Olhos Negros
25 Capítulo 25 -Passado
Notas iniciais
Ta bem grandão e polêmico, sejam felizes
Escrito por: Lhama Liú
Recapitulação: “Lótus estava virado para as escadas, mas ainda a observava descaradamente. Angel tomou coragem e o encarou de volta. Arrependeu-se. Seu olhar era frio. Tenso. Ilegível. Havia um tipo de chamas naquele olhar negro como o chão sob seus pés. Como se estivesse ardendo por dentro, se contendo por algum motivo desconhecido.
Lótus era agora um homem em chamas.”
–Antes de Wislek este lugar chamava-se Vas Neviden. Não era o campo de concentração deserto que aparenta ser agora, era apenas uma aldeia, como Mind Oklan por exemplo. Pouco se sabe sobre como ou quando começou, mas os habitantes de Vas Neviden tinham... Características especiais. Todos tinham olhos negros como o breu da madrugada, e na noite do 16° aniversário ganhavam dons. Alguns eram simples, outros mais complexos, alguns até repetidos, mas todos tinham dons. Não apenas isso tornava Vas Neviden especial, seus habitantes eram meticulosamente organizados, com sistemas quase infalíveis.
A aldeia existia isolada e protegida do resto do mundo, tinham medo dos humanos, pois todas as experiências que tiveram com essa raça foram hostis. Por isso, quando um humano se aproximava, as ‘sombras aladas’ avisavam a aldeia por telepatia, então os ‘ocultos’ ativavam um escudo invisível, ocultando a aldeia dos olhares curiosos e possivelmente perigosos. Nenhuma outra aldeia do ocidente possuía sistemas engenhosos como esse.
No mundo afora, havia lendas sobre humanos alados que guardavam uma aldeia mágica. Estudiosos, curiosos, céticos e aventureiros vinham de todo o mundo para ter um vislumbre ao menos dos seres voadores, mas esses guardiões não eram chamados de ‘sombras aladas’ à toa, poucos conseguiam enfrentar o mar e a floresta traiçoeira, e menos ainda conseguia ver os guardiões.
Um dia, um rapaz do oriente, jovem, ganancioso e impulsivo, se aventurou a vir até aqui. Mas se o trajeto era difícil até mesmo pra quem vinha do ocidente, é ainda mais perigoso pra ele que vinha do outro lado do mundo. Porém, o rapaz tinha a persistência de seu povo no sangue, e conseguiu. Chegou aos portais invisíveis de Vas Neviden, a beira da morte.
Normalmente as ‘sombras’ apenas cantavam para que o intruso dormisse e os levavam de volta para a floresta, para que seu destino fosse decidido lá, mas o rapaz de olhos puxados, quase póstumo, despertou a piedade do coração de uma jovem guardiã, que violando as ordens dos superiores, levou-o a uma caverna e cuidou de seus ferimentos.
Por quase um ano eles viveram juntos, moravam em uma caverna e aprenderam a conviver com a floresta. A barriga de Aliss já começava a marcar seu vestido de pele de coelho quando seu amado começou a mostrar-se diferente. Ideias de voltar ao oriente e trazer a tecnologia avançada de lá em busca de vingança por abandonarem-na a assustavam, não queria vingança, ela dizia, queria viver em paz com sua família ali mesmo. Mas ele não a ouviu.
Quando ele partiu, Aliss foi aceita de volta em Vas Neviden. Voltara pra casa, para seu lar, sua terra mãe, e já se sentia mais forte por isso. Esquecera seu romance e viveu feliz. Por um tempo.
–Estava no 8° mês de gestação quando gigantescos dragões orientais de aço ultrapassaram o escudo pelo céu. Bolas de fogo saíam deles com um rugido, incendiando a cidade. Quando o escudo se dissipou, pelo chão vieram ágeis homens mascarados, que se moviam como doninhas silenciosas pelas casas, de onde tiravam os habitantes fortes e bem dispostos e matavam todo o resto.
Aliss era um dos escolhidos. A ultima coisa que viu antes das portas do dragão de aço serem fechadas, foi seu lar, o lugar onde nascera e foi criada, Vas Neviden, em ruínas.
Foi separada dos outros sobreviventes e levada a um compartimento no interior de aço do dragão oriental, e todos os seus temores sobre quem havia feito tal monstruosidade com sua aldeia foi confirmado quando viu seu amado de olhos puxados passar pela porta. Ele não sorria mais, havia ódio e ganância em seu rosto branco como papel.
Aliss via a inveja em seus olhos toda vez que olhava para suas asas desde que o conheceu. Já o vira fuçando com um de seus homens mascarados o corpo de uma vítima do ataque, ele era inteligente e tinha a tecnologia. Queria descobrir o que havia de diferente deles para os humanos, queria ser um deles, queria ter olhos negros e dons especiais.
Mais nenhum alado foi capturado, o que era meio óbvio. Eles eram sombras, ágeis e silenciosos, e se moviam mais rapidamente do que os homens mascarados. Ela foi a única capturada, seus movimentos retardados pela barriga pesada. E a inveja do rapaz estava tão inflamada que lhe arrancou as asas, sob o pretexto de examina-las e criar novos guardiões para a nova cidade... E isso foi o fim.
Quando concebeu sua criança, Aliss orou aos deuses por piedade ao ver que ele nascera da mesma raça que ela, aconchegou o menino perto de si e enforcou-se, levando consigo sua culpa.
–Bem, o Instituto Ascek foi criado para estudar a composição genética da raça de olhos negros, Wu Wislek fazia experimentos nos sobreviventes do massacre de Vas Neviden e quando algo dava errado e a cobaia morria, analisava o corpo em busca de informações. Durante anos os experimentos foram feitos, mesmo nunca encontrando nada relativamente importante na composição de alguma cobaia, sua obsessão só crescia, a ponto de começar a usar os próprios funcionários, os homens mascarados, nos experimentos. Acabou criando uma nova raça, que chamou de Irreduts, eram pessoas de pele, olhos e pelos claros, muito ágeis e sem nenhum traço de emoção. Mas nada de recriar alguém de Olhos Negros. ***Os sobreviventes eram obrigados a se relacionar e gerar filhos, porém, inexplicavelmente, as crianças deixaram de nascer especiais, com seus olhos negros, e Wislek, criada pra ser povoada por Olhos Negros, já começava cheia de humanos normais.
–O pai nunca escondeu o interesse que ele tivesse asas, como sua mãe. De todos os Olhos Negros que nasceram em Wislek, esse era o único dom que jamais se repetira. Quando criança, ele sempre lhe ensinava coisas sobre sua terra natal, no oriente, como por exemplo a flor sagrada que lhe dera nome. Ser tão diferente dele, até mesmo na raça, o fazia querer desesperadamente deixa-lo orgulhoso. Mas na noite do seu 16° aniversário, mesmo com quase todos os Olhos Negros extintos e seu dom de controlar a mente das pessoas com apenas um toque se mostrasse extremamente útil, seu pai ficou furioso e o trancafiou em uma sala de pesquisas.
Estava tudo bem para o menino ser cobaia dos experimentos do pai, desde que lhe fosse útil, porém chegou um dia em que Wu resolveu testar o dom do filho. Ele o trouxe até este mesmo terraço Angel, onde nós estamos agora, junto com provavelmente a ultima moça especial grávida do mundo. E mesmo que parecesse a ideia mais absurda possível, ele queria que o menino obrigasse a moça a se jogar daqui... Bem, não é que o garoto estivesse com pena da moça ou coisa assim, não. Ele faria aquilo que lhe fora pedido em qualquer outra ocasião, mas naquele momento, seu ódio era grande demais para isso.
Ele fez o próprio pai jogar-se do terraço.
O garoto, que já era um homem de 20 anos na verdade, libertou os Olhos Negros restantes, exceto a menina grávida, ficou com os Irreduts, tomou alguns humanos para si como cobaias e libertou todo o resto.
Quando os prisioneiros que pegou para si procriaram, uma suspeita que tinha desde pequeno se confirmou. ***O dom pulava gerações. 1,2,3, até mesmo 4 irmãos podiam ser gerados até que algum nascesse especial, e agora que havia libertado as cobaias de Wu Wislek, até mesmo um humano normal podia ter sangue especial sem saber. Isso ocorre devido a mistura do sangue, quanto mais os especiais se misturam com humanos, mais fraco o sangue fica, pulando gerações e só retornando quando a criança tem genes fortes o bastante pra aflorar o dom. Assim, nenhum Olhos Negros será tão forte quanto os antepassados de Vas Neviden.
Olhos Negros em si não lhe interessavam, ele já era um deles, o único motivo por que seu pai alimentava tamanha obsessão era porque sentia inveja de sua raça. E os Irreduts mostraram grande utilidade para seus objetivos. Havia apenas um dom especial que lhe despertava um forte interesse. Asas.
***A menina concebeu gêmeos, ambos de Olhos Negros. O homem os mandou embora, ordenando a mãe que os trouxesse de volta quando ambos completassem 16 anos.
***Bem, como estava sendo controlada pelo notável dom do homem, a menina, que se tornara mulher de fato voltou, 16 anos depois. E além dos gêmeos, lhe trouxe a informação de ter encontrado um acampamento de especiais ao sul. Nenhum dos dois tinha mostrado o dom que o interessava, mas resolveu ficar com eles mesmo assim, com mais um golpe de controle mental, ele obrigou a mãe a ir embora e esquecer os filhos. Guardando o casal de gêmeos para diversões futuras.
***A primeira visita ao acampamento foi apenas para reconhecimento. Não encontrou nada que merecesse atenção, apenas brincou com as mentes enfraquecidas pela mistura com humanos de lá. E foi embora.
***Porém, torturar Olhos Negros ou brincar com a mente de seus gêmeos que acreditavam serem seus sobrinhos não parecia mais tão excitante... O homem resolveu voltar mais uma vez ao acampamento, brincar um pouco mais com aquelas jovens e fracas moças... Então, quando menos esperava, ele encontrou o dom que procurava. E sua portadora não poderia ser mais apropriada...
Você, Angel.
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Angel ouviu tudo em silêncio, mortificada. Queria dizer algo, qualquer coisa, mas não conseguia mexer a boca, aberta pelo choque. Acabara de ouvir não só a história de Lótus (não é preciso ser um gênio pra saber que era ele o menino/homem da história), mas também sua própria história. A história de sua raça.
–E...Eu... –Lótus a olhava fixamente, esperando –Eu sinto muito...
Minutos atrás queria sair voando para longe de Lótus, mas agora algo a prendia ali. A ele. Ela sentia... Compaixão...?
–Os gêmeos eram então... Logan e Dylan? Eles não são realmente seus sobrinhos?
Ele respondeu com um aceno negativo e um silêncio mortificante pairou entre os dois. De certa forma Angel estava aliviada por ele não ser realmente tio de Logan e Dylan, torturar os próprios sobrinhos era monstruoso...
Lótus suspirou de impaciência, esperava que ela dissesse algo, ele desviou os olhos e virou-se fitando a coluna. Sem aquele olhar sobre ela, sentiu como se fosse libertada de uma prisão psicológica.
–P... Por que está me contando tudo isso?
–Porque é seu direito, ou obrigação- que seja- saber disso... O porquê... Do meu interesse em você.
Lótus se aproximou bruscamente e segurou o rosto de Angel entre as mãos, olhava-a como se a devorasse com os olhos ardentes... Agora ela entendia o porquê do homem em chamas. Ele ardia de ódio, de sofrimento, de desejo... Acariciou um cacho escuro de seu cabelo e aproximou-se, olhando-a de frente.
Ela congelou.
Ele se aproximou ainda mais, com seus lábios quase colados.
–Não me toque! –bradou ela, o empurrando com toda a sua força para longe e se atirando pela coluna torre abaixo.
Precisou de alguns segundos pra lembrar-se de como usar as asas.
Acalmou-se e se ajeitou recolhendo-as para pegar velocidade. Permaneceu em queda livre até estar a uns 2m do chão, libertou suas asas e as bateu pegando impulso para cima.
Planou novamente sob a cidade cinzenta, sob o território onde seus antepassados haviam vivido. Queria sair dali, voar em direção ao céu e perder-se em meio aquela imensidão azul-cinzenta, mas sabia que não podia. –Você tem que voltar Angel — sussurrava aquela voz familiar em sua mente.
–Você só aparece quando eu estou voando...
Obviamente sem resposta, ela parou no ar, batendo as asas para manter altitude enquanto observava o Instituto Ascek.
–Aliss Ascek... –murmurou consigo mesma- Era esse o nome da mãe dele... Talvez, talvez isso seja a prova de que Wu Wislek realmente a amava, talvez no fundo ele só quisesse tornar-se como ela, para poderem viver como semelhantes... Ele devia sentir-se diferente, assim como eu me sentia diferente em Mind Oklan, assim como Lótus sentia-se tão diferente do próprio pai... É uma história triste, realmente triste...
Angel finalmente entendeu por que estava ali.
–Certo... Hora de voltar.
Ela bateu as asas em direção ao Instituto, seja lá qual for seu destino, ela sabia, seria decidido ali.
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