A noite gritava em seus ouvidos com o som das gargalhadas, vozes, e os outros tantos resmungose barulhos que uma cidade cheia de bares possuí de noite. Era uma confusão sem limites, difícil permanecer concentrada em apenas um. Agora, a algazarra parecia diminuir um pouco enquanto ela caminhava em direção a uma viela escura, longe do trânsito e música. Sentou e observou um bar solitário no meio da avenida.

Sentada no canto escuro da rua ela farejou: canela, erva-doce, desodorantes, carne, cerveja, fumaça, frutas, merda, esperma, gasolina. Tudo era de facilidade extraordinária de se farejar, porém ela procurava um tipo de aroma especifico, queria farejar o medo.

Na rua, de frente para o Boor's True, conversando com seus amigos, um homem em pé parecia entediado e prestava pouca atenção para a conversa chata da mesa. Empresários que vendiam produtos cosméticos não pensavam duas vezes antes de fazer suas experiências em animais, para logo vender o perfume certo do coelho morto. Antes disso era categoricamente pior: compras de natal.

—Talvez devêssemos viver sem essas merdas todas — Disse Pate, um dos que estavam na mesa.

—Concordo — Respondeu Duke, que estava de pé, enquanto falava olhava para o beco -Vamos dar uma mijada ou você precisa retocar sua maquiagem?

-Vá se foder — Levantou-se da mesa. — anda, vamos no beco.

Seus músculos se contraíram, ela aprumou-se na escuridão com as patas se tocaram ligeiramente, seus olhos estavam fixos nos dois humanos que vinham em sua direção. O cheiro deles chegava-lhe ao nariz com informações inválidas; um cheiro forte de misturas aromáticas com madeira. O outro tinha cheiro de suor, cigarro e desodorante barato que não encobria o odor. Nenhum dos dois parecia estar com medo, caminhavam descontraidamente enquanto riam. Sua escolha era então pegar o mais fraco, e deveria decidir isso o mais rápido possível. Um outro cheiro tirou sua atenção; limpo e fresco, de água escorrendo e rosas. Resolveu ignorar esse último aroma que chegou.

A maioria dos animais vem se adaptando ao meio ambiente da forma que eles possam viver sem grandes dificuldades. O mais forte nem sempre vence o mais rápido, o mais venenoso não mata o mais forte. O mais inteligente nem sempre se adapta onde o mais primitivo vive. Seu instinto de caçadora faz com que ela pense em ser irrevogavelmente única no que diz respeito a cadeia alimentar, não tendo nenhum predador natural de felinos era livre sua vaidade.

Duas passadas e ela chegaria ao homem que vinha rindo, ele falava qualquer coisa sobre pagar outra rodada de bebida quando voltasse. Mal sabia que seu destino terminava ali. De um salto, ela lançou-se a frente e foi erguida no ar como um saco de penas, foi pega tão de surpresa que ela continuou em movimento de corrida mesmo depois de estar suspensa à dez metro do chão. ar. Rosnou furiosa para o que quer que a tenha prendido e o barulho chegou aos dois que estavam abaixo fazendo-os fugir em disparada sem nem mesmo olhar a origem do som. Tamanha foi a violência expelida da garganta que o eco afastou tudo que estava próximo. Debateu-se e tentou de todas as formas cortar as cordas nas quais tinha sido capturada, mas sem sucesso. Uma risada sonora e estridente soou acima de sua cabeça.

-Quem? — Indagou ela com os dentes a mostra. — Covarde, usa truques de cordas, escondendo-se e usando essa armadilha barata.

Sua caçada mal começara e parecia ter terminado de forma semelhante, entender aquela situação era parte agora da sua vida, deixou o corpo relaxar, recolheu as garras e esperou.

-Covarde! — Disse ela numa raiva contida. — Pretende ficar até quando escondido?

Uma pata cilíndrica roçou sua nuca, outra tocou as costas, uma outra deslizou sobre sua coluna e antes que ela percebesse oito patas estavam tocando seu corpo e a sensação era horrível.

-Gatinha, que boa educação a sua — Falou uma voz estridente, bulbosa, sem sonoridade nenhuma. — está com dificuldades para se soltar? Vou resolver isso.

Um fio invisível foi solto e suas patas traseiras caíram debatendo-se deixando-a pendurada com as patas dianteiras e podendo olhar agora para cima. Oito pares de olhos a encaram.

-Aquele grito foi um tanto alto, não? — Zombou a criatura — queria saber gritar assim, eu ia matar minhas presas apenas com a garganta! gwaar!

Ela caminhou elegantemente sobre sua teia, parecia que deslizava sobre o ar, aproximou-se e seu corpo volumoso e suas patas eram uma atração tentadora. Ficou assim, parada encarando os olhos que a encaravam.

-Não uso truques sujos para caçar, diferente de alguns. — Disse ela.

-Parece também não saber caçar. — Respondeu a Aranha. — Muito pequena, você realmente é uma pantera ou uma gatinha de sarjeta? Não importa, vou fazer apenas uma pergunta para você. Quanto tempo para voltar a forma humana?

Aquela era uma pergunta primordial, se ela respondesse que levava apenas quinze minutos para voltar a forma humana provavelmente seria morta, teria que mentir. Sua vida dependia disso. Porém, o orgulho nos jovens é algo que sobressai à razão e ela descuidadosamente julgou seu orgulho melhor do que a vida.

— Levo duas horas — Respondeu. — o que importa?

A aranha não se movimentou, ficou imóvel encarando-a de forma sucinta. Que truque era aquele agora? Se ela quisesse poderia ter subjugado seu corpo pequeno e frágil do jeito que estava presa na teia, ela tinha o dobro do tamanho da pantera e parecia que poderia crescer mais. Longo minutos se passaram, sua paciência estava curta e ela colocou uma garra para fora.

-O que importa? — Perguntou mais branda. — O que você quer?

Imóvel a aranha estava, imóvel permaneceu. Uma música começou a tocar do outro lado da rua, um blues de Billie Moon, a canção chegava em alto volume ao beco silencioso. Em um movimento rápido como uma flecha a Aranha se afastou e começou a se movimentar no que parecia ser uma dança, fazia círculos e levantava duas patas de cada vez, pulou e girou e cantarolava enquanto seu corpo gordo e negro desajeitadamente e sem coordenação dançou pela teia e aquela visão deixou-a mais hedionda do que antes.

-Desculpe-me, passo muito tempo sozinho. — Disse a Aranha reparando na pantera presa. — esqueço como é dançar e conversar com alguém. Vou te dar um aviso: não se mexa.

Como um trovão a Aranha avançou sobre ela e a ferroou.

-O quê? — Engasgou-se.

Antes que julgasse possível o veneno fazer efeito seus sentidos já estavam vacilando, sua audição cessou quase por completo, seu olfato ainda sentia o cheio de rosas e a visão começou a escurecer. O cheiro de rosas ainda estava no ar. Seu corpo amoleceu e ela ia despencar da teia.

Em um último vislumbre de visão a Aranha ainda estava dançando, só que parecia mais humano, suas oitos patas se transformaram em duas pernas e dois braços e falou de forma simpática com ela.

-Volte logo a sua forma humana, sei que você não precisa de duas horas. temos que ir logo. Vim te resgatar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.