Oh, vã cobiça!
1 Capítulo 1
Notas iniciais

Regina entra de forma intempestiva na sala principal de sua casa e encontra Vasco parado em pé, esperando por ela. Parecia apreensivo.
– Eu vim o mais rápido que pude. Estava em uma reunião, por isso não poderia estar com o celular ligado. – ela se aproxima do marido e segura seu rosto. Trocam um beijo carinhoso. – O que houve? Sua mensagem tinha preocupação e fiquei pensando...
– Yasemine transformou a Sra. Vargas em uma cabra.
Regina não consegue entender o que havia ouvido. Fica estática, apenas olhando o rosto bonito do marido. Depois de alguns segundos, ela consegue retornar à realidade. Precisava ouvir outra vez.
– Perdão...
– Yasemine transformou a Sra. Vargas em uma cabra. – ele espreme os lábios e arqueia as sobrancelhas escuras. – Penso que você é a responsável por essa pequena travessura de sua filha. Estou enganado?
Sem conter-se, Regina começa a gargalhar. Aquilo era inacreditável, mas era real. Sua linda Yasemine estava sendo uma aluna aplicada e mostrava qual era o sangue que corria em suas veias.
– E onde está a cabra? Onde está a Sra. Vargas?
Vasco não sorri. Ele aponta da direção do escritório. Havia posto o animal ali, para ficar protegido de novos ataques de sua alucinada filha.
Lá no local indicado, a cabra estava entretida comendo uma ponta da cortina. Mais uma vez, Regina não segura a risada. Aquilo era impressionante!
– Creio que é de sua responsabilidade, tirar a mulher desta situação. – a voz de Vasco é baixa.
Voltando-se para o marido, Regina percebe uma aura de tristeza sobre aqueles belos olhos celestes. Qualquer oscilação no humor no marido, era rapidamente detectada e refletida em seus olhos. Ele falava pelos olhos.
– Poderia deixar-nos a sós, meu amor?
– Yasemine está sob castigo por essa atitude. Espero que não me desautorize. – ele sai do local e ainda consegue ouvir o riso abafado de Regina.
Momentos mais tarde, Regina entra no quarto da filha e a encontra sentada sobre a cama. Lia um livro de forma monótona, apertando a estrelinha que acendia na capa.
– Boa noite, meu amor. – Regina senta-se na cama e toca os cabelos longos e espessos da filha.
– Boa noite, mamãe. Estou de castigo.
– Eu sei. Apenas quero saber porque seu pai a colocou de castigo.
– Fiz o que a senhora mandou: protegi meu pai e minha irmã. A sra. Vargas estava tocando em meu pai.
– Tocando em seu pai?
Yasemine fica de joelhos na cama. Começa a acariciar as costas da mãe.
– Ela estava fazendo assim. O papai não gostou, mas ela continuou. Fiquei com muita raiva e falei as palavras do livro. Senti muita raiva e funcionou!
Regina faz de tudo para controlar o riso, mas aquilo era demais para ela. Estava orgulhosa do fruto de seu trabalho e tinha recebido a mais dedicada pupila. Nem mesmo o Dark One tivera a chance de ter uma aluna tão poderosa quanto linda.
– E quais foram essas palavras?
– “Est capris! Est capris!” – Yasemine sorri e surgem covinhas em suas bochechas.
Regina sorri e beija o rosto da menina. Estende os braços e observa a garota acomodar-se em suas pernas.
– Eu desfiz o que você fez porque não devemos entristecer o seu papai. Ele não gosta que façamos demonstrações do que aprendemos nos livros.
– Ela tocou em meu pai.
– A Sra. Vargas não irá mais fazer isso e você deverá controlar a sua raiva. Ela gosta de Alda, do papai e de você, por isso não deve ser transformada em nenhum animal, outra vez. O seu papai fica triste, quando usamos nossas habilidades.
– Mamãe, ela pôs a mão nas costas do papai!
– Querida, não podemos ferir as pessoas, apenas porque elas tocam naqueles que amamos. Não podemos viver isolados, sem tocar ou ser tocado pelas pessoas.
Yasemine retorna para o colchão e larga-se debochada, ali. Exibe uma risada cínica, ergue as pernas e seguras os pezinhos.
– Ela ficou mais bonita como cabra.
– Não torne a fazer isso, querida. Poderemos provocar seu pai e não gosto quando ele fica magoado.
– Fale para ela não pôr a mão em meu pai. Senão eu a transformo num macaco com penas!
O rosto de Regina torna-se sombrio. Sua alma começa a latejar de preocupação diante do tom imperativo usado pela garota. Era apenas uma criança com quatro anos de idade, mas com um olhar velho. Uma mulher aprisionada no corpo de uma criança? Aquilo a preocupa.
Durante toda aquela noite, o sono foge de Regina. Mesmo cansada pelo dia exaustivo na prefeitura e pelas horas de sexo com seu amado e belo marido, ela estava insone e tensa. Não queria mover-se na cama para não atrapalhar o sono de Vasco, porém, sua preocupação exala tão fortemente, que produz cheiro e o aroma chega ao olfato apaixonado do homem.
– O que há, minha Rainha?
– Acordei você? – ela se vira na cama e o encara. Não resiste e começa a acariciar a pele quente dele. – Estou incomodada com o que Yasemine fez.
– É grave e precisamos chegar a um acordo quanto ao uso de suas habilidades e as aulas que você tem oferecido às meninas. Elas não têm maturidade para receber tamanha carga de responsabilidade, meu amor.
Regina aconchega-se junto ao peito do homem.
– Sei que se sente orgulhosa com as filhas que temos, porém, ainda são crianças. Tudo o que tem a fazer é deixá-las ser crianças. Elas precisam ficar preocupadas apenas com brincadeiras. Eu penso que manusear seus livros...pode ser pesado e perigoso demais.
– Tenho sido cuidadosa, Vasco.
– Yasemine não é uma pessoa dócil com Alda. Não sabemos como as informações podem ser assimiladas por ela. Já pensou na possibilidade de você criar uma nova Zelena?
Regina espanta-se com a pergunta do marido. Olha-o com curiosidade.
– Yasemine não será como Zelena. Minha irmã cresceu com ódio no coração e um desejo imenso de vingança. Mas nossa filha não sente ódio ou sede de vingar-se.
– Nossa filha transformou a nossa assistente doméstica em uma cabra, apenas porque a viu tocando em meu ombro e limpando uma marca que fiz na camisa. Yasemine interpretou mal, gritou e atacou a mulher com socos e pontapés. Em seguida, falou algumas palavras e a mulher virou uma cabra.
– O que sugere, meu amor?
– Eu sei que você tem a possibilidade de fazer isso. Proponho que adormeça os conhecimentos que Yasemine adquiriu durante as suas aulas. Deixe-a decidir se quer retomá-lo quando for adulta. – ele sorri.
As dúvidas invadem a alma de Regina. Seria um crime retirar o conhecimento que a menina tinha assimilado e que gostava tanto. Entretanto, Vasco estava certo quando afirmara que a garota não tinha maturidade para carregar tamanha responsabilidade. Por outro lado, Yasemine não era uma criança comum e já havia demonstrado outras vezes, antes daquela tarde.
– Vou amadurecer a ideia. Prometo!
Vasco envolve a esposa entre seus braços e a aconchega com o calor de seu corpo.
– Sei que será sensata, amor.
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