Odisséia Cosmopolitana
4 Invasão
Notas iniciais

Eram onze e meia da noite, e um carro com três pessoas estava estacionado a uma quadra do ferro velho. A rua não era asfaltada, e não tinha uma iluminação decente. Só havia um poste de luz em toda aquela parte, e era bem em frente da entrada. Algumas luzes de lá de dentro estavam acessas, mas as da casa estavam inteiramente apagadas.
Estavam todos nervosos: Invadir propriedade particular era novidade. Decidiram que só ajudariam Jorge caso ele lhes explicasse algumas coisas, e o que ouviram em resposta não foi muito esclarecedor, mas fora o suficiente para aguçar mais ainda o senso de curiosidade deles. Queriam muito saber quem era Jorge, por que ele havia se transformado no carro, e como ele tinha relação com a destruição do restaurante.
Esperaram mais alguns minutos, quando decidiram agir.
— Estou indo. – Falou Pedro. Saiu do carro levando uma pequena bolsa.
Foi andando sorrateiramente pela rua deserta e escura. Antes de chegar no portão principal, parou e olhou em sua volta. O local era todo cercado por uma cerca de arame velho e surrado, com muitos remendos e ferrugem. Deu a volta até chegar numa parte lateral. Era um local bem discreto, e haviam vários remendos.
Puxou a bolsa e a jogou no chão. Pegou um alicate e começou a cortar alguns arames. Não foram necessários muitos, já que já havia alguns buracos, só precisou conectá-los para abrir uma passagem suficientemente grande para passar.
Após passar para outro lado, foi até uma pilha gigantesca de lixo procurar por alguma placa que pudesse tampar o buraco. Pegou uma chapa metálica razoavelmente pesada, por isso teve um pouco de dificuldade para levantá-la até onde queria.
Depois disso, percebeu que estava um pouco perdido, nunca havia estado lá dentro. Para onde olhava, só via pilhas e mais pilhas de sucatas e pneus velhos. Sua única orientação era a cerca de onde viera. Decidiu então seguir colado a ela, já que inevitavelmente chegaria ao portão.
Andou por mais alguns minutos até sair da área do lixo, e conseguiu avistar a residência onde Sebastião morava. Estava atrás da carcaça de um carro, e a sua frente estava o pátio, onde ficava o grande portão, a casa, e também a caminhonete dali.
Estava com um certo receio pois a parte difícil havia chegado. Respirou fundo, e foi.
Agachado, ele chegou até a casa, dando os passos mais silenciosos possíveis. Antes de correr o risco de entrar lá e acordar Sebastião acidentalmente, deduziu que a chave do portão poderia estar junto com a chave da caminhonete no próprio veiculo.
Mas sua esperança não havia sido forte o suficiente. Procurou em todo canto dela, mas não havia nenhuma chave.
Desceu da caminhonete só encostou a porta já que fechar completamente poderia fazer um barulho alto naquela velharia.
Seu celular vibrou.
"Deve ser Raphael"
Sentou no chão encostado na casa e puxou do bolso o seu celular.
Havia recebido um SMS de Luís que dizia "tudo certo? Tá demorando muito".
"estou quase. aguenta ae" mandou de volta.
Foi até a porta da casa e puxou a maçaneta, estava aberta. Puxou a lanterna da bolsa e entrou. Numa rápida verificação, viu que a pequena casa de madeira era bem simples, estava no cômodo que era uma cozinha, copa, e sala, tudo junto. Viu o quarto, onde Sebastião estava dormindo junto com sua amada esposa. Varreu tudo com a luz da lanterna até que achou um molho de chaves pendurado num prego em uma parede. Catou ela e saiu apressado da casa. Lá fora desligou a lanterna e foi até o portão.
Demorou para achar a chave certa, mas finalmente conseguiu abrir o cadeado. Delicadamente começou a puxar um dos lados do portão, que fazia muito barulho. Talvez devesse ter trazido um óleo também, mas já era tarde de mais para isso.
Assim que abriu uma passagem suficientemente grande para um carro passar, ele saiu apressado com a lanterna em mãos, fazendo sinais luminosos para o carro distante. O carro começou a movimentar-se em sua direção com as luzes apagadas. Assim que o carro chegou perto do portão, Pedro foi até ele e abriu a porta de traseira para entrar. Em silencio, o carro moveu-se para dentro.
— Onde está o helicóptero? – Perguntou o rádio, baixinho.
— Eu não achei ele. Para aquele lado não está. – Pedro apontou na direção de onde viera.
Andaram até entrar bem no centro do local, até que PH viu a alguns metros dali, as hélices daquilo que procuravam.
— Ali. – Cochichou.
Chegando lá, tiveram certeza que não se tratava de uma aeronave de televisão.
— Vejam, sua estampa é de cunho militar. Seu tanque é muito grande, sem falar do tamanho que é gigantesco. Foi removido, ali, estão vendo? Ali ficava o armamento. Misseis, metralhadora, essas coisas. E se repararem bem, essas marcas de destruição são bem regulares. Isso quer dizer que as peças e as partes que faltam foram removidas, e não destruídas. Esse tipo de blindagem não se destrói só uma queda, ele deve ter chegado inteiro aqui e o dono do ferro-velho deve estar vendendo as peças. Perceberam que ele não está junto com todo o resto de lixo? Ali ó, naquele barracão, o equipamento de solda não está organizado. – Explicou Jorge, com sua percepção altamente aguçada.
— Militar? O que o exército quer com você? – Perguntou Pedro, querendo uma explicação.
— Interesse no meu projeto, oras! Caso não perceberam, o meu trabalho de vida é altamente secreto por apenas um motivo: Ele é extremamente poderoso, por isso somos meticulosos. E tem outra coisa... ele é militar porém não é brasileiro: é russo. Pelo menos é o que indica o design. Quem estava usando poderia estar despistando sua identidade e não ser russo, mas eu acho fortemente que era russo sim, afinal, ele não estava esperando sofrer um acidente.
— Bem, podemos sair daqui agora? – Perguntou Drake que estava ansioso.
O carro não pareceu ouvir o que ele disse, como se estivesse distraído.
— Acidente... Alguma coisa aconteceu a eles! Algo deu errado! – Exaltou-se Jorge, ignorando o comentário de Luis.
— É, vamos discutir isso lá fora. Jorge, tire-nos daqui! – Ordenou Raphael.
— Fantástico! Os filhos da puta não conseguiram o que queriam! Nós conseguimos nos defender com sucesso! Vocês entendem? Era o pendrive que eles queriam. – Continuou Jorge, cada vez mais animado.
— E o que tem no pendrive? Magia pra criar transformers? – Perguntou Raphael.
Jorge ia começar a explicar, mas algo inesperado aconteceu.
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