Oceanos nada pacíficos
19 Pelos mesmos insetos
Notas iniciais
Mal notei o tempo passar, quando eu percebi já estava na hora de ir embora. Dei uma carona para a Sof e logo eu e a Becca estávamos em casa. Fui me arrumar para o jantar e quando eu fiquei pronta o Caíque já estava me esperando. Ele ficou me olhando que nem um bobo quando eu apareci na sala.
— Para com isso, garoto.
— Isso o que? — Ele fez cara de inocente.
— Não faz o sonso, Caíque. Enfim, que tal? — Dei uma volta para ele ver minha roupa toda. — Estou digna de ser apresentada ao resto da sua família?
— Com certeza. — Ele levantou e se aproximou de mim. — Mas a minha vontade agora é cagar para esse jantar, te jogar na minha cama e tirar essa tua roupa toda. — Ele sussurou essa última parte bem próximo ao meu ouvido, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar.
— Pena que isso vai ter que esperar. — Sorri de lado, provocando-o. — Agora, vamos.
Nos despedimos da Becca e fomos. A casa dos pais dele ficava a, pelo menos, uns vinte e cinco minutos do meu apartamento, mas o Caíque foi o tempo inteiro conversando comigo, talvez tentando aliviar minha ansiedade em conhecer o resto da família dele. O que funcionou, ou pelo menos eu achei que tinha funcionado, mas quando nós chegamos a um casarão e um segurança teve que autorizar nossa entrada, minha ansiedade voltou.
O Caíque abriu a porta para mim e eu fiquei olhando a casa, considerando sair correndo dali. Mas antes que eu desistisse dessa ideia maluca, o Caíque segurou minha mão e tocou a campainha.
Uma senhora que aparentava uns cinquenta anos abriu a porta e abriu um sorriso enorme quando viu o Caíque.
— Caíque, que saudade. — Ela abraçou-o.
— Paula, eu estava morrendo de saudade também. — Quando os dois se soltaram, ela virou para me olhar.
— Você deve ser a Bárbara. — Ela abriu outro sorriso para mim.
— Isso, mas pode me chamar de Babi.
Eu sorri e estendi a mão, mas ela olhou para a minha mão estendida, fez um gesto de "Que bobagem" e me puxou para um abraço. Claro que o mundo não podia ser bom comigo uma vez na vida e fazer da Paula a mãe do Caíque, já que ela gostou bem mais de mim do que a mãe dele.
Ainda conversamos alguns instantes, até que ela nos levou até uma sala de estar parecida com aquelas de novela, onde os pais deles e a irmã mais nova estavam.
— Chegamos. — O Caíque soltou assim que adentramos na sala.
— Ora, ora, o bom filho a casa torna. — O pai dele se levantou e veio em direção a ele, abraçá-lo.
O Caíque revirou os olhos, mas retribui o abraço com afeto.
— Olá, querido. — A mãe dele abraçou-o também, mas ele não mostrou tanto ânimo em abraçá-la quanto com o pai dele.
Logo atrás dos dois estava uma garota que parecia uma mini-mãe-do-Caíque, que eu sabia tanto pelas fotos quanto pelas nossas conversas que se tratava da irmã dele.
— Quanto tempo, pirralha.
Ele fez menção de bagunçar o cabelo perfeitamente arrumado dela, porém ela foi mais rápida e desviou, mas logo em seguida abraçou-o também.
— Também senti saudades, Caíque. — Ela sorriu.
— Bom, família, essa é a Bárbara, minha namorada. — Ele me olhou com um sorriso de orelha a orelha. — Babi, essa é minha família. A minha mãe, você já conhece, a dona Beth. — Ela fez careta.
— Eu já disse que não gosto de ser chamada assim, Caíque.
Minha cara foi no chão e voltou, porque eu lembrei que a tinha chamado do mesmo jeito quando nós nos conhecemos.
— Exatamente por isso que eu continuo chamando, mãe. — Ele deu um sorriso irônico. — Continuando, essa pirralha aqui é a Cecília. Minha irmã.
Ela sorriu e estendeu-me a mão. Cumprimentei-a e o Caíque continuou as apresentações.
— E esse aqui é o meu pai, seu Carlos. – Ele sorriu para mim e ao invés de simplesmente me cumprimentar, me puxou para um abraço.
— É um prazer te conhecer, Bárbara. Até porque não é todo dia que alguém consegue fazer o meu filho aquietar o facho. – Nós rimos.
— O prazer é todo meu, seu Carlos.
— Ah não. Eu sei que eu sou velho, mas não preciso ser lembrado disso. Me chame só de Carlos.
— Tudo bem. – Sorri.
Nós sentamos e ficamos conversando até a Paula aparecer na porta e anunciar que o jantar estava pronto. A cada segundo que passava eu me sentia mais em um filme americano sobre a elite. Nos encaminhamos até a sala de jantar e mais uma vez fiquei olhando com cara de boba para aquele cômodo enorme.
— De vez em quando eu também me pego olhando que nem bobo para essa casa. – O pai do Caíque falou baixinho para mim e eu sorri.
Eu esperava uma família toda arrogante e cheia de dinheiro, mas o pai do Caíque era uma pessoa simples apesar de tudo e aquilo me aliviou um pouco. Me sentei ao lado do Caíque e de frente para a irmã dele, que estava ao lado da dona Elizabeth e o pai dele estava na cabeceira da mesa.
O jantar estava correndo relativamente bem, eles me fizeram várias perguntas até tocarem num assunto delicado.
— Então, Bárbara, com o que os seus pais trabalham? – A dona Elizabeth perguntou e eu fiquei sem ar alguns instantes.
— Ah... Então, a minha mãe tem uma firma de advocacia em Fortaleza e meu pai é juiz lá também. – O Caíque olhou confuso para mim, mas não questionou nada.
— Ah, então você pretende seguir carreira nessa área? Eu e a Elizabeth queríamos que o Caíque seguisse nosso caminho e assumisse as nossas empresas de tecido, mas ele preferiu fazer Arquitetura, então quem sou eu para impedi-lo, não é mesmo?
— É, ele comentou comigo. Mas não, eu não segui a mesma área deles. Eu faço Engenharia Civil.
— E o que os seus pais acham disso? – A mãe dele inquiriu.
— Eles não têm que achar nada, afinal, eu que faço a faculdade, mas eles não gostaram muito da ideia na época que eu decidi. – Ela me olhou chocada por eu ter sido um tanto quanto grossa, mas pelo canto do olho vi que o Caíque disfarçava a risada.
O seu Carlos mudou sutilmente de assunto e quando eu notei a mãe do Caíque estava falando sobre um dos inúmeros projetos de caridade que ela fazia, ela comentava sobre a coordenadora de um dos projetos quando a treta começou a nascer.
— ... E então ela sugeriu que eu almoçasse na casa dela, como se nós fossemos sequer parecidas para tanto.
Parando para analisar de cabeça fria depois do ocorrido, eu percebo que eu poderia ter evitado, eu poderia ter ficado calada, ter segurado a minha língua e evitado, mas na hora , isso sequer passou pela minha cabeça.
— Até onde eu sei, a senhora é um ser humano, certo?! – Todos me olharam confusos. – E essa moça, também, certo?! Então, depois que vocês duas morrerem, vão para debaixo do mesmo solo e vão ter os restos comidos pelos mesmos insetos, então vocês são exatamente iguais.
Sorri ao final da frase e ela me olhou como se eu tivesse dito que o vestido caríssimo dela era falsificado. A Cecília parecia tão ofendida quanto a mãe, mas o Caíque e o pai dele pareciam prestes a explodir em gargalhadas.
— Eu quis dizer que nós somos de classes sociais diferentes. E se você veio até a minha casa para me ofender, pode se retirar.
— A intenção não era ofender, mas se a senhora não consegue conviver com o fato de que é tão comum quanto qualquer pessoa que vive nesse mundo, então, sim, eu me retiro. – Sorri e levantei da mesa. – Foi um prazer conhecer vocês. – Sorri para o seu Carlos e para a Cecília.
— Espera, Babi. Eu vou com você. – O Caíque também se levantou e a mãe dele olhou-o chocada.
— Não precisa, Caíque. Termina o jantar com teus pais e eu pego um táxi.
— Claro que não. Eu não vou deixar minha namorada sair sozinha.
— Você vai ficar do lado dessa... – A mãe dele se levantou e o encarou.
— Dessa o quê? Dessa mera classe média? É, eu acho que ele vai. – Sorri para ela, o que pareceu só aumentar a raiva dela.
— Pai, foi ótimo matar as saudades do senhor e da Cecília. – Ele abraçou o pai e a irmã e virou na minha direção me estendendo o braço. – Vamos?
— Vamos. – Sorri e enlacei nossos braços.
Encontramos a Paula no caminho até a saída e ela nos olhou contrariada.
— Vocês já vão?
— Vamos. Dona Beth deu um ataque de “Sou boa demais para qualquer pessoa da classe média” e eu comecei a namorar justamente a garota que não ouve esse tipo de coisa calada. – Ele sorriu orgulhoso. – A Paula ficou embasbacada por alguns segundos mas caiu na risada.
Nos despedimos dela e fomos embora. Assim que entramos no carro, o Caíque começou a rir, simplesmente isso, ele teve um ataque de riso e demorou alguns minutos antes de se recuperar.
— Posso saber do que você está rindo?
— De como eu sou sortudo o suficiente de namorar a única garota que teve coragem o suficiente para dizer a minha mãe tudo aquilo que eu e meu pai sempre quisemos falar.
— Não acho que ela chamaria isso de sorte.
— Não acho que eu me importe com isso.
— Menos mal. Eu pensei que você fosse, sei lá, terminar comigo.
— Terminar contigo? Porque diabos eu terminaria contigo?
— Sei lá, porque eu ofendi sua mãe.
— Babi, você simplesmente jogou umas verdades na cara dela. Eu queria ter dito isso a ela muito tempo atrás.
— Nesse caso, de nada. – Rimos.
Fomos conversando o resto do caminho e eu mal vi o tempo passar.
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