Ocultos
17 Palavras Fragmentadas
Era domingo de manhã e alguém me cutucava, eu olhei para o alto, Calisto cutucava meu rosto com uma de suas garras e o relógio marcava 7:00.
– Pensei que você tivesse entendido que eu estaria aqui 7:00. – Ele me olhava com uma cara séria.
– Mas isso foi ontem, eu achei que hoje... Ah, deixa pra lá, me dê alguns minutos.
Levantei-me e em menos de 5 minutos eu já havia escovado os dentes, passado na água e trocado de roupa.
– Como você entrou aqui? A casa tem proteção mágica contra inimigos invasores. – Eu perguntei enquanto descia a escada junto ao alfa.
– Me deixaram entrar. – Ele respondeu enquanto via as pinturas pela casa, haviam inúmeros quadros retratando feiticeiros antigos da família.
– Quem? – Terminamos de descer as escadas e ele me entregou um retrato que estava em cima da mesa. Era uma foto de Sabs.
– Agora vamos logo, o dia vai ser longo, muito longo. – Calisto passou primeiro pela porta e eu fui logo atrás. – Nós temos um trabalho muito importante, precisamos encontrar acônito serietas.
– Esse é o seu treinamento? Jardinagem? – Calisto virou a cabeça e me encarou com seus olhos vermelho rubro. – Eu só estava brincando, mas qual a dificuldade nisso?
– Esse tipo de acônito é muito difícil de encontrar, eu fiquei sabendo que existe em uma montanha fora da cidade, mas existem muitas coisas estranhas por lá e seria um lugar bom pra você tomar uma surra. – Ele pegou a mochila que estava jogada a frente de minha casa e colocou nas costas.
– Nós poderíamos pedir ajuda a Sabs, ela sabe muito sobre acônito e deve saber o local mais propício da montanha para se encontrar. – Sabs já havia lido mais de 30 livros sobre acônito, mas Calisto recusou a ideia e achou melhor seguirmos sem a ajuda da garota.
Ϫ
– Calisto, pelo amor de Merlin, me diga quando vamos chegar, nós já estamos andando a duas horas. – Eu estava completamente suado e não aguentava mais andar, enquanto Calisto não aparentava cansaço algum, pra ele era mais uma caminhada matinal atrás de uma coisa bizarra e sem explicação do por que raios ele iria querer algo que o mataria. – A gente não pode parar pra descansar um pouco? Nós já procuramos em todos os lugares por essa flor branca, não achamos nada e ainda por cima você não me contou pra que essa merda serve.
– Uma hora você vai entender. – Ele abriu uma garrafa d’água e bebeu um gole. – Fique aqui, eu vou andar um pouco e já volto.
– Mas como você vai me achar? Não tem nada marcando o lugar.
– Você está com o cheiro de um defunto de tão suado, Peter consegue sentir seu cheiro lá da cidade. – Respirei algumas vezes e realmente, eu havia suado demais.
Ϫ
Esperei Calisto por algum tempo sentado em um tronco caído, mas aparentemente ele havia se esquecido de mim e foi procurar sua querida flor branca.
Olhei em volta e percebi que estávamos começando a ganhar altitude na montanha, e quanto mais subíamos, mais árvores apareciam.
Resolvi andar um pouco para ver se encontrava a flor logo e enquanto andava chamava pelo nome de Calisto, mas algo que eu não esperava respondeu.
Ele andava apoiado sobre seus dois pés e duas mãos, usava uma espécie de shorts preto todo rasgado e velho como vestimenta, tinha a pele acinzentada, olhos brancos, espinhos crescendo pelas costas e garras com quase 20 centímetros cada.
– Strigoi... – Sussurrei baixo. De alguma forma eu sabia o que era aquilo, um strigoi, seres do folclore romeno os quais são almas atormentadas com capacidade de se transformar em animais, ficar invisíveis e costumavam matar a vítima por perda de sangue. São parentes dos lobisomens, porem perderam completamente o lado humano e ao invés de serem tomados por bestas animalescas são tomados por demônios que atormentam seu espírito.
Tentei dar alguns passos para trás esperando que o strigoi não se importasse com a minha retirada, mas ele rosnou para mim e começou a dar voltas, eu acompanhava seu movimento rodando junto, enquanto ele rosnava e fungava eu pensava onde Calisto estaria, com certeza ele daria um jeito no bicho num piscar de olhos, mas ele não estava ali, então eu precisava me virar sozinho.
De repente o ser endiabrado deu três passos para trás e avançou para cima de mim com um salto, e no meio do trajeto se transformou num enorme búfalo que por sorte consegui desviar sem problemas.
O strigoi acertou os chifres no tronco de uma árvore fazendo com que ela tombasse, e então voltou a sua forma original, mas rapidamente ele se transformou em um leão avançando contra mim novamente, e desta vez tomei uma postura de ataque sacando a adaga feita com dente de licantropo que Sabs havia me dado e finquei na cabeça do bicho que caiu imobilizado no chão.
Sorri enquanto retirava a adaga de sua cabeça, mas nem tudo correu como eu queria. Ele começou a espumar pela boca e o corte em sua cabeça começou a se fechar. “Regeneração de merda”, pensei comigo mesmo e me preparei para mais um ataque, porém o strigoi olhou em minha direção e correu.
Por alguns segundos me senti vitorioso pensando ter espantado o ser com meu golpe, até ouvir alguém fungar atrás de mim e quando me virei vi um homem com quase dois metros de altura, feições brutais e dois chifres saindo por sua testa.
– Gugalanna. – Gugalannas eram homens da mitologia suméria os quais eram reconhecidos como um deus, o qual deu origem à constelação de touro. Eram muito conhecidos graças a suas enormes resistências físicas e a suas supostas imortalidades. Dessa vez eu sabia que não teria chance, então parti em disparada pela floresta sendo perseguido pelo enorme homem touro.
Após quase dez minutos de perseguição me vi encurralado pelo ser que apontava seus chifres para mim e bufava com seus olhos verdes brilhantes esmeralda.
– Por favor, eu te imploro... – O monstro simplesmente ignorou meu pedido e avançou para cima de mim, então me lembrei de quando usei as árvores para atacar Alaska e usei o tronco de uma que estava próxima para ser meu escudo, porém o gugalanna enfurecido saltou sobre ela e gritou para mim, eu sentia o ódio fluindo dele, ele iria me matar sem pensar duas vezes.
Me encostei sobre a parede da montanha e pensei se não conseguiria usar uma pedra contra o monstro, e quando menos eu esperava a montanha se entendeu fazendo uma lança inteiramente de pedras e perfurando a perna do monstro que urrou de dor, e uma atrás da outra eu lancei lanças sobre seu corpo fazendo com que recusasse.
Eu me sentia forte e vitorioso, um ser imortal se ajoelhava perante mim, eu estava prestes a lançar uma última lança contra o peito do monstro, mas uma tronco de árvore foi arremessado no meio do caminho evitando que o ser morresse.
Calisto apareceu ofegante e com os olhos vermelhos brilhando.
O Gugalanna enfurecido saltou sobre ela e gritou para mim, eu sentia o ódio fluindo dele, ele iria me matar sem pensar duas vezes.
Me encostei sobre a parede da montanha e pensei se não conseguiria usar uma pedra contra o monstro, e quando menos eu esperava a montanha se entendeu fazendo uma lança inteiramente de pedras e perfurando a perna do monstro que urrou de dor, e uma atrás da outra eu lancei lanças sobre seu corpo fazendo com que recusasse.
Eu me sentia forte e vitorioso, um ser imortal se ajoelhava perante mim, eu estava prestes a lançar uma última lança contra o peito do monstro, mas uma tronco de árvore foi arremessado no meio do caminho evitando que o ser morresse.
Calisto apareceu ofegante e com os olhos vermelhos brilhando.
– Seu idiota, você não pode matar um defensor da floresta. – O alfa rosnava enquanto se aproximava e tirava as lanças do peito do monstro que se regenerou e fugiu. – Ele mantém o equilíbrio por aqui, o lugar está cheio de strigois, adads, enkis e ninlils, esses seres atormentam a floresta e tudo que vive nela, o trabalho do gugalanna é diminuir a existência deles por aqui e você quer matá-lo?
– Me desculpe, eu só... Perdi o controle.
Ϫ
Caminhamos de volta até as margens da cidade enquanto Calisto analisava o acônito que havia encontrado.
– Esse negócio fede. – Ele ressaltou. Eu mesmo sem ter um super olfato conseguia sentir o cheiro daquilo.
Quando finalmente chegamos à entrada cidade Calisto parou no meio do caminho.
– Eu não posso entrar. – O alfa olhava para mim. – Alguma coisa não me deixa passar. – Ele estendia a mão e era como uma parede invisível o impedisse. – Mas você passou, não pode ser uma barreira contra seres sobrenaturais, a não ser que...
De repente algo pousou ao meu lado.
– Olá, meu caros. – Lorenna sorria e estralava os dedos. – Vejo que você descobriu o que meu coliseu faz com a cidade, não é mesmo, Calisto? – Ela gargalhava sadicamente. – Nenhum ser sobrenatural que eu não permita a entrada pode atravessar esta barreira, apenas seres puros e de bom coração poderão atravessá-las, e você, lobinho estúpido, é um pedaço de nada sujo e mal amada. Agora uive, chame sua alcateia e suma da cidade.
– Não. – Calisto responde seco. – Dave, volte para casa, já está anoitecendo. Avise aos outros o que aconteceu, diga a Sabs que eu consigo fazer sozinho, logo mais estarei de volta e pronto. – Conseguia fazer sozinho o que? Novamente Sabs e Calisto pareciam estar escondendo algo de mim, mas acenei com a cabeça e comecei a andar enquanto Calisto voltava para a montanha.
– Você realmente vai ajudar aquele lobo imundo? – Lorenna me seguia enquanto voava. – Não seria muito melhor manter todos estes lobos fora da cidade? Eles só causam problemas a todos nós. – Ela segurou meu pulso com uma das mãos e me olhou nos olhos esperando que eu concordasse com ela.
– Você quase matou aquele homem, mesmo ele estando apontando uma arma para nós, você o largou para morrer. – Puxei meu braço e Lorenna o soltou. – Prefiro a morte do que concorda com você.
– Que assim seja. – A amazona me agarrou pelo pescoço e começou a voar em direção a minha casa. – Todos os bruxos que residem este lugar imundo, ordeno que saiam em nome das amazonas. – Num piscar de olhos todos meus familiares saíram e gritavam pedindo para que Lorenna me soltasse. – Este garoto escolheu a morte ao invés de colaborar com a justiça, ele tem o direito de duelar contra mim caso queira defender seu direito de viver, mas caso perca sua sentença será a morte.
– Sabs! Calisto disse que consegue fazer sozinho e logo mais estará de volta! Eu não sei o que isso quer dizer, mas espero que me ajude. – Eu tentei gritar sendo sufocado pela mão de Lorenna em volta de meu pescoço e então ela avisou que qualquer um que
tentasse se intrometer na luta só aceleraria o meu processo de morte.
A amazona me levou em direção ao coliseu e depois de alguns minutos todos os meus parentes junto à alcateia de Calisto estavam presentes, menos o alfa que havia sido deixado para fora da cidade.
– Boa sorte, garotinho. – Lorenna me colocou no chão e ergueu os punhos cerrados. – É um... dois... três... VAI!
Ela partiu em minha direção e desferiu um soco em minha barriga que me deixou completamente sem ar. Eu sentia o sangue saindo de meu rosto a cada soco que ela dava, sabia que ela estava controlando sua força para não me matar em um golpe só e assim se divertir mais.
De repente tudo ficou avermelhado e eu estendi meus braços empurrarem Lorenna para longe de mim. Me levantei sem dificuldades e me sentia revigorado, mas mais do que revigorado eu estava tomado pelo ódio.
– Amazona idiota, como ousa me ferir desta forma? – Olhei para o alto e vi vários fios de alta tensão que passavam por uma torre de energia. – Agora você vai sentir na pele a dor, sua puta. – Com um movimento mágico só fiz com que os fios se arrebentassem e descessem da direção de Lorenna que gritou de dor ao ser eletrocutada. Sua armadura de prata fazia com que a eletricidade se tornasse mais potente e não saísse de seu corpo.
– JÁ CHEGA! – Ela segurou os fios com as mãos e aguentou a dor enquanto puxava as duas torres e fazendo com que elas tombassem quebrando uma parte do coliseu. – VOCÊ JÁ ERA! – Ela avançou contra mim e com um soco fez com que a mancha vermelha que borrava minha visão sumisse. – Puta? Você realmente acha que pode me insultar assim? Você sabe quem eu sou? EU TENHO MAIS DE 2000 ANOS, VOCÊ É UM BOSTA PERTO DE MIM. – E com um movimento só ela fez com que meu braço se quebrasse, mas por sorte não ocasionou uma fratura exposta.
– Vadia te ofende menos, amazona de merda? — O gugalanna que eu havia visto mais cedo acertou Lorenna com um golpe e a tirou de perto de mim, e de trás dele surgiu Calisto. – Me desculpem o atraso, eu estava procurando um amigo.
– Pensei que um mago nunca se atrasasse e nem se adiantasse, ele chegasse exatamente na hora que quisesse. – Sorri para Calisto mesmo com a dor do braço quebrado.
– Essa é a questão, eu não sou um mago. – Calisto estralou o pescoço. – Eu sou um alfa. Com as garras para fora e pedindo para que o gugalanna se retirasse do coliseu, Calisto avançou para cima de Lorrena que rapidamente sacou sua espada de prata e acônito e atravessou o abdômen do alfa que ficou imóvel.
– Mesmo estando morto eu quero que saiba que depois dessa sua investida ridícula contra mim eu irei matar um a um da sua alcateia. – Olhei em volta e todos estavam paralisados, Phillip, Alaska e Annie seguravam Peter que rosnava enquanto tentava avançar sobre Lorenna. Minha família inteira estava assustada com a situação, menos Sabs, ela ria enquanto olhava para mim e piscou um olho.
Algo inesperado aconteceu. Calisto girou seu corpo fazendo com que a espada de prata se partisse na base sem se quer retirá-la do corpo.
– Isso é impossível. – Lorenna começava a tomar altitude.
– Não com acônito serietas que uma certa bruxinha de cabelos ruivos me disse onde encontrar. – O alfa tirou de seu bolso uma pétala do acônito e mostrou a Lorenna um fraco com um líquido branco juntamente.
Lorenna era puro ódio, ela tomou mais altitude e então começou a descer com os punhos cerrados.
– “Somos filhas do poder. Nascidas para vencer. Homens não tem lugar em nosso coração. Mas caso se ajoelhem têm o perdão. Nunca quebramos nossas palavras. Tenham essas palavras gravadas. Esse é o legado das amazonas.” – Calisto pronunciou o lema das amazonas e Lorenna caiu por terra. – Parabéns, você jurou não fazer mal a nenhum amigo meu, mas pensou minha alcateia se resumia aos meus amigos, mas Dave também é um deles.
– Não! Não! Não! – A amazona chorava enquanto tentava socar o peito do alfa tomada pelo ódio. – Devolva meus poderes! Me devolva!
– Agora você pode sentir medo, não pode? – Calisto sorriu e fez um movimento com a cabeça chamando a alcateia inteira que se posicionou em volta de Lorenna que estava em prantos. – AGORA!
Calisto, Peter, Phillip, Alaska e Annie fizeram um som aterrorizante e animalesco enquanto Lorenna gritava no chão e implorava que eles parassem.
Quando pararam um garoto alto, de pele branca, de olhos e cabelos negros entrou no coliseu.
– Mas que merda é essa? – Ele viu Lorenna jogada no chão. – Venha cá. – Ele estendeu a mão enquanto encarava a alcateia inteira. – Venha, eu não sei o que aconteceu aqui, mas se algum de vocês nos seguir eu conto tudo a polícia. – Lorenna então perguntou qual o nome do rapaz enquanto agradecia o que ele fez. – Thalles. – Ele sorriu.
– Calisto, o que vai acontecer com ela agora? – Peter perguntava ao alfa que sorria com um ar de vitória.
– Eu a libero da promessa. Ela vai ter seus poderes de volta, mas nesse pequeno espaço de tempo que ela foi humana encontrou alguém que demonstrou afeto, provavelmente se tornará alguém melhor e até lutará ao nosso lado. — Sabs se aproximou de Calisto. – No momento que ela fincou a espada em mim eu quis lhe abraçar como nunca, então... – O alfa abraçou Sabs que fez uma cara de espanto, mas o abraçou de volta. Todos ali começaram a perguntar o que havia acontecido e então Sabs resolveu explicar.
– Depois que eu vi o que Lorenna havia feito com o assaltante eu achei melhor ajudar Calisto a vencê-la. Ela era um risco muito grande para a cidade e eu percebi que o poodle raivoso aqui não é tão ruim assim. – Ela sorriu e o alfa a soltou do abraço com uma cara de inconformado com a ofensa. – E você, Dave, nós precisamos conversar, você sabe o que usou contra a amazona?
– Não. – Respondi a Sabs.
– Magia negra.
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