Odile
1 Pas de Deux
A doce música que embalava o pôr do Sol no grande castelo era magnífica, um som celestial que de fato parecia ser tocada por anjos e era interpretada por demônios.
Ora, sim, pois no centro das atenções dos convidados estava a mais bela moça que já foi vista, dançando com a graça de um cisne, capturando os olhares de todos e principalmente do jovem príncipe que a observava com adoração nos olhos, incapaz de dançar tão encantadoramente quanto seu par. A jovem, com seus longos cabelos negros como uma noite sem estrelas esvoaçando e enfeitiçando seus admiradores com um olhar tão profundo e avassalador, a única e mais deslumbrante filha do feiticeiro que há muito cobiçava a coroa, por mais formosa que fosse de rosto e por mais graciosos que fossem seus movimentos, tinha apenas sua ambição guiando-a neste crepúsculo.
A mais genuína intérprete de uma legítima femme fatale nasceu para aquele momento, aquela dança, aquela noite. Como ninguém jamais poderia ter visto em antecedência que tal beldade pudesse carregar em seu coração a mais pura escuridão, capaz de sufocar até o mais puro amor antes mesmo que este possa florescer, ela apenas ria, ria do tolo príncipe que mais parecia um menino, jovem e inocente e tão insuspeito que estava prestes a cair na mais elaborada armadilha, ria dos convidados, tão embasbacados com sua beleza luminescente que não conseguiam sequer ver a falta dessa mesma luz em sua alma, ria com seu orgulhoso pai que sairia vitorioso por um mero erro estúpido cometido por aqueles que se julgavam como o Bem Maior, tão mais sábios que estes crápulas e tão prestes a tropeçar nos próprios pés como bailarinos inexperientes.
Na quinta batida da meia-noite, quando a encarnação da própria Salomé se enroscava nos braços daquele inócuo príncipe enquanto o tal lhe fazia juras de amor, o choro fraco e tão irritante finalmente chamou a atenção do rapaz que a olhou com tal preocupação e ternura como se ela fosse algo frágil e dócil e tão quebrável para chorar mediante a tais votos de amor eterno, tão vazias quanto o próprio sentimento desprezível. Bastou um radiante sorriso e outra dança para prender o néscio imbecil cândido e ignorante em seu feitiço novamente e eles dançaram e dançaram até as horas evaporarem e restar apenas aquela doce, doce música preenchendo sua mente acompanhada da imagem da mais garbosa coroa que ela teria quando fosse parte da realeza daquele lugar.
Quando finalmente raios de luz começavam a penetrar insistentemente no grande salão, o inepto se deu conta de que havia desertado sua ex-noiva em seu lago imundo e dançado a noite toda com uma moça mais bela que qualquer um daqueles cisnes estúpidos e ao mesmo tempo mais terrível que o mais horroroso ogro devorador de gente, que havia amaldiçoado aquele falso-amor pela eternidade e enquanto ele corria como o vento para tentar desfazer o que já foi selado pelas próprias estrelas testemunhas do abandono, a filha do próprio demônio ainda ria como uma hiena do destino estes parvos conseguiram para si.
Ela aguardou e aguardou, rindo daquele mesmo jeito até mesmo quando chegou à rainha a notícia de que seu filho estava morto, encontrado no fundo de um lago agarrado ao cadáver de um cisne branco comum e incapaz de ser salvo devido ao próprio erro, e rindo enquanto seu pai casava-se com desolada rainha presa em suas horríveis garras pela dor e pelo medo, garantindo-a como herdeira do trono, do poder e daquele reino estúpido que adorava-a como se ela não fosse um monstro sob a pele de um belo cisne negro.
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