Oh, vã cobiça!
13 Capítulo 13
Notas iniciais

Na manhã seguinte, Yasemine observa a mãe retirar uma peça de roupa de uma mochila. O que ela estaria fazendo? Qual truque encantador iria usar?
– Pensei que já tinham partido.
Regina sorri tentando conter o imenso desejo de tomar aquela garota nos braços e beijá-la até que ficasse sem ar. Era sua menina brava e precisava saber de toda a verdade, mas de forma homeopática.
– Vou atrás do seu pai.
– Eu já lhe disse que ele está morto.
– Como soube da morte dele?
– Vi num espelho do seu antigo castelo. Eu me escondo por lá, quando preciso de roupas e objetos para vender. Fiz a evocação da imagem e o vi morrendo.
Regina sorri e apanha um pequeno frasco em sua bolsa.
– Essa foi a imagem que sua tia Zelena soltou aos ventos. Assim como fez com que sua professora se passasse por mim, naquela tarde.
Yasemine ergue o queixo e leva seus olhos incandescentes para o rosto de Smila, que ainda estava calada ao lado de Regina.
Regina finge estar tranquila e indiferente à presença da filha, fazia aquilo para não provocar uma fuga da garota. Joga algumas gotas sobre a roupa de Vasco e espera o efeito, que logo acontece. A peça começa a flutuar, aguardando ordens, que não acontecem e ela cai.
– Eu preciso que venha conosco, Yasemine. Enfrentaremos obstáculos até chegar ao Castelo das Esmeraldas e resgatar seu pai ou pelo menos o corpo dele. Quero bloquear os poderes de Zelena de uma vez por todas. Você me ajudaria?
Yasemine olha Cesar por cima do ombro. O macaco furioso maneia afirmativamente com a cabeça.
– Iremos com você porque sei que o castelo tem muitas riquezas. Quero para mim e quero libertar os outros macacos. Não nutra a esperança de encontrar meu pai vivo ou mesmo resgatar o corpo dele.
– Muito bem! – Regina sente a garganta ser atacada por uma adaga invisível. Era a dor da angustia sendo controlada para não permitir que o choro e o desespero viessem à tona.
– Vou pegar minhas armas e minha capa. – Yasemine passa por Cesar e bate no ombro dele.
Quando os dois entram na caverna, Regina cobre a boca com a mão e desaba num choro de dor. Smila toca o ombro dela.
– Precisamos ser fortes e vigilantes. Sua filha pode ser o perigo maior que enfrentaremos ao longo da jornada.
– O macaco que vi era Cesar! O espelho me mostrou onde ela estava! Fico aliviada por saber que ela não se transformou em um animal!
– Sua filha é uma mulher forte e perigosa, Regina. Ela não é uma menina de quatro anos. Yasemine é uma pessoa poderosa e com o coração cheio de ódio. Por isso, é mais perigosa que um animal.
– Mas é minha filha e tenho fé nela! Nossa família não desiste das pessoas! É o que fazemos!
– Não peço que desista de alguém, Rainha. Apenas não seja passional ou morreremos todos. – Smila tranca o rosto e ajeita o arco e as flechas em suas costas. Leva os olhos para a dupla qua saía da caverna e aproximava-se dali.
– Estamos prontos para irmos à Floresta das Esmeraldas. – Cesar toma a dianteira do grupo sem cerimônias. É seguido por Yasemine, que cobre a cabeça com o capuz da capa.
Durante horas no mesmo ritmo, o grupo direciona seu rumo para o castelo onde morava Zelena e sabe-se quem mais. Dentro de sua alma, Regina tinha a mais profunda certeza de que Vasco continuava vivo. Zelena não faria tanta bagunça, apenas para deixá-lo morrer. Iria cuidar dele, mesmo sem truques metafísicos.
– Você não me disse que sua mãe ainda estava viva. – Cesar fala sem olhar o perfil de Yasemine. – Pensei que você tinha vindo atrás do seu pai, por ser seu único parente vivo.
– Eu vi na cama com outro homem. Meu pai sofreu, chorou, gritou e fugiu conosco. Minha irmã Alda ficou para trás, quando eu mergulhei no poço.
– Ouvi sua mãe dizer que Zelena transfigurou sua professora...
– Eu escutei o que ela disse, Cesar! – Yasemine olha-o com raiva. – Ponha uma informação em sua cabeça dura: estamos indo novamente para o castelo verde, em busca de riquezas. Agora, não estamos sozinhos. Estamos protegidos pela força de minha mãe e desta vez, conseguiremos muito mais do que ferir alguns macacos voadores!
A noite cai e o vento frio abaixa muito a temperatura. Smila iria fazer a primeira vigília e proteger o restante do grupo. Cesar seria o segundo na escala.
Regina observa com carinho e muito amor, sua furiosa Yasemine sentar-se ao lado de Cesar e usar o corpo do animal como fonte de calor. Os dois eram companheiros cúmplices. Aguça a sua audição e concentra-se na conversa dos dois.
– Você poderia abaixar sua guarda e ouvir o que sua mãe tem a dizer. Lá no fundo de seu coração, você sabe que ela não é culpada pela situação.
– E já pensou na chance minha mãe ser mentirosa? Zelena nos contou sobre o envenenamento de meu pai, quando o homem que minha mãe ama, tinha voltado. E você ouviu!
– E você já pensou na possibilidade de Zelena ser a mentirosa? Sabe o que penso? – Cesar mantém o corpo curvado como se fosse um caracol. Não toca a garota com as mãos. – Seu pai está vivo, senão Zelena não tentaria matar você. Ela sabe que seu pai não ficará sossegado, vendo você por aqui. Por isso ela quer você morta ou sob o domínio dela, porque seria mais fácil manipular a desolação do seu pai.
Yasemine movimenta a cabeça negativamente.
– Seu orgulho é grande demais. Você não quer reconhecer que foi precipitada em seu julgamento. Deveria saber que vivendo nesse meio assustador metafísico, tudo precisa ser questionado. Olhe para mim, Yasemine. Olhe para você, uma menina que caiu no poço e transformou-se em mulher. Olhe para o menino Galeano.
Mantendo sua postura aristocrática, ela não abaixa o queixo, numa demonstração de teimosia. Amua e faz beicinho, derrubando todas as defesas de Regina, que ainda a amava de longe.
Quando Cesar deixa seu descanso, imediatamente Regina assume a posição de aquecimento da filha. Mesmo relutante, Yasemine permite a aproximação da mãe e as duas ficam em silêncio o restante da noite.
Na manhã seguinte, sob a neblina densa, o grupo retoma sua caminhada por mais algumas horas até fazer uma parada para alimentação. Smila assume a postura de vigilante do primeiro turno. Mas o descanso dura pouco.
– Protejam-se! Soldados sem rosto! Soldados sem rosto!
Imediatamente, Regina se levanta e corre, levando a filha pela mão. Cesar espera Smila descer da árvore e ambos correm para um ponto mais seguro. Em questão de minutos, o grupo é descoberto e encurralado por um número maior de soldados com o rosto coberto por máscaras escuras. Empunhavam espadas.
Smila arranca as duas adagas da cintura e prepara-se para a luta. Regina gesticula e faz surgir uma espada em cada uma das mãos. Atira uma espada para Cesar que a segura com admirável destreza.
Yasemine rosna furiosa e imita o gesto da mãe, saindo de sua proteção e assumindo uma posição de ataque. Tem uma espada em uma das mãos. Atira uma bola de fogo contra os soldados e eles se livram do ataque com destreza incrível.
O grupo de soldados não se intimida e ataca sem emitir som algum. Por longos minutos, uma pequena batalha é travada, até que Cesar consegue atingir a coxa de um de seus oponentes. Algo acontece: do corte na coxa, começa a sair um filete grosso de areia e o soldado começa a murchar.
– Rasguem o uniforme deles! Rasguem o uniforme deles!
As mulheres entendem a ordem e atacam com o objetivo de provocar cortes nas roupas dos soldados, em qualquer parte do corpo. E o que acontece a eles é incrível! Um tempo depois, o grupo observa a quantidade de areia espalhada sob os uniformes e espadas.
– Vamos! – Smila embainha as adagas e toma a dianteira, começando a caminhada.
Passadas duas horas depois da batalha, Regina percebe que a filha para e observa o tornozelo. Algo a incomodava.
– O que há, meu amor?
Yasemine move a cabeça e joga a massa de cabelos escuros para fora do rosto. Sorri.
– O soldado pisou no meu pé. Está doendo!
– Posso cuidar dele? – Regina sorri e vê a garota trancar o rosto.
– Não! Temos um trabalho a fazer. Cesar, espere por mim! – ela sai correndo rodando os braços, como fazia quando era uma menininha.
Mal havia alcançado Cesar, quando ele se interpõe entre a amiga e um grupo de homens em duas carroças. Eram ciganos.
– Ora, ora! O que temos aqui? Nosso belo e forte macaco sem asas e agora com outras duas lindas mulheres! – um cigano grande sorri e desce de sua carroça. – Lembro-me de você, bruxinha linda, quando fugiram dos temíveis macacos voadores. Mas agora veio presentear meus homens com sua beleza...e trouxe belas amigas!
Yasemine segura os cabelos e começa ajeitá-los como se fosse prendê-los em um rabo de cavalo, exibindo seu longo pescoço de bailarina.
– Estamos em uma missão e queremos passar. Como resolveremos isso se estamos ocupando o mesmo espaço? Quem passará primeiro pela trilha?
O cigano bonito sorri e emite muxoxos.
– Você sabe que ciganos não negociam quando não podem obter vantagens.
Regina olha a firmeza da filha e quase explode de tanto orgulho. Poderia resolver aquela situação transformando aqueles ciganos em insetos, mas se fizesse isso, provocaria a fúria da garota. Permite que Yasemine encontre a solução.
– Não vou negociar com você, Nicolas. Então, saia do nosso caminho.
Desta vez, todos os ciganos gargalham.
– Você e o macaco podem passar, porque moram aqui no reino. Mas podem deixar as duas beldades como nosso pagamento pelo pedágio. Poderemos fazer bom preço por elas no mercado.
Agora, quem gargalha é Yasemine. Ela sai do caminho e é imitada por Cesar. A menina gesticula e autoriza Nicolas a pegar o seu prêmio.
O sorriso do cigano se desfaz. Algo não estava certo e a garota feroz havia cedido rápido demais. Leva os olhos para o rosto de Regina e não gosta do que encontra ali. Evoca lembranças e aprecia muito menos o que voltava aos seus pensamentos.
– Bater em retirada! É a Rainha Má!
Mas não dá tempo de serem tão rápidos. Yasemine estende os braços para frente e emite um rosnado furioso. Não gostava da fama daqueles saqueadores, embora achasse o líder deles, bonito demais. O que ela envia na direção dos homens, provoca uma debandada dos homens: todas as pedras que adormeciam sobre o chão voam sobre eles. Alguns caem atingidos, mas conseguem levantar-se e correr o mais rápido que podem para seu salvamento.
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