Olhos Estreitos

5 05. Give me your soul? (Me dê sua alma)


Notas iniciais
O primeiro contato entre Lara e Daryl finalmente aconteceeeee!
Aeee, todos comemora (mentira só eu).
Espero que realmente gostem desse capítulo, porque eu AMEI escrevê-lo.

Acordei com o sol queimando meus pés. Glenn dormia de boca aberta ao meu lado e a cabeça encostada ao vidro da janela. Como um segurança faria.

Ergui lentamente a cortina da janela, e pela cor do céu acabara de amanhecer.

- Glenn? – eu chamei suavemente para não assusta-lo.

- Glenn? Acorde! – o garoto parecia ter cochilado um sono eterno. Percebi que minha cabeça já não pesava tanto ao movimentar-me e resolvi me levantar. Meu abdômen estava duro como uma rocha e bastante dolorido.

- O que você está fazendo? – Glenn não acordara com meus chamados mas sim com o gemido que eu havia soltado ao sentir a dor.

- Tentando te acordar oras. – eu respondi. Ele me deitou novamente contra a minha vontade.

- Só me deixe sentar, minhas costas estão doendo. – implorei.

- Eu vou chamar o Doutor. Não ouse levantar dai está ouvindo? – o atrapalhado Glenn estava com os olhos arregalados novamente. Saiu aos tropeços do trailer e voltou em meio minuto com o Doutor.

- Bom dia garota. Como se sente? – Petterson vestia sandálias e uma bermuda com estampas “suspeitas” e sem camisa. Se eu não o tivesse visto antes, diria que não era a mesma pessoa.

- Ok – eu disse um pouco confusa com seu visual.

- Quer tomar o remédio para a cabeça?

- Não, ela está bem. O que dói é o abdômen. – disse resmungando tentanto me levantar.

Glenn e Petterson me sentaram na cama. Petterson saiu em busca de analgésicos.

Glenn estava sentado ao meu lado e não despregava os olhos de mim. Eu estava com a cabeça baixa e sentia que vomitaria a qualquer momento. A dor ainda estava escondida em algum lugar dentro da minha cabeça e eu lutava contra a tontura que vinha bruscamente.

- Você não está bem – afirmou Glenn após me observar apertar os olhos.

- É só tontura e uma vontade imensa de vomitar! – Glenn me olhou com nojo e retirou um balde de cima de uma pilha de coisas.

- Não em mim – ele disse me entregando e rindo.

- Obrigado. – eu disse.

- Não pelo balde. Mas por tudo. Por ter me salvado, por ter ficado aqui essa noite. – eu agradeci um pouco tímida, já que em toda a minha vida eu sempre fui a quem recebia os agradecimentos, eu raramente tinha que agradecer.

- Essa noite? – ele questionou.

- Você não ficou aqui comigo? – eu perguntei estarrecida.

Ele gargalhou balançando a cabeça e depois me olhou com o rosto vermelho de tanto rir.

- Você dormiu 2 dias seguidos Lara. – UAL! Dois dias? Foi o que pensei. Tentei calcular a imensidão que aquilo era mas não consegui. Era apenas muito.

Minha expressão valia por qualquer palavra então nem precisei responder.

Apenas me curvei sobre o balde e joguei para fora tudo que estava acumulado por esses dois dias.

Petterson voltou com os medicamentos. Fez-me tomar uns 5 ou 6 comprimidos mais uma injeção dolorosa no braço. Em certos momentos eu cheguei a pensar o quanto era seguro aceitar medicação de um médico vestido com um calção com estampas de flor de maconha.

- Hora de conhecer o resto. – disse Petterson retirando a agulha do meu braço.

Eu apenas pensei ok e respirei fundo. Glenn e Petterson apoiaram-me um de cada lado dos braços e me levaram para fora do trailer.

Ajustei o foco dos olhos. Era uma montanha extremamente alta, o que justifica os dois dias de viagem. Estávamos cercados de nada. Somente um imenso pico acima de tudo e todos. Assim eu esperava. Era uma bela vista, digna de se admirar até quando se acha que não há nada que o faça pensar assim.

- Aqui – convidou-me Glenn para sentar numa cadeira multi colorida, dessas de praia. Eu queria era ficar em pé, minhas pernas doíam de tanto ficarem dobradas, mas atendi ao seu pedido.

- Ok pessoal, podem vir.

As crianças se aproximaram primeiro, e muito rapidamente. Carl era um menino extremamente bonito, mas não lembrava Rick. Era moreno e tinha olhos também azuis, mas azuis escuros, da cor dos mares afastados. Os de Rick eram azuis cor de céu. Uma garotinha loira e magrela se apresentou como Georginne, ela pareceu-me extremamente falante pelo tom de voz. Ellena era branquíssima e tinha cabelos pretos como a noite, seus olhos eram ainda mais escuros que o cabelo e pareceu-me extremamente educada. Steve e Simon eram irmãos, o que seria perceptível graças aos nomes. Num primeiro momento tive a certeza que eram os mais arteiros do grupo, o que se confirmaria mais tarde. Lucy foi a última a se apresentar e me pareceu um pouco rebelde. Não me olhou nos olhos e disse seu nome com um tom desanimado. Todos eles tinham mais ou menos o mesmo tamanho, exceto Georginne que era relativamente mais alta que os demais.

- Rick Grimmes. – Rick se aproximou com um belo sorriso. – Seja Bem-Vinda Lara. – cumprimentou.

Dessa vez tentei não me encantar com o céu azul em seus olhos e me contive para não entregar um sorriso muito grande.

- Jonnas Benson – Jonnas era inegavelmente irmão de Ellena. O tom de pele e cabelo era inconfundivelmente os mesmos. Assim como ela sua beleza era particular e única. Um homem alto e com cara de sério também se apresentou, seu nome era Shane e ele estava sempre ao lado de Rick. Um senhor, uns dez anos mais velho que Petterson se apresentou como Robert Ruy, e se movia com extrema simpatia. Morgan era um cara mais ou menos gordo e devia beirar os 40 anos, assim como Ruy ele também se movia com total simpatia e parecia ser conversador.

De repente surgiu ele, Dog, o meu primeiro salvador. Naquele momento pude ter a real proporção do seu tamanho e do seu sorriso. Gigantes! Ele sem titubear me abraçou um tanto quanto forte, mas foi advertido por Glenn e Rick que eu ainda estava machucada. Ele sacudia os braços e os ombros descontroladamente. Estava inegavelmente feliz.

Na vez das mulheres, Andrea fez questão de se reapresentar. Dessa vez com a claridade, pude admirar com mais definição sua aparência. Que em nada diminuira, só aumentara. Silvya era ruiva e num primeiro momento não parecia-se com nenhuma das crianças. Foi do tipo que pessoa que disse um oi como quem diz “eu estarei sempre aqui”. Vocês entendem como é isso? Ela era casada com Morgan.

Brenda parecia-se muito com Jonnas e Ellena. Logo acertei quando após falar seu nome ela confirmou meus pensamentos dizendo que era mãe deles. Mas a surpresa foi grande quando ela disse que Lucy fazia parte da família. Era esposa do Dr Petterson e Lucy era sua filha, porém de outro casamento. Hanna e Andy eram irmãs semi gêmeas, uma tinha 24 e a outra 25. Hanna era mãe de Georgine, e Andy, mãe dos gêmeos Steve e Simon. Hanna entrava na meia idade acredito eu, tinha rugas protuberantes ao redor dos olhos. Pareceu-me extremamente séria num primeiro instante mas me deu um sorriso ao dizer que era mãe da esperta Georgine. Sua filha com Morgan.

Ou todos eram realmente felizes, ou conseguiam caracterizar muito bem. Eu não consegui identificar um sorriso falso naquelas bocas.

Depois das apresentações e de observar sorrisos. Senti a falta de um nome.

- Onde está o Daryl? – perguntei curiosa.

Eu havia satisfeito a minha curiosidade sobre as faces das vozes que eu havia ouvido na fazenda dias anteriores, todas elas estavam ali na minha frente, mas a de Daryl ainda não havia cessado. No momento em que o nome de Daryl foi proferido, caras de desgosto e menosprezo foram se formando.

- Está caçando esquilos – me respondeu Georgine.

- Acredite, você não vai gostar de conhece-lo – me afirmou com convicção a loira Andrea.

Eu nem precisaria ouvir coisas ruins a respeito do tal Daryl, eu mesma havia ouvido coisas suficientemente ruins vindas dele para fazer meus próprios julgamentos. Se eu dependesse dele estaria morta.

Embora um vontade imensa de dizer obrigado a todos arranhasse minha garganta, eu não conseguia dizer nada a respeito. Engoli em seco a gratidão que subia a garganta. Havia muita gente ali para poucas palavras talvez. E então eu resolvi as acumular para solta-las para cada um deles num momento mais propício.

A noite começava a soltar suas cortinas sobre as montanhas. Eu, quase que instintivamente olhava sempre ao redor. Embora a segurança de ter pessoas perto fosse grande, não era maior que a que eu tinha na fazenda cercada por paredes e por armas...

- Ai meu Deus! – eu disse quase gritando.

Todos se voltaram a mim destravando suas armas e as equilibrando acima dos ombros.

- O quê? – perguntou Glenn apressado

- Minha alma! Eu a deixei na fazenda. Eu preciso dela Glenn! Eu não posso andar por aí sem armas. – o desespero na minha voz era impossível de não ser notado.

- Minha alma é tudo. Eu a tinha desde que me conheço por gente, foi um presente do meu pai. Nada comprado. Afinal no Tenesse nada se compra, tudo se constrói. Eu nem consigo imaginar o quanto meu pai deve ter andado para conseguir aquelas madeiras. Glenn eu preciso dela, eu, só, preciso. – fazia um frio tenebroso, congelante. Que fazia meu ferimento doer ainda mais que o comum.

Todos se entreolharam sem soluções.

- São dois dias de viagem até lá Lara. Não há como. – tentou mediar Shane. Mas uma primeira característica da minha personalidade se apresentaria naquele momento. Eu não sou de ouvir não como resposta.

- Eu vou voltar! – afirmei decidida.

- O quê? – indignou-se o Doutor Petterson.

Ouvi um couro de nãos atrás de mim enquanto me aproximava do trailer. Eu estava decidida a voltar a fazenda e recuperar minha alma.

- É a coisa mais importante da minha vida Glenn, a minha alma é realmente a minha alma. Eu não posso continuar sem ela. – eu afirmei tentando controlar as lágrimas que brotavam.

- Temos muitas armas aqui Lara. Você não vai ficar desprotegida. – ele afirmou tentando me impedir.

- Não é só por isso Glenn. Ela é tudo que sobrou da minha vida. – argumentei.

Puxei da cama um cobertor mais ou menos grosso e o passei ao redor do corpo. Olhei para trás para pedir que desistissem e vi o Doutor Petterson parado a me observar. Seu semblante era calmo e ele parecia não se importar com a minha partida.

- Você não vai a lugar nenhum senhorita Lara. – sua voz soou calma. Não era uma ordem, ou era. Mas aquele tom de voz não parecia uma ordem.

- Porque não? – questionei levemente exaltada.

- Você vai desmaiar no 13º passo que der.

Ignorando totalmente sua afirmação eu continuei a caminhar em direção a estrada.

- Eu vou conseguir. Me desculpem.

Eu deveria estar inconsciente graças ao frio que fazia ali. Ou havia ficado em pé tempo o suficiente para o ferimento me causar tontura e febre. Petterson explicaria melhor o meu surto de loucura no começo da noite.

Eu continuei a caminhar, convicta de que chegaria ao Tenesse , pegaria minha alma e voltaria sã e salva ao acampamento. Eu tinha consciência do quão egoísta estava sendo com aquelas pessoas, e o quanto eu parecia ser uma garota rebelde e dando trabalho naquele momento.

Petterson estava absolutamente certo. Eu não chegaria a lugar nenhum. Nem sequer ao 13º passo.

No 11º eu acho, dei de frente com uma árvore.

- Mais uma criança para dar trabalho. Eu disse pra vocês! – gritou a árvore, que agora tinha forma e voz. Seu nome era Daryl.

- Vamos andante! – disse com olhar furioso e apertando meu braço em seus dedos.

- Vai com calma Daryl, ela ainda está fraca! – gritou Petterson. Ele não ligou para a advertência e continuou meu arrastando até chegar perto dos outros. Glenn me tomou nos braços e me sentou perto a uma fogueira. A sensação do calor entrando pelos poros e chegando aos meus ossos é absolutamente indescritível.

- Tentando encontrar a saída de novo é? – perguntou Daryl. Eu levei o olhar para ele. AS chamas nos separavam, mas o iluminavam o suficiente para que eu pudesse observar cada característica sua.

Do outro lado da fogueira estava um homem alto, seu porte era de médio a grande. Forte, muito forte. As chamas entretanto, não me deixavam ver se aqueles cabelos eram loiros ou ruivos. Seu semblante era medonho, uma cara fechada, que botaria medo em qualquer criança, ele me encarava com uma raiva imensurável. Seus olhos eram estreitos, difíceis de enxergar. Parecidos com os do Glenn, mas ao mesmo tempo totalmente diferentes. Sua íris era de um azul claro como a água. Deus o havia abençoado com um par de olhos encantadores, que embora não combinassem com o que ele era, combinavam com como ele era. Dois oceanos navegando num par de pálpebras estreitas a me encarar queimando-me ferozmente. O jeito como Daryl desarramava os nós da bota, tirava a caça das costas, tudo isso me lembrava os peões da fazenda. Não é difícil reconhecer um caipira quando se é um.

Ele não parava de me olhar. E aquilo era incômodo na mesma medida que era absolutamente deslumbrante observar seus olhos.

Ele fazia tudo que tinha que fazer, mas também conseguia fazer tudo olhando para mim e destilando seu ódio. Jogou alguns esquilos no chão, uns 10. Atitude repudiante. E por último jogou suas armas no chão e se pôs a limpa-las.

Embora cheia de terra e um bocado de sangue, aquela madeira e aquelas flechas seriam reconhecidas mesmo que estivessem a quilômetros de distância.

- Minha alma! – eu disse em tom de surpresa e felicidade.

- Você caçou com ela? – eu perguntei sem ter muito que dizer, mas evitando agradecimentos.

- É o que parece não é? – ele respondeu grossamente.

Eu o observei com desprezo e fiz meu coração respirar fundo. Seria fácil dizer que Daryl havia passado do limite comigo, mas ele sempre estava fora do limite não só comigo mas com todos.

- Eu a quero de volta. – disse mantendo a educação.

Daryl me olhou com olhos estreitos, depois olhou para Rick e Shane. Levantou-se bruscamente e jogou minha alma sobre o meu colo.

- Fique com a sua merdinha. Essa droga não acerta nem um elefante se ele estiver 1 metro a sua frente. – Em momento algum me senti realmente ofendida pelo que Daryl havia feito. Eu sabia que minha alma funcionava perfeitamente. Afinal nos estávamos juntas há cerca de 15 anos.

Desvencilhei-me de todo e qualquer outro pensamento. Abracei e beijei minha arma como se ela fosse um ser humano.

Todos sorriram ao ver a cena, inclusive Glenn.

- Garante que não precisaremos amarrar você a cama? – ele perguntou.

- É, não vai precisar. – eu respondi morrendo de vergonha da atitude anterior. Mas sem muitos arrependimentos.

Notas finais
Contato curto, bruto, porém esse é o Daryl! Minimalista e grosso hahahahhahha
O próximo capítulo terá um contato mais longo e sútil, mas como ele acontecerá é surpresa!
Até mais :)