Olhos Tentadores
1 Olhos Tentadores
Notas iniciais
Olhos Tentadores
A simpatia nunca foi minha qualidade, tampouco a humildade, o altruísmo, a benevolência ou qualquer outro sentimento tão puro e bom; nunca me senti desse modo.
Nunca senti o tão louvado bem estar de ajudar o próximo. Como sentem isso? Nunca senti a dor de meu vizinho ao perder tudo o que tinha. Também jamais senti a dor de perder um primo. Quando minha avó morreu, fui ao enterro vestido de preto e ao voltar pra casa resolvi fazer um desenho de como me lembrava dela no caixão. Estava tão gelada, por quanto tempo ficara na geladeira? Imagino como deveria ter sido estar lá dentro com o tronco costurado. Mas a única coisa que de que me lembro foi de ter desejado ardentemente um dos olhos dela. Eu os achava tão bonitos. Seria triste não vê-los mais. Ao menos poderiam entregar-me os olhos, mas ninguém quis fazer isso.
Quando meu avô morreu, alguns dias após minha avó, não fui ao enterro, pois sabia que ninguém me daria os olhos dele. Era triste ver olhos tão belos partindo assim. Que pena que eles morreram, mas não faz diferença. Todos morrerão um dia. Parem de chorar. O que é realmente triste são olhos tão belos indo embora para sempre.
Minha mãe chorava copiosamente e dizia que queria ver a mãe e o pai novamente. Não aceitava que estivessem mortos. E pela primeira vez senti pena. Então era assim o sentimento de pena. Era um sentimento indescritível e forte.
Queria fazer algo pela minha mãe e pensei, já que ela quer reencontrar os pais, sei o que farei. Vou fazê-la reencontrá-los e ficar com eles. Mas era impossível trazer alguém de volta a vida por mais que se quisesse, então tive de optar por outra alternativa.
Naquela noite, coloquei minha mãe adormecida no bando de trás do carro e a levei até o cemitério. Foi complicado pular o muro, mas eu consegui. Ela não acordava mesmo, sequer poderia. Calmantes era realmente um milagre. Cavei onde estava enterrada minha avó, abri seu caixão. O cheiro era horrível, mas minha mãe a amava demais e não se importaria. Coloquei-a lá dentro, junto com minha avó e enterrei novamente.
O túmulo do meu avô era ao lado. Finalmente minha mãe poderia reencontrá-los e ficar feliz ao lado deles.
Até hoje me sinto muito bem com o que fiz. Minha mãe com certeza deve ter ficado muito feliz e agradecida. Agora ela me ama mais que tudo.
Ontem, quando caminhava tranquilamente pelas ruas da cidade, me deparei com uma bela moça. Seus olhos eram as coisas mais lindas que eu já havia visto. Era tão graciosa no andar, no falar, no modo de se mover. Era encantadora. Mas o que mais me chamou a atenção nela foram seus lindos olhos esverdeados. Chamou-me a atenção por que me remete aos olhos de minha falecida avó.
Eu a convidei para tomar um café e depois ir a minha casa. Ela aceitou com um sorriso meigo. Foi lindo. Mas agora, finalmente tenho algo que lembre minha avó; aqueles lindos olhos esverdeados.
É só uma pena que a garota não possa mais falar. Está aqui na minha sala. Agora preciso cuidar dela direitinho, ou de seu corpinho sem vida e seu rosto... Sem olhos.
Pelo menos agora tenho um belo par de olhos para conservar. Vou guardá-los dentro de um vidrinho no frigobar no meu quarto.
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