Oculta

8 Memórias


— Como não ligou os pontos, Bethany?

— E eu ia lá saber, Mia! Faz anos desde a última vez que falei com a minha mãe. — bufei, suando de nervoso. — Ela era coordenadora de uma empresa de moda e estava se dando muito bem lá. Nunca a imaginaria fundando uma das melhores marcas de grife da atualidade.

— Bethany, se descobrirem que está aqui... posso me prejudicar. Muito. — murmurou Mia. — É além de perder o emprego. Posso ser processada ou... não sei. Só não acabará bem. — concluiu. O tom de sua voz estava alterado outra vez. Isso não era bom.

— Mas não pode ser ela, sério... — cogitei, mas duvidava das próprias palavras. — Como ela é?

— Ela é exatamente igual a você. Loira, bonita, elegante. Até seus olhos são iguais.

Ouvir um elogio de Mia era estranho, mesmo indireto. Mas, admito, senti uma sensação boa.

E eu era muito parecida com a minha mãe mesmo. Sempre fui. Talvez esteja mais ainda.

Bufei. Bom, voltando àquela maldita pergunta de novo.

O que eu faria?

— Não posso te envolver nisso. — admiti, derrotada. — Se posso prejudicar sua vida, tá na hora de cair fora.

— Você não está prejudicando a minha vida, Bethany. Temos que cogitar uma maneira de não prejudicar você. Sei pouco sobre sua pessoa, mas não adianta querer voltar e viver outra vez aquilo que odiou a ponto de fugir. Pode estar sendo empática, mas eu não sou. Se você estiver na pior, também terei de estar. Se você ficar bem, ficarei bem. Não sendo uma dessas opções, discordarei totalmente. Sinto-me responsável por ti.

Eu a fitei por um instante. Onde a encontrei mesmo? Lanchonete. Qual foi a minha primeira impressão sobre ela? Estranha. Absolutamente estranha.

Quase sinto que as melhores pessoas são aquelas que não trazem ótimas impressões de cara. Aquelas que aparecem da forma mais simples possível.

Sinceramente, nunca tive tanto apego por alguém quanto tenho por Mia. O fato de que não a compreendo e não a conheço direito parece tornar tudo melhor. É como viver outra vez. Conhecer um lado desconhecido da vida. Um lado onde nada é transparente. Um lado onde vale a pena confiar e conhecer. É assim com Mia.

De modo impulsivo, me aproximei dela e a abracei.

Dane-se. Dane-se se ela não gosta disso. Dane-se se não me abraçar de volta.

Eu só precisava demonstrar o quão importante ela é para mim.

— Você é a melhor pessoa. Não diga o contrário, por favor. — murmurei de olhos fechados. Ela não respondeu. Mas também não se distanciou.

Eu apertei mais os abraços ao seu redor. Não parecia, mas Mia tinha um corpo bem modelado, como uma atleta. Não imaginava algo assim. Parecia que estava abraçando outra pessoa, não a Mia de verdade.

Ela também emanava um cheiro único. De certa forma, reconfortante. Era bom. Muito bom.

Em determinado momento, senti seus braços se moverem e finalmente retribuiu o meu abraço. Como tínhamos a mesma altura, nenhuma de nós precisou agachar ou ficar na ponta dos pés, o que era agradável.

Não queria desfazer aquele abraço. Mas é muita invasão ainda. Ao menos para Mia. Vou respeitar isso.

Deslizei meus braços suavemente e distanciei, mas mantive minhas mãos pousadas nos seus antebraços. Quando fitei seus olhos, deparei outra vez com aquele mesmo olhar raro. Aquele que me deixava confusa.

O olhar que dizia, de maneira sútil, por baixo de toda a seriedade e mau humor, havia uma garota um tanto inocente e sensível, a qual se mantinha ocultada sempre.

E, não sei muito bem, mas tive a sensação de que o clima do apartamento pareceu ficar um pouco denso.

— Eu me preocupo com você. — admiti. Mia me encarava sem dizer nada. — Talvez eu só tenha exagerado. Talvez seja bom voltar e encarar tudo. Só estive fugindo mesmo.

— Eu não teria aquele cartão se não tivesse ido até a loja com você. Não iria até a agência se não tivesse me dado esperanças. Nada teria mudado para mim se não tivesse lhe encontrado. Não faz sentido ir embora por minha causa.

— Mia, quer que eu fique porque não acha certo ou porque gosta de me ter aqui? — perguntei, direta.

Ela era sempre assim. Dizia o que achava certo ou errado, tudo de forma racional. Não dizia pensando em si, em como se sentiria. E era neste ponto que eu muitas vezes detestava em Mia.

Moramos juntas há quase cinco meses. Para outros pode ser pouco, mas era demais para mim. Convivi com ela. Conheço um pouco seus gostos e costumes. Ela conhece os meus também. Acostumei-me com sua companhia, não posso negar isso.

Vai ser estranho acordar em meu quarto — meu maravilhoso quarto — na minha cama fofa, sabendo que todas minhas roupas prediletas estão no closet e ouvindo o meu gato Harris ronronar em invés de levantar em um coxão no meio da sala, Kiara em cima de mim, meu corpo dolorido e o cheiro de café penetrando as narinas, indicando que Mia estava acordada.

Ela continuou me encarando, sem dar uma resposta. Eu meneei a cabeça. Era tão simples. Podia só admitir. Não faria mal algum.

— Eu gosto de ter você aqui. Kiara também. — respondeu em tom baixo, desviando o olhar.

Ó, glória! Suspirei aliviada e sorri que nem boba. É claro que mencionou Kiara para não parecer vulnerável, o que não funcionou mesmo. Eu queria abraçá-la de novo, mas me controlei ao máximo.

— Então fico. Mas vou fazer de tudo pra não acontecer nada com você. Eu prometo. — afirmei. Nem que eu tenha que bater boca com minha mãe por horas, dias. Nossa convivência sempre foi assim mesmo. Ela falava A, eu falava B, C, D...

Mia apenas assentiu e continuou sem me fitar. Meu humor estava às mil maravilhas, mesmo que nossa situação não aparentasse ser das boas. E, cara, eu estava tão feliz. Tão feliz que, sem conseguir me controlar, tasquei um beijo rápido em sua bochecha. Ela me fitou muito surpresa, o que só me fez abrir mais o sorriso e dar risada.

— Ah, é! Eu li a papelada que você deixou. Bem, eu perdi o horário da aula e só pude ir à de educação física, então, né... — murmurei, tentando amenizar o meu lado. Mas o olhar que me enviou indicava que a Mia séria havia voltado. E estava desapontada. — Desculpa! Mas, olha só, anotei umas coisas interessantes. — Andei até o balcão da cozinha, peguei o meu bloco de notas e entreguei a ela. — Sabe aqueles cartões? Eles permitem gastar até três mil dólares mensalmente em qualquer loja da marca. Fala sério!

— Acho que sua mãe é milionária. — comentou, lendo atentamente o bloquinho.

— É o que parece... — murmurei, mordendo os lábios. Ainda não me sentia confortável falando sobre ela. — Só que sabe o mais interessante? Lê isso aqui... — Apontei o dedo indicador para a última linha que havia escrito no bloco de notas.

— Isso está certo? — quis confirmar ela, me olhando estupefata. Eu gargalhei. — É realmente tudo isso?

— Acredite, reli umas cinco vezes pra confirmar.

— Mas nem sou profissional.

— Imagine quando for. — comentei, contente.

— Não, Beth. Eu não pretendo permanecer neste ramo.

— Nada impede de seguir esse e mais outro, querida. — argumentei, dando de ombros. Mia ainda fitava o bloco de notas com descrença.

— É muito dinheiro. Dinheiro demais. — comentou baixinho. — Não pensei que seria tanto.

— Tenho que admitir... Minha mãe tem sorte de escolher você pra trabalhar pra ela.

Eu conhecia minha mãe. Ela tinha algum motivo particular para ter escolhido Mia. E pela primeira vez em muito tempo, gostei de algo que minha mãe fez.

— Obrigada. — agradeceu, me fitando nos olhos outra vez.

Eu só pude sorrir e esperar que tudo desse certo.

XXX

Os meses passaram como um flash.

Eu ia me formar. Uau. Acho que nunca esperei tanto por esse momento na minha vida. Só que, claro, ainda tínhamos as provas finais... Porém, com Mia me obrigando a ir à aula todo dia, acabei por não me preocupar com nota alguma — o que era muito raro. Raríssimo!

Falando em Mia: esteve extremamente ocupada nos últimos tempos. Eu mal a via também, só de vez em quando, à noite, em um relance, porque era sempre muito tarde e pode ser que meu corpo se encontrava acordado, mas a minha alma estava no décimo sono.

Mesmo ganhando horrores com o novo trabalho, Mia não usufruía em nada. A maior parte deixava no banco, e pode já ter dinheiro suficiente para viver sem se preocupar por meia década ou mais. Bom, eu não opinava nem nada sobre isso, já que não tenho nada a ver mesmo.

Nossa convivência continuava a mesma, o apartamento continuava o mesmo. Aliás, comprei um colchão novo, finalmente. Se bem que meu objetivo mesmo era ter uma cama completa. Mas quando mencionei a possibilidade de colocar no quarto de Mia, ela quase comeu o meu fígado. Sério. Ela simplesmente não deixou. Disse que não haveria espaço por causa das roupas que trazia do trabalho, etc.

É logico que era mentira. Tinha espaço para pelo menos um colchão estirado no chão sim! Mas eu não quis discutir. Se não queria, não queria e ponto. Tudo bem em prosseguir na sala, não liguei. Mas achei um exagero e não compreendi o motivo de todo o alvoroço.

Deixando isso de lado, Mia estava muito diferente. Como eu não a via com a mesma frequência que antes, às vezes era um susto. Um bom susto. Parecia ter ficado dez vezes mais bonita desde que começou a trabalhar.

E eu sabia de todo o cuidado que estava recebendo, uma vez que li o contrato e todos os detalhes referente a isso, mas era impressionante visualizar o resultado.

O cabelo dela estava mais comprido e hidratado, sua pele mais tratada. Não havia olheiras abaixo dos olhos mesmo com a alta carga horária do serviço. Suas unhas sempre bem-feitas... Além disso, Mia andava se vestindo muito bem. Esses dias, a vi com uma calça branca de textura áspera e camisa de algodão acinzentada que me deixou sem palavras. E não posso deixar de citar que amo, de paixão, quando ela traz roupas da agência para casa e me deixa vestir, né? Não dá para não citar!

O seu jeito de ser também mudou. Estava mais receptiva, mais comunicativa. Diferente até no seu caminhar. Era tudo tão estranho.

Mas eu estava feliz. O fato de sua chefe ser a minha mãe não me preocupava mais. Mia é muito discreta. Ninguém desconfiaria. E não há nada para desconfiar.

No momento, eu jazia sentada no meu colchão lendo uma revista, tentando cogitar um vestido para usar na formatura. Tarefa difícil. Tinha que ser algo especial, afinal, o meu par era especial.

Já faz três meses que eu e Bryan estamos juntos. O tempo voa. Porém, continuávamos firmes e fortes.

Bryan era maravilhoso. Atencioso, gentil, divertido. Eu estava apaixonada e não negava isso. Nunca valeu tanto a pena ter fugido de casa e poder tê-lo conhecido.

Aliás, confessei isso a ele. Quase teve um infarto na hora, é claro. Contudo, depois de explicar os meus motivos, me apoiou e agora o meu apelido é fujona. Infelizmente, sim, para cada segredo há um preço a ser pago. Sou a fujona com prazer. Sou dele e ele é meu.

Agora me toquei. Mia não pôde ir a uma festa de formatura, até porque se formou antes. Vou tentar arranjar um jeito de ela ir, sinceramente.

O problema é: com quem iria? Se bem que não seria difícil arranjar, contando que estava a perdição em pessoa, capaz de envenenar qualquer gênero de ser com a sua aparência. Eu sou forte e felizmente não cairei em sua armadilha de pura insanidade.

Durante meu devaneio enquanto brincava com a Kiara, ouvi um rangido vindo da porta. Virei de súbito, atenta.

Não podia ser Mia, estava muito cedo. Tá, é errado deixar a porta do apartamento aberta sem mais nem menos, mas é que eu nunca lembrava de fechar.

Mas era Mia mesmo. Trazia óculos escuros no rosto, mas tirou ao passo que trancava a porta e pousava algumas sacolas em mãos no chão. Vestia uma calça escura, blusa verde de flanela e calçava um tradicional tênis da Converse.

— Nossa, chegou cedo!

— Sim. — ela respondeu em tom baixo. Eu franzi o cenho.

— Aconteceu algo?

— Senhora Cortês não está na cidade. — respondeu ainda com um tom estranho de voz.

E se há uma coisa que aprendi morando com Mia, é como ser persistente.

— Por quê?

— Não sei. — pegou as sacolas do chão e caminhou pela sala, depositando-as em cima da divisa da cozinha. — Você pode ligar aquele seu...

— Notebook? — completei.

— Isso. Ricch disse que ela enviou algo ao meu-

— E-mail? — completei de novo e não resisti em sorrir. Mia era um descaso quanto a tecnologias.

Eu peguei o notebook em cima da mesa de centro e o liguei. Depois de o equipamento inicializar por completo, digitei o site do cliente de e-mail e acessei a conta de Mia. Ela deixava suas credenciais salvas no navegador, uma vez que não sabia mexer direito e sempre me pedia para ver em vez dela.

Quando a caixa de entrada carregou, constatei o quanto estava cheia. E não eram e-mails de promoções ou coisa de rede social, algo que de forma alguma ela tinha. Tinha convites, propostas, solicitações. Todos relacionados ao trabalho.

— Achou algo? — questionou Mia, agora mais próxima de mim, enquanto eu encarava a tela como uma retardada. Era muita coisa naquela caixa de e-mail.

— Ah, tô vendo... Espera aí... — murmurei, voltando ao normal. Havia um e-mail com o endereço cortes@inc.com. Estava sem título.

Olhei de soslaio para Mia. Ela estava sentada ao meu lado e fitava a tela com curiosidade. Abri a mensagem e indiquei para que lesse, mas sem deixar de ler também.

“Olá, Delilah.

Primeiramente, perdoe-me pela ausência repentina. Como sua gestora e chefe, não é ético lhe deixar sem funções definitivas, levando em consideração que não tens tanta experiência em sua posição atual na corporação. Mas estarei ausente por tempo indeterminado, então considere estes dias como uma folga até o meu retorno.

Porém, devo parabenizá-la pelo excelente trabalho que vem fazendo, não só como modelo, mas também com sua participação em nossos projetos, opinando, sugerindo e exalando alta proatividade. Mesmo que, ressalto, estes afazeres não façam parte de suas obrigações. Contudo, o seu desempenho me agrada e mostra quão sábia fui em selecioná-la.

Por fim, como forma de retribuição e pagamento pelo seu esforço voluntário, quero lhe presentar. Você saberá do que se trata ao abrir os arquivos anexados à mensagem. Demonstrarei demasiada satisfação em saber que aceitou de bom grado. Será acessível ter alguém como você próxima a nós.

Notifique Clemente caso surja algum problema e continue sendo sempre cortês, Mia.

Atenciosamente,

D. Cortês

CEO Cortês Inc.”

— O que está anexado à mensagem? — perguntou Mia, sem demonstrar nenhuma reação com o que havia lido.

Eu estava surpresa. Nunca tive a oportunidade de ver minha mãe escrevendo algo tão formal e profissional, no fim das contas.

Então baixei os anexos. Havia quatro arquivos: dois documentos em extensão pdf e duas imagens.

Eu não estava entendendo, de verdade. Até que abri uma das imagens. Foi automático tapar a boca em espanto ao constatar o que era.

Só pode ser brincadeira.

— Eu desisto. Não dá mais. Sério. Não dá. — Eu não sabia o que dizer. Estava atônica.

— Ela me deu um apartamento. — falou Mia com a maior cara de paisagem. Eu comecei a rir.

— Eu não tô acreditando, fala sério! — desabafei, gargalhando. Eu não saiba por que estava rindo daquele jeito. Puta que pariu.

— Bethany... Ela me deu um apartamento em Nova Iorque. — ressaltou Mia, me fitando ainda com a mesma cara. — Você morava em Nova Iorque.

Aí minha ficha caiu.

— Ai, meu Deus. — murmurei, apavorada. — Meu Deus! Não! Eu não posso ir com você! Posso ficar aqui, eu trabalho-

— Beth, você é menor de idade. Não posso te deixar.

— Eu consigo me virar. O Bryan sabe, ele pode me ajud-

— Você contou ao Bryan? — cortou Mia, com voz elevada. Isso me assustou. — Está louca!?

— Desculpa! — pedi, me afastando. — Ele é meu namorado, não faria mal alg-

— Bethany, isso deveria ter permanecido apenas entre nós. Não acredito que fez isso!

— O Bryan nunca faria nada! — berrei, irritada. — Eu sei bem em quem confiar, Mia!

— Vou fingir que é verdade. — respondeu simplesmente. — Enfim, não vou deixá-la aqui.

— De jeito nenhum! Você vai sim! — retruquei. Eu não sabia a razão, mas estava fula. — Não pode desistir do que é bom pra você só por minha causa, cacete! Não vê que isso me torna um fardo? Pare e pense um pouco em você, merda!

— Não há como pensar só em mim desde que você chegou, estúpida! — berrou de volta. Sua voz estava muito áspera. O timbre raivoso me causava repulsa. Eu não gostava disso nem um pouco. Estava ficando puta da vida. — Chega. — pronunciou baixo, sem me olhar, caminhando em direção ao quarto.

— Vai se esconder aí pra sempre!?

— Sim, do mesmo jeito que você foge! — respondeu no mesmo tom, batendo a porta do quarto com força.

Eu sabia que estava bom demais para ser verdade. Mas não vou deixar acabar assim. De jeito nenhum.

Procurei meu celular e me tranquei no banheiro. Liguei para Bryan em seguida.

— Oi, Bethy! — disse ao atender de bom humor.

— Bry... preciso de sua ajuda. — falei, sem rodeios.

— O que houve? Tá tudo bem?

— Mais ou menos... — respondi, suspirando alto. — Preciso que você convença a Mia.

— Eu? Convencer Mia? Convencer do quê?

— Convencer a me deixar aqui. Olha, é complicado de explicar... Mas tem a ver com o que te contei antes.

— Você quer que eu vá até aí? Mas, Bethy... Às vezes que falei com Mia, foi um “oi” e “tchau”. Não tô certo de que vou servir de algo.

— Por favor. A Mia não percebe o que tá fazendo... Ela tá desistindo das coisas na vida dela por minha causa. Não quero que isso continue. Você sabe que ela merece mais do que isso. — argumentei, com meus olhos querendo me trair.

Não, eu não vou chorar.

— Bethy, sabe que vou fazer o que quiser, se te deixar feliz. Mas ainda não sei se consigo te ajudar e não tô entendendo o que tá acontecendo.

— Eu explico quando vir pra cá. Só venha rápido.

— Tudo bem. Me espere na entrada do prédio. Chego aí num estante, flor. — respondeu ele. Consegui relaxar por um momento.

XXX

Minha cabeça queria explodir. Por raiva de Bethany e satisfação pela mensagem que a senhora Cortês me enviou — mãe dela.

Só arranjo para a minha cabeça. É o mundo me testando.

Quantas centenas de vezes conversamos em manter este assunto entre nós? Quantas vezes mencionei o que poderia acontecer se abríssemos a boca? Parece que conversei com uma porta em todo este tempo. Acho que até a porta é uma melhor ouvinte.

Eu detesto isso.

Detesto quando confio em alguém e essa pessoa me desaponta. Sempre tento confiar nas pessoas certas ou confiar o mínimo possível. E sempre me frustro no final. É incrível.

Para completar, não confio em deixar Beth sozinha. Ela não sabe cuidar de si. É muito alheia do que é certo e errado. Não acredito em histórias felizes. Não vai acabar bem. Nunca acaba.

Minha situação estava crítica. Eu não sabia o que fazer. Tudo estava virando de cabeça para baixo e eu não tinha como reverter.

Eu deveria ter saído da empresa quando soube que a mãe de Bethany era a minha chefe. Todavia, em compensação, minha situação estaria bem pior.

O complicado é que eu gosto da empresa. Por incrível que pareça, me apeguei ao ramo que trabalham e pelas pessoas de lá.

Nunca é igual. Cada dia é algo diferente. Não tem mesmice. Estão sempre criando, pensando, planejando, inovando. Eram criativos, corajosos, ousados, insistentes, sem medo dos resultados. Eram um tipo diferente de artistas. E eu apreciava qualquer arte.

Percebi que, mesmo que cogitasse sair, eu não queria sair. Imagino que nunca terei outra oportunidade para trabalhar em algo tão grandioso e especial. Cortês me ensinou isso.

E então, voltamos à Bethany. Ela me contou o que aconteceu entre seus pais. Mas, mesmo assim, não consigo ver a Cortês como uma mulher desalmada. Simplesmente não via. Ela era a inspiração de todos naquele lugar.

Porém, o que adianta? O que adianta admirar meu trabalho, querer me compensar, e uma hora poder saber que tive contato com sua filha e sabia sobre tudo? Quão decepcionada ficaria?

Ouvi batidas na porta do quarto. Ok, agora chega, definitivamente. Temos que resolver isso.

Caminhei até a porta e a abri. Mas fiquei surpresa com o que constatei. Não se tratava de Bethany.

Era Bryan.

O que diabos fazia ali?

— Oi... Mia. — cumprimentou, sem graça. Eu não respondi, apenas o fitei confusa. — Ér­... Então...

— O que faz aqui? Onde está Bethany? — perguntei, direta. O nível de minha paciência estava abaixo de zero.

— Eu a deixei no trabalho. — explicou Bryan, me fitando de cima a baixo. — Uau. Você tá bem diferente.

— Não respondeu minha primeira pergunta, Bryan. — ressaltei, tentando ignorar o jeito que me olhava. Ele não deveria olhar assim só para Bethany?

— Ela... me pediu pra conversar com você. — murmurou, ainda aéreo. Eu franzi o cenho.

— E o que o faz pensar que conversarei contigo sobre alguma coisa?

— Ainda tô perdido sobre o que tá acontecendo, mas... Bom, Bethy disse que você não quer se mudar porque ela não vai junto. Mas Mia, ela não é siamês sua. Ela não vai ficar na sua cola pra sempre. Ela sabe se cuidar. — declarou em tom sério.

— Diga, Bryan: o que sabe? Quando a conheci, não tinha um centavo no bolso e estava confusa sobre o tinha acabado de fazer. Ela nem sabia sequer em qual cidade estava. — perguntei, o fitando nos olhos. Ele ficou de boca aberta, mas meneou a cabeça em seguida.

— Isso não importa. Convenhamos, vai. O que ela fez foi estúpido.

— Como pode dizer com tanta certeza? Viveu a vida dela para saber de algo? Todos nós temos problemas, Bryan.

— Temos, mas não é motivo pra fugir de casa do nada e passar dificuldades à toa. Mia, pare. Você sabe que foi estupidez. Negue à Bethany, mas não a mim.

— A única pessoa que negou foi você. — afirmei com total certeza. Mas, por um momento, quis gargalhar. — Grande companheiro você é. Sempre agindo com tamanha sinceridade. E, sinceramente, não se faça de macho alfa para mim. Não sou Bethany. Não caio em seus encantos inexistentes.

Dane-se. Estou farta. Eu nunca me dei bem com este rapaz.

— Neguei mesmo. Achei que seria melhor assim. Somos iguais, Mia. Eu e você queríamos que ela achasse que tivesse tomado a melhor decisão e vivesse feliz com isso. — argumentou, tentando parecer calmo.

— Desde quando somos iguais? Você não me conhece.

— Beleza, quer saber? Acho que tudo isso é uma fachada. Eu sei suas intenções, Mia. — afirmou, outra vez me fitando de cima a baixo.

— Diria onde arranjou sua bola de cristal? Pare de tentar nos comparar. É irritante. — retruquei. Quero expulsá-lo do meu apartamento.

— Sabe o que acho? Que quer levar Bethy porque tem ciúmes.

É o fim. Pressionei os dedos com violência em minha têmpora, tentando não me descontrolar. Era só o que me faltava.

— Ciúmes? Sério? Este é seu melhor argumento? Melhore, Bryan. — respondi sarcástica.

— Olha, eu gostava de você antes de Bethany chegar. Muito mesmo. Se tivesse dito que gostava de mim também, estaria com você e não com ela. Não faça isso pra se vingar. Você mesma vacilou em demorar demais.

— O quê?

Não, não, não... Eu não ouvi isso.

Não me diga que, de repente, Bryan, namorado de Bethany, pessoa que tenho obvio desgosto, concretizou que eu gosto dele e que quero me mudar junto de Bethany por ciúmes deles estarem juntos.

É a coisa mais patética que nunca ouvi em toda minha vida.

— Não acredito no que acabei de ouvir. — murmurei com nojo.

— Não precisa ter vergonha. — argumentou Bryan, com tranquilidade. — Eu entendo muito bem. E se quiser, podemos tentar algo. Bethany foi mais uma borracha que usei pra tentar te esquecer. Mas não consegui, Mia. Você sempre foi linda e tá mais linda ainda... Agora que vejo que sente o mesmo por mim...

— Bryan, percebe a besteira que está dizendo? Você bebeu?

— Eu simplesmente não me imagino com outra pessoa.

Eu abri a boca para dizer que tudo aquilo era apenas imaginação de sua mente e que algo do gênero definitivamente nunca aconteceria.

Mas o bastardo me beijou.

O empurrei com tanta força que quase caiu no chão.

— Você ficou maluco!? — explodi. Ele me fitou incrédulo. — Saia daqui, idiota! Agora! Ou chamo a polícia!

Bryan rapidamente meio caminhou e correu até a porta, saindo e deixando-a escancarada. Corri até lá e a tranquei.

Meu coração batia rápido. Eu tremia. Minhas pernas estavam bambas.

Não. Agora não.

Perdi o equilíbrio e cai no chão, sentindo meus joelhos dormentes com o impacto.

Tentei me levantar. Quando consegui sentar no piso, me encolhi, abraçando os joelhos.

Sentia o tremor. Tudo no apartamento parecia embaçado.

Vi aquele porão outra vez.

Até mesmo o cheiro de mofo e umidade impregnou minhas narinas.

Estava tudo escuro.

Tudo estava sempre tão escuro.

Só havia um fleche de luz. Este vinha do vão da porta que dava acesso àquele recinto diabólico.

Ouvi um rangido. A porta se abriu lentamente. De lá apareceu um homem. Porte grande, cabelos lisos, curtos e carranca séria.

Ele parecia dizer alguma coisa enquanto me fitava. Eu não conseguia ouvir.

Houve um tempo que ouvia. Depois passei a fingir que não. E ele se divertia dizendo aquelas coisas.

Não importava quanto tempo se passasse. Eu nunca esqueceria seus olhos.

Nunca demonstravam nada bom. Mas o que sempre mostrava é, para muitos, um privilégio. Para uns, uma necessidade própria. Para outros, a valorização do próprio ego.

Chamava-se desejo.