Ode às Margaridas
4 IV
Notas iniciais
Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando ela tocou a maçaneta. Embora esta estivesse um tanto fria, decididamente não fora o motivo da sensação. Inspirou fundo e inflou o peito com coragem, e seus músculos se retesaram ao som metálico da fechadura.
A luz esbranquiçada da lua iluminava o cômodo através do vidro. Correndo os dedos pelos móveis empoeirados, Agatha não lutou contra os fantasmas que insistiam em revelar-se. Assim como, minutos antes, o fizera na cozinha, ela os acolheu com os braços abertos e um sorriso sincero.
Olhou então para cada uma das fotos emolduradas nas paredes. Mesmo através da fina camada de pó, ela podia distinguir os contornos dos sorrisos cativantes estampados nelas. Uma foto para cada momento compartilhado, cada apresentação conjunta.
No canto, recostado sobre o banco onde ele se sentava, estava seu violoncelo. Há meses ela não conseguia vê-lo sem chorar, mas naquele instante sustentou o olhar com uma pontada de carinho aflorando em seu peito. Ladeando a janela, em ganchos prateados, estavam penduradas todas as sapatilhas que ela havia calçado durante sua trajetória, bem como cada um dos arcos que ele utilizara desde o Ensino Médio.
Ela teve lampejos de sentar-se encolhida num canto para ouvi-lo tocar, de dançar ao som de suas sinfonias, de rir ensinando-lhe um ou dois passos de salsa, de beijá-lo sob a luz da mesma lua que agora lançava sua sombra solitária na parede. Se fechasse os olhos, podia sentir seu toque, seu olhar queimando na pele, o sorriso entre os lábios dos dois que precedia uma longa noite, o abraço que fazia o mundo desaparecer.
Sorriu e, pela primeira vez desde que ele a deixara, permitiu-se chorar. Em silêncio, as lágrimas escorriam sem que Agatha movesse um músculo para limpá-las.
— Vai ser, sei lá, um santuário — dissera Rodrigo assim que os dois notaram o quarto extra na casa recém-comprada; grande demais para um closet, pequeno demais para um quarto de hóspedes, cedo demais para um quarto de bebê.
— Um santuário? — debochara ela. — Dedicado a quem, exatamente?
— Nós dois. — Ele a puxara pela cintura. — Cada vez que um de nós entrar aqui, o outro estará sorrindo da parede. Acho um jeito legal de inaugurar a casa. E, claro, tem o fato de que você não vai guardar suas sapatilhas velhas nas minha gaveta de cuecas.
Realmente, tal qual ele dissera, a pequena sala era um conjunto de todas as conquistas de ambos. O gosto de cada pequena vitória dispersava-se no ar, trazendo lembranças, saudade e mais lágrimas. Concertos, recitais, competições, apresentações de rua.
— Nossa própria Galeria dos Espelhos — brincara ele quando, numa manhã ensolarada, o casal dedicava-se a prender prateleiras na parede. Por pura coincidência, a luz refletia no vidro diretamente para os cabelos escuros de Rodrigo, emprestando-lhe um ar angelical.
E, de fato, ele era para ela o que o Rei Sol era para seus súditos; uma prova da existência divina, um apoio em tempos de tormento.
Agora, assoprando a sujeira de uma das molduras para ter um vislumbre daqueles olhos castanhos sorridentes, Agatha deixou que os últimos fantasmas tomassem forma e os encarou até que tivessem desaparecido por completo. Estava, enfim, sozinha, mas não era mais machucada pela solidão.
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