Ode ao Theo

1 Störtebeker


O cheiro salubre misturava-se com a poeira daquele ambiente escuro e fechado, iluminado apenas por diversos castiçais espalhados pelo cômodo e a pouca luz solar que atravessava as caras cortinas de tecido marroquino e davam uma iluminação magenta-avermelhada.
Era um quarto, mas também um escritório. A cabine do comandante era abarrotada das mais diversas quinquilharias conquistadas em saques ao redor do mundo, mas mesmo cheio conseguia ser organizado.
Sentado à mesa com o aniversariante estava um tripulante de um navio inimigo que agora jazia no fundo do mar. O prisioneiro tinha ao seu redor uma corda muito firme que o deixava com pescoço e rosto num tom entre vermelho e roxo resultante da circulação presa. Lá em cima, no convés, um grito. E o som de algo pesado caindo na água.
O clima só não estava menos estranho graças a uma maçã que rolava em cima da mesa, de uma ponta à outra, e o rapaz aniversariante podia focar em não deixá-la cair.
— Ah, ay, pronto. Mil perdões, meu caro amigo. — Irrompeu a voz do capitão assim que ele abriu a porta abruptamente e bateu o quadril em uma das batentes, um tanto afetado pelo balanço das ondas. Tinha um meio sorriso no rosto, sem mostrar os dentes, como de costume... talvez por ter algo a esconder ali. — Infortúnio resolvido, e o insubordinado agora pode ser útil aos tubarões e lhes servir como alimento.
Soltou um "u-hum-hum" que era sua mais alegre risada. Ele entrou e caminhou lentamente até a mesa, enquanto encaixava seu sabre no coldre do cinto. Depois passou o sobretudo por cima e botou as mãos na cintura.
— Faz-me feliz ter sua companhia em meu navio logo hoje, dia de seu nome. Honrado estou, porém, sou humilde pirata e não tenho muito a oferecer-te além de... bem, o saque de hoje não foi dos melhores, não consegui fortunas, apenas isso aí.
Diego apontou com o queixo para o homem amarrado.
— Entretanto, creio que não lhe será útil; chegou aos meus ouvidos que tornou-se... como é o mesmo o termo? Vegano? Bom para vosmecê, gostaria eu de ter tamanha evolução espiritual, mas nem mesmo um espírito tenho mais para evoluir. — Mais uma vez, deu sua característica risada de humor negro. — Pensarei em algo, não se aborreça.
Com uma piscadela ele afastou-se e foi até a cristaleira. De lá escolheu duas das melhores taças e as pôs sobre a mesa, diante do aniversariante. Estendeu o dedo indicador, pedindo por mais um segundo, e foi até o baú que ficava aos pés de sua cama.
Novamente, o mar agitado tentou deslizar as taças por cima da madeira bruta que era a superfície da mesa, e Theo precisou as segurar.
De seu pescoço, Diego tirou um colar com uma grande chave presa. Ele a usou para abrir o cadeado pesado do baú, e de lá de dentro tirou uma garrafa de rum. Andou até a mesa novamente e tirou a rolha.
— Este, meu amigo, é um rum especial. Quase tão velho quanto eu. — Sorriu de canto como se estivesse a se gabar. Sentou-se graciosamente à mesa, de frente para Theo e ao lado do prisioneiro. — Tem cerca de quatro décadas de idade, e precisei o esconder de mim mesmo para uma data comemorativa como esta do dia de hoje. Apenas o abri uma vez, para sentir seu cheiro, e quando isso ocorreu eu estava na presença de Luna. Recorda-se da cretina?
Serviu apenas uma das taças e tornou a fechar a garrafa com a rolha. Em seguida, tirou uma adaga de seu cinto e um lenço do bolso do sobretudo.
— Perdoe-me que tenha de ver isso.
Ele enfiou o lenço na boca do marujo prisioneiro para que abafar seus gritos, e então, com a afiada lâmina, fez um corte profundo na garganta do homem. Pegou a taça vazia com Theo e a colocou junto ao corte do homem que revirava os olhos de dor e tentava inutilmente se soltar das amarras.
— Ah, isso fará uma bagunça. Ao menos, meus modos à mesa são melhores que os da Dona Rosa. Pobre Diaurum... Se eu estivesse lá quando ocorreu, talvez a teria protegido. Ou não, sabes como é. Dizem por aí que o adversário dela era extremamente forte.
Quando a taça encheu, ele a ergueu e brindou com o rum servido para Theo.
— Saúde, meu caro.
Tomou uma bela golada do sangue e em seguida apoiou o braço na mesa, aproximando-se.
— Tenho muitos anos de existência, meu jovem. Já tive muito tempo para cansar-me do mundo. Vi de tudo. Ou quase tudo, é um tanto difícil para mim ver o nascer do Sol. Mas não impossível.
Ele riu.

— Para quem aguentou o pandemônio do Águas Passadas, nada é impossível. Sentamo-nos eu e os demais para decidir em qual ordem iríamos presenteá-lo, e acabei por ser o primeiro. Então, cá estamos. Não faz mal que o homem ali esteja presente, pois muito em breve ele morrerá por falta de sangue, e o que for dito aqui será apenas teu.
Com um segundo gole, ele acabou com o sangue da taça. Os olhos da cor de mel foram para o marujo sangrando, certamente se perguntando se valia a pena encher novamente e tomar mais uns goles do precioso líquido vermelho.
— Tudo é efêmero. Assim como eu tomo os bens das outras pessoas — Ele fez um gesto indicando as quinquilharias ao seu redor — nada está aqui eternamente. Talvez tudo irá para o fundo do oceano, um dia, ou eu perca minhas conquistas para um outro navio. Nunca se sabe. Mas o que sei, o que conheço, tudo o que vi e aprendi durante a minha existência, meus pensamentos e minha forma de ver o mundo... estas coisas não são materiais. Você, Theo, é um jovem excepcional. Passou por momentos realmente difíceis em que se perguntou até onde valeria a pena continuar. Nas minhas costas possuo cicatrizes de chibatadas que levei até conquistar meu lugar no topo. Tenho certeza que você também possui essas cicatrizes e se não forem visíveis, elas estão dentro de ti. Até aqui você carregou fardos muito pesados e, por muitas vezes, sem ajuda de ninguém. Raros não foram os momentos em que sofrestes, sozinho, com dor e medo, e não lhe estendiam a mão, o deixavam para sofrer e até mesmo os mais desgraçados podem ter lhe chutado ao chão. E mesmo assim, Theo, sua luz não se apagou. Meu rapaz. Tu és bravo como um touro. Isso que tens em ti é algo muito lindo, admirável. É a verdadeira beleza do mundo, isso que tens em ti é o que vale a pena viver para conquistar, e muitos vivem milênios e não conquistam. Tua luz, teu brilho interior, quem você é, tudo o que está nessa cabecinha maravilhosa... não deixes nunca que se perca. Viajei os sete mares, Theo, mas o que você tem dentro de ti é maior que tudo isso.
O homem sangrando finalmente caiu morto, e Diego parou um momento para ajeitar seu pé em cima do novo descanso.
— Maldição, meu tapete persa...
Respirou fundo e voltou a olhar para o aniversariante.
— Por vezes, meu caro, parecerá que o mundo está contra ti. Parecerá mais fácil desistir de tudo. Será cansativo continuar, e pode ser que sinta que não há mais motivos. Pois bem. O motivo é você mesmo. Não deixe seu brilho se apagar. Você é muito novo, e mesmo que fosse velho, a escória da humanidade não merece o poder de te apagar. Você é incrível, levante sua voz. Enquanto não inventarem um jeito de transpassar toda a maravilha que existe dentro de sua mente para o universo, você terá de continuar compartilhando isso da forma tradicional: existindo.
O loiro sorriu, agora sem importar-se em mostrar suas presas.
— Todos aqueles que possuem a sorte de conhecer-te por baixo da superfície são extremamente gratos por vossemecê existir. Olhe até onde chegou. Passou pelas mais terríveis tempestades, e tem sobrevivido. Jamais desista, jamais nos poupe de tudo o que sabe, tudo o que vê. A maneira que compreende o mundo é única. Você, meu caro, é um achado incrível. E eu seria um louco se não o botasse em minha coleção. Mas a beleza que tu tens não é apenas para os olhos, não. Vá e espalhe sua luz, há muitos que dela necessitam.

Notas finais
Esse foi o modo que Diego encontrou para dar parabéns pro Theo aaaaa segura que tem mais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.