Olhe para mim!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Apesar do sol muito forte, Shura só saiu da arena quando concluiu seu tempo de treinamento. Era assim, fazia parte de sua disciplina... não reclamava. Ao subir as escadas para o seu tempo, cumprimentou os amigos e rezou para que o templo de Sagitário estivesse vazio. Desde que Atena os havia ressuscitado fazia de tudo para não falar com Aiolos, não conseguia olhá-lo nos olhos... e motivos não faltavam. Portanto, esperava poder passar incólume ainda esta vez.
Mas como sorte era uma coisa que Shura não tinha, o dono do templo estava lá, gloriosamente despido da cintura para cima, com as costas apoiadas numa pilastra.
- Permissão para passar, cavaleiro de Sagitário.
- Não.
- Como assim, não? Preciso descansar, o treino foi pesado, por favor, cavaleiro, permissão para passar!
- Não! É bem vindo a descansar no meu templo, refrescar-se, caso queira, mas precisamos conversar, você e eu. Já faz tempo demais.
- Acha que tenho tempo para isso?
- Acho que é um covarde, isso é o que eu acho.
- Do que está me chamando? – Os olhos do moreno se estreitaram perigosamente.
- Vai fugir de mim outra vez, Shura? Porque assim, só estará comprovando minha tese. Então, o que vai ser?
Um suspiro torturado saiu dos lábios do espanhol.Que inferno,pensava ele,um homem não pode mais sofrer sozinho, neste lugar, coñó¹?
– O que quer tanto falar comigo, cavaleiro? – pelo menos suas máscaras estavam no lugar certo. Não podia começar a olhar com doçura para Aiolosagora, sob risco de desmoronar. Muito menos com desejo, embora essa parte fosse bem mais difícil. O sagitariano morrera ainda adolescente e, embora na época já fosse lindo, não tinhaesse corpo! Pelo que ouvira por aí, Atena tinha compensado sua idade, não o ressuscitando aos 14, mas na idade real... Shura só percebeu que estava encarando o loiro quando viu aquele sorrisinho se abrir.
– Suba e tome um banho primeiro, Shura! Honestamente, você está fedendo! – Por dentro, o cavaleiro ria, satisfeito. O maxilar travado e as maldições disparadas entredentes em espanhol a caminho do banheiro mostravam que o capricorniano estava à beira do descontrole.Tantos anos e você ainda é um livro aberto pra mim, Shura, pensava Aiolos, subindo para esperar pelo outro no quarto. Não era o bastante ter Shura por um fio! Tal como os escorpianos, capricornianos eram calculistas, portanto, a não ser que estivesse fora de seu precioso controle, Shura não seria totalmente sincero com ele e muito menos com os próprios sentimentos. Bem, já estimulara sua libido, ofendera sua honra e depreciara sua higiene. Faltava muito pouco, agora...
Que Atena me perdoe, estou ficando igualzinho ao Milo!Riu-se o loiro enquanto desabotoava a calça e ia pegar uma toalha para enxugar os cabelos do espanhol. Que, aliás, acabava de sair do banho, os cabelos molhados pingando.
– Ainda a mesma beleza da qual me recordo... – Aiolos sorriu, indo até o outro cavaleiro e começando a enxugar seus cabelos.
– Já faz muito tempo. Estou completamente diferente daquele adolescente franzino. – Contrariando suas próprias palavras, Shura estapeou as mãos de Aiolos, no mesmo gesto que repetia desde a infância. Não gostava que ninguém mexesse muito no seu cabelo. Não tinha lá muito motivo, mas não gostava. Sentia-se vulnerável, coisa que odiava. O grego, por sua vez, não só continuou o que estava fazendo como perguntouquasecasualmente.
– Então, se hoje você estivesse nas mesmas circunstâncias de 14 anos atrás, não teria me matado a sangue frio?
Shura afastou-se bruscamente, o olhar ferido e sua expressão completamente chocada.
– Sangue frio!? – Rindo um tanto histericamente, o espanhol virou-se para a porta – eu vou embora. Nunca devia sequer ter começado esta conversa, para começar...
– Se não foi sangue frio, me diga o que foi aquilo, Shura! Conte-me, fale comigo, porque pra mim, aquilo foi o meu melhor amigo, aquele que eu amava me enfiando uma espada no peito sem querer saber se eu estava mesmo errado ou não. Diga o que você sentiu e pare de se esconder de mim e se comportar como se eu fosse o pior erro da sua vida, porque NÃO FOI PRA ISSO QUE EU PEDI PRA RESSUSCITAR!
– ... Você pediu... o quê?
– Eu estava nos campos Elíseos, esqueceu? Felicidade eterna, e tudo mais...
– Verdade... por que voltou? Quero dizer, ser cavaleiro é minha vocação e minha honra, mas... felicidade eterna, nada mais importa, e tudo...
Aiolos corou, baixando os olhos. Coçou a ponta do nariz como se quisesse arrancar as sardas dali e respondeu, finalmente olhando o outro nos olhos.
– Eu queria ficar com você.
A simplicidade da resposta fez Shura quase entrar em colapso. O fortíssimo senso de justiça do moreno tinha um triste efeito colateral: não permitia que ele se perdoasse. Por todos aqueles anos se sentira um monstro por ter assassinado o seu amor, seu amigo! E tudo ficara ainda pior quando a verdade sobre Atena aparecera, porque aquele assassinato fora em vão. Por uma causa mentirosa!
Aiolos queria ficar com ele?MAS EU SOU UM MONSTRO, sua mente berrava enquanto seu corpo escorregava pela parede até o chão. O amor que o sagitariano mostrava doía como um soco no estômago, pois a culpa não o deixava aceitá-lo. A voz saiu desesperada e embargada pela enorme bola de lágrimas presa na garganta, pois Shura não chorava.
– Eu queria ficar com você, Olos, queria tanto! Mas você era um traidor! Era... traidor e o meu amor por Atenatinhaque ser maior que o meu amor pelo traidor! Mas eu sou um bruto idiota, duvidei de você e cometi o maior dos sacrilégios contra a minha deusa! Você não pode querer, de verdade, ficar comigo...
Vendo a agonia do homem que amava, Aiolos correu a sentar-se no colo do espanhol, abraçando-o com força. – Eu te amo, seu grande idiota! Esse tempo todo você se culpando desse jeito... e eu só te amo! É claro que eu sofri, sofri muito por você ter duvidado de mim, mas entendi! E te perdôo, também. Assim como Atena te perdoou. Pode chorar, amor, estou aqui...
E, como se esperassem só por isso, lágrimas guardadas por anos e anos se derramaram todas de uma só vez...
-oOo-
Quase uma hora depois, os olhos de Shura ardiam e seu nariz estava inchado, mas ele não podia se importar menos. Estar ali, nos braços de Aiolos... tinha medo de se beliscar e descobrir que estava sonhando.
– Shura, lembra da vez em que íamos fazer amor?
– Foi na tarde em que... bem... eu tinha acabado de voltar da Espanha... – Shura suspirou – Mas não me lembro de termos chegado a concluir nada!
– Pois era exatamente nisso que eu estava pensando. Temos assuntos inacabados, senhor!
– Tratemos de acabá-los, então...
-oOo-
Da casa de escorpião se ouvia o coro de gemidos do vizinho. Milo, largado numa chaise longue, sorria e, como quem apreciava boa música, semicerrava os olhos e bebericava seu vinho, orgulhoso. Aiolos era um ótimo aluno...
FIM
Notas finais
Fala sério, essas táticas todas pra chegar no cara, tinha que ter o dedo do Milo, mestre da sedução! auhsuahsuahsauhas
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