Como essas coisas acontecem comigo?
— Um ano e meio. Eu estou estudando na Universidade de Oxford. Curso de Letras-Inglês.
Ele assoviou, depois sorriu:
— Menina inteligente!
Foco. Tente não se lembrar do fato que ele disse mais de uma vez que ele gosta de garotas inteligentes, tente não pensar nisso, não pense nisso... Ele tem namorada, caramba!
— Nem sou. — Eu corei.
— Não seja modesta! — Ele pode ser bem assanhadinho também, hein?
— Eu não sou. Eu fiz um teste de personalidade online um dia desses e ele disse que “ser humilde” é a minha característica pessoal mais fraca. Minha irmã diz que eu sou uma pessoa horrível e arrogante. — Que diabos você está contando pra ele? Você é doida? Esse não é o tipo de coisa que você sai contando para as pessoas! Especialmente não para ESSA pessoa!
— Bom, e daí? Eu fiz um teste online uma vez, e simplesmente aceitei o fato de que eu sou uma mulher. E minhas irmãs dizem que eu sou irritante. Eu sou? — E ele fez sua melhor cara de “e daí?”, a cara que eu imagino que ele faria se ele estivesse no vídeo de History, naquela parte que diz “aren’t we?” Eu ignorei lindamente a dor que senti quando esse pensamento passou pela minha cabeça e ri da piada dele.
— Então na verdade você é uma mulher?
— Sou. Zayna, prazer.
— Prazer, mademoiselle.
— Ah, então você fala francês também?
— Só, tipo, uma frase.
— Pena.
— Por quê?
— Bom, eu ia dizer que você poderia pegar um trem e visitar a torre Eiffel, mas agora que eu parei pra pensar... Você poderia? Eu não sei mais.(1)
— Verdade. É uma boa pergunta.
— O Reino Unido realmente ferrou com tudo dessa vez, não foi?
— Totalmente.
Eu não conseguia acreditar em como era fácil conversar com ele, agora que tínhamos começado. Meu coração ainda estava dando saltos mortais no meu peito, obviamente, mas se eu ignorasse isso, era como se eu estivesse falando com... Bom, com um garoto normal de 23 anos, sabe?
Nós continuamos falando sobre assuntos aleatórios e, conforme os minutos foram se passando, eu finalmente comecei a relaxar. Eu juro que por um momento, eu acabei esquecendo quem era o homem à minha frente. Eu esqueci o fato de que ele era um dos meus maiores ídolos desde que eu era adolescente. Eu esqueci que ele tinha milhões de outros fãs por aí. Por alguns minutos preciosos, ele era apenas um cara com quem eu estava conversando.
Nós estávamos compartilhando outra risada quando o dono da loja voltou, surgindo de repente da cozinha e quase me matando do coração. Zayn riu do jeito que eu pulei no sofá.
— Desculpe, madame! Eu não quis assustá-la. Essa porta é meio escandalosa, não é?
— Tudo bem. Para de rir, Zayn!
— Você devia ter visto sua cara!
— Zayn? — O homem parou no meio do caminho enquanto se abaixava para pôr a bandeja com as nossas xícaras na mesinha. Zayn imediatamente congelou na minha frente. — Onde foi que eu ouvi esse nome?
Por um estranho momento, ninguém disse nada. Zayn engoliu em seco e eu pude dizer pela expressão no rosto dele que ele estava tentando encontrar uma saída. Ele parecia tão assustado, coitado, que minha mente imediatamente evocou a imagem do menininho na capa do primeiro álbum dele.
— É um nome bem comum em certos bairros de Londres! — Eu disse, num tom jovial. — É um nome árabe, sabe? Então, ele é bem comum em bairros onde os muçulmanos vivem.
Zayn olhou para mim sem acreditar. O velho homem pensou no assunto por um segundo, depois assentiu, completando o movimento e pousando nossas xícaras sobre a mesa.
— Deve ser isso. Você é muçulmano, sir?
— Sou.
— Entendo, entendo. Espero que você e sua família estejam bem. São tempos estranhos, agora depois do Brexit. As pessoas estão enlouquecendo!(2)
— Eu sei. Nós estamos sendo cuidadosos. Obrigado, sir.
— Por favor, não me chame de sir, sir. Meu nome é Todd.
— Todd. — Zayn sorriu.
— Bem, aqui está o seu chocolate, senhores. Agora, vocês me desculpariam? Eu não quero ser mal-educado, mas eu tenho uma filha, ela está no andar de cima e doente como um frango velho, a pobrezinha. Ela tem oito anos de idade, ela deve estar com medo de toda essa tempestade. Eu estava indo para lá para vê-la quando você chegou, senhorita.
— Ah, tadinha dela! Por favor, vá vê-la. Nós vamos ficar bem aqui.
— Sim, por favor. Nós estaremos ok. — Zayn concordou, sorrindo para mim.
— Obrigado. Obrigado, senhores. Eu prometo que volto logo. — Dizendo isso, o velho homem se apressou e desapareceu através de outra porta no canto oposto. Nós ouvimos atentamente conforme o som de seus pés pesados subindo as escadas desapareceu lentamente.
Assim que nós tivemos certeza de que ele tinha ido, Zayn olhou para mim, franzindo as sobrancelhas e tentando conter o riso, fazendo a cara mais engraçada do mundo:
— Doente como um frango velho?
Nós rimos alto como dois adolescentes idiotas.
— Coitada mesmo! — Eu comentei.
Quando nós paramos de rir, Zayn manteve o sorriso no rosto enquanto olhava para mim.
— Obrigado. — Ele disse, num tom caloroso.
— Pelo quê?
— Por não me entregar. Por agir normalmente perto de mim. Por me fazer me sentir como um cara normal, mesmo que só por umas duas horas.
Eu senti o calor em meu coração ao ouvir a nota triste na voz dele quando ele disse a última frase. Como fã, eu tinha ficado com raiva quando ele deixou a banda, dizendo que queria ser “um cara normal de 22 anos”. Eu pensei que era uma desculpa ridícula. E eu fiquei brava quando pouco depois disso ele lançou um álbum, claramente indo contra suas palavras. Mas naquele momento, eu acreditei nele.
— Mas você é um cara normal, Zayn. — Eu disse, num tom gentil. — Um cara muito talentoso e, Gigi que me perdoe, lindo de morrer. Mas ainda assim, normal.
Ele sorriu timidamente, olhando para as nossas xícaras. Eu olhei para elas também.
— Mas então. A gente vai beber esse chocolate quente, ou vamos esperar até ele virar chocolate frio? — Eu peguei minha xícara sem esperar pela resposta. Estava bem quente mesmo, mas o calor pareceu bom nas minhas mãos congeladas.
Ele riu, se inclinando para frente para pegar a outra xícara.
— É tão fácil fazer você rir! Minhas piadas são horríveis, do que você está rindo?
— Elas são tão ruins que acaba sendo engraçado.
— Não concorde comigo quando eu digo que minhas piadas são ruins! Você devia dizer “Que é isso, Anna, suas piadas são incríveis! Você é a garota mais engraçada do mundo!”
Ele riu de novo.
— Is it too late to say sorry?
— Se falar isso de novo, eu vou fazer você cantar — avisei, tentando conter um sorriso. Nós estávamos agindo feito idiotas de novo.
Ele ergueu a xícara:
— Um brinde à garota mais engraçada do mundo e suas piadas terríveis.
— E ao cara mais normal desta Londres tempestuosa, que inclusive tem um nome absolutamente comum. — Eu ergui minha própria xícara. E nós bebemos em nossa homenagem.
Não foi o melhor chocolate quente da minha vida, mas também não estava ruim. Nós bebemos em silêncio, observando o fogo na lareira. O silêncio não parecia estranho agora. Era bom, confortável. Amigável. Eu até comecei a me sentir meio sonolenta, conforme o som da chuva lá fora finalmente começou a diminuir.
Quando o som ficou realmente baixo, eu me toquei de repente que meu tempo com o homem à minha frente estava quase acabando. Logo ele iria se levantar e dizer que estava indo embora. Ou o velho homem voltaria e diria que sua filha tinha finalmente dormido e que ele iria receber nosso dinheiro e abrir a porta para nós.
Eu não queria trazer o assunto à tona de novo, mas eu realmente não tinha mais tempo. Então, eu quebrei o silêncio:
— Zayn? — Eu esperei até ele olhar para mim. — Olha, eu não quero estragar isso pra você, então eu não vou pedir um autógrafo, uma foto, nem nada assim — Eu fiz uma breve pausa, e ele assentiu, com o rosto sério. — Mas tem uma coisa que eu sempre quis perguntar para você. Posso? Você não precisa responder se não quiser.
— Tudo bem. — Ele disse, num tom calmo. Sua voz saiu meio rouca, então ele pigarreou antes de acrescentar: — Pode perguntar.
Eu respirei fundo para ganhar coragem e tentei pôr todo o amor que eu sentia por ele na minha voz ao fazer a pergunta:
— Por que você parece sempre tão triste?
Ele ergueu as sobrancelhas e eu percebi que ele estava surpreso. Ele claramente estava esperando uma pergunta completamente diferente.
— Eu pareço?
— Sim. Eu percebi isso faz muito tempo. Seus olhos... Você parece tão triste, o tempo inteiro. Eu pensei que talvez… Eu pensei que talvez você estivesse infeliz… Você sabe. Antes. Mas mesmo agora... Agora, neste exato momento, quando eu olho nos seus olhos… Você parece… Só… Triste.
Zayn pareceu ponderar a questão por alguns segundos. Eu esperei, já lamentando por ter perguntando. Eu estava prestes a falar para ele esquecer, quando ele finalmente falou:
— Bom, eu não sou.
— Não é?
Ele olhou para mim com uma expressão grave.
— Você sabe. Triste. Eu não sou. Eu na verdade nunca estive mais feliz na vida.
— Bom, eu fico feliz por ouvir isso, então. — Eu disse imediatamente, rápido, tentando consertar o meu erro. — Me desculpa por perg...
— Ei, devagar! — Ele ergueu as mãos para me interromper, e então riu levemente. — Relaxa, garota! Deixa eu terminar! — Ele sorriu.
Eu sorri de volta, corando.
— Desculpa.
— Como eu dizia... A sua pergunta é interessante. Ninguém nunca tinha me dito isso antes. Que eu tenho olhos tristes. — Ele olhou para a lareira. O fogo estava morrendo, e o ambiente provavelmente pareceria escuro demais, se meus olhos não tivessem se acostumado.
Zayn encarou as chamas que se extinguiam, e enquanto isso, eu vi de novo. Aquela tristeza permanente no canto dos olhos dele. Ela estava lá o tempo todo, mesmo quando ele estava sorrindo. É algo que sempre me incomodou, e por outro lado também sempre me fascinou, de alguma forma. Era parte do mistério dele, eu acho. Parte do que o tornava tão bonito e tão interessante. Eu me lembrei naquele momento de que às vezes eu perdia o sono à noite, tentando imaginar o que o deixava tão triste o tempo inteiro e desejando poder fazer alguma coisa a respeito.
— Eu acho que existe essa espécie de melancolia em mim. — Ele falou, finalmente. — Não tristeza, mas melancolia. Não é uma coisa ruim. Eu não estou ferido ou sentido dor. É só que… Você às vezes também olha para a vida e só... Deseja que você pudesse voltar atrás? Ou ir além, não sei? Tipo… É como se este mundo, este momento, agora mesmo, ele… É como se eu soubesse que existe mais, muito mais do que os olhos podem ver. Alguma coisa transcendente, alguma coisa além do espaço e do tempo. Alguma coisa que eu posso sentir, mas não ver; adivinhar, mas não tocar. Eu me pergunto se outras pessoas também sentem isso. Ou talvez seja só eu. Isso me faz me sentir solitário, entende?
Ele parou de falar. Eu apenas o encarei, completamente fascinada. Eu não sabia o que responder, mas meu coração começou a bater mais rápido, como se as palavras dele falassem diretamente para alguma coisa bem lá no fundo de mim, alguma coisa que eu ainda não reconhecia. Então ele olhou para mim e soltou um riso seco.
— Eu juro que não fumei nada dessa vez. — Ele desviou o olhar de novo, olhando para as próprias mãos, ainda sorrindo levemente. — Eu nunca falei sobre isso com ninguém antes. Eu tinha medo de que me pusessem num hospício. — Ele deu um sorrisinho de canto. — Mas é algo que eu sinto desde que era pequeno. É engraçado, sabe? É um sentimento esmagador, e ele ou te faz se sentir extremamente alegre, ou profundamente melancólico. Às vezes, ele me faz chorar. Às vezes tudo o que eu queria era... Tudo o que eu desejava era que eu pudesse… — Ele ergueu a cabeça e suspirou de frustração. — Tudo o que eu queria era poder voltar para ele, o que quer que ele seja.
Eu engoli em seco. Eu queria abraçá-lo. Eu queria lhe dizer que eu entendia, mas eu não tinha certeza de que seria verdade. Era possível que ele estivesse falando da mesma coisa que eu costumava sentir enquanto escrevia? Antes de a faculdade vir e levar a magia embora, quero dizer. Será que ele podia estar falando do que eu sentia ao ler certos poemas? Aquela sensação mágica de transcendência que eu nunca consegui explicar? Era possível que houvesse alguém sensível o suficiente para sentir isso o tempo inteiro? A pessoa não enlouqueceria? Por outro lado, não seria maravilhoso? Ver o mundo dessa forma o tempo inteiro? Será que isso faria os seus olhos parecerem tristes?
— Do jeito que eu falo, você deve estar pensando que eu estou agonizando de dor. Mas não é assim. É maravilhoso, na maior parte do tempo, e eu sou grato por me ser permitido sentir isso, seja lá o que for. Eu fico triste ao pensar que nem todo mundo consegue experimentar isso com tanta facilidade quanto eu. É por isso que eu faço arte. — Ele olhou para mim e sorriu. — É daí que a minha arte vem, desde as minhas músicas até os meus desenhos. Se não fosse por essa melancolia, eu provavelmente não estaria cantando, pintando, nem nada. Então, eu sou grato por ela. É parte de quem eu sou.
Eu sorri de volta para ele, ainda incapaz de dizer qualquer coisa.
— Existe um motivo pelo qual meu álbum se chama Mind Of Mine, sabe? Está tudo lá. Você vai conseguir ouvir, se prestar atenção. Minha alma. E esse sentimento que eu acabei de falar. Eu queria compartilhá-lo com o mundo.
Um silêncio profundo se estabeleceu entre nós enquanto eu tentava encontrar as palavras certas. Eu não queria arruinar esse momento mágico. Eu não queria dizer a coisa errada e fazer com que ele sentisse que não devia ter me contado tudo aquilo. Eu não queria que ele se sentisse mal compreendido, embora eu não tivesse certeza do que eu realmente era capaz de entender. O silêncio então pareceu muito melhor. Eu acho que ele também sentiu isso, já que ele voltou a olhar para o fogo e não exigiu uma resposta minha. Não imediatamente, pelo menos. Ele me deixou pensar em silêncio por longos minutos antes de tornar a olhar para mim.
— Então... Você acha que eu sou louco ou o quê?
Eu sorri.
— Eu acho que você é a pessoa mais interessante que eu já conheci.
— Parece bom.
— É mais do que “bom”, Zack. É ótimo! — Brinquei. Ele sorriu.(3)
— É “Zayn”. — Ele brincou de volta. Eu ri levemente, aliviada que nós estivéssemos de volta àquele humor alegre de antes da minha pergunta estranha. — Obrigado. — Ele disse. — Eu sabia que você entenderia.
— Como?
— Eu não sei. É alguma coisa em você. — Ele me encarou intensamente, como se tentasse ver essa “uma coisa” (4). — Às vezes eu acho que há mais pessoas por aí que entendem. Mais pessoas que conseguem sentir o mesmo que eu, algumas mais, outras menos. Eu acho que você é uma dessas pessoas.
— Tipo “pessoas mágicas”? — sugeri, tentando ignorar o arrepio que desceu pela minha espinha enquanto ele me olhava daquele jeito.
— Tipo pessoas mágicas. — Ele concordou.
— “Você é um bruxo, Anna”. Soa legal (5).
Ele riu. Eu acho que ele tinha pensado em alguma coisa inteligente para dizer, mas bem nessa hora, nós ouvimos o velho homem voltando descendo as escadas.
— O que vocês dois estão fazendo no escuro? — Ele apertou um interruptor na parede e as luzes se acenderam. Tanto eu quanto o Zayn fizemos caretas, colocando as mãos na frente dos olhos para protegê-los da luz. — A tempestade finalmente passou, vocês viram? Eu acho que é hora de libertar vocês agora.
Zayn olhou para mim, e eu acho que nós dois pensamos a mesma coisa. A magia tinha ido embora agora. Era hora de voltar para o mundo trouxa. Nenhum de nós se moveu.
O velho homem foi até a porta e tirou a barra de ferro que a mantinha fechada, com alguma dificuldade. Você talvez pense que Zayn devia ter ajudado, mas ele ainda estava paralisado, olhando para mim. Quando o homem abriu a porta, uma brisa fria entrou, me fazendo estremecer.
— Prontinho! — O homem esfregou as mãos. — Me desculpem pela demora. Janice acabou de pegar no sono. Ah, a propósito, eu não vou cobrar pelo chocolate quente. Considerem cortesia da casa!
Zayn piscou como se estivesse voltando de um sonho e olhou de mim para o velho homem. Por um momento, parecia que ele não o reconheceu, mas aí ele se levantou de uma vez e estendeu a mão para ele.
— Obrigado por sua hospitalidade, Todd. — Eu fiquei impressionada e meu coração derreteu um pouquinho ao ver que ele ainda se lembrava do nome do dono da cafeteria. — Por favor, me deixe pagar. Por nós dois.
— De jeito nenhum! Fora de questão! — O homem apertou a mão dele com força.
Zayn sorriu.
— Então, eu devo agradecer ainda mais. Pode ter certeza de que eu vou recomendar este café para todos os meus amigos.
Eu sorri. O velho Todd não fazia ideia do que aquilo significava.
— Bom, eu acho que eu vou indo, então. Anna? — Ele se virou para olhar para mim.
Eu me levantei, já começando a ficar triste. Meu coração já podia sentir a dor da partida. Eu odeio despedidas.
— Obrigado por essa tarde. Foi incrível falar com você. Você é a garota mais fascinante que eu já conheci.
Eu queria falar, mas não conseguia encontrar a minha voz. Eu queria dizer alguma coisa, dizer pra ele que eu nunca esqueceria aquelas horas que passei com ele. Mais do que isso, a fã dentro de mim estava gritando, implorando por mais tempo. Eu ainda tinha que falar pra ele o quanto ele significava para mim. Eu ainda tinha que falar pra ele o que as músicas dele fizeram por mim, como ele tinha me animado quando eu passei pelos piores momentos da minha vida. Eu ainda tinha que falar pra ele que ele era uma das pessoas mais importantes no meu mundo. Eu ainda tinha que falar pra ele... Eu ainda tinha que falar pra ele que eu o amava.
Zayn franziu as sobrancelhas, e eu me perguntei se eu tinha dito alguma coisa errada, apesar de eu não me lembrar de ter aberto minha boca grande dessa vez. Então, ele se inclinou para a frente e gentilmente pegou uma lágrima que eu não percebi que tinha chorado, seu dedo roçando gentilmente na minha bochecha.
— Por que você tem esses olhos tristes? — Ele perguntou, olhando bem no fundo dos meus olhos por um momento. Eu não consegui resistir e sorri para ele. Ele piscou, então sorriu de volta. Ele fez carinho de leve na minha bochecha mais uma vez, e então se virou.
Ele andou lentamente até o cabideiro e pegou o casaco. Depois de colocá-lo, ele passou as mãos pelo cabelo rapidamente.
— Até mais, Todd. Obrigado por tudo.
Aí ele olhou para mim uma última vez. Eu sorri e acenei timidamente. E ele sorriu de volta, aquele sorriso enorme dele, daquele jeito que ele põe a língua entre os dentes. Eu nunca tinha reparado. Esse sorriso contrasta maravilhosamente com aqueles olhos tristes.
Notas finais
(2) “Brexit” é o nome que se dá para o momento histórico em que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia. Nas primeiras semanas que se seguiram a isso, o Reino Unido viu aumentarem os casos de racismo, xenofobia e intolerância religiosa no país. Os muçulmanos, assim como os judeus, sofreram bastante com isso. Houve casos de pessoas sofrendo discriminação em locais públicos, crianças sofrendo bullying na escola e até mesmo assassinatos. É por isso que Todd diz isso para o Zayn, depois de ele revelar que é muçulmano.
(3) Não sei se a referência fica tão clara em português, mas aqui, a Anna faz uma brincadeira lembrando o clipe de Best Song Ever, quando a personagem do Louis (ou do Niall?) fala pros meninos que o clipe deles vai ser “mais triste que Titanic”, e o Zayn comenta “Parece bom” (“Sounds okay”), ao que a personagem do Louis responde “É melhor do que ‘bom’, Zack, é algo que vai ganhar prêmios” (“It’s better than ‘okay’, Zack. It's award-winning!”), ou algo assim. E aí Zayn replica, parecendo meio irritado, “É ‘Zayn’” (“It’s ‘Zayn’!”), mas os caras nem dão moral pra ele, haha!
(4) De novo, não sei se a brincadeira ficou tão clara na versão traduzida. No original em inglês, Anna faz referência à música One Thing, nessa hora.
(5) Mais uma referência que talvez não faça sentido em português. Aqui, Anna brinca com a famosa cena de Harry Potter e a Pedra Filosofal em que o Hagrid conta para o Harry que ele é um bruxo, dizendo “Você é um bruxo, Harry” (“You’re a wizard, Harry”). Aliás, eu vi hoje uma entrevista em que o Z fala que essa é a frase de filme preferida dele. ♥
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