— Não está bom ainda. — ressaltou Cortês, direta como de costume.

— É difícil saber se está bom como quer.

— Saberá sim. Nem que passemos a tarde inteira fazendo isso. Faça de novo. — ordenou e fixou o olhar em mim.

Acredite, estávamos treinando maneiras para sorrir. Sim, isso mesmo. Sim, totalmente bizarro.

Cortês odiava o fato de eu não sorrir com facilidade e nem ao menos saber reproduzir um sorriso falso. Haveria um evento em breve na corporação com alguns convidados importantes e ela queria que eu não transparecesse a indiferença de sempre.

Eu compreendia seu desejo, afinal, um sorriso era sinônimo de simpatia. Simpatia poderia fazer milagres se tratando de negócios. Porém, eu não sorria à toa. Eram raros esses momentos. E não compreendia o porquê de exclusivamente eu mostrar alguma simpatia, no fim das contas.

Não quero parcerias, contatos, negociações, convites, que seja. Não quero projetos paralelos. Já estou lucrando o suficiente. Não seguirei esta carreira e pronto. Não mudei de ideia e não mudarei.

Aliás, me inscrevi para uma ótima faculdade de Design Gráfico e me enviarão a resposta em alguns meses. O dinheiro que tenho pode me sustentar pelo tempo que eu precisar enquanto estudo ou até mais.

Entretanto, me esforçava para agradar a Cortês. Não só por ser minha chefe e por ser uma funcionária, mas sim porque a admirava e abrangia certa simpatia — por mais irônico que isso aparente agora. Mas era um incomodo.

Por que tinha que parecer tanto com a sua filha?

Tentei sorrir novamente. Cortês meneou a cabeça em desaprovação e pousou as mãos na cintura, parecendo indignada.

— Você é péssima nisso. — declarou, bufando. Eu dei de ombros. Não era novidade. — Vejamos outra forma, então. O que a faz sorrir?

— Não sei.

— O que te diverte? Pelo amor de Deus, Delilah. Tem que ter algo que faça você tirar essa carranca depressiva. — disse com a voz elevada, então soube que estava perdendo a paciência. E isso era raro. E ruim. Muito ruim.

— Não sei o que me diverte também. — respondi e suspirei longamente. Tinha que ser tão difícil?

— Lembre-se de algum momento que sorriu. Se é que já sorriu alguma vez. — comentou, irônica.

Eu fitei o chão, pensativa. Só um me veio em mente. Mas seria estranho dizer como foi este momento.

Principalmente por ter sido com alguém que eu não queria lembrar. E porque não sei se realmente surtiria resultados para agradar Cortês.

— Algo em mente? — questionou. Levantei a cabeça e a fitei. Ela me olhava com curiosidade.

— Na ocasião, uma conhecida minha estava tendo um momento ruim. — comecei a dizer. Cortês franziu o cenho. Provavelmente acharia que sou louca. — Não que eu tenha ficado feliz por ela ter tido um momento ruim, mas sorri como uma forma de consolo para ela.

— Você sorri quando quer que alguém se sinta bem?

— Acho que sim. — respondi, incerta. Nunca pensei desta forma.

— Essa pessoa era muito querida pra você? — quis saber ela. Senti um alto desconforto em ter que respondê-la.

— Sim. Era.

— Mia, lhe contarei uma história então. Posso te fazer de minha confidente? — indagou Cortês, sentando-se de volta em sua cadeira almofadada detrás da mesa de acrílico.

— Caso se sinta confortável, sim. — respondi, educada. Ela estava falando sério?

— Me sinto. Obrigada por perguntar. — respondeu sorrindo sem mostrar os dentes. Mas depois, fitou um ponto aleatório do escritório e permaneceu calada, parecendo colher as palavras para pronunciar. — Há alguns anos, cometi um erro. Escondi algo da pessoa que mais amo e ela nunca mais falou comigo outra vez. Mas, antes disso, cometi um erro pior. Me comprometi com algo que eu sabia que não existia. Eu era nova e tudo parecia perfeito. Estava trabalhando numa grande empresa, tinha amigos maravilhosos e todos os dias eram como um sonho para mim. E isso me cegou.

— Foi tão ruim assim? — questionei de maneira gentil. Eu não estava entendendo tudo, mas tive a leve impressão de que sabia do que se tratava.

— Para mim, não. Mas não deixa de ser um erro. Fiz o que achei ser certo sem pensar nas consequências. Este alguém era uma criança ainda, não quis me escutar nem entender e eu sabia que não entenderia. Então deixei que se afastasse de mim.

— Essa pessoa continua sendo importante para você? — perguntei. Então Cortês finalmente me fitou nos olhos. Pareciam meio desfocados.

— Sim. Sempre será importante para mim. Não importa o quanto eu me distraia ou trabalhe sem parar. Sempre estará em meus pensamentos. É uma pena que eu não possa cuidar dela como antes.

— Se era tão nova, agora pode não ser mais. Não poderia tentar conversar? Talvez ela compreenda.

— Como? Se nem ao menos sei onde ela está? — revelou e eu não pronunciei mais nada. Seus olhos brilhavam como se estivesse prestes a chorar. Isso era demais para mim.

Eu sabia onde ela estava, senhora Cortês. Eu sabia. Perdoe-me por não poder lhe contar. Eu me envolvi em um ponto que não posso dizer nada sem que haja uma corda em meu pescoço.

— Uma pessoa importante para mim dizia que todos nós nos reencontraremos um dia. É o suficiente para a senhora não desistir? — sugeri e, sem me dar conta... sorri.

Percebi que sem forçar, é como mover um músculo qualquer. Um dedo, um braço, uma perna. Eram movimentos simples. Automáticos.

Essenciais em nosso dia a dia.

— Você tem um sorriso lindo, Mia querida. — elogiou, sorrindo também. — Obrigada. É o suficiente.

XXX

Bryan me acordou antes das dez da noite. Avisou que precisava ir embora, já que seu pai trabalhava de madrugada e sua mãe não gostava de ficar sozinha em casa. Eu disse que tudo bem, mas ele se sentiu culpado, tanto que me beijou cinco vezes seguidas antes de deixar o apartamento com uma cara de cachorro abandonado. Era engraçado porque quem estava sendo realmente abandonada era eu. De qualquer forma, achei seu comportamento fofo.

Tomei um banho e vesti o pijama. Permaneci pensativa enquanto pegava minhas roupas que ficaram no chão devido à atividade de momentos anteriores e colocava no cesto para lavar mais tarde.

O sexo tinha sido bom, mas ainda me sentia estranha, como se faltasse algo. Isso nunca aconteceu.

Não que eu efetuasse tais atos eróticos com frequência... E não posso me dar ao luxo de arriscar demais por ser nova. Diferente das garotas da minha idade que só queriam curtir, eu já era mais precavida neste assunto. Desculpe, mas quero chegar aos vinte e seis sem nenhum filho para criar. Casada, talvez. Mas os filhos podem esperar. E mesmo assim, eu já era experiente até demais.

Porém, o que realmente tomava a minha atenção era lembrar do que vi quando estava deitada com Bryan. Podia jurar ter visto suas costas menores.

Bryan era jogador de basquete e fazia natação também, então suas costas eram bem largas. Aliás, agora que parei para analisar melhor, parece que vi sua pele mais escura também, um bronzeado de leve.

Cara, era estranho demais. Bryan era um alemãozão. E, para fechar com chave de ouro, as costas pareciam femininas. Definitivamente eram femininas. Foi uma puta alucinação. Sexo pode causar isso? Não faço a mínima ideia. Bom, não lembro de ter tomado nada alcoólico antes. Eu trabalhei hoje. Não era dia para isso.

E olha que nem mencionei sobre os cabelos compridos e castanhos. Também não pareciam masculinos!

Minha cabeça estava começando a doer.

Fiquei louca de vez? Imaginei ter feito sexo com uma garota em vez de Bryan? É menos pior que pensar ter feito sexo com outro cara, acho.

Mas nunca tive esses fetiches. Não lembro de ter sentido atração por uma garota nenhuma vez. Minha preferência sempre foi por homens. Não que tivesse preconceito ou o que fosse, só não sentia atração mesmo.

E por que só agora, especificamente depois de transar com o meu namorado, imaginei algo do gênero?

Enfim, tentei esquecer isso. Amanhã era sexta, último dia de aula antes do baile de formatura. Relaxei automaticamente. Seria um dia legal. Vou tratar de fazer uma boa despedida com meus amigos e colegas de classe.

Desliguei as luzes da cozinha e da sala, depois me dirigi ao quarto. Deixei apenas o abajur ligado e me depositei na cama. Podia ter dormido junto ao Bryan, mas ainda me sentia exausta por causa do serviço.

Ainda assim, fiquei fitando o teto, inquieta. Voltei a pensar na alucinação.

Seria bem estranho fazer sexo com uma garota.

OK, era definitivo, só faltava o diploma de louca para oficializar o meu estado atual.

Mas a pele de uma garota com certeza era mais macia. Cabelos mais compridos. Não que não houvesse homens com cabelos compridos, mas não um que eu tenha ficado. E é claro que há garotas com cabelos curtos, mas acho que não me atrairiam, pois lembrariam de garotos. Eu acho.

Cabelos compridos eram mais fáceis de agarrar. Eu gostava de alisar o cabelo das pessoas quando as beijava. E isso sempre causou um ótimo efeito sobre elas. Se animavam com facilidade.

Não sei o que estava me fazendo pensar nessas coisas, mas não me senti estranha de fato. Reconhecer a beleza do meu próprio gênero era até bom.

Agora não compreendia o porquê de verem nojo nisso. Era como se desprezassem o próprio gênero, uma obrigação implícita de que o valor deva ser atribuído apenas pelo gênero oposto...

Por que regras tão vazias?

Qual o problema nisso tudo, afinal?

Finalmente dispersando estes pensamentos, desliguei o abajur, me cobri e me ajeitei na cama para descansar. Ao fechar os olhos, pude rever aquelas costas femininas e cabelos compridos castanhos outra vez. E admito...

Desta vez, desejei que fossem reais.

XXX

— Que horas quer que eu te pegue? — perguntou Bryan ao telefone, enquanto eu me olhava entediada ao espelho.

— Pode ser às oito mesmo. — respondi, tirando o celular de uma orelha e encostando na outra. — Acho que consigo ficar pronta até lá.

— Eu também espero. — brincou, rindo. Eu sorri. Sempre demorava demais para me arrumar.

Nos despedimos e continuei fitando o espelho. Não estava animada para ir ao baile, por ironia do destino. Algo me incomodava.

Olhei para o vestido estirado em cima da cama. Era preto, tomara que caia. A barra ia até o meio das coxas, mais ou menos. Tinha um decote em “V” com contorno em babados pequenos, o que o tornava lindo de morrer. Os saltos pretos e brilhantes que calçaria estavam próximos ao espelho, e não eram tão altos. Já bastava eu alta naturalmente.

Bryan queria que eu vestisse algo mais longo, pois a maioria das garotas usavam algo do tipo em um baile. Bom, eu não sou igual as outras garotas e sabia que não queria que eu fosse com este porque estava um pouco enciumado. Mas iria mesmo assim. Não é para provocá-lo, só é meu estilo mesmo. Não adianta querer opinar sobre isso.

Olhei outra vez ao espelho e analisei o meu rosto por um momento. Havia olheiras bem visíveis abaixo dos olhos. Parece que terei de usar uma boa quantia de maquiagem para esconder isso.

Não dormi bem (de novo). Fiquei pensando e repensando o que havia imaginado, o quanto meu ponto de vista mudou e o quanto isso estava me afetando com tamanha intensidade.

Inclusive, ontem foi um desastre de despedida. Eu não conseguia disfarçar. Eu avaliava qualquer garota que passasse na minha frente. Era inquietante e... atrativo.

Percebi o quão duro deve ser a vida de um homem. Apenas observar algumas beldades é um sacrilégio.

Mas minha situação era pior. Eu era uma mulher. Os homens podiam cantá-las, deixar claro que a friendzone não era o que almejavam e tudo mais. Ou pelo menos, tentar.

Já eu, só podia observar e rezar à Deus para obter uma chance de conversar ou desejar que alguma delas se sentisse da mesma forma que eu. O que era bem complicado e dificílimo, né.

Milhares de garotas devem estar pensando como eu neste exato momento, com certeza. Garotos também.

O quão bosta essa situação pode ser?

Bufei de frustração. E, para completar, minha atração por Bryan pareceu ter diminuído, sabe? Até conversar com ele estava ficando enjoativo. Estava me sentindo muito mal por isso, levando em conta que se mostrou um ótimo namorado desde o início.

E, finalmente, para tornar tudo uma completa bola de neve, eu ainda continuava perplexa com o que aconteceu entre Mia e ele. Não sei se estava exagerando, mas constatei que queria uma explicação por parte dela.

Queria que olhasse na minha cara e dissesse o porquê de ter feito aquilo ou pelo menos admitisse que foi uma vadia. Até isso me deixaria mais tranquila. Depois de estapeá-la, claro. Aí, de verdade, ficarei mais tranquila.

Mas, espera. Se eu queria uma explicação, por que não podia tê-la? Eu podia sim.

E a teria agora.

Peguei o meu casaco, minha bolsa, enfiei o celular nela e sai do apartamento. Dane-se. Talvez me atrase para o baile, Bryan fique bravo comigo, mas é por uma boa causa. Até parece que vou me divertir com esse assunto cutucando a minha cabeça de cinco em cinco minutos.

Andei apressada até o ponto de ônibus, não muito longe do prédio onde jazia o apartamento do irmão de Bryan. Fiz sinal ao primeiro que se aproximou e perguntei ao motorista se parava próximo ao endereço que Mia morava. Felizmente disse sim, então subi e o veículo prosseguiu o itinerário.

Sentei em um banco próximo ao cobrador. O motorista pediu para que ele me avisasse quando chegasse perto de onde eu desceria. O cobrador assentiu e sorriu simpático.

Era sábado e ainda não passava das cinco horas, então não tinha muitas pessoas no ônibus. Fiquei fuçando no celular para distrair até o cobrador chamar minha atenção e dizer que eu poderia descer na próxima parada. Agradeci e caminhei até a porta de saída dos fundos. Quando o ônibus parou perto de um ponto que eu já reconhecia, desci rapidamente. Agora só havia uma rua de distância entre mim e Mia.

O que eu diria quando a visse?

O engraçado é que eu queria vê-la. Não só para resolver isso, mas simplesmente vê-la. Em algum lugar do meu interior, essa ideia me animava. E isso me deixava com raiva.

Como pôde trair minha confiança? Confiei nela e, diferente de todas as pessoas que conheço ou interajo, a ouvi. Mesmo discordando, ouvi. Compreendi, tentei ser uma pessoa melhor para agradá-la e gostei de fazer isso. Muito do que fiz era só para mostrar o quanto me sentia feliz e grata a ela. Lembrar disso me emputecia.

Quando fui me aproximando do prédio, pude avistar o senhor Herbert sentado nas escadas e fumando um cigarro, como sempre. Ele deu um grande sorriso quando me notou.

— Bethany! Que bom te ver, menina! — cumprimentou ele, animado.

— Oi, Herbert. — respondi rapidamente dando um aceno e subi as escadas, quase o ignorando.

— Espera, pequena! Aonde vai? — questionou ele. Era icônico Herbert me chamando de pequena com esse meu tamanho todo.

— Pro apartamento da Mia. — respondi, fazendo uma cara de “dã” e abrindo o portão do prédio.

— Mas a Mia não mora mais aqui. — disse Herbert. Congelei com o portão já aberto no mesmo instante.

— O quê? — Olhei incrédula para Herbert, mas voltei e me aproximei dele. — Isso é sério?

— Ela não te disse? — questionou, pendendo uma cabeça para o lado. — Faz uns dias já. Ela foi num carro preto e cheia das mala.

— Não acredito. — murmurei perplexa e me sentei em um degrau próximo ao velho.

Era só para não me ver mais? Chegou ao ponto de fugir? Logo quem sempre me dizia para parar de fugir?

Que irônico.

Será que aceitou o presente de minha mãe ou se mudou para outro lugar mesmo?

— Sim, pequena. E ela me deu umas roupas e um treco eletrônico. Disse pra te entregar se você viesse alguma hora. Quer que eu pegue tudo pra você? — indagou Herbert, mas seu semblante me fitava preocupado. Acho que estava se referindo ao meu notebook. Mas eu não estava interessada nisso agora.

— Na verdade, não, Herbert. Pode ficar pra você.

— Eu não acho que fico bem de saia, vestido ou qualquer coisa com flores ou muito apertada. — brincou, rindo. Acabei por abrir um sorriso também, mas não o respondi. — Aconteceu algo entre vocês, não foi?

— Sim. — respondi, cansada. Herbert era amigável. Faz tempo que não converso com alguém assim. Com tamanha sinceridade, digo. — Eu só resolveria uma coisa com ela e depois iria embora.

— Foi tão ruim assim, pequena?

— Foi...

— Bom, sou um homem velho, como pode ver. — disse, sorrindo. — Não quero ser intrometido, então não vou perguntar e não quero saber o que aconteceu. Mas posso sugerir algo?

— E o que seria, Herbert?

— Imagino que tenha que pensar. Veja teu lado, veja o dela. E se tem mais gente envolvida, veja o lado dessa gente também. Ninguém é santo, minha pequena. E vou ficar quieto porque acho que tô enchendo teu saco já. — concluiu, dando de ombros. Eu ri, mas não o respondi, permanecendo pensativa.

O que Herbert disse é válido. E se Bryan mentiu sobre o que aconteceu para fazer com que eu ficasse? E se Mia e ele fizeram um acordo? E se Bryan realmente estiver mentindo sobre tudo?

Minha cabeça vai explodir.

Eu precisava saber o que aconteceu pela Mia. Eu não aguentava mais.

Antes, de maneira impulsiva — diria normal, vindo de mim — levantei e dei um forte abraço em Herbert, que levou um susto com isso.

— Obrigada, Herbert!

— Por nada, pequena! — respondeu ele, dando risada, enquanto eu desvencilhava o abraço. — Mas depois tu venha pegar aquele treco seu. Não faço a mínima ideia de como fuçar naquela coisa.

Eu dei risada, assenti, me despedi e meio andei e corri até o ponto novamente. Era arriscado, mas só havia outro lugar onde eu poderia encontrar Mia.

E quer saber? Dane-se.

Definitivamente cansei. Eu iria mesmo assim.