Eu estava morrendo de fome.

Entendo o fato de que esta área preserva o corpo ideal, mas me fazer passar fome é totalmente diferente. Aquilo estava me irritando.

Desde que cheguei me encontrava na ala especializada da agência: o estúdio fotográfico. E, apenas uma palavra: branco. Totalmente branco.

Havia tudo que é equipamento que você poderia imaginar. De iluminação, tripés, refletores, mesas com aparelhagens tão inerentes que eu não saiba identificar. Também havia uma área reservada para as fotos propriamente ditas. Tudo era muito intrínseco e novo para mim.

Ainda dentro da ala, havia uma entrada com acesso a um espaço a parte somente concebido por roupas, sapatos, adereços, vestuário em geral. Chamavam-no de closet, mas para mim era amplo demais para ser meramente igualado a um closet. Tinha tantas roupas, tantos estilos, cores, o que puder imaginar. Bethany enlouqueceria naquele lugar, com certeza.

Inclusive, antes de me dirigir para cá junto de Ricchard, chefe do setor, passei por um salão de beleza exclusivo da agência. Ajeitaram o meu cabelo, me maquiaram. Tive uma recepção a nível madame, sinceramente. Mas isso incluiu perguntas um tanto invasivas demais.

Um dos especialistas me questionou sobre quem fazia as minhas sobrancelhas. Oras, que interessa quem as faz? Mas respondi mesmo assim. Eu as fazia, de vez em quando. E detestava fazer isso. Mas excesso de pelos dava-me agonia.

E antes de “pousar” — como se referiam ao ato de fazer poses em frente a uma câmera — Ricchard e alguns estilistas me auxiliaram a vestir determinadas peças. Mencionaram fazer parte de uma nova linha da empresa, denominada “Minimabastês”. Uma junção de básico com minimalismo — que para mim é a mesma coisa. Entretanto, ressalto que quase arrancaram minhas tripas para mencionar que há uma completa distinção entre ambos.

As peças iniciais: uma blusa de malha com mangas compridas de cor pastel, uma calça que titulavam de “sarja” na cor vinho com listras levemente escuras e sapatilhas simples da mesma cor que a blusa. Era confortável e macio, então, particularmente, me agradou.

Mas após isso, para a minha infelicidade, começaram a agravar a situação. Saltos muito altos, blusas curtas, shorts curtos demais, calças que marcavam demais. Tudo aquilo que mostrava pele demais.

— Ricchard. — O chamei enquanto muito entretido com sua câmera. — Há algum horário estipulado para o almoço?

— Ah, calminha. Só vou tirar mais algumas. — murmurou sem me fitar.

— Ricchard. — Agora o chamei com mais urgência na voz. Ele me fitou intrigado. — Você já disse isso.

— Sabe que falar desse mesmo jeito com Denise a faria comer o seu toco, né? — ressaltou, mas sem ligar ao meu minidesespero.

Faz bem mencionar que quando cheguei à agência, Denise — ou, melhor, senhora Cortês, como gostava de ser chamada — me introduziu a empresa. Era uma mulher muito profissional, independente e séria. Senti-me confortável ao saber disso.

Comentou sobre as aulas que terei de comparecer, sobre postura, pronúncia, obrigações em relação à saúde; bimestralmente ir ao odontologista, oftalmologista, psiquiatra, nutricionista, etc. Fiquei impressionada com a quantia de cuidados que aparentemente uma modelo deve ter consigo mesma.

E era estranho me denominar como tal agora.

— Me envie ao hospício caso isso aconteça. — respondi. Ricchard só deu risada. — Terei que vir sempre neste horário?

— Não, não. É como se fosse um teste. Coloque na sua mente que enquanto estiver aqui, qualquer coisa que faça ou seja encaminhada pra fazer, é algum tipo de teste. Principalmente se Cortês mandar. — ressaltou, me olhando por cima dos óculos. — Ela vai voltar em breve pra conversar com você.

— Há outras garotas que foram aprovadas como eu? — indaguei, curiosa.

— Não. A gente gosta de dar atenção total a uma nova imagem. E, é claro, tem toda aquela questão de rivalidade... Vocês mulheres juntas são um perigo constante. — brincou, se aproximando de mim e levantando meu queixo, depois se afastando e tirando mais uma foto. — Mas, na verdade, fazemos o mesmo com os garotos. Então, considere-se sortuda.

Imagino que esta palavra já esteja estampada na minha testa.

— Aliás, pelo que eu me lembre, você mora sozinha. — comentou, pensativo. — Preocupada com alguém para querer sair daqui tão rápido?

Tão rápido? Tenho certeza que estou ali há mais de seis horas.

— Não, só quero almoçar. Não é difícil compreender isso.

— Aff... — Bufou Ricchard, revirando os olhos. — Você parece uma cópia da Cortês com toda essa ignorância. Certo, só mais uma troca e depois tá liberada...

Ao dizer isso, ele se deslocou ao closet e desapareceu por alguns minutos. Quando voltou, trazia algo pendurado em um cabide consigo. Não dava para visualizar por conta da capa de plástico que cobria. Ele me ofereceu e retirei a capa desde logo.

De jeito nenhum. Absolutamente de jeito nenhum.

— Não pode estar sério sobre isso. — murmurei, olhando incrédula para a peça. — Não. Não mesmo.

— Como não? É seu trabalho agora, querida. Dizer não seria negar sua função que é usar esse vestido. — retrucou, cruzando os braços.

— Chama isso de vestido? Deve cobrir três centímetros da minha coxa, no máximo. — falei, balançando a cabeça com veemência. — Tem tantas roupas naquele lugar. Por que logo esta?

— Delilah, não me faça perder a paciência, pelo amor de Deus. — vociferou Ricchard, revirando os olhos outra vez. — Vista. Agora.

Segurei o seu olhar por um momento na maior defensiva possível. Mas, pelo jeito, ele não mudaria de ideia.

O “vestido” era branco e muito curto. Básico, sem alças. Vou me sentir uma vadia usando isso. OK, creio que não foi um bom termo a ser usado — afinal, uma mulher é vadia apenas por usar um vestido curto? — então, emendo: Vou me sentir extremamente desconfortável por tratar-se de uma peça muito sensual para um ser de minha perspectiva.

Caminhei ao closet a passos largos. Fui aos provadores e tirei o short escuro, a regata laranja que vestia, os tênis esportivos que calçava e outros acessórios, colar, pulseira, essas coisas. Minhas mãos não tinham outra função, a não ser puxar a barra do vestido para baixo, a fim de não mostrar mais pele que o necessário.

— Calce esses saltos pretos com a sola dourada! São os únicos aí assim! — ouvi Ricchard berrar do estúdio.

Procurei pelos tais saltos. Havia um canto reservado apenas para calçados, claro. Uma prateleira enorme, compondo toda uma parede do local. Sinceramente, eu já estava tonta com tanta luxuria. Calcei os pares — creio que ele os deixou separados, pois encontrei de primeira — e com toda coragem que reuni, saí do closet.

Ricchard me fitava pensativo. Eu deveria me sentir envergonhada por um homem me ver com uma roupa tão ousada, mas com ele era diferente. Ele parecia lidar com aquilo todos os dias.

Mas ainda há um palpite que perneia a minha mente: talvez Ricchard seja gay.

Convenhamos, muitos homens neste ramo têm esta preferência, ainda que eu possa estar generalizando.

— Fácil, não? — pronunciou ele, ainda pensativo. Eu permaneci em silêncio. Era melhor assim do que lhe dizer umas boas.

— Ricch... — ouviu-se alguém chamá-lo. Ricchard se virou e eu fiz o mesmo, automaticamente.

Um rapaz adentrava o estúdio. Tinha pele negra, barba rasa, cabelos crespos, estes escuros e curtos. O formato de seu rosto era muito atraente. Na verdade, ele era atraente por completo. Muitos denominariam como um deus grego, sinto em admitir.

Vestia uma camisa preta, um colete branco por cima, calça de couro e calçava sapatos sociais. Inclusive, em seu braço esquerdo, havia uma tatuagem tribal parcialmente visível.

Eu desviei o olhar para Ricchard. Ele parecia bem animado.

— Wallace! Chegou rápido! — cumprimentou, indicando para o tal Wallace se aproximar. Ele assim fez, com a feição curiosa, mas tinha uma postura relaxada, revezando o olhar entre mim e Ricchard.

— Não conhece a novata, né? Essa é Mia Delilah. Delilah, este é Wallace Armand.

— Olá. — falei de forma educada, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

— Prazer, senhorita. — disse Wallace, sorrindo enquanto apertava minha mão.

— Wall, estou testando Delilah. Poderia dar uma força? — pediu Ricchard, sorrindo.

Ressalto que aquele sorriso me preocupou um pouco.

— Claro. Quantas fotos? — questionou o rapaz, dando uma rápida olhadela de cima a baixo para mim.

— Apenas uma. — respondeu Ricchard, indicando para que nos deslocássemos até o ponto que queria. Eu me sentia nervosa por estar usando saltos. Não tinha costume.

— Wall, fique atrás de Delilah e passe um braço pelo pescoço dela de forma que pareça estar frouxo. Se aproxime do rosto dela, mas não fique tão próximo também. — auxiliou Ricchard.

E eu queria enforcá-lo de vez.

Wallace assim fez, indo para detrás de mim e passando um braço em volta do meu pescoço. Seu braço era tão musculoso que cobria meu pescoço inteiro. Pude sentir sua respiração próxima ao meu rosto. Ele exalava uma fragrância agradável.

— Delilah, foque seus olhos na câmera, mas mova seu rosto um pouco para o lado em que o de Wall está.

Fiz como pedido, mas Ricchard meneou a cabeça.

— Não, vire mais. — murmurou Ricchard, sinalizando algo para o rapaz atrás de mim.

Senti a mão de Wallace no meu queixo. Eu travei o maxilar na hora. Sentia-me tensa. Em seguida, ele empurrou levemente o meu rosto para o lado.

— Isso! Obrigado, Wall. Foque na câmera, Delilah.

E finalmente Ricchard tirou a maldita foto. Wallace se distanciou de mim.

— Pronto! Ficou uma beleza. E você nem queria usar o vestido. — comentou Ricchard enquanto dava risada.

— Ainda não quero, na verdade. — ressaltei. Ouvi Wallace rir com leveza após isso.

— Wall, poderia mostrar pra ela o refeitório?

— Sim, sem problemas. — disse Wallace e me direcionou o olhar. — É melhor você se trocar.

Eu assenti. Era definitivamente melhor.

Desloquei-me apressada ao closet. Felizmente, por um milagre, não cai do salto. Troquei de roupa bem depressa.

Quando voltei, Wallace e eu saímos do estúdio. Ele me acompanhou em silêncio até determinado momento.

— Certo, você não deu em cima de mim em momento algum, então vamos deixar claro uma coisa. — começou ele e me encarou sério. Eu o fitei intrigada.

Não é que eu não o achava bonito, mas nem ao menos o conheço. Se para ele é uma ofensa, já é um ótimo motivo para eu sequer cogitar alguma coisa.

— Ricchard só me chamou pra te atrair. É uma jogada básica que ele faz pra recompensar os outros. Mas eu sou gay. — revelou. Eu levantei as sobrancelhas, surpresa.

Aquela situação era até um pouco engraçada, para ser sincera.

— Teria sido diferente se eu tivesse demonstrado interesse?

— Sim. Aí eu seguiria o papel hétero e até acabaríamos nos pegando. Você não é de se jogar fora. Nenhum pouco mesmo, querida. — admitiu gesticulando com as mãos. Que conversa peculiar. — Mas preferência é preferência.

— OK. — Foi a única coisa que consegui dizer. — Então creio que não há necessidade de continuar me acompanhando, certo?

— Ah, bem, não é bem isso. Você parece ser legal. — Wallace riu, sorrindo abertamente a mim. Aparentava estar bem mais relaxado que antes. — Mia Delilah, né? Vou lembrar. Pode me chamar de Wall.

— Na verdade, Delilah não é meu sobrenome. Mas pode me chamar assim, não me importo. — quis esclarecer.

— Não? Qual é, então? — perguntou ele, curioso.

— Cortês. — respondi. Wallace arregalou os olhos. Eu meneei a cabeça em seguida, compreendendo seus possíveis pensamentos. — Não, não é isso. É só um sobrenome como qualquer outro, não tem importância ou vínculo com essa empresa.

Chegamos ao refeitório.

Era um self service. O cheiro de comida tomou toda a minha atenção. Recordei que estava faminta.

Um relógio de parede por lá marcava 11h15m. Imaginei que não era o principal horário de almoço, pois havia poucas pessoas presentes no âmbito.

Wallace indicou onde pegar um prato e fui lá checar rapidamente. Havia tantas opções. E pensar que não precisarei pagar por aquilo. Sim, as refeições eram bancadas pela empresa. Lembro de senhora Cortês ter mencionado.

Mesmo ainda indecisa, acabei por adicionar ao meu prato alguns pedaços de frango empanado, depois purê, batata frita, arroz, feijão e salada de alface com tomate. Wallace só se serviu com uma sobremesa, um pedaço instigável de brigadeirão com cobertura de chocolate.

Havia mesas em uma parte descoberta do refeitório, propiciando poder desfrutar de uma refeição ao ar livre. Em um acordo silencioso, eu e Wallace nos deslocamos para lá. Estava um pouco abafado, em contrapartida, mas o vento refrescava bem.

— Sabe, ainda sobre o seu sobrenome... Minha surpresa não era sobre ser igual ao nome da empresa. É que tem umas coisas bem estranhas rolando nos últimos meses.

— Que tipo de coisas? — perguntei, antes de morder uma batata frita. Sabia que era fofoca, mas Wallace havia sido uma pessoa agradável até agora. Não há por que ignorá-lo.

— Parece que a senhora Cortês tinha uma filha e ela fugiu de casa. Mas ninguém sabe se é verídico. E como você tem o mesmo sobrenome, imaginei que, né...

Quase engasguei ao ouvir Wallace dizer “ela fugiu de casa”.

As roupas são uma forma de mostrar quem sou, do que gosto... É definitivamente um estilo de vida pra mim.

É bom termos o mesmo sobrenome. [...] Posso dizer que sou sua irmã ou coisa parecida que ninguém vai estranhar.

Bethany.

Não podia ser.

Seria coincidência demais. Uma coincidência muito desnecessária.

Ouvi Wallace com mais atenção agora.

— Cortês é super reservada. Não se sabe se é casada, se namora ou se realmente tem filhos. Então, pra maioria é só mais um daqueles boatos toscos. — continuou ele, levando uma colherada de seu doce à boca. — Mas sabe, fico imaginando o que ela pode estar passando. Não saber onde a filha tá ou se tá passando dificuldade... Deve ser difícil.

— Realmente... — murmurei. — Não há ninguém que possa confirmar isso?

— Ricch é a pessoa mais próxima de Cortês. Acho que é o único apto pra confirmar algo. Mas ele não diria nada, com certeza.

— Por que achou que eu poderia ser a filha desaparecida de Cortês? — quis saber.

— Ah, você parece reservada também. Só levei isso em consideração, e como não sei como a garota se parece...

— Ricchard disse que pareço uma cópia da senhora Cortês quando sou ignorante. — comentei.

— Uau. Espero não ver você sendo ignorante, então. — disse Wallace, gargalhando. — Mas, deixando isso de lado, o que tá achando da agência?

— É um lugar bem exigente.

— Pois é. Mas você tem que pensar o seguinte: se tá aqui, é porque é a melhor. Não há qualquer outra empresa no ramo que cresceu tão rápido igual a nossa. — afirmou orgulhoso.

— É bom saber. — respondi. Ele sorriu animado. Mas minha cabeça não estava ali no momento. E estava em um caos sem igual.

Eu precisava conversar com Bethany.

XXX

— A bola não vai te comer, Beth! — gritou Clarissa, dando risada.

Se há outra coisa que odeio, além de Educação Artística, é Educação Física.

Os horários desta aula eram divididos a tarde. Garotas treinavam separadas dos garotos. O que é uma pena. Quem me dera ver Bryan suado. Ainda terei essa chance!

Estávamos jogando basquete. Ou melhor, tentando jogar. A maioria não sabia nem bater a bola direito ou ao menos saber como o jogo funciona. Pelo menos eu só fazia parte das que não sabiam bater a bola direito.

Eu só estava incomodada com uma coisa e, por ironia, não era sobre a aula em si. Os alunos tinham que vestir uma roupa adequada aos exercícios, claro. Até porque não é viável — a menos que você seja bem ousado — jogar de calça jeans, né.

O uniforme era composto pelo seguinte: uma camisa verde de poliéster com faixas vermelhas nas mangas, um short também vermelho que chegava até um pouco antes dos joelhos e tênis preto simples de cadarço. Nas costas da camisa, havia um número aleatório avermelhado e “SHEEPSHEAD TEAM” escrito acima deste em preto.

Na minha descrição parece algo bonito, mas juro: não é. Definitivamente não é. Eu odiei.

— Garotas, garotas... Por favor! — gritou o professor em tom enjoado. — Temos que melhorar isso. Já é final de ano e vocês ainda não colocaram na mente que não podem segurar a bola e andar demais ao mesmo tempo!

— Se a Jordan estivesse aqui, ele não estaria dando mínima. — ouvi alguém murmurar perto de mim. Quem era Jordan? Eu fugia dessa aula o máximo que podia.

— Eu ouvi isso, ok?! — esbravejou o professor, cruzando os braços. Ele era um homem carrancudo e cheio de músculos. Se fosse um pouco mais novo e menos chato, eu até poderia considerar que tirar uma casquinha seria bom, sinceramente. — Aquela garota consegue jogar melhor que todas vocês juntas. Deixarão que permaneça assim?

As meninas reviraram os olhos e permaneceram em silêncio. Ninguém dava a mínima para esse jogo. Só garotos achavam aquilo importante mesmo.

— Quem é Jordan? — perguntei baixinho para Clarissa ao meu lado enquanto o professor continuava o sermão. Ela riu baixinho.

— É só uma referência ao Michael Jordan, Beth. O nome dela não é esse. E é alguém que você conhece muito bem. — murmurou de volta, mordendo os lábios.

— Ainda não sei quem é. — respondi, franzindo o cenho.

— Não vou poder avaliar direito pelo simples fato de que vocês não dão a mínima pra isso! Que eu saiba nenhuma de vocês quer ficar de recuperação numa aula tão fácil como essa. Ou querem? Pois, se for isso, terei muito prazer em reprová-las- — reclamava o professor, mas interrompeu-se quando o portão do ginásio fez um leve rangido. Todas as meninas viraram a cabeça quase ao mesmo tempo naquela direção.

De lá, uma garota alta surgiu e se aproximou da arquibancada. Vestia uma calça de moletom preta, regata branca e calçava botas. Seu cabelo era curto e ondulado, estava solto e balançava de maneira espetacular.

OK, resumindo: Ela era um filé. E era claro que não vinha para se juntar à aula pela sua vestimenta. Então, quem diabos é ela?

— Mia! — gritou o professor. — Que bom vê-la por aqui!

Eu virei totalmente de súbito para ele.

— Mia? — Deixei escapar.

Fala. Sério.

Voltei o meu olhar para ela outra vez. Meu Deus. Ela era mesmo. Porra, era a Mia.

Como não pude reconhecê-la? Quer dizer, o que que ela fez consigo mesma para ficar tão atraente? Eu estava boquiaberta.

Mas... o que fazia aqui? Será que era Mia mesmo? Eu não estou conseguindo acreditar.

— Boa tarde, professor Jeff. — cumprimentou com um aceno, agora sentada na arquibancada. Certo, pela voz, definitivamente era Mia.

— Pode jogar conosco, querida? — pediu o professor. Ele agora estava radiante. Até demais.

— Eu adoraria, professor. Mas, não sei se soube, não estudo mais aqui. — respondeu educada. O professor Jeff bufou e fez um semblante triste.

— Ah, lembrei-me. Uma pena! Mas tenho que lhe parabenizar, claro! Aguarde um minuto. — Após dizer isso, ele bateu as palmas das mãos. — Meninas, voltem a fazer fila e treinem seus arremessos. Vamos lá!

Como dito, fizemos duas filas, uma em frente a cada cesta disponível da quadra e começamos a arremessar. Eu olhava de soslaio e tentava ouvir a conversa entre o professor e Mia. Pareciam bem íntimos. Mas não consegui ouvir nada.

Será que veio direto da agência para cá? Eu estava extremamente curiosa para saber o que aconteceu.

Se passaram alguns minutos até que o professor apitou, anunciando o fim da aula. Aleluia.

Diferente de todas as garotas que correram ao vestiário, caminhei em direção à arquibancada, onde Mia permanecia sentada.

Ela levantou quando me viu próxima, pegou uma bola de basquete jogada ali perto e começou a quicá-la no chão. Como sempre, tinha um semblante sério e observador. Mas sua aparência despertava outros aspectos agora. Muito bons, por sinal.

— Oi.

— Oi, Beth. — disse, parando de quicar a bola e tornando a me fitar. — Você joga muito mal.

— Quê? Olha aqui! — resmunguei. Que palhaçada é essa? — Eu dou o meu melhor, tá? — Bufei, indignada. Mas é, eu jogava muito mal mesmo. Só não precisa esculachar, poxa.

— É, ao menos isso... — Ela arremessou a bola na minha direção, que, por reflexo, segurei com as mãos. Já me preparava para xingá-la, mas Mia prosseguiu dizendo: — Você tem uma pegada forte, mas peca no arremesso e a batida. Talvez fosse melhor que o prodígio Christopher do segundo ano se melhorasse isso.

— Sério?

— Claro que não. — respondeu. O canto de sua boca jazia levemente arquiado. Mia realmente é ótima em esconder sorrisos. — Mas é um começo. — concluiu, se aproximando e pegando a bola de volta de mim.

— O que veio fazer aqui, Mia? — perguntei, indo direto ao ponto. Ela me circulou quicando a bola e caminhou até a cesta mais próxima. Eu a acompanhei.

— Você disse que me chamaria de Delilah. — relembrou. Observei a maneira que levava a bola consigo e, de certa forma, achei peculiar.

— Delilah. — Chamei e sorri por ter lembrado. — O que faz aqui?

— Você está bem?

— Estou sim. — respondi, estranhando sua atitude. Ela não me fitava. E não perguntaria algo do tipo à toa.

— Quero conversar sobre sua mãe. — murmurou sem mais rodeios.

— Por quê?

— Responderei quando me falar sobre ela. — respondeu, arremessando a bola. Esta fez uma curva perfeita e se enterrou na cesta.

Agora eu soube quem era a “Jordan”.

— O que ganho com isso? — perguntei, confusa, mas impressionada com a pontaria de Mia.

— Dependendo de sua resposta: um grande problema. — afirmou. E aquilo me preocupou. — Vista-se. Não quero falar sobre isso aqui.

Eu assenti e, sem questionar mais nada, me dirigi ao vestiário.

XXX

Quando voltei à quadra do ginásio, Mia ainda estava jogando basquete sozinha. Então, disse que tínhamos carona. Fiquei animada, mas estranhei tal anúncio e prossegui nervosa com a postergação da conversa.

Ao sairmos do colégio, vi uma luxuosa e linda Mercedes preta estacionada do outro lado da rua. Mia apontou para ela e começou a caminhar em sua direção. Eu esqueci o que era respirar. Nossa carona!?

Quando me aproximei, conferi que ao volante havia um homem careca de terno. Mia nos apresentou. Ele se chamava Clemente. Era bem cordial e gentil. Funcionário da agência.

O silêncio predominou naquele maravilhoso automóvel por todo o caminho. Clemente nos deixou próximo ao prédio do apartamento e... cá estamos. Estou sendo torturada pela ansiedade.

— O que quer saber? — Mal entramos ao apartamento e retomei o assunto.

— Qual o nome de sua mãe? Sem apelidos. Nome completo.

— Denise Cortês Raymond. — respondi, ainda confusa. Mia parecia estar atônica. Não era normal. Não mesmo. — O que aconteceu? Por que isso de repente? — questionei, sentindo calafrios.

— Bethany... Sua mãe... Acho que sua mãe é a minha chefe. — respondeu, simplesmente.

Ao ouvir isso, esqueci o que era respirar. Desta vez, para valer.