Oculta

13 Trafega o Tempo


Notas iniciais
Um agradecimento especial à Rhaika que fez a PRIMEIRÍSSIMA recomendação de Oculta! Muito obrigada, coração. De verdade. Não posso, digo, não consigo nem expressar o quão este simples ato significa para mim. Espero que teu maravilhoso texto atraia muitos curiosos. Outra vez, muito obrigada, linda! ♥

Pouco menos de um ano se passou desde que voltei de minha “fuga”. Tudo estava exatamente como antes. Ou quase.

A diferença é que não estudo mais e moro com a minha mãe — mais precisamente em sua mansão, mas pronuncio “casa” para não soar tão esnobe.

Estou feliz? É claro! Que não.

Está tudo uma completa droga.

Meu pai nunca mais falou comigo. Deu um sermão de doze horas quando me viu naquela época. Obviamente, discutimos, Denise interviu, eles discutiram, meus avós — pais do meu pai — também presentes discutiram com a minha mãe, porém, só porque nunca suportaram o fato do meu pai ter se casado com uma mulher que não era rica (no início). Aquele dia foi longo.

Por fim, William disse para que eu ficasse com Denise e não tive outra escolha. Até meus dezoito, não terei escolha. E nem pique para fugir outra vez.

Denise age como sempre agiu. Atenciosa, trabalhadora, esforçada. Mas não quer dizer que estejamos totalmente bem uma com a outra. Ainda não conversamos sobre o que nos afastou por tanto tempo.

Mas, sinceramente? Eu tentava deixar isso para lá. Por mais que fosse minha mãe, a vida é dela e que faça o que quiser.

Enfim, não citei as coisas restantes que completam esta droga. Confira a listinha:

Um: Ainda não decidi o que cursar na faculdade.

Dois: Meus ex-amigos vivem me perturbando, querendo me rever mais vezes, saber de minhas “aventuras a fora de Nova Iorque” e isso me irrita só de lembrar.

Três: Meus amigos de Sheepshead sentem saudades e só posso prometer que irei visitá-los alguma hora.

Mas a verdade é que não quero. Sei que, se eu voltar, poderei acabar vendo Bryan de alguma forma. Relembrar o que me fez ferve o meu sangue de raiva. E, já que estamos falando disso...

Nunca mais a vi. E olha que ainda trabalha com a minha mãe. Denise comenta às vezes algumas coisas sobre ela, por mais que me frustre. Mas minha mãe não tem culpa.

Ah, ela atingiu o seu objetivo, aliás. Está cursando o Ensino Superior. Mas, diferente do que dizia sempre, não largou a carreira de modelo.

Eu sei que provavelmente Denise ficou em seu pé para não largar. Ela era persistente, ainda mais quando lhe era conveniente. Como já tinha certo apego por Mia, quase duplicou seu salário para fazê-la ficar. Pena que Mia não dava a mínima para isso, mas minha mãe soube usar as palavras.

Por fim, deu no que deu, mesmo há quilômetros distantes da sede, imagino. E não, não sei onde está estudando. Denise nunca citou nada referente a isso. Mas com certeza é algo relacionado à arte.

Eu sentia tanta saudade. Sentia saudade até de Kiara.

Tive meu Harris de volta, mas sempre que olhava para ele, lembrava-me de Kiara. Seria tão fofinho apresentar os dois. Quem sabe não dá cria? Adoraria ter filhotinhos. Se bem que, se tivesse, teria que dividir com a Mia. Poxa, será que ela quer ter filhos? OK. Isso não tinha nada a ver.

Por que tive que ser tão burra? Se não tivesse feito Bryan ir até ela daquela vez, estaríamos morando juntas em Nova Iorque. E mesmo que alguém descobrisse, pelo menos ainda teríamos contato.

Às vezes fico relembrando o quanto estava bonita na noite em que brigamos. Isso me deixa perplexa. Não era legal pensar assim dela.

Mas não era legal por ser uma mulher? Só porque a conheci antes de me “descobrir”, era errado me sentir atraída? Eu não sabia dizer. Tudo ficava mais confuso quando se trata de Mia.

O que me deixava boba era a curiosidade.

Obvio, nunca beijei uma mulher. E não me sentiria confortável em fazer isso com qualquer uma. O meu primeiro beijo com um garoto foi horrível, então gostaria de compensar. E imaginar minha primeira experiência com Mia é realmente... Ah, Deus.

Queria muito revê-la. Nem que só para pedir desculpas. Só a ver e ela assentir, como de costume. Isso já bastava.

Pensar nisso me deixava muito deprimida. Fui traída, mas ao mesmo tempo, trai a confiança de alguém que eu gostava muito.

Estou arrependida de verdade.

— Bethany? — ouvi alguém me chamar da porta do quarto. Era Denise.

— Pode entrar, mãe. — falei, tirando os fones de ouvido e pausando a faixa “Days With You” dos Snakehips com o vocal mágico da Sinead Harnett no celular.

Ela abriu mais a porta e entrou um pouco encabulada. Eu sorri com isso. Sabia que era um pouco nostálgico para Denise ter a filha de volta. Mesmo que agora seja uma adolescente chata e depressiva que passa a maior parte do tempo comendo do que fazendo algo de útil da vida.

— Tudo bem? — perguntou, fechando a porta. Vestia uma regata branca, jaqueta de couro por cima, uma calça social azul marinho com vincos, além de calçar saltos altos escuros de dar inveja. Era um look bem básico em comparação ao que vestia normalmente. Não se engane.

— Tudo sim. — respondi, me sentando na cama. Estranhei seu sorriso nervoso. — E você?

— Ótima. Mas talvez não depois do que direi.

— O que é? — questionei e suspirei devagar. O que será que aprontou desta vez? Às vezes acho que trocávamos nossos postos — eu, a mãe e Denise, a filha.

— Eu... te inscrevi numa faculdade. — admitiu, sem rodeios.

Eu não acredito.

Foi exatamente por causa disso que eu fugi, porra.

Só pode estar brincando.

— Mãe, pelo amor de deus! Não falei que EU ia escolher essa merda? Mas que saco! É sempre assim! Você e o pai quer sempre escolher tudo que devo fazer na vida! — berrei, furiosa.

— Mocinha, olhe a boca. — vociferou Denise, cruzando os braços. Eu a ignorei.

— Eu não vou. Falei que ia decidir, queira você ou não. — ressaltei, colocando os fones de ouvido de volta. Ela se aproximou e os tirou de mim em um movimento rápido.

Quer me deixa fula? Tire meus fones de ouvido sem permissão.

— Pelo amor de Deus digo eu! Bethany, você só fica nesse quarto o dia inteiro. Acorda, come e dorme, acorda, come e dorme. É ridículo! Faz meses que está assim e nem percebe que está te fazendo mal! Olha só essas olheiras... — Denise pegou o meu rosto e passou os polegares abaixo dos olhos. — E seu rosto está mais redondo. Além disso, está pálida, pois mal pega sol direito. Fiz isso porque estou preocupada com você.

— Você tá exagerando. Já disse que não vou e ponto. — falei, virando o rosto.

— Ah, você vai sim. Aliás, deveria me agradecer porque não te inscrevi no tipo de faculdade que seu pai queria que fizesse. — ela pegou meu queixo e virou para fitá-la. — Já passou pela sua cabeça que você é minha única filha e eu tenho uma grande empresa? O que pensa? Que depois que eu morrer, seu gato vai comandar os negócios? Ou seus irmãos, que não diferenciam lilás de rosa? — retrucou Denise, cruzando os braços com rigidez.

Eu fiquei de boca aberta. Minha burrice está em um nível elevado ultimamente.

Como não me caiu a ficha de que eu era herdeira da corporação?

Denise me fitava desapontada.

— Filha, eu sei o que quer ser. Você pode ser o que quiser, inclusive. Mas eu preciso de alguém para me ajudar.

— Mãe, depois do que fiz... — murmurei, meneando a cabeça, frustrada. Não dava para entender. — Como pode confiar em mim?

— Você é a minha filha. — respondeu simplesmente e sentou-se no pé da cama em seguida. — O que tenho hoje foi um sonho que virou realidade. Seria muito gratificante se desse continuidade a ele, mesmo que siga outros rumos. Sei o quanto é criativa e teimosa. Se aperfeiçoar e ponderar esses lados, será tão boa quanto eu.

— Por que casou com o pai, mãe? — tornei a questionar, mudando totalmente de assunto. Ela desviou o olhar e aquilo só me deixou mais afobada.

— Porque o amava. Além disso, teria você. — respondeu sorrindo.

— Vovó costuma dizer que só casou com ele por causa do dinheiro. — comentei, desviando o olhar.

— Ah, não é só sua vó que diz isso. — murmurou. — Acha mesmo que foi pelo dinheiro? Seu pai era um galanteador, Thany. Eu era nova e me apaixonei. Então soube que teria você e isso me fez feliz, o sentimento se tornou mútuo. Seu pai quis que nos cassássemos e morássemos juntos, mesmo com seus meios-irmãos não gostando de mim. Achei maravilhoso da parte dele, pois muitos pais levam a opinião dos filhos em consideração quando estão escolhendo um novo parceiro.

— Você acha certo isso? Tipo, dos filhos opinarem?

— Deixaria que eu opinasse sobre seus namorados? — perguntou ela. Eu balancei a cabeça de um lado para o outro num frenesi. — Mas, bem, eu ia querer saber sim. Saber se te trata bem, essas coisas.

— Não foi isso o que aconteceu, então. — deixei escapar.

— Sei que errei. Deveria ter dito. Mas achei que estivesse bem claro...

Eu a fitei novamente. Denise olhava para um ponto aleatório. Costumava fazer isso quando ia dizer algo e não se sentia confortável dizendo.

— Seu pai não era o mesmo. Vivia trabalhando. Tudo era trabalho, trabalho, trabalho. Não tinha tempo pra mim. E nem pra você. Seus irmãos davam glória a isso, podiam vagabundear à vontade. Eu tentava controlá-los, mas raramente obedeciam. Não me viam como mãe. Me viam como sua vó vê. Uma vadia que só pensa em dinheiro.

— Por que não conversou com o pai? Você não precisava ter feito o que fez.

— Eu tentei. Juro que tentei. — afirmou, triste. Eu já estava ficando deprimida ouvindo essas coisas. — Mas ele não me dava atenção. Eu estava sendo tratada como uma qualquer ali. Eu não estava feliz. Tinha sorte de que sempre cuidou bem de você e realmente te amou. No entanto, no meu caso, foi diferente. Em momento algum retribuiu o que eu sentia por ele, Thany. E então eu soube que, na verdade, nos casarmos foi só uma saída pra ele não ficar feio entre os colegas por ter engravidado uma estilista novata que trabalhava em parceria com a empresa dele.

— Mãe, você... Você não precisa dizer mais nada... — balbuciei ao dizer. Vou falhar em conter o choro. Eu sei disso.

— Foi vergonhoso pra mim... — continuou, ignorando o que eu disse. — saber que tudo foi uma mentira. Que ele só queria brincar e acabou dando errado. E esse errado, que na verdade foi a coisa mais certa que fiz em toda minha vida, foi você. Eu comecei a gostar de outra pessoa e estava com raiva, querida. E fiz o que fiz. Me desculpe.

Eu engatinhei na cama, me aproximei dela e a abracei com todas as minhas forças. Depois, desabei em choro.

Herbert estava certo. É sempre bom ver todos os lados da história.

Eu nunca estive tão orgulhosa em dizer que Denise Cortês Raymond é a minha mãe; uma mulher guerreira e honesta. Que, independentemente do que fiz, nunca deixou de me amar.

E admito que nunca deixei de amá-la também.

Denise também começou a chorar e eu a confortava. Vê-la sem seus escudos de diamante, se expondo, era muito raro. Deixava-me feliz saber que ainda se abria comigo.

— Ainda tá com ele? — perguntei, me referindo a quem disse ter começado a gostar na época.

— Sim, ele trabalha pra mim. Ele é um homem maravilhoso, Thany. Você ia adorar conhecê-lo. — respondeu ela, fungando e dando uma risada curta.

— Não acha que está com você só por... — Não terminei a frase. Era comum da minha parte pensar no pior.

— Quando me separei do seu pai, fiquei alheia a tudo. Ricchard foi quem me ajudou, querida. — respondeu, sorrindo. Eu sorri também. Pelo menos alguém não foi idiota igual a mim e os restantes. — Ah, você precisa arrumar suas coisas. Pelo jeito, vai finalmente realizar seu sonho e se livrar de mim. — murmurou Denise, rindo.

Ela costumava tirar sarro de mim por conta do que aconteceu. Qualquer coisinha, já vinha dizendo: “Não foge de novo, não, hein!”. OK, me irritava às vezes, mas eu acabava rindo no final.

— Ufa! Pensei que ia demorar. — brinquei, gargalhando e a abracei com força. — Mãe, obrigada. De verdade. Eu vou tirar um tempo pra vim te visitar. Até porque a comida da Angela é maravilhosa.

— No fim, só vai vir por causa da comida, né? — retrucou Denise. Eu assenti gargalhando mais ainda. Angela era a cozinheira da casa. — As únicas coisas que mudaram em você foram a aparência e altura, porque o resto continua o mesmo.

Ela se levantou e me deu um beijo demorado na testa. Despediu-se dizendo que iria até a agência resolver algumas coisas e ressaltou outra vez para que eu fizesse as malas. Porém, voltei a me deitar na cama, imaginando como seria esta nova fase da minha vida.

XXX

A faculdade Berkeley ficava em Nova Iorque mesmo. A casa da minha mãe é um pouco longe dali, mas, aparentemente, achou melhor que eu me mudasse. O que fiz, obviamente, sem reclamar nada e com muita animação.

Não sei expressar o quão fiquei feliz ao saber que me inscreveu em Berkeley, aliás. Estava no topo da lista!

O bom é que não ficarei tão distante de Denise, já que a sede da Cortês é bem próxima.

Desta vez, quero realmente me manter próxima a ela. Pedi que me incluísse nos negócios da empresa, nem que só um pouco, quando eu estivesse no terceiro semestre. Queria ajudá-la o mais rápido possível.

Cansei de sugar dinheiro dos meus pais. Tenho que retribuir de alguma forma e, se era isso que queria, eu faria com prazer.

No momento, eu estava terminando de arrumar o quarto do meu apartamento. Sim, meu apartamento.

Ficava há poucas quadras da faculdade, tinha uma boa localização e boas lojas, restaurantes por perto. Mal comecei a ser uma universitária e estava amando de montão!

Larguei as coisas que mexia por um instante e caminhei até a sala. Era espaçosa e já estava mobilhada. Liguei o Home Theater com as músicas sincronizadas do meu celular e logo “Willing & Able” do Disclosure com o vocal do Kwabs começou a tocar. Deliciei-me com a batida suave e envolvente.

Certifiquei de não deixar o volume tão alto, pois havia os malditos vizinhos. Um dos pontos negativos de morar em um apartamento é esse: não dá para fazer muita baderna.

Ah, eu tinha que passar na faculdade para verificar meus horários e confirmar alguns detalhes, então voltei ao quarto — com Harris me seguindo e miando. Ele parecia não querer mais desgrudar de mim.

Eu já calçava botas e vestia uma calça de moletom cinza bem confortável com uma camisa social clara de mangas compridas. Só complementei com um casaco fofo por cima. O inverno estava chegando e, como sempre, tento usufruir todas as minhas roupas possíveis.

Meu cabelo estava solto. Agora batia nos ombros, pois o cortei no começo do ano. Cabelos curtos dão muito menos trabalho. E é claro, estão na moda.

Peguei minha bolsa e esperei a música acabar para desligar o Home Theater em seguida. Acariciei o meu bichano, o apertando de montão e dando-lhe um beijo no focinho. Ele me olhava como se estivesse sendo abandonado outra vez. Não, Harris. Se eu fugir de novo, juro que realmente te enfio na bolsa e levo junto.

Sai do apartamento e peguei o elevador para descer ao térreo. Minha mãe disse que Clemente estaria à minha disposição caso precisasse, mas acabei pegando certo costume e gosto por andar. Pegar trem, essas coisas. Ser “normal”.

Eu nem sabia onde ficavam os pontos de ônibus antes de ter minha fase de fujona. Não ter toda a mordomia por um tempo abriu meus olhos e fiquei menos necessitada de várias coisas. Era um dos motivos de não me sentir tão arrependida de ter feito o que fiz.

Aliás, Denise ficou impressionada quando me viu ajudando Angela a fazer bolo salgado sem auxílio algum, uma vez que eu mal sabia fritar um ovo antes.

Caminhei tranquila enquanto ouvia “Blue” da Marina And The Diamonds no último volume. Sério, músicas viraram minhas melhores amigas recentemente. Eu já era viciada, mas agora não consigo deixar de ouvir por cinco minutos sequer.

Enfim cheguei ao meu destino. Em frente ao prédio, acima da entrada, havia uma bandeira azul pendurada em diagonal, nela contendo o logotipo da instituição na cor branca. Havia, na verdade, três entradas: duas com portões dourados com grades, uma em cada lado da qual parecia ser a principal de portas de vidro. Acima delas, encontravam-se coberturas da mesma cor que a bandeira, também contendo “Berkeley College” estampado.

Fui me aproximando um pouco ansiosa. Ao chegar à entrada com portas de vidro, uma moça saiu e esbarrou em mim de maneira súbita. Houve um baque surdo de sua mochila caindo no chão. Ô, cacete.

— Desculpe. — pedi, automaticamente me agachando e pegando sua mochila. Em seguida, me virei e...

Puta. Que. Pariu.

— Bethany? — murmurou Mia enquanto franzia o cenho.

Eu fiquei muda. Minha boca estava entreaberta, mas não saia nada. Nadinha. Puta que pariu.

Seu cabelo estava curto de novo, fazendo-me ter um breve momento de nostalgia. Vestia uma calça jeans escura, regata preta de pano leve e calçava um sapatênis simples. A visão de sua clavícula e braços me deixou petrificada. Senti-me igual Alice caindo no País das Maravilhas. Só que, literalmente, ver aquilo era uma maravilha.

Mas como aguentava aquele frio sem nenhuma blusa?

— Bethany? — repetiu, levantando as sobrancelhas. — O que faz aqui?

— Eu... — murmurei, tentando me recompor. Ainda segurava sua mochila. Entreguei rapidamente e engoli um seco. — Oi. Eu ia resolver umas coisas aqui...

— Em Berkeley? Você estuda aqui? — questionou, enquanto pousava uma das alças da mochila no ombro. Eu observei esse ato com uma atenção exagerada, admito.

— É, sim... Espera, como você sabe...?

E então me caiu a ficha.

— Eu também curso aqui. Design Gráfico. — respondeu em tom obvio. Eu ia dizer algo, mas me deu uma baita vontade de espirrar. Ainda bem que abaixei a cabeça antes, senão espirraria nela e isso faria ser um péssimo reencontro — além de nojento e mal-educado.

— Lehaim. — disse Mia. Aquela pronúncia... Era uma palavra em hebraico, com certeza.

— O que significa?

— Saúde. — explicou. Quando comigo, tinha o costume peculiar de dizer algumas palavras em hebraico, mas só às vezes. Mas nunca a vi fazer isso com qualquer outra pessoa, aliás.

— Como digo “obrigada” em hebraico? — quis saber, esquecendo o que vim fazer ali. E pensar que, há uma semana, eu desejava esse momento com tanta intensidade. Estou perplexa.

— Toda. — respondeu ela. Ouvi-la pronunciar essas coisas despertava algo muito estranho em mim. Até me nutria certo nervosismo. O modo como me fitava sem desviar o olhar não ajudava em nada também.

— Toda. — tentei pronunciar, mas saiu algo tão bosta que quis furar meus ouvidos. Mia levantou o canto da boca, e eu sabia que escondia um sorriso. Eu sempre sabia quando escondia um sorriso.

— 'Eyn be'ad ma. — disse em hebraico outra vez. Agora foi minha vez de ficar confusa. Parecia uma frase grande. Nunca disse mais que uma palavra naquele idioma, pelo que eu me lembre. — Por nada.

— Pode me ensinar a pedir desculpas em hebraico? — questionei, cabisbaixa. Desta vez, ela não respondeu e desviou o olhar.

— Não acho que seja necessário. — tornou a dizer. Assenti em concordância, um pouco sem jeito. — Vou me sentir mais confortável se pedir na língua comum.

— Desculpe. — pedi, mais sem graça ainda. — Me desculpe mesmo.

— Sem problemas. — respondeu, voltando a me fitar. — Eu já vou indo. Você não ia entrar?

— Ah, sim. Ia sim. — lembrei-me, coçando a nuca.

— Certo. Até mais. — despediu-se, se virando e começando a caminhar.

— Mia! — chamei. Ela virou em minha direção outra vez. — Podemos... Sei lá... Tomar um café algum dia desses?

— Você estuda aqui, não? — quis confirmar ela. Eu assenti rapidamente. — Então nos vemos em breve.

Assim, deu um pequeno aceno com a cabeça e tomou seu rumo.

E me deixou sem nenhuma noção de qual rumo tomar.

XXX

Minha primeira semana de aula foi maravilhosa. É tão bom estudar algo que você gosta!

Conheci ótimas pessoas também. O mais legal é essa parte, encontrar, em um só lugar, pessoas que querem seguir a mesma carreira, tem os mesmos interesses e gostos que você. Se todo o período que eu cursar for assim, poderia fazer isso para sempre.

Só não estava mais feliz porque não vi Mia outra vez. Como não sabíamos o horário de saída de uma e de outra, imaginei que algo do gênero pudesse acontecer.

Fim da última aula. Os alunos já se levantavam para sair antes mesmo de o professor dispensar expressamente. Certo, era um bom curso, mas, como tudo na vida, quanto maior a carga, mais cansativo é.

— Aí a garota, tipo: “Pelo menos tô estudando algo que vai ajudar a salvar vidas”.

— E você falou o quê? — perguntou Matheus, pronto para rir. Matheus era um branquelo alto de cabelos ondulados e castanhos, bissexual e totalmente obcecado pela Lady Gaga.

— Eu falei: “Querida, não dá pra viver tendo que aguentar pessoas como você usando esses pano de chão como roupa. Acredite, também estou estudando pra salvar vidas”.

Eu gargalhei alto. Agnes falava demais, e era cada bobagem que não tinha como conversar sem rir a cada instante. Ela era baixa, um metro e sessenta no máximo, tinha cabelos lisos, pretos e presos num coque quase sempre, junte de seus óculos de armação vermelha. E creio que tinha um TOC¹ que a forçava retocar sua maquiagem de meia em meia hora, aliás.

— Argh. Nojo eterno desse povo que discute à toa só porque cursa algo diferente. Fala sério, né. — desabafou Matheus, bufando em seguida.

— Pois é. No fim acabam nem dando tanto valor pra área que estão se especializando. — comentei, enquanto saímos do prédio com uma pequena multidão em nosso encalço.

— Nem me fala. Mas, convenhamos, nossa área é um luxo. Não queria me vangloriar nem nada, maaas... — desabafou Agnes em tom cínico. Eu e Matheus rimos novamente.

Mesmo que não houvesse muita gente saindo de Berkeley naquele horário, estava um pouco difícil de se locomover pela calçada da instituição. Entretanto, pelos deuses, avistei de canto de olho um relance de Mia. Ao olhar melhor, constatei próxima de um carro preto azulado. Bingo!

— Gente, tenho que falar com uma amiga. Podem ir sem mim. — falei com pressa, acenando para eles. Matheus me fitou chateado.

— Ain, sério? Mal nos conheceu e já nos trai desse jeito. — dramatizou. Eu gargalhei.

— É sério. Vejo vocês amanhã. — me despedi, dando um beijo na bochecha de cada um e me afastando rapidamente.

Vi Mia abrir a porta do carro. Mas pude perceber várias pessoas, homens ou mulheres, passarem próximas dela com olhares meio vidrados. Isso me irritou. Sabia que sua beleza só aumentou de grau ao passar dos meses, mas pelo amor de Deus... Ao menos disfarcem.

— Mia! — gritei. Ia entrar no veículo, mas captou minha presença e fechou a porta, permanecendo do lado de fora.

— Olá. — saudou simplesmente. Mas isso já me abriu um largo sorriso.

— Oi. — respondi, enfiando as mãos nos bolsos do jeans para esconder o nervosismo. — O nosso café ainda está de pé? – relembrei com receio. Ela não respondeu de primeira, parecendo pensativa. Aproveitei para observá-la melhor.

Hoje usava roupas casuais também. Blusa cinza de moletom, jeans e tênis. O jeito simples de se vestir, mesmo ganhando tão bem, deixava-me abismada. Se eu tivesse metade do cache que sei que recebe, faria uma festa todos os finais de semana em lojas de roupas. Talvez não só aos finais de semana, muito provavelmente. Tá, meus pais são ricos. Mas não me mimam a tal ponto.

O engraçado é que, mesmo eu já tendo a visto usar roupas mais simples, Mia continuava me parecendo muito mais atraente que antes. E o fato de eu não estar sabendo controlar essa miniobsessão está começando a me irritar também.

— Ainda fica com dor de cabeça quando toma café? — perguntou.

— Sem dúvida alguma. — respondi, dando uma risada curta. — Mas o seu café não me deixava tanto. Às vezes até parecia não fazer efeito algum.

— Então, me convidou para tomar café, mas eu que terei que fazer para você? — questionou Mia, confusa.

— Não! A gente vai pra algum lugar comprar. Eu posso beber outra coisa e você toma café. Só foi um jeito de pedir pra sair comigo.

— Isso é algum tipo de código?

O canto de sua boca estava levemente achatado outra vez. Foi aí que percebi que, pela primeira vez, Mia estava tirando sarro da minha cara. Se é que isso era possível.

— Só se querer interpretar dessa forma, querida. — respondi. Decidi entrar na palhaçada.

— Vejo que mudou um pouco seu gosto desde a última vez em que nos falamos, Bethany.

Mal sabia ela que o que dizia era a mais pura verdade.

— Temos que explorar novos horizontes. — murmurei e dei uma piscadela para ela. OK, estou adorando isso.

— Estou tentada a aceitar o pedido. Mas com uma condição.

— E qual seria?

— Eu faço o café. — respondeu ela, sorrindo. Isso mesmo. Sorrindo. Eu paralisei.

Mia sorriu após dizer algo simples. Fala sério.

Ela tinha o sorriso tão lindo. E quando sorria lhe apareciam covinhas. Deixavam-na uns dez anos mais nova.

— E então? Temos um acordo? — quis saber ela, pendendo a cabeça para o lado. Ai, meu Deus. QUE LINDA! Socorro.

— Com certeza. — respondi de imediato, sorrindo que nem uma otária.

Mia então abriu a porta de passageiro da frente e indicou para que eu entrasse. Fiquei surpresa e um pouco encabulada, afinal, não imaginei que faríamos este encontro agora.

Aproximei-me e entrei no veículo. Ela entrou em seguida pela porta do motorista, sentando-se e colocando o cinto de segurança. Indicou para que eu pusesse também.

Conversamos um pouco, mas só sobre coisas relacionadas a faculdade. Mia disse que estava gostando bastante de sua área e ansiosa para começar o próximo semestre. Eu falei que meu curso também é ótimo, mesmo que não tenha passado muito tempo para constatar isso.

Em um momento de silêncio confortável, observei o caminho que Mia fazia. Percebi alguns lugares familiares. Até que me deparei com o condomínio que passei a morar nas últimas semanas. Entretanto, não dei muita atenção.

Até que Mia estacionou o carro em frente à sua entrada.

— Ué, por que parou aqui? — questionei, sentindo uma bolha se formar em meu estomago.

— É onde moro, Bethany. — explicou, com as sobrancelhas franzidas. Ah, não acredito.

Era coincidência demais.

Denise.

Só podia ser. Ela deu um apartamento para mim e um para Mia, no fim das contas. Mas por que será que não estou tão surpresa com essa lambança?

Só não xingo Denise de filha da... porque estaria xingando a minha vó e ela é um amor de pessoa.

POR QUÊ? Por que isso, cacete!?

Porra!

— Onde fica o seu apartamento? — questionei, respirando fundo. Ainda não revelaria a minha ciência sobre o que está acontecendo para Mia. Ao menos não antes de confirmar as informações.

— Segunda torre, décimo andar. — respondeu ela, ainda com o cenho franzido.

Eu morava na segunda torre. E no décimo andar.

— Número?

— Trinta e oito. Dirá o porquê de tantas perguntas? — indagou em tom grosso. Eu cerrei os olhos, suspirando devagar.

Eu vou matar a Denise.

— Bom... digamos que, na verdade, eu more aqui também. Meu apê é o trinta e nove, mesmo andar que o seu. Somos vizinhas. — revelei, sem nem conseguir olhá-la nos olhos. — Juro pra você que eu não fazia ideia.

— Sério? — murmurou. Eu só concordei com a cabeça. — Certo. Eu deveria fazer o café em seu apartamento ou no meu?

Eu voltei a fitá-la, agora confusa. Não vai questionar nem como isso aconteceu, Mia? Sério mesmo?

— Eu não tenho pó de café, Mia. — respondi, ainda incerta.

— Então terá de ser no meu mesmo. — respondeu, super indiferente. Depois caçou algo no porta luvas: o cartão pessoal para a entrada ao condomínio. Eu tinha um também. Daí, ligou o carro de novo e dirigiu-se à entrada do estacionamento. Mostrou seu cartão de identificação ao porteiro, o qual conferiu e após liberou a entrada. O portão começou a correr para os lados, escondendo-se entre os muros.

Mia desceu com o carro ao estacionamento do subsolo, estacionou em sua vaga reservada e saímos do veículo. Em seguida, caminhamos em direção ao elevador sem dizer uma única palavra.

— Não vai nem comentar sobre isso? — quis saber, ainda intrigada, enquanto estávamos na cabine subindo ao décimo andar.

— Sei que não planejou isso. — respondeu Mia, dando de ombros. — Mas qual o problema? O condomínio é novo, há apartamentos à venda. Inclusive, isso explica o porquê do excesso de barulho do apartamento ao lado nos últimos dias.

— Desculpe. — pedi, embaraçada. Achei que não tinha aumentado o volume do Home Theater tanto assim. — É que a minha mãe... Eu não sei como explicar.

Sabia bem por que Denise fez isso. Ela queria que eu me reaproximasse de Mia. Sabia que eu estava mal por não tê-la por perto. Mas não sabia o que aconteceu para nos afastarmos.

Mas, poxa, né. Não precisava de tanto. Minha mãe é bem exagerada.

— Eu posso imaginar. Mas não estou incomodada.

— Não está? Tipo, é que... depois do que aconteceu... Achei que ainda estaria chateada comigo.

— Referente a isso, não. Realmente não mudou nada.

Essa sua resposta foi como levar um soco na barriga. Como conseguia ser tão direta sem demonstrar nenhuma emoção ainda era um mistério para mim.

— Eu quero me redimir. De verdade. O que quer que eu faça? — questionei. O elevador finalmente chegou ao nosso andar.

— Querer que faça algo seria como querer ser adulada. Não sou nenhum ser superior. — respondeu, ao passo que íamos de encontro à porta de seu apartamento e ela a destrancava.

Seu apartamento era idêntico ao meu, porém, o meu está sendo customizado aos poucos. Mas sei que Mia não fez menção alguma para acrescentar algo desde que se mudou, e olha que já faz tempo.

Porém, também sei que, pelo menos, seu quarto deve estar com as paredes cobertas de pinturas. Árvores secas, folhas, plantas... e tudo que já a vi desenhar tantas vezes antes. Isso me despertou certa curiosidade, aliás.

Logo ao entrar, Kiara veio miando da cozinha. Eu abri um sorriso largo ao ver a felina. Que saudades!

— Oi, coisinha fofa! — cumprimentei, enquanto me aproximava e a pegava no colo. — Eu tenho um amiguinho pra te apresentar depois!

— Você tem um gato? — perguntou Mia, curiosa.

— Sim. Tenho o Harris. — respondi e comecei a brincar com as patas de Kiara. No momento seguinte, próspero de ousadia, a levantei até um pouco acima do peito, me aproximando de Mia e batendo, de leve, as patinhas em seu rosto. Eu rachei de rir ao visualizar sua cara depois.

— Desnecessário, Bethany. — murmurou.

— Sua dona é uma bicha má, Kiarinha. Dá beijinho. — falei com a voz mais ridícula que conseguia fazer quando brincava com animais. De novo, aproximei Kiara de Mia e fiz o focinho tocar em seu rosto.

— Posso sentir os pelos no meu rosto. — reclamou ela, mas não fez nenhum movimento para me afastar ou afastar Kiara.

— Aí, que animo broxante, Mia. — foi minha hora de reclamar. — Beijinho de novo!

Realmente devo estar fora de mim. É que eu estava feliz. Estava muito feliz por termos nos reencontrado, por termos voltado a conversar...

Mas acho que não justifica o ato de dar um beijo em sua bochecha. Não tínhamos essa intimidade. E não justifica, também, nem o que senti ao tocar sua pele com os lábios.

Acho que não sei expressar.

Minha visão ficou um pouco turva. Engoli um seco. Sentia-me nervosa, como se minha pressão estivesse baixa. Tive que me apoiar em Mia um pouco.

Eu só estava brincando. Eu juro. Eu...

Eu admito querer isso.

Eu realmente quero mais que isso.

— Você está bem? — questionou Mia. Kiara pulou do meu colo. Eu a fitei.

Ela me olhava com os olhos baixos. Eu ainda estava me apoiando nela. Demorei um pouco para processar o que dizer.

— Não. Não estou bem.

E avancei.

Droga.

Beijei a Mia. Mas depois me afastei depressa.

Ah, m-e-u D-e-u-s.

Eu não acredito que fiz isso.

Estava prestes a pedir desculpas, mas... ela tinha aquele olhar de novo, como uma criança confusa. Uma mulher confusa.

Uma mulher muito linda e confusa.

Foi o suficiente para me fazer perder o controle. Dane-se.

Agarrei a sua cintura e fiz vir de encontro a mim, beijando-a outra vez. Minha respiração falhou quando nossos corpos se trombaram.

Logo pousei as mãos em seu rosto e pressionei sua pele. Eu queria sentir aquela maciez distinta. Era tão agradável. Tão viciante.

Meu Deus, eu não sabia que a desejava tanto.

— Beth... — sussurrou Mia, separando nossos lábios. Eu ignorei seu chamado e a puxei novamente para sentir seu hálito junto ao meu mais uma vez. E Mia começou a retribuir, o que não esperei que acontecesse de imediato — ou que sequer acontecesse.

Céus.

Mas retribuiu com tanta densidade que quase perdi o equilíbrio (de novo). Ela então me segurou, e sem parar de me beijar. Sabia que seus lábios eram grossos, mas não os imaginava tão macios. Sentia-me mais necessitada deles a cada segundo.

Mia pressionava o meu quadril contra o seu, causando-me arrepios. Eu desci as mãos de seu rosto ao pescoço e inclinei a minha boca, aprofundando o beijo e querendo sua língua. Neste momento, ela segurou o meu queixo e assumiu o comando.

Eu vou morrer. Ela conduzia tão bem.

Pois, do nada, tudo parou. Mia se afastou. Segurava os meus ombros, mantendo uma distância entre nós. E eu fiquei completamente confusa.

Não acha que chegamos longe demais para parar agora, Mia? Eu não queria parar de jeito nenhum.

Ela estava ofegante, como se tivesse feito uma maratona, e com a cabeça baixa. Ao me direcionar o olhar, parecia... apavorada.

Convenhamos, Mia e expressões óbvias são uma junção... raríssima. E preocupante.

— Você tá bem? — tornei a perguntar.

— E-Eu não consigo mais... — gaguejou em tom frágil. Eu arregalei os olhos. E se não quiser me ver depois disso? Misericórdia, não!

— Desculpa, Mia... — pedi. Tirei suas mãos de meus ombros e a abracei.

Seu coração batia rápido. Rápido demais. Sua respiração ainda estava bem ofegante.

O que está acontecendo com você, Mia?

— Você quer que eu vá embora? — perguntei, cabisbaixa. Fui eu que causei isso?

— Não, Beth. Não... — disse. Era a segunda vez que me chamava de Beth. Isso me tranquilizou um pouco.

— O que você tem, Delilah? — perguntei em um sussurro. Seu cabelo estava esvoaçado por minha causa e, mesmo naquele momento, a achei belíssima.

— É... difícil explicar... — respondeu. Eu engoli um seco, mas não me abati com sua resposta.

— Você pode me contar qualquer coisa. Sabe disso. — murmurei, tentando persuadi-la. Mas não obtive resposta.

Desvencilhei o abraço e dei um beijo demorado em sua testa. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas não irei perturbá-la.

Cautelosamente, peguei a sua mão, que continuava tênue e quente como a primeira vez que a toquei. Houve até aquele choque térmico por minha mão ser sempre tão gelada. E adorei isso.

Puxei-a, de maneira gentil, até a cozinha. Entretanto, não a vi tirar os olhos do chão em momento algum.

Fui até a pia. Havia copos secando por ali, o que excluiu a necessidade de eu procurar por um. Enchi um com água do filtro e entreguei para ela. Parecia mais calma agora, ao menos.

Sentamos em silêncio à mesa de jantar. Ela ainda não me fitava e parecia querer permanecer daquele jeito para sempre.

— Delilah... — chamei. Voltar a chamá-la de Delilah também me deixava mais confortável. — Tem certeza que não quer que eu vá embora?

Ela meneou a cabeça. Eu respirei fundo.

OK, alguma coisa delicada está acontecendo aqui.

Mas sou a Bethany. Não deixarei que prossiga assim. Não depois do que acabou de acontecer.

— Por favor, Mia. Me diz o que você tem. — pedi, outra vez. — Você não gostou de me beijar?

— Bethany, te beijar não tem nada a ver com isso.

— Então posso te beijar de novo? — perguntei. Muito bem, eu sou uma descarada de mão cheia. Ela não respondeu, mas me olhou de soslaio. Finalmente.

Como eu estava próxima, apoiei uma mão em sua coxa e com a outra puxei o seu queixo, aproximando seu rosto do meu e dando-lhe um selinho demorado. Não me afastei após isso. Seus olhos amendoados estavam com as pupilas dilatadas. Isso me fez querer beijá-la de novo.

— O que você tem? — sussurrei.

— Eu não... Não tenho facilidade para essas coisas como a maioria.

— Como não? Você beija muito bem. — elogiei sem querer. Mas era verdade. — Pode ser que o problema seja eu...

— Já disse que não tem a ver com você, Beth. O único problema é o que... isso me faz lembrar. — revelou, diminuindo muito o tom de voz. Eu a ouvia mais atentamente agora.

— Eu também tive más experiências com isso, Mia. Mas nem todos são assim... Eu pelo menos sei que não sou. — tranquilizei, dando um meio sorriso.

— Não imagino que foi obrigada a fazer essas coisas. — murmurou em um fio de voz.

Não... Por favor, não.

Eu não posso pensar no pior. Não pense no pior, Bethany.

— O que quer dizer com isso, Mia? — questionei com um receio enorme.

Ela não me respondeu de imediato. Mas seu olhar deixou claro que não se tratava de uma comum má experiência adolescente. E sim algo pior.

Muito pior.

— Eu não tive uma boa infância, Bethany.

Eu fiz o favor de seguir calada após ouvir isso.

Notas finais
¹TOC: "TOC" é a sigla para 'Transtorno Obsessivo-Compulsivo'. É caracterizado por pensamentos e medos irracionais (obsessões) que levam a comportamentos compulsivos. Saciei o desejo de vocês, leitores? :)