Olhos Distantes
1 A Carruagem
Notas iniciais
Ia olhando janela afora, vendo a chuva cair torrencialmente por árvores que corriam por nós quase num borrão. O balanço estava me deixando enjoado, eu me lembro, e por isso não falei muito na viagem, mas mesmo assim não tirava os olhos das árvores que só me deixavam mais tonto ainda. Lud e Max discutiam ao meu lado. É claro que discutiam, estavam sempre discutindo. As coisas não estavam ok, não estavam normais, mas a velha discussão dos dois era quase consoladora, de que quem sabe nem tudo mudasse completamente, talvez nós, pelo menos, continuássemos os mesmos.
— Nós basicamente pagamos por todas as velas perfumadas dele. Por todos os banquetes que dá para seus amiguinhos franceses e suas cortinas importadas. E quem disse que esse é o preço justo por seus trabalhos medíocres?
— Para início de conversa o Príncipe não tem amigos franceses. Ele odeia franceses que sei. Quem não odeia? E depois, isso é a realeza, seu idiota, a realeza tem que se comportar de maneira nobre e demonstrar isso.
— Com o nosso dinheiro.
— Sim, com o nosso, somos nós, nosso povo que o Príncipe representa, quem mais teria que o vestir para realmente demonstrar nosso poderio? Quer que os outros países nos vejam como mendigos pedintes?
Lud suspirou. Ele sempre suspirava quando um grande discurso estava por vir, um daqueles fortes e apaixonados com todos os termos que aprendera lendo em seus livros, jornais e ouvindo de algum que outro doutor que aparecia lá em casa. Ergueu a mão em um gesto didático e pôs seu melhor olhar de desdém.
— Certo. Temos que ter uma figura representativa, um palhacinho colorido lá em cima para os ingleses, belgas e russos saberem que somos imponentes. Mas a pergunta que te faço, Max, é porque esse palhacinho chamado Wilhelm II tem que tomar as verdadeiras decisões. Quem escolheu ele? Por que ele decide por nós?
Max se jogou com o rosto entre as mãos no banco à minha frente, bradando piedade.
— Porque ele é o Príncipe, Ludwig, o Príncipe da linha de sucessão real!
Lud, ao meu lado, continuou o discurso mesmo com os protestos do irmão, ficava surdo quando entrava no modo crítico político e nada parava sua avalanche revolucionária. Sempre pensei que Ludwig um dia teria sua cabeça separada do resto do corpo por seus pensamentos.
— Hed, por favor, — Max sempre apelava a mim quando não conseguia mais sustentar a discussão. — Faça Lud calar a boca. Não concorda comigo? Não concorda que ele está louco?
O balanço da carruagem continuava. Minha vontade de responder também era a mesma. Me virei para Lud, meu irmãozinho me escutava mais do que aos outros, pelo menos, e se não fosse eu a botar um fim na polêmica momentânea ela não teria fim até chegarmos à Tia Eilen.
— O que acho é que se ficar bradando aos quatro cantos daquela casa que nosso príncipe é um palhaço desmiolado vai ser castigado nas primeiras horas de estadia. Se for só castigo que receber, se é que não for mandado para casa.
— Só falo a verdade, Hed. — Tinha um ar traído ao ver que deixei de apoiá-lo.
— Verdade ou não, aqueles professores e estudantes podem não concordar. Mantenha essas ideias para você até conhecer o lugar. Ali não vai ser protegido como em casa, Lud.
Pus a mão em seu ombro, não queria que entendesse meu conselho como uma provocação. Puxou o ar e soltou, aqueles olhos selvagens medindo se devia contrariar ou não.
— Eu nunca precisei da proteção do papai ou de ninguém. Posso defender minhas ideias sozinho.
Seria errado dizer que Ludwig era a ovelha negra da família. Todos nós éramos a ovelha negra da nossa própria família, só dependia o ângulo que se olhava para um de nós se mostrar mais escuro que os outros. Talvez todos fôssemos parte de um rebanho de carneiros pretos. Porém, era plausível dizer que Lud se tingiu de negro muito mais cedo que qualquer outro.
— Pense bem — interferiu Max em tom de paz diplomática —, se for expulso vai ter que voltar para August. E, meu irmão, eu iria preferir a morte.
— Tem certeza que não é a mesma coisa? — Riu, tirando a tensão dos músculos. Lud era assim, fácil de tirar a faca da manga para degolar quem viesse pela frente, como tão fácil de cair em um sorriso torto e debochado, mas sincero.
— Ei, vocês dois. August também é nosso irmão, parem de falar como se fosse um maníaco do machado sem sentimentos. — Minha única função na família era consolar as partes. Talvez o destino tenha sido até gentil comigo se tivesse que continuar nesse falso moralismo por muito mais tempo.
— Não, Hed, o maníaco do machado seria Diederik. Gust só iria mandá-lo descer a navalha em nossos pescoços.
Lud estourou-se em gargalhadas, subitamente reconciliado com Max.
— Até consigo imaginar August surtando conosco e gritando para os serviçais. — Max juntou-se ao riso excessivo. — E Diederik com nosso machado de cortar lenha na mão, correndo em nossa direção: “Tudo que ordenar, Senhor Foerstner! ”
Por um lado, era até agradável ver meus irmãos rindo com tanta vontade mesmo naquela situação. Mesmo depois de tudo que aconteceu e tudo que passamos, para falar a verdade, fazia tempo que não os via rindo daquela maneira. Talvez fosse apenas a tensão.
— Sim... Died daria um perfeito maníaco do machado, mas não sem sentimentos, não é? — Os dois trocaram olhares significativos. — Não é, Hed, você sabe, não é?
Lud me cutucou com o cotovelo nas costelas, mas não compartilhei da piada. Apenas voltei a olhar pela janela, irritado pelo enjoo e pelo assunto. O breu já havia tomado conta das árvores ligeiras e não era possível ver nada com distinção, apenas ouvir a chuva que continuava.
— August apenas quis o nosso bem. Deixe-o em paz.
— Nosso bem? — Lud inflamou novamente. — Está brincando? Na primeira oportunidade que teve nos enfiou dentro dessa carruagem sem nem mesmo nos pedir se queríamos “visitar” essa maldita mulher!
— E nem nos deu tempo de preparar as malas direito! — Max ajudou.
— Ou pegar tudo que precisava...
— Nem se despedir direito deu, Hed.
— É, parece que agora que ele está no comando da casa o poder lhe subiu pela cabeça e pode decidir por todos nós. Ele não é o papai, só nosso irmão mais velho. Ele vai se tornar um maldito Wilhelm II se continuar assim.
— Não meta o Príncipe no meio, Ludwig!
— Escutem... — Compartilhava dos mesmos pensamentos e rancores de meus irmãos mais novos, mas deixá-los ter raiva de August não melhoraria a situação, nem a resolveria. Não quando a coisa que mais precisávamos fazer como família era permanecer unidos. — Gust cuida da casa agora. Ele sabe o que é melhor para nós, deem um desconto pela frieza dele... Só está tentando ser forte por nós.
Mais tarde vim a descobrir como esse meu comentário pode ter sido a mais correta entre todas as besteiras que já disse em vida, que foram muitas apesar do curto período de tempo. É claro que não entendia metade da verdade, nem da complexidade que isso significava.
— Todos nós tivemos que ser fortes, Hedwig. Ele não tem desculpas por nos tratar como cachorros pulguentos mandados para o canil.
— Sim, Max, mas talvez... Talvez August apenas... — Me faltavam palavras para tentar apoiar meu irmão mais velho, talvez porque eu também não o apoiasse.
E então, não precisei mais de palavras. Nunca mais. Na vida, ou depois dela. A carruagem que viajávamos, vim a saber depois, teve sua roda solta. Perdeu a direção, rodopiou, tombou, o que mais quiser dizer sobre um acidente de manchete. Caímos, eu, meus dois irmãos, o criado que conduzia os cavalos e os três cavalos malhados barranco a baixo, veja que idiota, que com a terra molhada pela chuva calma, mas torrencial, nos fez deslizar e afundar aos poucos em lama, presos pela própria carruagem.
Não me lembro muito do fato em si, na hora tudo a minha volta girou e sacudiu dolorosamente, recordo de ter me chocado contra o vidro, que quebrou, então atingir meu irmão, nem sabia dizer qual dos dois foi, e apagar.
Acordei bastante tempo depois, já ouvindo o barulho de outra carruagem, gritos de desespero e gente correndo em nossa direção. Minha visão estava estranha no início, parecia.... Até hoje não sei explicar. Não pareciam meus olhos, talvez não fossem mesmo, talvez não sejam. Meus outros sentidos estavam confusos e não sentia meu corpo, mas nada disso me preocupou perto de quando vi Max e Lud caídos um sobre o outro, desacordados. Tinha sangue saindo de um corte que ia da têmpora ao queixo de Max, seu belo rosto danificado. Sua perna também parecia estar presa, saía pela janela quebrada da carruagem e se punha em um ângulo estranho embaixo dela, a lama entrando por onde podia e enterrando lentamente nós três. Ludwig apoiava sua cabeça no colo de Max, seus cabelos castanho escuros, aquelas madeixas grossas e de curvas sem direção, empapadas em sangue e barro.
Tentei me levantar para ajudá-los, sem sucesso, queria tirar meus tão queridos e irritantes irmãos de lá, Deus, eles tinham que estar vivos, não aguentaria mais perdas, nem eu, ou August, ou Antonie, muito menos as gêmeas, Deus, elas ficariam tão abaladas... Eles precisavam viver. Estranhos chegaram à carruagem caída e a porta acima de nós foi aberta, gente tentando nos puxar pela abertura, gritando ordens, pedindo se estávamos bem, se estávamos sequer vivos! Mas nem responder consegui, as palavras não saíam, assim como qualquer outro movimento. E foi pelo grito de pavor de um dos nossos salvadores que me vi: um pedaço afiado de vidro enterrado na base do meu pescoço, o vermelho borbulhando no rasgo da carne e pintando meu colete cinza, tingindo minha camisa de linho branca, tudo marrom, um tom escuro e pegajoso. Prendi o fôlego quando me tiraram para fora primeiro, estava mais perto da saída, meus ferimentos me chocaram e não entendia como não estava sentindo as dores agoniantes que deveriam ser ter um caco de vidro quase me decapitando.
Fui sendo removido, mas queria permanecer com meus irmãos, eles importavam também, todos nós, todos precisavam ficar bem, precisávamos ficar juntos. E fiquei. Meu corpo foi sendo retirado, mas fiquei, continuei ao lado de Max e Lud, que logo depois foram resgatados também. Vi meu corpo, minhas pernas caídas, meus braços molengas, meus olhos opacos e sem vida, minha face sendo lavada pela chuva e permaneci ali, sem poder fazer nada. Nenhuma palavra me saía da boca que não tinha mais, nenhum gesto vinha de qualquer membro que eu não possuía.
Queria gritar que eu estava onde estava, não na boneca falsa que levavam embora. O desespero me consumiu e minha lucidez me assustava. Lembro que quando me dei conta do que aconteceu minha primeira reação foi tentar saltar sobre meu corpo, como se pudesse entrar nele novamente e receber a graça das dores agoniantes. Mas eu não me movia, não havia um eu, apenas o mundo se movendo a minha volta de uma maneira estranha e nauseante. E nem cair tonto no chão podia, pois não havia o que cair. Sem mais ter o que fazer, acompanhei a mim, meu físico, ser levado até a carruagem de resgate, onde dentro estava nosso cocheiro. Diederik viu o cadáver e não conteve a expressão de horror, cobriu a boca com a mão boa e num choro desesperado jogou-se sobre o corpo puxando-o das mãos dos estranhos contra seu peito, caindo de joelhos comigo nos braços. Pobre Died.
Tive vontade de chorar. Tive vontade de abraçar Died, consolá-lo e pedir que não ficasse triste porque eu estava ali, exatamente do seu lado. Quis segurar meus irmãos que foram sendo trazidos para dentro e enrolados em cobertores, quis pedir se Max estava bem quando acordou no meio do caminho em direção à casa de tia Eilen, sujo, desesperado. Quis ordenar a todos que não deixassem acontecer a meu irmãozinho o mesmo que a mim, quis pedir a Max que fosse forte por todos, que não deixasse tudo desandar depois disso. Eles precisavam ficar juntos, precisavam se unir mais do que qualquer coisa. Contudo, é claro, nada disso foi possível, porque eu não estava mais ali.
...
Não acredito em destinos, provei isso quando ignorei aquela velha cigana no centro da cidade que se ofereceu a nós para ler nosso futuro quando tinha uns doze anos. Destino faço eu, pensava, mas não fui eu que soltei a roda da carruagem e me decapitei com um pedaço da janela. Desde então, com muito tempo livre para refletir, a única coisa que me restou além de observar aqueles que vivem, comecei a acreditar que não houve caminho mais certo para mim; já era um observador em vida, por que não depois dela?
Nunca foi muito ligado a essas coisas de reflexão constante: leva a loucura e isolamento social das mentes fracas, era o que diziam, e eu era uma pessoa de mente fraca. Então deixava essas coisas a Lud e Antonie. Como se não bastasse, era muito fraco fisicamente e emocionalmente também, não era ótimo no futebol como meu adoradíssimo irmão caçula, muito menos aguentava uma pressão mais forte como August. Em resumidas palavras, posso dizer que não tinha nada de especial vivo, não dava utilidade à minha pessoa, de corpo e alma, de conjunto completo. Passei meus breves quase dezessete anos à sombra de minha família e conhecidos, apenas os observando. Meu destino era mesmo a morte e, se não fosse, deve ter sido melhor assim. É por isso que cogito que a aceitação da morte veio tão facilmente para mim.
Não que isso me desespere, não agora, já passei dessa fase. O tempo desta maneira parece diferente apesar de não achar que tenha algo a ver com o fato de estar morto. Tsc, se tivesse tido um choque desses antes... quem sabe não tivesse vivido de verdade?
No início talvez, é, admito, foi terrível. Deus, o mundo todo se movia e eu não saia do lugar, porque não havia o que mover e isso não é uma coisa normal para quem só tem memórias de se mover preso a um corpo físico. Assim que me acostumei com isso, vieram outras provações: ver aquela comida toda e não poder comer, ter a insistente necessidade de suspirar sem sequer tem onde guardar o ar ou pelo que puxar ele, vagar por aí enquanto todos dormem sem poder ter o prazer de ter sono ou estirar-se em uma cama quando cansado. E eu digo, posso não sentir mais cansaço muscular, ou sono, mas dias exaustivos até mortos têm. Apesar de que... nada foi tão difícil do que aquele dia.
Já fazia alguns dias que seguia meus irmãos tentando fazer com que percebessem que estava ali, sem sucesso. Acompanhei o grupo ser levado pelos criados de Tia Eilen até sua casa, onde foram recebidos com muita preocupação. Max e Lud foram levados para seus respectivos quartos para receberem cuidados do médico que já fora chamado até poderem ser levados a um hospital de verdade logo na manhã seguinte. Diederick se recusou a ser tratado até se certificar que os garotos estavam bem cuidados, mas deixou-se ser remediado depois de ordens expressas de Tia Eilen. Tinha o pulso quebrado e várias feridas carentes de uma limpeza. Sofri com ele e todos os outros por Ludwig, que só acordou já no hospital, selvagem como um lobo, foi necessária uma dose de morfina para mantê-lo na cama, ainda que todas as operações necessárias já haviam sido feitas. Quando acordou pela segunda vez, notando então a falta do olho esquerdo, urrou em desespero, acertando dois enfermeiros que tentavam impedi-lo de levantar da cama. Desmaiou novamente pelo esforço, havia perdido muito sangue e ainda estava fraco. Parecia mais uma bonequinha de retalhos, todo esfolado. Max já teve um pouco mais de sorte, quebrou apenas uma perna. Pacientemente aceitou a imobilização do membro, mesmo que tenha estilhaçado o primeiro espelho em que se olhou quando se levantou pela primeira vez. O longo corte que marcara seu rosto chamava muito a atenção, é verdade, ainda mais com o curativo.
Os dois permaneceram no hospital por dias, Diederick se recuperou facilmente. Tinha conseguido saltar da carruagem antes dessa tombar e descer morro abaixo. Ainda teve forças para correr até a mansão de Eilen para pedir ajuda, mas é claro que isso não contou para sua consciência.
Eu? Meu corpo foi levado a um quarto e repousado com um lençol branco sobre mim, mesmo todo sujo e cheirando a morte. Fui evitado, largado lá até o velório, meu nome foi evitado a todo custo. Nada foi questionado. Nada foi mencionado. Era só olhar e a causa da morte estava dada, nada mais era necessário. Quando os outros foram levados ao hospital eu os acompanhei, mesmo que meu corpo não.
No dia seguinte, August apareceu de rosto duro, e em breves palavras perguntou se estavam bem. Fora mais levar as gêmeas para visitá-los, disse, mas mesmo assim passou os dias até a melhora dos dois na casa de Tia Eilen, mais perto do que a nossa.
Analu foi a única de todos que pediu de mim. Nem sua gêmea, Sofie, questionou de meu sumiço. Juro, não sei, talvez nunca saiba, se estavam com tanto pesar que evitavam falar de mim sob pena de lágrimas ou simplesmente não haviam se dado conta da minha falta, já que mal representava meu sangue.
Lembraram um dia depois, de certa forma obrigados, quando Antonie teve permissão para voltar de Berlin. Fazia tempos que não o via, havia mudado tanto... Ralas costeletas personalizavam meu irmão. Assim que ele chegou, foram feitas as preparações para meu funeral, já estavam todos que poderiam querer se despedir do morto reunidos para prestar as últimas homenagens. Uma missa foi preparada, eu sei, estava rondando a igreja no dia, vi Tonie falando com o pastor sobre mim. Ah, lembro, essa foi minha primeira revolta. O que falariam de mim? Será que havia algo para falar? Será que eu era de fato importante para minha família? Sinceramente, meu medo foi tanto que não quis apostar ficar para descobrir.
O sentimento de revolta é diferente do de desespero. Queima ao contrário de gelar, faz puxar para junto de si a vontade de revoltar o cômodo, trazer do interior para o exterior tudo que abala. Mas eu não tinha interior para levar para fora, muito menos capacidade de mover qualquer coisa, por menor ou mais leve que fosse no mundo físico. Frustrado, sentindo-me mais sozinho que jamais pensei que poderia estar, recusei-me a observar a cena. Gritei com a mente algumas ofensas para os conhecidos que passavam de preto pela porta da igreja, chutei com o imaginário algumas árvores, que a despeito da agressividade não moveram uma folha, mas não entrei lá. Não encarei meus parentes, muito menos meu rostinho, grudadinho novamente e completamente em meu corpo, provavelmente, mergulhado em pó branco para dar um aspecto celestial e quem sabe em um belo terno, feito especialmente para essa ocasião.
Naquela tarde desisti de seguir meus irmãos, fossem quem fossem, e saí vagando pelas ruas da Lípsia. Pela primeira vez parei para pensar o que faria dali em diante, talvez por toda a eternidade. Não era cético, mas se até então nada havia sido revelado a mim, qual eram as chances de algum dia acontecer? E se nunca acontecesse? Passaria meus dias à toa, até enlouquecer?
Tomei o rumo de minha casa. Ficava uns bons quilômetros da cidade, mas nada disso importava mais. Vi diante de mim tantas perguntas e me arrependi de todas as vezes que tive questionamentos em vida e não os fiz, seja lá qual o motivo. Agora, simplesmente não tinha como fazê-los muito menos alguém que pudesses responder. Me repreendi amargamente por não ter tido capacidade de eliminar alguns.
Horas depois, avistei a mansão da família. Um grande casarão branco de janelas brancas. Era fim do verão aquela época e algumas janelas ainda se mantinham abertas pelo calor retardatário da estação, esvoaçando suas cortinas coloridas para fora pelo vento outonal que já tomava sua deixa. O ar ainda estava úmido da chuvarada de dias atrás, mas o ambiente nada se parecia com o daquela noite. A última vez que tinha visto minha antiga casa fora ainda vivo, e a nova visão dela me fez pensar que na verdade via apenas uma pintura da casa real, um tanto... fantástica. Observei de vários ângulos, me aproximei, absorvi cada detalhe, pensei que talvez nunca mais voltaria ali. Não pretendia ficar, mesmo que não soubesse para onde ir ou o que fazer. Encontrei com criados, que não se encontraram comigo, e então pensei em ir para onde ia quando algo me aborrecia em vida: a floresta atrás de nossa casa.
Poderia cruzar um caminho mais simples agora que não tinha pés para estragar a grama, mas fiz cada passo que faria se os tivesse. Avistei ao longe aquelas árvores altas, de troncos largos e folhas largas, um tanto espaçadas umas das outras. Eu e meus irmãos, e às vezes Diederick, íamos passear a cavalo lá. Muitas de nossas brincadeiras foram criadas e aproveitadas debaixo daquelas copas, amizades foram tomadas e muito mais que apenas amizades; eu estive lá, eu me lembro.
Me dirigia para lá quando o caminho que passava pelos fundos da mansão se bifurcou, um levando à floresta, passando do muro de pedra que delimitava a residência, e outro que tornava a direita, subindo uma colina onde não haviam mais árvores. Algo me levou a virar à direita. Uma cerquinha baixa, de ferro pintado de branco aguardava ao fim do caminho de tijolinhos, seu portão aberto. Entrei, sem fazer diferença, e olhei em volta, sentindo o peso do mundo sobre a consciência, mesmo que não soubesse do quê, exatamente.
Louise Alla M. Foerstner, 1852-1890. Heinz Friederick Foerstner, 1839-1888. Lages duras de pedra diziam ser meus pais. Ou guardá-los dos males mundanos para quem morre. Ventava, fez frio não combinante com o dia, eu estava com frio, não sei de quê ou como, estava em meio a meu sangue de outras gerações, mamãe, papai, vovó Olga e vovô Markell, Tio Diederick, aquele quem inspirou o nome do nosso Diedercik, todos lá, mortos, e eu também, mas igualmente distante deles.
Senti medo. A morte dos meus pais me separava deles quando eu era só mais um garoto Foerster normal, apesar de nenhum Foerster ser só um garoto, segundo papai. Mas agora, morto também, o que me separava de papai e mamãe?
Uma pequena comoção atrás de mim (onde seria meu atrás de verdade, nunca soube) me tirou a atenção dos devaneios. Um caixão mediano vinha em procissão colina acima, Anton e August, os dois mais velhos, carregavam as duas alças dianteiras, Lud e Diederick as duas restantes. Max com sua perna quebrada subia teimosamente a pé, ajudado por uma muleta, junto de Soifie e Analu mais atrás. Vinham em silêncio, apenas o vento brincando com suas roupas e a respiração pesada consumindo suas forças. Tia Eilen e seu esposo, junto de outros parentes que mal compaixão do sangue me despertavam esperavam ao pé da colina, junto dos criados da casa e da tia.
O buraco já estava cavado, Deus, estava ali e não havia visto. Ao lado de mamãe. O caixão desceu e por alguns instantes todos ficaram parados sem se mover. Analu chorava com seus bracinhos infantis agarrados à cintura de Maximillian, esfregando sua face vermelha e olhos azuis inchados no casaco do irmão. Sofie sempre foi mais forte, mesmo que precisasse agarrar-se a algo, suas próprias vestes, seu vestidinho, tão pequenino e negro, amassado e desarrumado. Max, apoiando-se na muleta, estampava uma face de profunda dor, algo que ia além de seus ferimentos, além de qualquer perda, via sua alma marcada, retalhada de sofrimentos.
Diederick pegou a pá cravada no monde de terra fresca ao lado do buraco e gentilmente entregou a Gust. Seu pulso torcido estava enfaixado e imobilizado e lágrimas desciam em silêncio, seus olhos baixos, seus lábios comprimidos. Meu irmão tomou a pá, enfiou-a fundo na terra e levantou o instrumento com toda a força que tinha, beirando a raiva. Tinha o rosto duro e seco e uma aspereza notável quando jogou a primeira terra sobre meu caixão. Olhou em volta e viu que nenhum dos outros fez movimento para tomar a pá, então continuou jogando a terra lá no fundo, cobrindo-me, esquecendo-me aos poucos de sua memória, apagando-me da dos outros.
A primeira pazada a jogar terra na madeira surda me pesou algo que poderia ser meu peito. Pesou tanto que chegou a doer, e quanto mais o caixão era enterrado, mais pesado me sentia, mais preso, mais claustrofóbico, parecia que de fato estava sendo confinado metros debaixo da superfície junto de meu corpo.
Antonie tinha as mãos em prece e uma cara abatida. Deixava-se chorar, calmamente, quem sabe acostumado com esses momentos, quem sabe não sentisse algo forte o suficiente para se desesperar por mim. Lud, ah, Ludwig, meu melhor amigo... bufava para conter o choro, apertava os pulsos contra o chão, havia caído de joelhos. Eu, naquele momento, estava absolutamente afundando em paranoias assim como o meu corpo em terra úmida e cheguei até a pensar que Ludwig havia caído em frente a meu túmulo de pesar e angústia, mas é claro, o tempo me fez mais humilde e entendo hoje que carregar um quarto de meu peso com apenas dois terços do sangue do corpo não lhe fez bem.
— Acabe logo com isso, August! — Rangeu alto Lud.
— Estou fazendo!
O choro de minhas irmãs agonizavam meu ser, se é que ainda existia. A respiração pesada de Gust pelo esforço, o som da pá tirando terra de um monte para outro, o soluço que as vezes escapava de Died, o ranger de dentes rabugento de Lud, ah, meu amigo Lud.... Quando vi a terra sobre o caixão nivelando com a superfície já senti o fim de tudo, sentia a realidade: estava morto e esquecido.
Joguei-me por cima de August, lutando para que soltasse a pá, socando seu braço, tentando agarrar seu rosto para que olhasse para mim e visse que ainda estava ali. Eu estava! Mas como ainda em vida, Gust nem dignou-se fazer caso de mim e a única coisa que consegui foi parar sobre minha sepultura para sentir passar por mim a última pá de terra.
— Lud, Lud, — Virei-me pare ele, já que Gust não pôde me ajudar. — Ludwig, me escute, por Deus, me escute. — Ele me encarava, olhava meu túmulo, a terra onde eu estava posto. Parecia me ver, me olhar nos olhos com aquele grande e então único olho castanho escuro. — Lud. Ludwig — Insisti, ficando sem fôlego sabe-se lá como, chamando mais alto e mais forte. — LUDWIG!
Meu irmão soltou um grito desesperado socando o chão com raiva e caiu num choro furioso, quem sabe me odiando por perturbá-lo e eu odiando por ele nunca ter me escutado de fato. Max pôs uma mão em seu ombro, consolador, e murmurou um “acabou, vamos”. August, terminado seu serviço, enterrou a pá novamente na grama revolta e sem olhar nem mais uma vez para mim, mamãe, papai ou qualquer morto ou vivo, desceu a passos largos pelo caminho de volta, sem passar por mais ninguém até entrar na mansão. Diederick hesitou, talvez querendo seguir seu novo senhor, mas ficou. Tomou as meninas pelas mãos que, essas sim, precisavam de consolo, e calmamente foi as levando até Tia Eilen.
Quis juntar-me ao choro, mas esse já havia acabado. Antonie passou sua mão pela cintura de Max, ajudando-o a levantar e a caminhar para casa. Lud foi convencido de voltar, mas não aceitou nenhuma ajuda, como era de se esperar. Foi o último a sair de lá, com um jardineiro mandado a observá-lo do pé da colina para ver se tinha forças para seguir o trajeto.
O sol já havia se posto há mais ou menos meia hora e permaneci ali por mais um bom tempo. O céu de rosado se tornava violeta e as estrelas se escondiam por trás de uma grossa nuvem remanescente que levava embora o resquício de tempestade que levou minha vida.
Luzes se acendiam por trás das janelas cerradas, o frio da noite havia tomado conta. É o fim, pensei, exceto pelo fato de estar me sentindo tão vivo quanto nunca me senti em vida.
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