Notas iniciais
oi gente õ/
mais um cap. pra vocês
espero que gostem

O único lugar aonde ele não poderia pegar o papel era... Dentro da minha boca, isso mesmo dentro dela. E sem demora eu transformei um bilhete já um pouco amassado, respirei fundo, pensando em como aquilo era sujo, abri minha boca e o coloquei lá dentro.Valia tudo para que ele não descobrisse, pelo menos daquele jeito.

— O que você ta fazendo? Sua doida – gritou ele — Tira isso da boca, menina!

— Ele não vale tudo isso – dizia apavorada Gleuciane — cuspa isso agora.

— Quem não vale tudo isso? – perguntou Pierre — É o menino desse bilhete?

Eu estava ali, parada, observando a pergunta dele; como ele podia ser tão idiota? Ao menos se ele soubesse que ele era “o menino do bilhete”. Mas se ele não descobriu até agora, ele jamais descobriria, e eu não facilitaria para ele fazer essa descoberta. Engoli o papel. Ele queimava a minha garganta dolorosamente enquanto descia provavelmente ao meu estômago aos poucos. Não sabia qual podia ser o efeito daquilo, mas sabia que não seria muito fácil de me livrar depois.

— Eu sabia que ela era doidinha, mas ao ponto de engoli...

— CALA A BOCA! – irritou-se Laura — Ela precisa ir para uma enfermaria. Não é hora para ficar fazendo brincadeiras, senhor Comeau.

— Você quer que eu te ajude? – prontificou-se Jake, ficando de pé.

-Obrigada, mas não precisa, ela consegue andar, não é? – olhou para mim com um olhar questionador.

Balancei a cabeça afirmativamente. Laah pegou meu braço fortemente – não me lembrava de ela ser tão forte — e me arrastou até a enfermaria que ficava um pouco distante do refeitório, mas só alguns minutos. Os meus olhos começaram a doer, a sala era extremamente branca e a luz que insistia em vir em direção aos meus olhos os fazia arder e lacrimejar, dando uma aparência de que eu estava chorando, mas eu não estava, apesar daquela ser a minha vontade.

— Você está... Chorando? –perguntou-me acanhadamente minha amiga.

— Não, eu não estou chorando — disse limpando as lágrimas que caiam com a palma da minha mão – É a luz desse lugar, fazem meus olhos arderem.

Ela me olhou de lado, não parecia ter acreditado no que falei. Estava pronta para contra-atacar e dizer que aquela era a verdade e que eu não estava derramando lágrimas por ter só engolido uma folha de papel, mas não houve tempo para respostas. Uma enfermeira gorda em um uniforme totalmente branco se aproximava. Era baixa, seus cabelos eram castanhos, sem sinais da velhice, mas seu rosto não escondia os muitos anos e as histórias que ela já vivera.

— Então, o que essa mocinha tem? – perguntou ela carinhosamente.

— Um papel – acusou Laura — Ela engoliu um papel.

— O que tinha nesse papel, hein? — questionou a enfermeira — Algo muito importante pra você querer que ninguém lesse.

Apenas concordei com a cabeça, não querendo que aquele interrogatório fosse mais a fundo, lancei o meu olhar mais amedrontador para Laura que continuava ali do meu lado, como se a qualquer momento eu pudesse desmaiar. E foi ela super-protetora que perguntou a mulher:

— Ela vai ter que ficar aqui?

— Oh sim, querida – falou como se estivesse se esquecido de avisar — eu tenho que ver que efeito isso vai ter, então se quiser pode voltar para o seu intervalo, que eu cuido da sua amiga.

— Mas eu quero ficar com ela, aqui – protestou — talvez ela precise de mim

— Não é preciso – seu tom agora já não tinha mais tanto carinho — eu cuidarei dela.

— Pode ir, eu vou ficar bem – minha voz saiu um tanto esganiçada — não se preocupe comigo.

Laura se aproximou do meu ouvido e cochichou uma frase, da qual poucas palavras consegui entender perfeitamente:

“Acredite em mim, eu... obrigada a... isso”

Como na maioria das vezes em que ela dizia alguma coisa, eu fiquei sem entender nada, enquanto a assistia sair pela porta ainda revoltada por não poder ficar ao meu lado. A verdade é que eu nunca havia visto aquele lado dela, protetor, e posso afirmar com toda a certeza que isso foi um tanto curioso para mim.

— Olha, pode se sentar ali naquela cadeira, do lado daquele garotinho — apontava ela.

Concordei e me encaminhei naquela direção lentamente, pois naquele momento eu não tinha pressa alguma de chegar a qualquer lugar. Eu sabia que enquanto aquele papel não saísse de dentro do meu corpo eu também não sairia daquela enfermaria, e se essa saída dependesse única e exclusivamente de mim não seria tão cedo. Sentei-me ao lado do “garotinho”, que pelo que pude perceber devia ter a mesma idade que eu. Tinha cabelos ruivos bem cortados e olhos verdes, grandes olhos verdes que agora... Me olhavam curiosamente.

— Você ta chorando? — perguntou espantado

— Não – respondi — É a luz desse lugar faz meus olhos arderem.

-Tome -disse tirando um pequeno lenço marrom do bolso — Enxugue essas lágrimas.

— Obrigada.

Foi só o que consegui dizer. Enxuguei as poucas lágrimas que caiam e devolvi o lenço. Ele o guardou, e nos ficamos ali olhando para o chão durante alguns minutos que pareceram horas intermináveis. Às vezes tal silêncio era quebrado pelo virar de folhas de uma revista que a tal enfermeira lia. Até que finalmente a voz dele transpareceu novamente no ar.

— Qual é o seu nome? – sua voz estava tranqüila, de tal maneira que me transpira paz e segurança.

— Sammi, e o seu?

— Oliver. É verdade que você engoliu aquele bilhete? – sua voz me questionava com muita segurança

— É verdade sim, eu engoli o papel – revirei meus olhos — agora pode me chamar de doida.

— Eu sei por que você o engoliu... Eu sei de tudo.

Não pude evitar deixar minha boca abrir, e instintivamente ficar vermelha. Aquilo devia ser só um blefe para me deixar encabulada e me chantagear... Afinal, só quem sabia era eu e as minhas amigas... Elas não contariam. Nesse momento eu já não acreditava mais nisso. As palavras de Laah ditas a pouco queriam se desculpar por ter contado a esse garoto tudo... Mas por que ela contaria? Por ter sido obrigada a contar um segredo que não era dela?

Notas finais
Reviews?