Observei todos aqueles rostos iluminados pelas chamas da fogueira. Sorriso fartos e alegres.

- Dog, faça o serviço duro da próxima vez. Se eu perder meu marido, eu mato todos vocês. – brincou Hanna.

Eu tentava me concentrar na conversa mas duas coisas me atrapalhavam: o olhar de Glenn sobre mim e os gemidos de dor de Daryl dentro do trailer. Me dava nos nervos, me tencionava a cada barulho que ele fazia lá dentro.

- Você pode dormir na minha barraca hoje. – ofereceu Carl.

- Obrigado. – respondi sem pensar muito. Minha mente não saia de Daryl, mesmo que eu lutasse bravamente contra, aquilo sempre era maior que eu. Como um movimento involuntário.

Abraços dados, boa noite’s desejados. E Glenn me dando um sorriso sem graça de longe, sem nem ao menos chegar perto de mim. Não aguentei e avancei sobre ele dando o meu melhor abraço. Mas não disse nada, ainda não tinha as palavras certas.

Porque no momento eu só podia pensar numa única coisa.

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Pulsos travados, opiniões contrárias, vozes firmes, correntes. Nada disso é capaz de impedir alguém que têm como o impulso característica principal. Não importa o quão racionais sejam os conselhos, eles não passam de ruídos nos seus ouvidos.

Andei sorrateiramente até o trailer. Fiz com que as folhas não fizessem som algum. A poucos metros dele eu já não temia se alguém me visse, e sim a reação dele.

Com um bom rastreador não há destreza que engane. Ouvi o clique da arma sendo destravada e respirei fundo.

- Sou eu – eu anunciei com total nervoso entre as palavras.

Ouvi Daryl bufar e colocar a cabeça de volta ao travesseiro. Dispensei o medo e me aproximei de verdade.

- Vamos, eu vou te ajudar – fiz com que as palavras saíssem rápido e todo o nervosismo se dispersasse.

Daryl me olhava como se eu fosse louca. Mas depois de um tempo parecia avaliar com mais atenção a minha proposta.

- Como? – perguntou desconfiado.

- Mais três horas assim e seu braço nunca mais voltará ao normal. Eu garanto. Você vai precisar fazer o osso voltar ao lugar e acho que só eu concordo em te ajudar com isso.

Daryl voltar a me olhar como se eu fosse louca, e dessa vez o tempo foi ainda maior.

- Agora ou nunca? – perguntei apressada.

Daryl se levantou com um pouco de dificuldade e olhou ao redor. Fez sinal para que entrássemos na floresta e eu o acompanhei.

Cada passo que eu dava entre as folhas úmidas eram acompanhados por um olhar de Daryl. Certamente se perguntando quem eu era e porque eu fazia aquelas coisas.

- Acho que aqui está bom – estávamos a poucos metros do acampamento, mas o barulho que faríamos ali não chegaria nem perto das barracas.

Daryl tirava a camisa quando voltei meu olhar a ele. Logo desviei, não queria fazer com ele o que fazia com Rick sempre que ele me olhava no fundo dos olhos. Parecendo uma ninfomaníaca.

Ele percebeu meu nervosismo, mas estava ainda mais nervoso com o que viria.

Investiguei seu braço por um tempo, descobri a direção que deveria torcê-lo. Torcer e esticar num só golpe. Essa era o jeito de não atrofiar seu braço.

- Certo. Eu vou torcê-lo pro lado direto. Você não pode se mexer. Nenhum pouco. Quando eu for puxar, você joga seu corpo pra trás e eu também jogo o meu. Direções opostas certo?

Ele calculava a dor e apertava os olhos numa careta extremamente nervosa.

- Uhum – o som foi quase surdo. Eu olhei em seus olhos e ele olhou nos meus consentindo.

- Não faça nenhum barulho!

Daryl se segurou num galho de uma árvore e deixou seu braço aos meus cuidados. As coisas ainda nem haviam começado e ele já mordia seu ombro.

Peguei em suas mãos, respirei tão fundo quanto podia. O ar gelado causou-me calafrios. A respiração pesada vinda da boca dele era o único barulho além das folhas molhadas abaixo dos nossos pés. Observei seu rosto mais uma vez.

- Faça! – ele pediu. Retirei os olhos dos dele e passei assim, sem querer, pelo peitoral que bufava de tanto nervoso. Tentei não encontrar beleza nisso, mas foi inevitável.

Estiquei levemente seu braço e ouvi um pequeno gemido. A possibilidade de que ele gritaria era cada vez maior.

Não me preparei. Apenas joguei meu corpo pra trás e com as duas mãos torci seu braço para a direita. O movimento era mais lento do que eu achara que seria. Parecia estar girando somente a pele e não o osso. Coloquei mais força. Joguei todo meu peso e corpo para o lado que o braço deveria ir. Depois de alguns segundos ele parecia estar no lugar de encaixe.

Daryl estava vermelho e em seu ombro a marca dos caninos enterrados era evidente.

- Última parte – disse tentando acalma-lo. Ele soltou o ar umas 3 vezes e me encarou. Com um gesto me disse para continuar.

- No 3. – 1, 2, 3... apertei os pulsos de Daryl e dei um tranco com toda a minha força para trás. Mas Daryl era mais forte que eu e acabamos os dois indo para a mesma direção. Para o mesmo espaço. Daryl estava caído no chão e eu estava em cima dele.

Ele gemia de dor e sua face tomava inúmeras faces e tons de vermelho cada vez mais quentes.

- Você tá bem? Voltou? Encaixou? – eu perguntava desesperada vendo seu rosto se desmanchar em dor.

Avaliei o braço e guardei um sorriso pra depois quando notei que o cotovelo havia se encaixado perfeitamente ou quase, no resto do osso.

- Tá tudo bem. – eu sussurrei tentando acalma-lo. Aos poucos o rosto de Daryl foi deixando o vermelho para o rosa, e em alguns segundos estava beirando a cor normal novamente.

Seus olhos estreitos me encararam no fundo, como os de Rick. Me afrontaram mesmo sem querer. Eu queria não mergulhar, a ocasião não era propícia. Foi tentando não me afogar nos olhos dele que eu percebi que ainda estava sobre seu corpo. Meu rosto corou, meu coração martelou.

Me levantei tentando controlar o tremor nas pernas mas Daryl me puxou de volta, fazendo-me cair sobre ele novamente. Mas dessa vez, a distância entre nossos rostos era menor que uma moeda.

- Porque? – foi a única palavra dita em meio a respirações ofegantes e olhos arregalados. Os meus, pois os dele estavam mais estreitos do que nunca. E examinavam cada pedaço dos meus como se a resposta estivesse guardada ali e ele a estivesse procurando.

De todos os porquês que eu já havia ouvido em toda a minha vida. Aquele era o único ao qual eu não sabia responder. Não estava nos livros de ciência, nem nos de história, não estava escrito e ninguém poderia responder por mim.

- Eu me importo com você. – aquele era a única resposta plausível. Mas já não alimentava mais a Daryl nem muito menos a mim. Tornara-se uma resposta breve, pra uma questão muito longa.

- Porque? – ele questionou novamente apertando meus pulsos que tentaram me fazer levantar. Minhas mãos doeram, meus pulsos pareciam em pedaços. Mordi o lábio segurando a dor.

- Pode só me dizer obrigado? – a minha tentativa de me desvencilhar dele e da dor não pareceu ter dado certo.

- O que foi? – ele perguntou ao ver a expressão de dor em meu rosto

- Nada. – levantei-me tentando mexer os pulsos, mas cada tentativa parecia esmaga-los cada vez mais.

Daryl se levantou e ouvi seus passos me seguindo. Ele pegou sua camisa no chão ao lado da árvore. Me virei para vê-lo e notei suas costas com várias marcas, cicatrizes enormes e uma tatuagem de asas não terminada. Desviei meus olhos para os seus e ele me encarou de volta.

- Obrigado. – foi somente o que ele disse antes de se virar e entrar na floresta.

- Daryl. – eu disse com a súplica para que ele não fosse na ponta da língua, pronta para saltar. Ele parou e me olhou.

- Não vai. – elas pularam e ele as viu pular. Ele só abaixou os olhos e continuou a caminhar as ignorando.

Fiquei um tempo parada observando-o sumir. O que não demorou a acontecer. Olhei para dentro de mim e vi uma Lâmpada incandescente acesa. Ambos tínhamos uma dúvida.

Porque? Porque eu fazia tanto por Daryl? Quase que involuntariamente, eu estava lá, com ele, por ele, e agora o meu humanismo e sentimentalismo não supriam mais essa questão.

Caminhei para o trailer, não me preocupei em ser sorrateira. A luz dentro de mim queimava e ardia. Colocando pontos de interrogação a cada passo? Implorei para que dormisse logo. Mas sabia que naquela noite Deus não atenderia minhas preces.

Notas finais
Nada a declarar, não me comprometo com esses dois.