Oceanos de Traição e Sangue
1 Prólogo
Notas iniciais
19 anos atrás
Era noite, mas o clarão da grande barreira mágica azul fez as trevas se extinguirem rapidamente.
A barreira era uma grande redoma de poder brilhante e concreto, que se erguia ao redor da Cidade Real, desde a Vila Interna até o grande palácio branco que ficava no centro da cúpula.
Todos sentiam o vibrar crescente da magia, que avisava a cada um que um perigo iminente estava à espreita.
Venegar estava sendo atacada.
Os acessos ao palácio real de Venegar estavam começando a ficar bloqueados com tantos homens, mulheres e crianças, tentando conseguir abrigo na grande construção de mármore. O medo cresceu no peito de todos, e confusão tomou conta do reino.
Uma confusão que impedia que um homem e sua mulher grávida pudessem ir se proteger com a família real, ficando presos na Vila dos Nobres.
Era irônico como, exatamente na noite em que Thelak conseguira invadir a capital de Venegar, o cunhado e primeiro-ministro do rei decidira passar a noite em sua propriedade ao invés de dormir na segurança do grande palácio.
Xingando a si mesmo por ser tão estúpido, corria com sua mulher grávida em direção à carruagem pronta para que os dois escapassem. Eles seguiriam para o porto e navegariam para Tydra, o único lugar seguro para estarem durante aquela guerra. Ambos teriam ido antes, mas a posição e funções do homem o impediam de sair de Venegar.
Idiota, idiota, idiota! Deveria ter mandado sua amada Hylda para um lugar seguro a mais tempo, ao menos assim teria protegido ela e o bebê que crescia em seu ventre.
Enquanto ele se xingava e quase levava sua mulher nos braços para o carro os esperando, ela só conseguia pensar em como proteger seu bebê. Já estava no nono mês da gravidez, e preocupava-se por não saber onde estaria quando tivesse que dar à luz, ou se ainda estaria ali para ver seu filho crescendo.
Subiram rapidamente na carruagem e o cocheiro partiu assim que a porta se fechou. Os cavalos trotaram com velocidade por entre as ruas da vila, as casas feitas de metais e pedras preciosas se esvaziavam rapidamente e, com a mesma rapidez que eles saíram de casa, um congestionamento de cavalos e carruagens parou a rua principal que levava para fora da cidade.
Explosões puderam ser ouvidas, fazendo a barreira mágica brilhar em cores quentes. Os brilhos de fogo e o calor da batalha ainda não alcançavam as ruas intransponíveis da vila, mas pela força das explosões que abalavam o solo, o primeiro-ministro sabia que a barreira mágica não aguentaria para sempre.
Abriu a porta da carruagem e pegou Hylda nos braços, não queria que ela corresse e podia suportar seu peso facilmente por conta de sua força élfica. Apressou-se entre os cavalos e seguiu para uma rua menos movimentada, onde os animais e carruagens foram substituídos por vários homens e mulheres com orelhas pontudas que marchavam loucamente em direção às muralhas que cercavam o palácio.
Ele olhou para a multidão e para o palácio ao longe. Não conseguiria ir até lá de maneira alguma, restando apenas o plano de fuga: o barco para Tydra.
Olhando para trás, avistou a barreira mágica, o sangue sumindo de seu rosto quase instantaneamente. Não podia acreditar no que seus olhos viam.
Os aéras — seres alados descendentes dos antigos anjos caídos — estavam armados com espadas e lanças tão afiadas que tinham o poder de, literalmente, cortar e destruir toda aquela imensidão azul.
E assim o fizeram.
Não tardou para que a barreira estivesse totalmente destruída, e o céu voltasse a seu tom negro. A noite tomando de volta o que era seu.
Sem proteção, a Vila Interna foi invadida pela tropa de thelakianos, que seguiam para a Vila dos Nobres e em direção ao palácio. Os gritos dos venegares cresciam, direcionados aos seres que batiam suas asas como se fossem verdadeiros anjos da morte.
O homem pôs sua esposa no chão e encostou sua testa na dela. Seus olhos se encontraram por uma última vez, enquanto rapidamente ele a passava as informações de fuga para que pudesse escapar, afinal, ele era um guerreiro, o terceiro na linha de sucessão ao trono, fora treinado para aquilo.
Era sua obrigação defender seu reino, mesmo que lhe custasse a vida. No entanto, não podia deixar sua mulher e filho desprotegidos.
Com um último beijo em seus lábios e outro em sua barriga, ele recitou um feitiço de ilusão complexo, porém rápido, que tornaria Hylda invisível por tempo suficiente para passar pelos aéras e chegar no porto sem ser vista.
Ela tentou impedi-lo, mas se deu por vencida. Tinha que proteger a criança. Então apenas limpou as lágrimas quando viu seu marido indo para a batalha que começava a tomar as ruas da vila.
Ele ia de mãos vazias, mas de coração cheio de honra e amor pela pátria.
Apressou os passos quando entrou em uma rua adjacente. Estava invisível, porém ainda tinha a possibilidade de esbarrar em alguém, o que deveria, mais que tudo, evitar.
Seguiu em direção às muralhas externas, desviando de outros naturalis perdidos e de alguns soldados que começavam a aparecer, muitos deles atrelados a um combatente de asas.
Tomou a rota mais longa, sendo essa mais segura, que dava fora das vilas de classe alta.
Hylda, por um momento, tentou imaginar como a cidade fora da muralha estava. O complexo de vilas era circular, possuindo duas muralhas, uma externa, que cercava a Vila Interna e a dos Nobres, e uma interna, que cercava o palácio real. Se, mesmo com toda a proteção que tinham ali dentro, os aéras conseguiram invadir, a população mais pobre da cidade já deveria estar extinta.
O porto era logo do lado da muralha externa e, por ser tão próximo dos muros de pedra que estavam sendo atacados no mesmo instante, existia uma pequena chance de ter sido saqueado e usado como base thelakiana antes de concentrarem os focos em quebrar a barreira que cobrira as muralhas de pedra.
Não podia pensar nisso. O porto era sua última esperança.
Hylda chegou ofegante à muralha externa. Tivera que se esquivar junto das casas e quase correr durante as duas milhas que a afastavam de onde deixara seu marido, sempre tomando cuidado para não interceptar um soldado, amigo ou inimigo, ou levar golpes de magia das armadilhas espalhadas.
A muralha estava em pedaços, como se os aéras tentassem apagar sua existência. Não importava se podiam voar e ignorar o antigo muro. Eles queriam deixar claro quem tinha a vantagem.
A mulher passou por cima das rochas e restos da muralha externa, conseguindo chegar na parte litorânea da cidade.
Agora perto do mar, ela olhou para trás e viu a destruição que se erguera. Fumaça saía de todos os lados e dava para se ver o brilho da magia devorando muitos de várias formas. Muitos aéras estavam no céu, seguindo para o palácio e alguns deles confrontavam naturalis que também tinham a habilidade de voo, mas pelos seus olhos ela pode ver que a batalha estava perdida. Thelak conquistaria Venegar de uma vez por todas.
Não que ela estivesse viva para saber se sua previsão estaria correta.
Correu em direção ao porto, que para sua sorte não fora atacado, no entanto, para seu azar, estava vazio.
Ela bufou. Não sabia como conduzir um barco, ou como ao menos remar. Fora treinada para ser uma esposa de um nobre, não para saber como agir em situações de ataques de seres alados que queriam destruir os descendentes dos elfos.
Subiu pelas escadarias de madeira e olhou para o mar escuro. Nem para atacarem de dia, tinha que ser de noite, quando o mar parecia engolir toda a chance de se sobreviver nele.
Enquanto murmurava consigo mesma se deveria ou não enfrentar o mar, que barco usar, como sobreviver enquanto estivesse lá e como saber que estava indo para o lugar certo, não percebeu que o feitiço de ilusão havia chegado ao fim e que havia uma base thelakiana a poucos metros dali.
Uma flecha atravessou seu peito.
Hylda caiu de joelhos, os olhos arregalados; a dor e surpresa estampados em seu rosto.
Em poucos minutos estava morta.
O aéra arqueiro sorriu com seu acerto e voou de volta para dentro do acampamento estratégico em que estavam os líderes de batalha. Atacar Venegar e o povo naturalis era uma meta que fora há muito planejada pelos líderes de Thelak, e aquilo era apenas uma demonstração da força e precisão dos filhos dos anjos.
Quando o arqueiro voltou para o acampamento, no entanto, não viu o comovido guarda noturno, que silenciosamente bateu suas asas, ajoelhou-se perante a morte e segurou o corpo da naturalis.
Seus pelos do braço se eriçaram, e o homem de asas negras pôs a mão na barriga da elfa morta.
Uma batida. Duas, três.
A criança em seu ventre chutava de dentro, como se soubesse que tinha que sair dali rápido. Como se soubesse que não estava mais segura.
Certificando-se de que não era observado, o guarda retirou a adaga de seu cinto e abriu a barriga da fêmea, tirando o pequeno bebê de dentro. Seus olhos negros se ajustando ao escuro e pôde ver com clareza: era uma menina.
Uma garotinha linda e silenciosa, coberta de sangue, mas com olhos abertos e curiosos, como se tentasse entender o que estava acontecendo.
O homem arrancou o vestido da mãe e enrolou a menina nele, planando até um dos barcos e guardando-a lá dentro. Com um suspiro, colocou a adaga junto da menina e marcou o símbolo de Venegar em sua testa suja de sangue. Assim, mandou-a para dentro do mar escuro.
— Que os Caelis a protejam. — sussurrou, vendo o barco sumir na escuridão, e um choro abafado pelas ondas ecoar em sua direção.
Deu meia volta e voltou a seu posto, sem olhar novamente para o barco, para o mar ou para a mulher nua que deixara aberta na areia da praia.
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