Ode às crianças. One shot.
1 Capítulo único
Era de manhã e o cheiro da terra se misturava com o cheiro da chuva, Mitra caminhava descalça em sua vila, seus pequenos pés ainda se acostumavam com a terra batida que permeava entre as habitações."Me ajude a descascar esses legumes." Dizia uma das senhoras sentada entre bacias cheias de legumes e verduras.
"A estação fora muito generosa conosco." Comentou outra.
Mitra se juntara a essas mulheres e com as suas pequenas mãos começava o trabalho tedioso de separar as melhores partes. Olhava para a mesma senhora que a chamara e perguntara "É para descascar as 'natatas' também?". Como sempre, foi motivo de riso a pronúncia errônea misturada a sua voz infantil. Apesar de ser uma das poucas diversões que as vilãs encontram nesse momento desprazeroso, Mitra é repreendida logo que as risadas se esvaem.
É somente uma criança, erra em tudo que faz, como todas as outras crianças da vila, assim pensavam todos. A maneira cotidiana que tropeça e faz perguntas tolas, se mistura com a rotina da vila em si. Uma rotina centenária, que casa com a quantidade de anos que estão instalados na região, sem explorar mais do que poucos km de raio ao seu redor, contudo, admiram suas próprias vidas pacíficas e tediosas nas instâncias que os cabem.
Um homem de 40 anos, com uma feição boba conta às crianças as histórias de seu povo. O griô se empenha, gesticula, grunhe, realiza as feições mais diversas, é o momento mais teatral da vila. Mitra o observa com seus olhos brilhantes os movimentos que se misturam entre os seus efeitos sonoplásticos e as risadas de todos que o acompanham. Este é também um dos momentos mais religiosos, neste instante o griô se torna um sumo sacerdote. Nas suas histórias tudo toma vida e por um momento seus antepassados não são tão somente relembrados, mas representados. A apresentação, por fim, se encerra, todo seu ato imprimi nas crianças os valores da aldeia. É hora do almoço.
A criança após vários tropeços é mais uma vez motivo de risada, o pequeno afastamento entre as pernas ainda são insuficientes para a empolgação que a garota demonstra, será uma das primeiras vezes que será permitida sua participação na roda de cantigas tradicionais. O ritmo é importante e tropeços como este poderão atrapalhar todo a movimentação dos aldeões, alguns se preocupam ou se questionam da pouca idade necessária nesses rituais. Logo a preocupação se fez esquecida, os cantos se entrelaçaram e ressoaram em uníssono, preenchendo cada pequeno espaço de suas almas. As canções não se tratavam de histórias ou lições, era a hora em que os sentimentos pessoais eram compartilhados e os cânticos antigos, preenchidos de sensações dos antepassados, eram não somente relembrados, mas revividos. E era dessa forma que se manifestava em Mitra uma grande satisfação, talvez nos adultos tudo isso já havia se esquecido e tão somente permanecia a metodologia ritualística, mas para as crianças um ritual não é menos misterioso que qualquer outra parte do mundo, não era menos misterioso que os sentimentos que os imprimiam.
A vida estava plantada como os legumes que colhia, era noite e o gosto dos legumes crus se misturava com o gosto da chuva. Um vilão a encontra e a carrega de volta para as ukas, a sensação de seus dentes recém nascidos parara. Os olhares de repreensão com leves sorrisos permeiam a face dos que se abrigam da tempestade, ninguém compreende o motivo para a ação da pequena, em suas mãos ela ainda segurava com força o legume que só então com muito esforço fora retirado dela e posto em lugar inalcançável. A chuva tremia as habitações e o chefe da aldeia olhava ao horizonte como se tudo fosse uma premonição, entre cada trovoada acenava a cabeça como se conversasse com algo incompreensível.
No dia que se seguira, houvera uma reunião, e foi a partir dai que um sentimento de luto permeara a todos. O desânimo era generalizado, o griô não contava mais histórias, os rituais desapareceram e todos os erros de Mitra já não tinham mais graça. Logo surgiram novos cantos e novos movimentos, Mitra ainda não compreendera que esses eram cantos de morte e marchas de guerras. Mais uma semana se passou, a expressão de desânimo se tornou pavor, os olhos de cada adulto estavam pétreos e vítreos, não havia uma noite em que não se ouvia passos impacientes misturados aos sons da floresta. Os passos tiquetaqueavam na cabeça de Mitra, os sonhos pueris de sua infância se tornaram em terríveis pesadelos que pouco a pouco consumiam a sanidade da pequena e logo novas cores pintaram sua tela mental, eram cores angustiantes.
O dia chegara, e chovia, o amargo dos céus descia torrencialmente, o canto da morte era ouvido ao longe. Os rivais se aproximavam pouco a pouco, Mitra permanecia imóvel dentro da tenda comunitária, o chefe que agora assumia o papel de general, respirava a passos largos. Os sons dos suspiros de dentro, dos passos de fora e das gotas de chuva e de suor se misturavam.
As lanças se endireitavam e os primeiros golpes eram dados. Agora é o som de corpos caindo que forçavam todos não combatentes a tamparem os ouvidos. A cada exclamação de dor, poderia ser um pai, um marido ou um filho que desfalecera. Uma angústia, como a mais límpida bolha de sabão, cresce em Mitra a cada sofrimento alheio. Não importa mais a origem da dor.
A bolha estoura preenchendo todo campo de batalha com o gosto típico de detergente. Mitra havia tentando impedir o enfrentamento que prosseguira, e em seu ato de martírio entre a dança perversa das lâminas, morrera. Morrera, morrera, ecoava. As impostas pontas expostas foram postas ao lado. A vida pingava e aplainou-se, foi líquida em sua morte sólida.
A chuva era salgada, os ânimos esgotaram de ambos os lados, ninguém se olhou por alguns minutos. Resolveram recolher os mortos. O luto perdurou meses, transformando-se em um pacto de paz e imortalizou-se.
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