Old Feelings
11 Capítulo 10 - Noite Feliz?
Notas iniciais
– Louise... Louise. Filha. Louise, acorde!
– Hã? – murmurei.
– Está na hora de acordar – disse minha mãe, suavemente.
– Ah, não... Me deixa dormir até mais tarde hoje...
– Não me diga que quer passar o Natal na cama!
– Natal...?
– Isso mesmo, mocinha. Natal. Não está nem um pouco ansiosa para ver os seus presentes?
– Presentes... Presentes! – levantei imediatamente, sobressaltada. – Que horas são?
– Nove e meia – minha mãe respondeu, com um sorriso.
– Nove e meia?! Já perdi mais da metade da manhã!
Corri para o guarda-roupa e peguei meu vestido vermelho – o que eu usava apenas no Natal – e me vesti atrás da divisória.
– Nikolas já está de pé? – perguntei.
– Está, sim.
Se até Nikolas já estava de pé, então eu estava atrasada mesmo. Coloquei o vestido e fui até a penteadeira para pegar a escova.
– Calma aí, Louise, não precisa se apressar tanto. E deixa que eu cuido dos seus cabelos – disse minha mãe, calmamente. Ela tomou a escova das minhas mãos e começou a escovar meu cabelo. – Quantos anos faz que eu não escovo seu cabelo?
– Muitos anos!
Ela riu.
– Eu fazia tranças nele quase todo dia. Você ficava tão fofa!
– Mãe, ficava horrível! Eu era uma criança sem noção!
– Você era uma criança adorável. Nikolas nunca me deixou tocar no cabelo dele. Não parava quieto!
– Então é por isso que parecia que ele tinha uma moita na cabeça!
Rimos e minha mãe prendeu parte do meu cabelo com uma fita verde.
– Está parecendo um presente. Com a fita amarrada e tudo – disse ela.
– Obrigada por me ajudar, mãe. Vou descer para tomar o café da manhã.
– Vá.
Desci as escadas correndo e fui até a sala de jantar. Nikolas estava à mesa, terminando seu café, e Daven também, mas apenas lia um jornal, como de costume.
– De que país é esse jornal? – perguntei.
– Grécia – Daven respondeu, sem tirar os olhos das páginas.
– Desde quando você fala grego?
– Eu conheço algumas palavras – ele deu de ombros.
– Sabe, eu acho que tem algo muito mais interessante para se fazer do que ler um jornal de uma língua que você não entende – Nikolas falou.
– O quê? – perguntou Daven, desinteressado.
– Espionar Lynae e Isaac.
– Por que eu faria isso?
– Porque é divertido? Vamos, não custa nada!
Daven revirou os olhos e dobrou seu jornal, saindo da sala.
– Por que você sugeriu que ele fosse espionar Lynae e Isaac? E o que tem de divertido nisso? – questionei, confusa.
– Ah, você já vai ver.
Depois que terminei o café, continuei na sala de jantar com Nikolas, conversando. De repente, Daven entrou correndo. Ele estava ofegante e muito ruborizado.
– O que foi, Daven? Parece até que viu uma assombração – eu disse.
– Antes fosse, antes fosse – ele resmungou, caminhando devagar até sua cadeira.
– Calma, respira. Conte até dez – instruiu Nikolas. – Agora fala o que você viu.
– Eu estava só caminhando pacatamente até a biblioteca, quando achei que tinha ouvido alguém dizer alguma coisa do outro lado do corredor. E quando eu fui lá verificar... – ele hesitou. – Qual não foi a minha surpresa quando vi que Isaac estava ali com a minha irmã! Eles sussurravam algumas coisas, mas não dava para entender direito. Céus, eles pareciam estar se devorando!
Então Nikolas teve um acesso de risos e, pouco a pouco, Daven o seguiu na risada. Fiquei apenas parada os observando sem entender nada.
– O que é tão engraçado? – perguntei.
– Os dois pombinhos de namorico escondido. Vai ser demais provocar Lynae com isso depois! – respondeu Nikolas, se acalmando.
– Meu Deus, vocês realmente perdem seu tempo vigiando a vida dos outros?
– Mas é engraçado! Venha, vamos lá. Onde você disse que eles estavam, Daven?
– Pode parar por aí, Nikolas! Eu não vou observar o namoro de ninguém!
– Vem logo!
Nikolas me puxou pelo braço, acompanhando Daven, que seguia o caminho de volta até o corredor em que os vira.
– Caramba, eles ainda estão ali? – comentou Daven, com voz baixa.
– Pelo visto o chamego está bom, hein! – disse Nikolas no mesmo tom.
– Eu me recuso a ver isso – avisei.
– Você que sabe.
Virei-me de costas, mas ainda podia ouvir o que eles diziam. E não achei nem um pouco engraçado. Na verdade era muito constrangedor.
– ... Esse tempo todo nas Ilhas do Sul, e nenhuma garota me fez esquecer você. Nunca. Porque você é única.
– Sério?
– Nunca falei tão sério. Prometa que vai esperar por mim. Ainda vamos ficar juntos de verdade. Só preciso de tempo para convencer meus pais. Mas acho que vai ser mais difícil convencer os seus.
– Tem razão. Se ao menos eu fosse um pouco mais velha...
– Isso não importa. Gosto de você do jeito que é.
– Também gosto de você do jeito que é. Melhor que qualquer guarda que eu já tenha visto.
Seus risos logo foram abafados pelo som dos beijos.
– Vamos embora, rapazes. Eles precisam de privacidade.
– Atrapalho? – perguntou uma voz de trás de mim.
– Richard! Que susto. Imagina, você não está atrapalhando nada. Não é, Nikolas? Daven?
– Nada mesmo.
– Absolutamente nada.
– Aliás, já estávamos de saída. Vamos, Richard? Eu ainda não entreguei o seu presente – sorri.
Richard deu um pequeno sorriso e me ofereceu o braço. Olhei de relance para Nikolas, e ele apenas fez sinal de que estava de olho.
Richard e eu caminhamos até o saguão, onde estava a árvore de Natal. Minha mãe, meu pai, minhas tias e meus tios aguardavam para trocar os presentes. Aos poucos, os outros foram chegando, e então já estávamos todos ali. Trocamos presentes, nos abraçamos e fizemos desejos de saúde, paz e felicidade. O presente de Richard era um lindo bracelete banhado em ouro, com pequenos rubis incrustados. Eu lhe dera abotoaduras douradas, para usar no casamento, e de repente meu presente pareceu muito simplório perto do que ele me dera. Richard compreendeu o que se passava em minha cabeça e deu um sorriso suave de canto. Levantou meu queixo com um dedo e segurou minha cintura.
– Não há motivo para se aborrecer, minha querida. Eu adorei as abotoaduras, de verdade. Mas você sabe, meu maior presente é você – disse ele, romântico.
– Foi atingido pelo espírito natalino? – eu ri.
– Pode-se dizer que sim.
E com isso ele se aproximou mais, colando nossos corpos e me beijando longamente.
– Acho que o bracelete vai combinar muito bem com seu colar. Quer que eu coloque pra você, princesa? – perguntou Richard.
Instintivamente toquei meu colar; o que Gustav me dera. Então me lembrei. Enquanto eu estava ali, me perguntando se meu noivo estava satisfeito com as abotoaduras, Gustav fora completamente esquecido. Este seria seu primeiro Natal longe de casa, e ele estaria inteiramente sozinho. Por isso, resolvi que lhe faria uma visita ao final do dia. Enquanto eu pensava sobre isso, Richard caminhara, ainda me segurando pela cintura, até uma janela do saguão, e observou:
– Parece que vem uma nevasca por aí.
– Nevasca? Ah, não! Richard, vou precisar sair por uma meia hora. Vou visitar um amigo. Você vai ficar bem?
Ele sorriu.
– Acho que consigo me virar.
– Ótimo. – Dei-lhe um beijo rápido. – Até logo.
Em seguida pedi a Kai que chamasse o cavalariço para preparar minha égua, pois eu iria até o reino. Kai pareceu apreensivo, e me disse para ter cuidado e que voltasse logo, pois uma nevasca estava chegando. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois eu estaria de volta em breve. Pedi a Kai que avisasse meus pais e fui até o meu quarto. Peguei minha capa e desci até os estábulos, onde minha égua estava, já preparada para partir, sendo acariciada pelo cavalariço.
– Alteza – cumprimentou o cavalariço, com uma reverência.
– Obrigada – agradeci.
– Disponha, Alteza.
O cavalariço se afastou e perguntou se eu precisava de ajuda para montar na égua. Respondi que não, montei, peguei as rédeas e comecei a cavalgar em direção ao reino. Gustav dissera que estava morando numa hospedaria. Não foi difícil encontrar, afinal. Havia apenas uma hospedaria em Arendelle, perto do porto. Desci da minha égua e bati na porta do estabelecimento. Um senhor atarracado e calvo me atendeu.
– Em que posso ajudar, senhora? – perguntou, aparentemente sem me reconhecer. Isso era bom.
– Gostaria de falar com um dos seus hóspedes.
– O que uma moça bonita como a senhora poderia querer com um velho boêmio ou um lobo do mar?
– Eu soube que o contra-almirante Silver está morando aqui – respondi-lhe.
O dono da estalagem pensou por alguns segundos.
– Silver? Esse nome não me é estranho. Sim, sim! Ele chegou há mais ou menos uma semana. Quase não sai do quarto. Vai encontrá-lo no número 16, senhora.
– Obrigada.
O senhor abriu espaço para que eu passasse e adentrei a estalagem. Havia um cheiro forte de bebida no ar. Um bar e muitos barris ocupavam o lado direito do aposento, e o resto era atulhado de mesas e cadeiras. Atravessei a sala em direção à escada, que levava aos quartos, no segundo andar. Eu rezava para que o quarto de Gustav tivesse uma aparência melhor que o resto do lugar.
Número 16. Bati na porta e ouvi o ruído de uma cadeira sendo arrastada contra o piso com violência.
– Já disse que não quero comprar nada...! – esbravejou Gustav, abrindo a porta. Ele me olhou espantado e perguntou: – Louise?
– Oi – sorri. – Será que eu posso entrar?
– Claro, claro...
Ele apontou uma poltrona e eu me sentei, tirando a capa. Gustav puxou a mesma cadeira que eu ouvira ser arrastada antes para perto de mim e sentou-se. O quarto de Gustav era humilde; uma cama de solteiro, uma escrivaninha de aparência muito velha, uma cadeira, uma poltrona e um guarda-roupa.
– Bem, feliz Natal, Gustav – desejei.
– Feliz Natal, Louise. – Ele me olhava sério. – Não quero parecer grosseiro, mas... O que faz aqui?
– Lembrei que você está passando seu primeiro Natal longe de casa, sozinho. E então decidi vir te visitar. Não gostou da surpresa?
– Estou um pouco confuso, mas pode ter certeza de que fico feliz que tenha vindo. Você realmente alegra meu Natal – ele sorriu.
Sorri de volta.
– Que bom. Veja, eu trouxe algo para você – mexi no bolso da capa e tirei uma caixa de presente pequenina de lá. – Aqui está. Tome.
Entreguei a caixa a Gustav, e ele apenas observou-a, incrédulo.
– Abra – encorajei.
Hesitante, Gustav desamarrou a fita vermelha da caixa e abriu-a. Pegou o relógio de bolso que estava lá dentro e o admirou por alguns segundos.
– Não sei se posso aceitar isto – disse ele, enquanto pesava o relógio na mão.
– Pode, sim. E vai. Era um presente para Syver, mas como ele não está... É seu.
– Louise, está fazendo isso só por causa do colar? Não precisava, mesmo.
– Eu faço questão – insisti.
– Certo, eu bem sei que discutir com a sua teimosia é inútil. Obrigado pelo presente.
– Agora pode se lembrar de mim toda vez que olhar as horas – brinquei.
– Como se eu já não me lembrasse de você cada minuto do meu dia. – Ele me observou, fascinado. Corei. – Está usando o colar.
– É claro que estou, eu adorei ele. O Natal parecia uma boa oportunidade para usá-lo pela primeira vez, não acha?
– Não sei. – Ele deu de ombros. – Não entendo muito de joias. Só o que sei é que esse colar fica perfeito em você. Exatamente como eu tinha imaginado...
– Você me conhece bem.
– Mais do que deveria, para o meu próprio bem.
O clima ficou estranho de repente, então pigarreei e me levantei da cadeira.
– Acho que já está na hora de ir. Parece que vai começar uma nevasca.
Gustav não fez oposição.
– Tem razão. Obrigado pela visita, Louise.
– Eu que agradeço. Até qualquer dia, Gustav.
Quando eu já estava na porta, Gustav me chamou.
– Sim?
– Eu só quero que saiba... Que irei ao seu casamento. Promessa.
– Mesmo? Obrigada, Gustav, sua presença é indispensável – sorri.
Ele fez força para retribuir o sorriso e fechou a porta quando saí do quarto. Cheguei ao castelo antes que a nevasca começasse e me sentei perto da lareira para ouvir as histórias que meus tios gostavam de contar e tomar café, deixando que meus pensamentos fossem para longe de Gustav.
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