Ela amava a viagem no trem, pelo fato de eles passarem por várias florestas com um verde surpreendente, mesmo que elas parecessem um vulto. Ela pegou o gato no colo e ficou fazendo carinho no pelo escuro e macio. Ela ficou presa no mundo dos olhos verdes do gato, imaginando como não deveriam ser a vida vista por aqueles olhos. Assim ela adormeceu, sem nem ao menos perceber, em uma cabine solitária de um dos vagões.

– Olá? – um rapaz bateu na porta de vidro do vagão, acordando-a. Ao olhá-lo, ela reparou nos olhos. Olhos verdes não eram comuns, nãosãocomuns, e ela desejou naquele momento que fossem proibidos, para que pudesse parar de olhar neles. – Desculpe-me por tê-la acordado.

– Tudo bem. – ela respondeu, um pouco sem graça por ter dormido sentada e com as pernas ocupando todo o banco. Seu gato dormia em seu colo tranquilamente, e ela sacudiu a cabeça.

– Tem alguém sentado aqui? – apontou para o banco vermelho vago à sua frente. – Porque o vagão está lotado, este foi o único lugar que achei.

– Não, pode ficar aqui. – ela rapidamente voltou a uma postura aceitável e tirou o gato da saia, pondo-a de forma a cobrir o joelho.

– Não está esperando ninguém? – o rapaz perguntou, olhando para os lados no corredor, e ela negou com a cabeça imediatamente. – Ótimo, detesto ser estraga-prazeres. – elefinalmentesentou-se. – Desculpe-me senhorita, por esta indelicadeza, mas o que faz viajando sozinha? – perguntou com um sorriso amigável.

– Vou em busca dos meus pais. – respondeu, e desejou ter se calado logo em seguida. O lugar por onde o trem passava era frio, e ela conseguia ver uma nuvem quente saindo a cada palavra sua, lembrando-a de que ela não possuía roupas para o clima, ao contrário do rapaz completamente confortável à sua frente. – Na verdade, eu sou adotada, quero descobrir a minha família. – tirou uma mecha do cabelo escuro que pendia entre os olhos. – E você?

– Vou visitar uma pessoa especial.

– Sua noiva? – ela perguntou, se repreendendo por estar conversando informalmente com um estranho em um trem. E por ser tão indiscreta.

– Minha irmã. – ele abriu mais o sorriso, analisando-a com seus olhos perfurantes. – Você tem um gato preto?

– Sim. O nome dele é Pluma. – respondeu, alisando o pelo escuro do gato, sem perceber que o rapaz à sua frente estava com os olhos cheios de animação pelo bichano. – Você gosta de gatos?

– Sim, mas primeiro me responda... – ele começou em um tom sério. – Não tem medo de gatos pretos? – a feição séria se desfez em uma risada alegre, que preencheu o lugar juntamente com a da garota.

– Não sou uma fã de superstições. – ela respondeu.

– Temos uma cética aqui? – o rapaz brincou novamente, e ela negou com a cabeça. – Eu poderia...

– Ah, claro. – ela entendeu que ele gostaria de segurar o seu gato, e pegou-o com cuidado para que ele não caísse. Entregou o gato para o rapaz à sua frente, que pegou a início um pouco sem jeito, mas depois sorriu abertamente (como já estava virando costume) ao ver o bichano abriu os olhos. – Você é sempre assim?

– Assim como? – ele perguntou ainda distraído em brincar com o animal em seus braços.

– Sorridente aberto com completas estranhas.

– Nunca reparei nisso. Você é sempre agradável com pessoas que te acordam do nada? – ele perguntou novamente a encarando com seus olhos proibidos.

– Na verdade, isto nunca aconteceu. – ela admitiu, achando a conversa sendo a mais divertida (quase a única) que já tivera com um garoto, devido ao fato de sua mãe adotiva a manter tão casta a ponto de quase não falar.

– Sabe, eu menti sobre o vagão lotado. – ele confessou não demostrando a mínima culpa. – Mas quando a vi aqui, tão sozinha, vi em você uma amiga.

– Nada que eu não tenha desconfiado – ela se permitiu rir. – Com um trem praticamente vazio e horas de viagem, ninguém resistiria à minha beleza. – ela abanou o rosto teatralmente, sem acreditar em nenhuma palavra que dizia, fazendo-o gargalhar junto com ela.

– Não, sem dúvidas. Mas por que decidiu ir em busca do seu passado em meio a uma guerra?

– Eu entraria em guerra comigo mesma se não o fizesse.

– Issorealmenteexplica o que uma bela garota está fazendo saindo do campo para a capital em meio a tantos bombardeios.

– E nada me tira da cabeça que você tem uma pessoa especial lá. – rebateu.

– Você não desiste, hein? – o rapaz respondeu, usando a mão livre para mexer no cabelo.

Os dois passaram as várias horas, que pareciam ter sido apenas minutos, da viagem conversando sobre a vida de ambos. Ela falava sobre a vida pacata da cidade onde crescera e ele sobre a agitada vida da capital, e a razão por ter ido para o sul do país. Quando o trem parou na estação, desceram juntos e uma garota vestindo um uniforme simples, que passaria despercebida para ela, mas não foi como ela imaginou, porque a londrina deu um grito agudo e correu até o rapaz.

– Você aumentou nessas últimas semanas? E não fez a barba nos últimos dias, o que mamãe e papai pensariam? – a garota falou abraçando-o e passando a mão pelo rosto.

– Eu estou bem, A. Houveram alguns contratempos apenas, mas eu estou bem. – ele completou, puxando-a para mais um abraço e erguendo-a do chão. A outra garota apenas observou o rapaz e a outra conversando, se sentindo envergonhada e passando a mão por cima da cabeça do gato, que estava quase totalmente para fora da bolsa-mala.

– Então, eu acho melhor ir... Está escurecendo e eu não tenho muito dinheiro... – a garota começou, mas a londrina que abraçara o rapaz a fitou com os olhos arregalados e animados.

– Não, venha aqui! – puxou a outra. – Quem é você? Por acaso o meu irmão arranjou uma garota especial enquanto estava no sul?

– Não é isso, A. Eu a conheci no trem, ela dividiu a cabine comigo e viemos conversando. Esta é... Ai meu Deus, eu nem sei o seu nome. – o rapaz pareceu envergonhado e sua irmã o olhou com uma expressão irritada, mas divertida.

– Jane. – a garota respondeu.

– Como Jane Austen, não é? – A perguntou, e a garota assentiu. – Imagino que não saiba o do meu irmão também, do jeito que ele é esquecido. – ela deu um tapa na cabeça do rapaz, que sorriu sem graça. – Ri. Seu idiota.

– Seu nome é Ri? – a garota perguntou.

– Richard. – A e o rapaz responderam ao mesmo tempo. – O que eu queria dizer, é se gostaria de ficar na nossa casa, pelo menos até encontrar as informações sobre sua família, Jane. – A explicou.

– Mas, eu mal conheço vocês, isto seria abusar da caridade e... Eu não posso dormir na mesma casa que um homem assim.

– Deixe disto. – A sorriu. – Você vai dormir comigo, tudo bem? Vamos, apenas por uma noite. Ri nunca foi de fazer amizades tão facilmente.

Assim, ela se juntou à dupla de irmãos dos olhos proibidos, que mal conhecia, levando do seu passado apenas seu gato e sua pequena mala.

Notas finais
Se leu, por favor comente e faça uma autora feliz.
xx, Kal
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!