Olhos Cor-de-mel
1 Minha menina dos olhos cor-de-mel
Notas iniciais
Façam uma novata feliz :D
A menina dos olhos cor-de-mel
Como saberia ele que o mundo lhe viraria as costas quando ele precisasse? Logo ele que sempre fora popular. Logo ele que sempre tivera poucos inimigos. Como ele perceberia que eram esses “inimigos” que o ajudariam? Ou mesmo... Ela.
A linda morena dos olhos cor-de-mel. A linda menina baixinha. Aquela menina invocada. A garota perfeita, com um corpo escultural escondido por aquelas blusas estampada; usando aquele anel de coração partido, aquela pulseira dourada de pingentes que só fazem sentido a ela e aquele colar de sal grosso. Aquela garota dos cílios longos cobertos por rímel roxo.
Ah, aquela linda morena dos olhos cor-de-mel.
O que ela lhe dissera, com aquele sorriso irônico e misterioso, com as mãos escondidas nos bolsos dos shorts curtos, rondava sua mente:
“É estranho, não é? É quando realmente precisamos que vemos as pessoas sem suas mascaras. É nessa hora que você vê tudo o que não devia ter feito para ter alguém ao lado. Nessa hora é difícil de acreditar, mas, se você precisar, apesar de vir de mim, eu posso ajudar. Eu sei o que é estar no seu lugar, e é por isso que eu estou nessa maldita cidade. Também sei que você tem o número do meu celular e o meu endereço. Quando pesar, apareça.”
Ele ligaria? Apareceria?
Se fosse para ouvir sua voz, talvez.
A voz que fica irônica quando é provocada; a voz que se silencia no desespero; a voz que fica carinhosa ao conversar com a irmã mais nova dele; a voz que está longe ao atender ao telefone.
Ah, a voz daquela linda morena dos olhos cor-de-mel.
O pior de tudo é que ela não sabia nem metade do que estava acontecendo.
Mal sabia ela que sabia ela que seu mundo não caíra por causa da separação dos pais, nem por causa da “perda” de mais da metade do dinheiro da conta bancária de sua mãe. Isso é o que fizera as pessoas se afastarem. Era o que todos sabiam.
Mas não fora isso.
Não, fora algo pior.
Quando ele foi ao médico, como em todos os anos anteriores, descobrira algo que não o deixara nada feliz. Algo que quase o fizera desistir.
Quase.
Havia apenas uma única coisa que o fazia ter esperanças sobre a vida. Uma única pessoa que o fazia se desligar daquela maldita doença.
Era ela. Mas ela mal sabia disso.
A linda morena dos olhos cor-de-mel.
Ele não soubera o que fazer até lembrar-se dos olhos.
O número do celular dela estava na discagem rápida. E ele ligou. No segundo toque, a voz mais linda do mundo dele, atendeu. E, como sempre, estava distante.
– Alô?
– Nessie? – Obviamente, ele sabia que era ela, mas só de pronunciar o nome, seu coração batera descompassado.
– Jake? – A voz, de repente atenta, não passara despercebida a Jake.
– Ah, oi. Então, eu... Eu posso... Eu posso ir aí? Eu preciso te contar uma coisa.
– Claro, mas vem agora. – Na voz dela continha toda a necessidade que tinha dele, mas não era algo que Jake prestasse atenção.
Ele quase sorriu.
– Estou chegando. – Prometeu.
A casa dela ficava a dois quarteirões. E ele fora correndo. Sempre gostara de correr, principalmente agora que era para chegar até ela.
Em pouco mais de três minutos, Jake tocava a campainha do sobrado branco.
Ele a ouviu correr dentro da casa e a porta se abriu.
Ela estava perfeita: sua camiseta, desta vez estampada com o símbolo da banda Kiss, ia até suas coxas e uma faixa de pano o informara que ela usava shorts; o cabelo quase preto, preso em um coque frouxo; os pés descalços e a pele corada.
Nunca mais bonita.
Ela deu um passo para o lado. Um convite.
Ele entrou, observando a casa. Vazia.
– Está sozinha?
Ela assentiu enquanto oferecia sua mão a ele, que aceitou sem hesitar, e o puxava para o sofá.
Os olhares que trocavam deixaram-nos inquietos.
– O que tinha para me contar? – Ela estava curiosa.
– É algo que, além dos meus pais e da minha irmãzinha, ninguém mais sabe. Mas, para saber, deve me prometer que não me olhará com pena.
– Eu prometo. – Ela disse, assentindo freneticamente.
Ele balançou a cabeça, pensando em como começar.
Antes, precisava saber até onde ela sabia, para dar as explicações certas.
– Só me responda algo antes. – Ele disse. – O que você sabe sobre o porquê meus “amigos” me abandonaram?
– Eu sei que seus pais estão se separando e que sai mãe perdeu mais da metade do capital acumulado por anos.
Certo, ela conhecia a história pública.
– Bem, – ele começou, – há dois meses eu comecei a passar mal, ter dores de cabeça e tonturas. Duas semanas depois, eu já estava sem a metade dos meus ”amigos”. Na semana seguinte, fui ao médico e fiz os exames de rotina. E não fiquei surpreso ao descobrir que ninguém mais estava do meu lado, afinal, houve a necessidade de um médico, não tinham a garantia de que não era contagioso. – Ele contava com os olhos focados em algum objeto atrás dela. – Os exames ficariam prontos em cinco dias e nesse meio tempo, espalhei que estava “tudo bem”. No dia em que os exames chegaram, eu estava tremendo. Corri com o envelope até o quarto e rasguei a abertura assim que sentei na cama. Então, ao saber o resultado, o que eu tinha, soube o que viria a seguir. Soube dos olhares das pessoas e do peso do tratamento. A única coisa que quis fazer foi correr. E eu corri. Larguei o maldito resultado no chão e corri. Até chegar ao limite da cidade, onde tem uma árvore alta e antiga, forte, de tronco grosso. Subi na árvore e me camuflei entre os galhos. Lá, eu chorei. – Nessie vira as lágrimas se formando nos olhos verdes do loiro. – Acho que nunca havia chorado tanto. Chorei alto, chorei por horas, até a última lágrima secar. Voltei para casa sem pressa. Fui surpreendido pelo abraço da minha irmã ao pisar na sala. Minha mãe, sentada no sofá com os olhos baixos, levantou a cabeça. Eu vi dor em seus olhos avermelhados. Ela tentava sentir a minha dor. Meu pai estava sentado na escada, com a cabeça entre as mãos; nem percebera que eu estava ali. Mal sabiam que não tinha voltado por eles, ou mesmo por mim. Eu tinha voltado por me lembrar dos olhos cor-de-mel da morena que amo. – Essas palavras se fixaram na mente dela. Mas não poderia ser ela. Ou poderia? – A separação dos meus pais já estava em processo há três meses. O dinheiro não havia sido perdido ou roubado, fora gastado. O tratamento não é barato e minha mãe prometeu que serei curado, e o pagou a vista. – Nos olhos dos dois só havia lágrimas. – Mas eu pensei: “Como poderei conquistá-la se eu morrer? Como poria meu plano em prática? Como a faria sentir o que sinto se não estiver aqui para abraçá-la e beijá-la como merece? Como?” – Ele admitia enquanto ela pensava: “E como conquistarei você?” – E, por continuar pensando assim, eu decidi viver, eu decidi me curar da maldita doença e amá-la para sempre.
Jake, que se focaram em despejar sua triste história nela, não viu quando o olhar dela caiu sobre as mãos e o rosto desmoronou. Então, continuou:
– Ela não sabe, – “Até agora” – mas eu tenho um tumor no cérebro.
Os olhos pretos tentaram se encontrar com os lindos olhos cor-de-mel, ver a pena dela em relação a ele. Mas o olhar dela estava no chão.
Ele puxou seu queixo, obrigando-a a olhar em seus olhos.
– E você tem esperanças agora? – A voz dela era um mero sussurro para que ele não percebesse o tom choroso.
– Só quando olho em seus olhos. – Ela o olhou, alarmada. – É você, pequena. Porque você acha que eu liguei? Porque eu vim? Porque tive medo de morrer sem que você soubesse que eu te amo e que sempre te amarei.
Ele foi levantando, preparado para ser expulso da casa em instantes; mas ela o segurou pelo pulso.
O toque fizera com que se arrepiassem.
– E você não quer ouvir que eu também te amo? – A voz dela agora era forte, confiante. Ele assentiu preso aos olhos cor-de-mel que sempre o fizera perder o fôlego. – Desde aquele maldito primeiro dia. Quando cheguei nessa maldita cidade. Apesar de você ser “o” cara desejado da escola, foi diferente. Você foi você, pelo menos quando estava sozinho. E eu prometi que seguiria sem você, que seria eu mesma para que gostassem ou me odiassem pelo jeito que sou. E odiaram.
– Nem todos. Eu viciei em você desde aquele dia. Viciei em seus olhos, em seu cabelo, em seu rosto, em seu corpo, em seu jeito.
Ela sorriu um pouco.
– Por isso você me seguiu. – Ele ficara surpreso com a declaração dela. Afinal, ela não deveria saber. – Como você acha que eu sei que você tem meu endereço? Você também roubou o celular na Nina, minha única e melhor amiga, para pegar meu telefone.
Por alguns segundos, eles se encararam sem dizer nada, até que ele quebrou o silêncio, dizendo:
– E agora você vai continuar a seguir sua vida sem mim, certo?
– Eu soube, desde sempre, que eu não cumpriria minha promessa. E agora que eu sei que, apesar de ter uma chance de estar com você, você pode não estar aqui para ficar comigo. Então lutarei pela sua vida junto com você.
Se ele estava surpreso antes, agora ele ficara perplexo.
– Eu ficarei com você até o verdadeiro fim. – Ela disse, se aproximando de Jake. – Sempre e sempre. – Passou os braços ao redor do pescoço dele. –Porque eu te amo.
Ele a abraçou pela cintura.
E então, o sonho dos dois fora realizado com um beijo, grudando-os não apenas fisicamente, mas também espiritualmente.
Notas finais
Beijos,
L.
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