Oh, vã cobiça!
16 Capítulo 16
Notas iniciais

Vasco desperta de um sono abrupto, provocado logo após a saída de Zelena, da cela. Ainda zonzo, ele se senta no soalho de pedras frias e úmidas. Inspira profundamente e leva seus olhos sonolentos para a porta, de onde vinha um barulho típico de uma fechadura sendo aberta ou fechada.
Mesmo com a visão embaçada, ele vê a figura esguia de Galeano entrar na cela. O jovem se ajoelha e exibe uma botija de cerâmica.
– Eu coloquei os macacos para dormirem por alguns minutos, enquanto você se alimenta. Fiz um caldo bem reforçado e trouxe água. – o jovem sorri e retira os cabelos que caiam pela testa de Vasco. – Beba logo o caldo, antes que os soldados acordem.
Vasco apanha a botija e começa a beber o liquido morno e saboroso. Delicioso!
– Onde está sua mãe?
– Ela precisa dormir muito. Ficou muito fraca depois do meu nascimento e quando usa suas habilidades, precisa de sono. Ela estava vigiando sua filha na floresta.
Vasco avança e agarra a gola do casaco de Galeano.
– Como está minha menina? Onde ela está? Eu lhe imploro que me deixe sair daqui e procurar por minha filha!
Empurrando as mãos do prisioneiro, Galeano se afasta e olha o prisioneiro com repulsa e admiração ao mesmo tempo. O homem era uma pintura, uma obra de arte!
– Eu irei para a floresta e tentarei encontrar sua menina que não é mais menina. Mas você precisa ficar aqui para não despertar a fúria em minha mãe. Caso ela se sinta desafiada, enviará todo o exército de macacos voadores atrás de sua filha.
Vasco olha para os lados e tenta mover-se, sendo impedido pelas correntes.
– Farei o que me pedir e o que for preciso para que minha filha fique bem.
Um sorriso insano surge nos lábios do rapaz. Ele estende a mão e toca o rosto sujo e suado do prisioneiro. Não consegue esconder seu encantamento. Não consegue acreditar que aquele homem fosse real, mas percebe que é, quando vê a expressão de espanto surgir naquele rosto.
Segura a camisa suja de Vasco e a derruba de seus ombros, olhando-o como se ele fosse uma peça em um leilão. Atrevidamente, encosta o rosto contra o peito do prisioneiro aguçando sua audição para ouvir o som das batidas cardíacas.
– Preciso sair agora! – Galeano apanha os utensílios que havia trazido e afasta-se envergonhado.
Uma onda de sonolência invade os músculos de Vasco e ele percebe que mais uma vez tinha sido vítima de alguma mistura, colocada em seu organismo contra sua vontade. Sente-se impotente e furioso consigo mesmo.
Em seu quarto, Zelena termina de trançar seus longos cabelos ruivos. Olha-se no espelho e não gosta do que vê: uma mulher abatida, magra e com aspecto pouco saudável. Como queria conquistar seu rei, sem atrativos que pudessem atrair a atenção e os desejos daquele homem?
Sentia-se cansada e debilitada desde o nascimento de Galeano. Porém, sentia-se feliz e realizada. Vê a imagem refletida no espelho, do filho entrando no quarto.
– Como se sente, mãe? – ele se inclina e beija-lhe os cabelos.
– Mais leve. Como foi sua visita a Vasco? Ele está mais receptivo?
– Eu disse que irei procurar a menina na floresta e ele concordou em ser amável com você. – Galeano sorri e olha o rosto da mãe pelo espelho. – Mãe, a menina de Vasco é belíssima! Por que você não a entrega como um presente para mim? Você ficaria com Vasco e eu ficaria com Yasemine!
Zelena sorri maliciosa.
– É com Yasemine que você quer ficar mesmo?
– Claro que sim! Com quem mais seria? Com o macaco que a acompanha?
Os dois riem.
– Filho, preciso que vá para a floresta com alguns dos meus servos voadores e consiga a localização de Yasemine. Sei que ela retornou para o castelo da mãe dela, depois que a expulsamos daqui. Encontre-a e faça uma proposta: a vida dela pela vida do pai. Eu a quero longe de mim, porque a cada um dos anoiteceres, sinto que ela se torna mais forte.
– Mãe...
– Sim?
– Observei que a cada um dos anoiteceres, você se torna mais fraca. Suas forças estariam sendo minadas pela menina?
Zelena arregala os olhos e volta-se para ver o rosto do filho.
– Do que está falando?
– Desde que ela conseguiu furar nossos bloqueios e invadiu os perímetros do castelo, assim que Vasco veio para cá, e mordeu seu braço, percebo que você tem sido consumida mais e mais. Há alguma relação? Será que ela está drenando você?
O rosto de Zelena se torna assombrado.
– Caso você esteja certo, preciso mais do que nunca, da morte daquela garota. Quero que ordene aos nossos servos, a morte de quem estiver com ela: macaco ou ciganos!
Galeano estremece até os ossos. A vaga ideia de perder sua mãe, enche sua alma de tristeza e de raiva. Por outro lado, a sensação de liberdade é excitante e instigante. Sem Zelena por perto, a bela menina de olhos de esmeralda, estaria livre para ser sua princesa. E Vasco estaria livre para ser seu rei. Por que teriam de retornar para outro reino? Poderiam ser felizes, os três juntos! A ideia era animadora!
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