Notas iniciais
(Para ler ouvindo: Rammstein Ohne Dich)

Foi a última vez que a vira. Era um dia lindo. O céu estava amplo, azul e magnífico. Havia pranchas de sol que caíam na estrada ao acaso, exuberantemente. O vento balançava as folhas das árvores suavemente. Extremamente fresco e agradável, e transmitia uma sensação de paz que ele só havia sentido numa época em que viveu em certo porão. Não estava como na noite em que ele viajou para aquela mesma rua, quando o medo e a desesperança tomaram conta de seu ser. Nem mesmo a brisa noturna que soprava conseguiu acalmá-lo, dar-lhe um resquício de esperança sequer. Naquela noite, ele não sabia que, em pouco tempo, sua vida seria salva, e sua esperança reconstituída. Mas sua salvação seria tomada dele à força, num sonho que, inesperadamente, transformou-se num pesadelo. Mas um pesadelo muito pior do que o que ele havia vivido antes. Antes de encontrá-la.

Naquele dia, as cores e sensações não eram propícias ao que estava acontecendo na Rua Himmel. Ele não pôde olhar para ela uma última vez, pois fora obrigado a continuar andando rumo a Dachau. Naquele momento, ele percebera que tudo estava perdido. Não seria capaz de escapar das garras da morte uma segunda vez, não, ele não teria tanta sorte. Enquanto era brutalmente conduzido pelo soldado que o separou da menina, não olhou para o horizonte, tampouco para o céu. Ele sabia o que veria se olhasse para frente. Animais. Nada além de um bando de animais. Apenas saukerls imundos que uma vez ameaçaram a economia e os ideais de uma nação. Mas agora eles não poderiam ameaçar a segurança sócio-econômica da Alemanha.

Porque seriam dizimados, um a um.

Enquanto caminhava encarando o chão e ainda sentindo as mãos pesadas do soldado em seus ombros ensangüentados e as palavras que este proferia, insultando-o, a percepção da realidade de Max Vandenburg foi se tornando mais clara à medida que pensava. Acabou. Nunca mais dividiria seus momentos com aquela que lhe ensinara tanto em tão pouco tempo. Nunca mais veria a ternura estampada naqueles doces olhos castanhos. Nunca mais sentiria o calor que emanava daquele pequeno (grande) corpo... Não, ele jamais se esqueceria do dia do décimo segundo aniversário de Liesel Memminger, quando ela o abraçou pela primeira vez. O judeu sorriu ao se lembrar daquele dia, do gesto que o fez compreender que o melhor vigiador que conhecera não é um homem. Sorriu ao se lembrar da primeira vez em que a vira, depois de ter dormido durante três dias seguidos, depois de chegar de sua longa jornada. A primeira coisa que viu ao acordar foi o rosto de Liesel. Sorriu ao se lembrar como a assustou ao despertar e segurar o braço dela, com medo que partisse. O motivo, ele não sabia. Max sempre procurou não dormir, por medo de quem pudesse estar lá quando acordasse, mas ele viu algo nos olhos da menina que roubava livros, algo... Cujo motivo ele não foi capaz de entender, mas a partir daquele momento, soube que ela jamais lhe faria mal. Lembrou-se do momento em que segurou o tronco da menina no dia em que ensinou-lhe a fazer flexões e notou o quão forte ela era, apesar de pequena. Lembrou-se do boneco de neve que haviam construído juntos, o que minutos depois, acabou se transformou numa verdadeira guerra. Mas não era uma guerra como a que estava acontecendo lá fora. Na Guerra do Porão, não havia ideais, não havia ódio nem nada pelo que lutar, matar ou morrer. Havia apenas risadas e muita água.

Sorrindo docemente, ao mesmo tempo em que lágrimas escorriam de seus olhos, ele continuou andando, conduzido pelo soldado, lembrando-se de cada momento, de cada sorriso, de cada palavra. De cada semelhança. Lembrou-se de tudo, inclusive do que havia acontecido há poucos minutos. Da despedida, do adeus que não puderam dar.

De repente, pensou ter ouvido a voz de Liesel. Pensou tê-la ouvido gritar seu nome e um pedido. Por reflexo, olhou por cima do ombro, procurando-a. Sim, ele sabia que era inútil. Sabia que, mesmo que a menina que roubava livros tivesse realmente gritado, ele não seria capaz de ouvir. Os judeus naquela multidão iam atropelando uns aos outros, e Max ainda estava sendo conduzido pelo soldado quando tentou procurar a fonte da voz de Liesel. Os olhos do Boxeador ainda estavam marejados, tanto pelo reencontro e pela watschen quanto pelas lembranças. O soldado, ao ver o rosto do lutador, gritou: – Saukerl! O que pensou que estava fazendo? Não devia ter parado para receber aquela demonstração de piedade, deveria ter continuado a andar! Tome! – e Max Vandenburg foi açoitado novamente, mas aguentou firme, como sempre. Aquele soldado não sabia o motivo de suas lágrimas. Ele não fazia a mínima ideia do que aquela menina significava para ele. ‘Ele não sabe.’ Era o que o Boxeador pensava.

Continuou a caminhar, mas desta vez olhou para frente. Ao chegarem a Dachau, a cada um foi atribuído um número. Foram marcados como gado e depois, mandados ao trabalho. Se Max sabia qual era o motivo por trás de tudo aquilo? Sim, ele sabia. A maior parte dos que estavam ali sabiam como a Alemanha estava sendo erguida e o que acontecia por baixo dos panos, por isso não podiam permanecer neste mundo. Deveriam morrer, para que não destruíssem a nação que estava sendo tomada por um bando de porcos.

Quanta bobagem.

Após um exaustivo dia de trabalho, fazendo serviços da pior categoria, sendo humilhado, açoitado e ridicularizado, Max Vandenburg deitou-se em sua cama. Não estava com sono, mas como havia se esforçado muito durante o dia, seu corpo o obrigou a dormir. O lutador judeu dormiu. E teve um sonho.

Não havia guerra. Não havia bombas. Não havia sangue. Mas havia lágrimas...

Lágrimas de felicidade por estar junto dela novamente.

Sonhou que estava em um lugar diferente. Sonhou que estava em um parque cujas árvores cobriam o céu quase completamente. Era o entardecer. Max estava caminhando, escutando o som do silêncio. Mas havia alguma coisa errada. As nesgas de luz penetravam no bosque pelo vão das árvores, a grama aveludada que o exausto lutador sentiu com seus pés descalços, o brilho e a energia que emanavam daquele lugar, tantas sensações indescritíveis... Também havia passarinhos. Mas havia um problema. O canto deles não era feliz. Mas por que, pensou Max. Era um lugar absolutamente perfeito, e, mais importante que qualquer coisa, eles eram livres. Max foi caminhando por aquele misterioso bosque, sem saber aonde iria parar, mas absorvia tudo. Após alguns minutos de caminhada, a energia começou a mudar. O canto dos passarinhos, que quase não expressava alegria, cessou. E o Boxeador sentiu que as árvores não tinham mais vida. As nesgas que vinham através das folhas e dos vãos das árvores também não existiam. O bosque continuava bonito, porém, escuro e sem vida.

O lutador continuou seu caminho. Andou por cerca de quinze minutos, e então, enxergou um feixe de luz adiante: uma clareira! Max correu até lá, sem saber por que estava correndo, e então, seu coração deu um sobressalto: Liesel estava lá, com as costas apoiadas num tronco de árvore, chorando baixinho. Ela abraçava fortemente as únicas edições de O Vigiador e A Sacudidora de Palavras que existiam. E murmurava, em meio às lágrimas:

- Max... Max... Ohne dich kann ich nicht sein… (Sem você eu não existo.)

O Boxeador sorriu. Caminhou até ficar perto o suficiente para que a menina ouvisse e disse:

- Keine angst, mein Liebe... Ich bin hier. (Não se preocupe, minha querida… Eu estou aqui.)

A roubadora de livros se pôs de pé e olhou. Seus olhos se arregalaram e sua boca entreabriu. Ela deixou os livretos caírem tamanho choque. Será possível? Fitou aquele semblante de cabelos como penas e seus olhos ficaram turvos outra vez, mas desta vez, acompanhados de um sorriso. Liesel foi correndo até ele, de braços abertos e Max fez a mesma coisa. O espaço que os separava era relativamente curto, logo atiraram-se nos braços um do outro a chorar e sorrir. Ao tocar o rosto de Max levemente, a menina disse, mais uma vez:

- “É você mesmo?, perguntou ao rapaz”. “Será que foi do seu rosto que tirei a semente?” É você mesmo, Max?

O judeu nada disse. Apenas continuou sorrindo e acariciou a face esquerda de Liesel com a falange dos dedos da mão direita enquanto a esquerda segurava o ombro da menina. O tempo não existia quando estava com ela, por isso não soube dizer quando tempo ficou a sentir a pele macia da garota. Colocou a mão que a acariciava no outro ombro e disse:

— Ja, Liesel, ich bins. (Sim, Liesel, sou eu.)

Fitaram as orbes um do outro. Não mais palavras eram necessárias. Liesel segurava os braços do judeu e, muito lentamente, foram inclinando-se um na direção do outro, cerrando os olhos. Quando a boca de Max estava a milímetros da testa de Liesel, a menina desapareceu e o Boxeador olhou em volta, desesperado.

Então, o lutador judeu acordou.

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