Olhe Para Mim!

1 Capítulo 1: O primeiro reencontro


Fazia já quase um ano que ele a ignorava. Ainda assim, Letícia xeretava o perfil do Facebook de Rafael quase todos os dias. Naquela sexta-feira, por exemplo, lá estava ela com o celular esperando a página de Rafael Fagundes carregar. Estava no carro indo para o litoral, ia passar o fim de semana na casa de uma amiga no Guarujá e seu pai e a namorada aproveitariam um quarto de hotel.

Para evitar imaginar o que aconteceria no tal quarto, voltou-se para a tela do aparelho:

"#partiuGuaru" era a primeira publicação.

Seu coração disparou. Os dedos frenéticos seguiam o ritmo digitando uma mensagem para Priscila:

"Amiga, já tô chegando! E adivinha quem também está aí no Guaru......."

A resposta veio em segundos:

"OMG, não brinca! O Vítor também desceu! Hoje vamos na Switch SEM FALTA!"

Switch era a balada mais bombada da baixada santista, na qual iam com frequência Rafael e Vítor.

Embora tivesse concordado com a amiga, Letícia sentia-se culpada, pois namorava há quase dois anos e estava planejando ir à balada stalkear um cara que a ignorava quase desde que começara a namorar.

O contato que tivera com Rafa durante o namoro com Gabriel se resumia a dois beijos — ou seja, duas traições — um show incrível que ela lhe deu de presente e aulinhas para que ele conseguisse passar de ano.

Basicamente, ele continuara dando atenção a ela enquanto recebeu benefícios. Rafael era um babaca. Mesmo assim, Letícia não largava mão dele.

Chegou na casa de Priscila. Já era começo de noite e ela estava eufórica. A relação dela com Vítor era parecida com a de Rafa e Letícia: eram como amigos coloridos e de repente ele passou a ignorá-la e sair com uma vagabunda que costumava ser amiga de Pri.

As diferenças entre as histórias eram poucas.

Rafa e Letí eram melhores amigos. Ela se apaixonou, e, para sua felicidade, acabaram por virar coloridos. Ela então resolveu apresentá-lo à melhor amiga para que ela "conhecesse seu futuro marido". O problema?

Camila, a "melhor amiga", resolveu bancar a piranha de plantão e beijá-lo. Na casa de Letícia, em sua frente.

A atitude foi perdoada, Letí costumava dizer que "errar é humano", mas Camila repetiu a atitude.

"Errar é humano. Repetir o erro é burrice. Ou vagabundice" — DINIZ, Letícia.

Desde então ela e Camila não mais se falaram. Entretanto, Rafael, querendo fazer o papel de "metelão", foi ficando com as duas. Isso sem falar nas centenas que ele beijava por aí.

Letí então, cansada de fazer parte do harém, arranjou um namorado.

Um cara que conheceu numa viagem, com quem falava com frenquência e de quem gostava bastante. Gabriel Cardoso.

Ela traíra-o duas vezes com Rafa, levara Rafa ao invés dele ao show e camarim para conhecer o Red Hot Chilli Peppers com a desculpa de que o melhor amigo faria aniversário naquele mês. A princípio, Gabriel não tinha nada contra Rafa, mas depois desse show passou a sentir uma pontada forte de ciúmes.

O show fora em setembro do ano anterior, desde então Rafael passou a falar com Letícia cada vez menos até chegar ao ponto que estava, quase um ano depois, em julho, sem trocar uma palavra sequer com ela.

Enquanto pensava em tudo isso, Letí se arrumava com Priscila. As nove da noite já estavam prontas, tamanha era sua ansiedade. Enquanto esperavam o tempo passar, para não chegar lá muito cedo, começaram a bater papo:

— E aí, amiga, você tem falado com o Rafa? — começou Priscila.

— Na verdade, não. — respondeu Letícia, objetiva.

Priscila esperou por mais, mas a baixinha se calou.

— Por que não? — incentivou.

— Eu sei lá, ele simplesmente me esqueceu e... — ela respirou fundo — Pri, você acha mesmo que devemos ir atrás deles hoje?

Priscila piscou os olhos, confusa. Fora pega de surpresa, a possibilidade de não ir sequer passara por sua cabeça. Letícia continuou:

— Tipo, não estamos nos fazendo mal? Eu pensei o dia inteiro em toda a história com o Rafael e na sua com o Vítor e... Não sei se vale a pena, estou sendo tão injusta com o Gabriel! Tudo bem que você não tem namorado, mas você corre e corre e corre atrás do Vítor e ele não muda! Ele está lá em São Paulo todos os dias, transando com a Carolina na sala do faxineiro da faculdade! O Rafael também! Ele está lá na casa da Camila toda sexta-feira copiando o kama-sutra!!! Poxa... Será que não chega disso?

— Eu... Eu não... — começou Priscila, mas parou.

Só continuou após algumas respirações profundas:

— Letí, eu concordo que o que fazemos não é bonito, nem digno de orgulho. Mas eu sei que é por amor... Caramba, nós amamos esses idiotas, e fazer o quê? Vamos desistir? — ela respirou fundo novamente — Olha, eu acho que por amor, vale tudo. Tentar até a última gota de suor escorrer pela testa. É o que eu acredito e é por isso que eu não desisto.

Letícia já estava chorando. Ao perceber, Priscila começou a chorar também.

— Você o ama, Lê? — indagou com a voz falha.

— Sim. — respondeu Letí sem hesitar.

As duas se abraçaram e foram arrumar a maquiagem destruída.

Saíram as onze em ponto.

Passaram pelos seguranças da balada sem dificuldade, pois Priscila já tinha dezoito anos, e Letí, apesar dos dezesseis, tinha uma carteira de identidade com a idade alterada, mas original.

Logo que entraram, começaram a beber.

Na terceira dose de tequila avistaram Vítor. Um sorriso foi surgindo nos lábios de Pri. Mas antes que estivesse completo, começou a se desfazer. Ele estava acompanhado.

— Pri! — chamou Letícia.

Mas a amiga já se virara e pedira outra dose. Letícia estava prestes a tocar o ombro da amiga, quando foi puxada por um cara alto e exageradamente bombado.

Ela não achava essa coisa de brutamontes marombados nada atraente e, com o que acabara de acontecer com a amiga, precisava ficar com ela, abraça-la. Tentava se desvencilhar do gigante, mas era difícil.

Finalmente conseguiu, mas Priscila não estava mais lá. Ia sair em busca da amiga pela balada, mas foi puxada novamente. Desta vez, felizmente, era um conhecido e ele não estava tentando arrancar-lhe um beijo nem o braço. Seu nome era Lucas. Ele sim era atraente, corpo de jogador de futebol, olhos claros e pele morena.

— Caraca, Letí! Quanto tempo! — disse ele simpático.

Ela queria ir embora, achar Pri, mas as três doses de tequila já estavam fazendo um certo efeito, distraindo-a. Sem falar na simpatia de Lucas, que fazia-a querer ficar ali e conversar.

E talvez não fosse só isso. Talvez o fato de que Lucas era amigo de Rafael também estivesse mantendo-a ali. Ele poderia aparecer a qualquer momento e seu coração estava doido para que esse momento chegasse.

Mas ao imaginar a cena, lembrou-se de Vítor chegando e a amizade com Pri falou mais alto:

— Ahn, oi Lu! Realmente faz tempo, né? Por que você não vai lá no meu prédio qualquer dia, jogar bola com os meninos? Aí eu desço e a gente bota o papo em dia! É que agora eu preciso mesmo ir, tenho que achar uma amig... — sua voz sumiu.

A garganta secou e ela começou a suar. Olhos cor de mel se aproximavam. Ao encontrarem os seus, eles se fixaram. Rafael e Letícia se encararam por milésimos de segundo, sem expressão, e então ela saiu correndo.