Num dia de inverno, há em uma cidade pequena um funeral. É o funeral de uma senhorinha, com as faces pacíficas e serenas. Infelizmente, esta senhorinha levou uma vida difícil e veio a falecer, deixando seu único filho, um jovem adulto, completamente desamparado e desorientado. O jovem rapaz, de aparência pouco comum e uma personalidade forte e subversiva, estava desolado, inconsolável e completamente sem estabilidade emocional para qualquer coisa.

Então, vem até o jovem o seu pai, um homem alto, corpulento e afetuoso. Porém, este homem o abandonara a vida toda, deixando-o aos cuidados da mãe, negando-lhe várias vezes o afeto, a ordem e os ensinamentos de um pai. Este homem tenta consolar o jovem que lhe responde:

— O que fizeste por mim nestes 26 anos de vida? Onde estavas? Acha mesmo que o dinheiro que me mandaste durante este tempo preencheu o vazio da criação e afeto de um pai que nunca tive? Acha mesmo que, no funeral de minha mãe, haverá redenção de teus pecados? Assim como foi a sina de minha mãe cuidar sozinha de alguém como eu, a tua será conviver com o fato de que teu único filho jamais vai te reconhecer como pai. Vais morrer sozinho e sem perdão.

Desolado com as palavras de ódio que o filho destilou contra o pai, este, cabisbaixo, sai de fininho do local do funeral. Seu destino é ignorado, porém suas lágrimas de remorso recobrem o ambiente, e o embebedam com o fedor da angústia. Nunca se viu nesta família uma expressão de ódio tão grande quanto a do filho contra o pai, afinal, nunca foram próximos o bastante para isso.

Em seguida, entram alguns tios e primos do jovem rapaz. Todos são homens e mulheres bastante elegantes e aparentemente pessoas de poder aquisitivo bastante elevado. Chegam-lhe para prestar vosso sentimento. Porém, o jovem rapaz os fita os olhos, um por um, e lhes diz:

— Que fazem aqui? Quantas vezes precisamos, eu e mamãe, de vossa ajuda e vocês, pessoas ocupadas demais para a família, nos viraram as costas? Quantas vezes, em tempos difíceis, vocês, pessoas que se dizem minha família, nos viraram as costas? Pessoas de posses, pessoas influentes... E nunca nos deram um pedaço de pão que caia de suas mesas para que nós comêssemos. E olha que já quase passamos fome! Quantos de vocês me negaram emprego? Preferiam confiar seu dinheiro e mercadorias a desconhecidos! E isso não apenas uma vez! E por que agora, enquanto me debruço sobre o caixão de minha amada mãe, vocês acham que podem nos chamar de família? Que família é essa que abraça os de fora e rejeita os de sangue? Foi esse o ensinamento que teus pais te deram? Porque por mais que eu não tenha irmãos, eu nunca deixaria de estender a mão a um parente de sangue, como vocês, inúmeras vezes, fizeram. E isso fora as injustiças praticadas, as mentiras contadas, as perseguições... Família é a última coisa que deveriam chamar uns aos outros.

Ao dizer estas palavras, os tios, apavorados com as palavras do jovem rapaz, vão saindo um por um, pois aquelas palavras lhe doeram na alma. Tocaram tão fundo que a única coisa que desejaram naquele momento foi que o tempo voltasse e que seus erros pudessem ser reparados.

Ao sair o cortejo, o jovem rapaz proibiu que qualquer pessoa segurasse o caixão de sua falecida mãe, pois considerou que as mãos de seus consanguíneos eram impuras e imundas para segurar a urna e eterna moradia do que restou daquela mulher. Rejeitou também que qualquer familiar o seguisse no cortejo, permitindo apenas que alguns amigos próximos a ele e sua mãe o seguissem. Preferiu ver estranhos segurarem a urna que levava sua mãe a ver tios, primos ou qualquer outro que lhe fosse próximo, pelo simples fato de que, em vida, seus tios, primos e qualquer outro consanguíneo davam prioridade aos desconhecidos, exceto o jovem e sua mãe.

Quando sua mãe foi sepultada, e quando todos ainda estavam presentes no cemitério, o jovem chega e pergunta a todos os presentes:

— Alguém tem uma arma? É sério. Alguém tem uma arma? Eu não estou preparado ainda para viver sozinho no mundo. A única pessoa que era por mim acabou de descer sete palmos abaixo da terra, e sei que, ao saírem em seus carros luxuosos de volta para suas casas confortáveis, eu deixarei de ter qualquer relação com vocês. Não porque eu queira. Nunca o quis assim. Mas porque vocês o fizeram. Vocês moldaram a solidão familiar que nós, eu e mamãe, sempre acusamos, mas que vocês sempre maquiaram. Então, sendo assim, prefiro me juntar a mamãe no paraíso ou no inferno do que viver uma vida vazia e solitária, mesmo sabendo que eu poderia ter algum amparo no que vocês se acostumaram a chamar de família. Mesmo que uma palavra amiga... Deixem-me explicar como tudo se dará a partir de agora. Nos primeiros anos, todos serão complacentes e, talvez, apenas talvez, caridosos. Porém, e quando os anos forem se passando? Se em vida, vocês já eram afastados de mamãe, imaginem em morte como serão comigo? Serei aquele velho primo distante que ninguém têm notícias e que ninguém vai querer saber como anda... E se na família é assim, imagine fora dela? Minha alma está condenada a ser eternamente solitária. Sendo assim, prefiro morrer e ser enterrado junto de minha mãe. Alguém tem uma arma?

Ouvindo aquelas palavras que soaram como o mais terrível absurdo, todos saíram. Um por um iam abandonando o cemitério, praguejando, ressonando todo o sentimento que o jovem nutria por eles, mas que eles jamais foram capazes de sentir. Talvez Nietzsche tenha se sentido assim ao perder seus pais e ver que sua irmã se afastara dele. Talvez Schopenhauer e Goethe tenham sentido a mesma coisa ao perceberem que a condição humana decadente não é a da solidão. Mas a da falsa companhia.

O jovem, ainda defronte ao jazigo de sua mãe, sacou uma arma de sua cintura. Havia guardado aquele objeto durante toda uma vida, preparando-se para este momento. Mal as pessoas iam saindo do recinto, praguejando e comentando a “horrível” atitude do jovem, e ouviram um disparo. BANG! Todos correram de volta para o jazigo da mãe do jovem. O encontraram deitado sobre sua lápide, com um papel manchado de sangue em suas mãos.

“Ainda que a vida tenha sido dura conosco, minha mãe, eu faço questão de te acompanhar, de mãos dadas por onde você for. Deus perdoará nossos pecados, visto que o único deles foi termos nos desentendido algumas vezes. Mas nunca nos abandonamos e nunca nos abandonaremos. Espere por mim onde estiver. Que meu sangue, meu corpo semeiem esta terra podre e possam, talvez, gerar algo de bom. Algo que talvez eu não tenha sido. Uma mangueira, uma laranjeira, uma goiabeira... Qualquer coisa que sirva a um propósito. O meu, em vida, foi te proteger e aprender contigo. Não sei se o cumpri. Sei que tentei. Agora, ao meu corpo morto, quero que pelo menos a serventia de alimentar exista. Tu és minha única família. Meu Deus, perdoa meus pecados e me permite continuar ao lado de minha mãe. Que assim o seja.”

Horrorizados, os familiares e amigos que ainda estavam presentes no cemitério não sabiam o que fazer. Mas sabiam de uma coisa. Haviam adquirido uma lição de vida importantíssima a seguir. Jamais abandone teu bando, tua família, teu sangue. Ela é a única estrutura que tu poderás contar sempre. E algum dia, por menor e mais insignificante que seja a coisa, você irá precisar de alguém que agora você julga insignificante e menor que você. Você nada mais é do que um pálido ponto azul numa imensidão negra... Nem isso você é, pois a Terra ainda é milhões de quilômetros quadrados maior que você... Seja humilde e ajude aos seus. Sempre.

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