Notas iniciais
Aproveitem :)

A sopa mal acabara de cozinhar quando Claire entrou como um furacão pela porta de casa.

Eu já havia me banhado e meu pai saía do banheiro enquanto eu colocava os pratos na mesa, o cheiro de peixe podre ainda persistia em minhas mãos, mesmo que já as tivesse lavado inúmeras vezes. Era assim todo dia.

Claire chegou correndo, gritando e pulando de alegria, dizia que tinha novidades e que eu não conseguiria acreditar.

Rio de sua animação.

— Coral, é tão linda! — exclamou, os olhos castanhos, semelhantes aos meus, brilhando de excitação. — Ela é dourada, e tem rodas imensas. Ah! Já disse que a carruagem brilha como o sol? — E ela continuou tagarelando sobre como a fascinava terem construído uma carruagem tão grande e bela como aquela que vira.

Enquanto ela falava despejei a sopa de vegetais em seu prato e meu pai apareceu, chacoalhando a água do cabelo curto e encaracolado, as cãs já aparecendo, com um sorriso no rosto.

Claire sentou em sua cadeira animada, seu cabelo encaracolado como de nosso pai indo até os ombros e caindo em seu rosto, ela tirava os cachos dos olhos com naturalidade e estava tão animada que devorou a sopa sem nem perceber que comia brócolis e cenoura, comidas que odiava de coração.

— Nem contei a melhor parte! — continuou de boca cheia e apontando a colher para mim. — Seu namorado disse que vai nos levar para o desfile!

Engasgo.

— Namorado? — rio alto— Luke é só meu amigo, Claire!

— Tanto faz.— Claire mostra a língua. — Bem que vocês poderiam casar! Ele gosta tanto de você, Coral! Só que você é cega e não percebe. — disse com ar de sonhadora e zombaria ao mesmo tempo, tirando risadas abafadas de meu pai, que até aquele momento não tinha dito uma palavra.

— Para com isso! — brigo, meio corada. Luke não passava de um bom amigo. Não que eu pudesse dizer que nunca tinha pensado nele como algo mais antes, mas já faziam anos desde que minha queda por ele passou. — E o que você quer dizer com ele nos levar para o desfile? Que desfile é esse?

— Eu acabei de falar do desfile! Você não ouviu nada do que eu disse até agora? — revirou os olhos com indignação, o que fez que eu me sentisse envergonhada por um momento. Realmente não prestara atenção no que dissera momentos antes. — O.K, mas vê se me escuta dessa vez. O rei, a rainha e o príncipe de Venegar estão vindo para Tydra. Eles vão ter uma reunião com o Conselho na capital, então organizaram um desfile de boas-vindas para eles em sua chegada e o povo vai se reunir para recebê-los. Estão trazendo muitos naturalis com eles, todos diplomatas e soldados, ou algo assim. Eu quero tanto ver um naturalis, Coral! Imagina se a gente também encontrar algum golemite quando formos ver o desfile? Vou pedir pra ele me botar nos ombros, aí eu vou poder ver a cidade toda, a não ser que ele seja do mal e goste de comer crianças humanas, será que eles fazem isso? Eu não quero ser comida por um gigante!

Tentei processar o que Claire dizia ao mesmo tempo que me impressionava pelo tempo que estava sem respirar, falava tão rápido que demorei para entender o que realmente estava querendo dizer.

A família real estava vindo para Tydra de verdade? Não sabia que Venegar tinha um príncipe.

Desfile? Que ideia tosca fazer um desfile apenas para ver um bando de soldados marchando.

Pra que trazer soldados para cá? Tydra era totalmente segura para qualquer um, não importava a raça. Talvez fosse apenas para não se arriscarem, ou talvez quisessem mostrar o poder que tinham.

E o que ela estava falando sobre os golemites? Não sabia da história sobre eles se alimentarem de humanos, mas tinha certeza que não dava para ver uma cidade inteira apenas subindo nos ombros deles, não eram tão altos assim.

Ainda não tinha entendido o papel de Luke ali. Corselya ficava a um dia de distância de Ledy e meu amigo não seria louco de sair da cidade apenas para ver um desfile. Nem condições para uma viagem daquelas ele tinha! A oficina não pagava tanto assim.

Acho que minha irmã percebeu que eu estava perdida, então voltou a explicar.

— Seu namorado disse que a carruagem que consertou era de um senhor rico que estava indo para Corselya, mas a filha dele adoeceu e ele não tem mais como ir. Então ele emprestou a carruagem para que Luke como pagamento, para que ele fosse para a capital por alguns dias e levasse alguém importante, e ele disse que iria nos levar. Não é incrível? — Claire só faltava subir pelas paredes de tanta animação.

— Essa é uma forma de pagamento meio estranha. — É a única coisa que consigo dizer.

Meu pai, que até então estava calado, esvaziou o prato e pôs a mão sobre a minha, como se soubesse de minha aversão sobre aquilo.

Eu tinha sido pega de surpresa, e não sabia se estava disposta a passar um dia inteiro dentro de uma carruagem apenas para ver um desfile tosco. Tinha que trabalhar.

Sim, eu queria ver um naturalis pessoalmente, ou qualquer ser que não fosse humano, mas a possibilidade de realmente o fazer me deixava com um pé atrás. Tinha responsabilidades em casa.

Meu pai sorriu, ele me entendia.

— Vocês deveriam ir. — Percebendo meu olhar descrente, acrescentou: — Luke é um bom rapaz, e você sabe que precisa de um tempo para si mesma, para descansar do trabalho. Vá se divertir, uns dias fora lhe farão bem. — Flint se levanta, pegando o prato de Claire e o meu, ainda quase totalmente cheio, e os leva para a pia, lavando-os. — Pode ser sua chance de conhecer mais do país. Corselya é linda, e não há lugar melhor para se conhecer as outras raças que lá. Não me olhe assim querida, eu te conheço, sei que você quer sair de Ledy assim que tiver a chance. E não sabemos quando, ou se, uma chance dessas vai aparecer de novo, então aproveite.

— Tá, vocês venceram. — me dou por vencida, e sinto que uma parte de mim não ficou tão culpada quanto achei que ficaria, estava até feliz.

Minha irmã dá pulinhos de excitação.

— Oba! Quando partimos?

A oficina em que Luke trabalhava ficava do outro lado do centro da cidade, por isso aproveitei a caminhada para comprar coisas necessárias em casa. Uma vassoura nova e alguns panos de prato, assim como um novo material de costura e iscas para meu pai, que estava naquele momento pescando em algum lugar dos arrecifes da praia.

A oficina era uma construção de madeira, muito parecida com um celeiro, e com portas metálicas que sempre estavam abertas. Dentro da garagem estavam jogadas muitas peças de carruagens, carroças e bicicletas, algumas espalhadas e outras dispostas em estantes muito bem organizadas.

Aproximei-me da construção um pouco ansiosa. Estava ali para conversar com Luke sobre a viagem para Corselya e pela primeira vez me deixei sentir um pouco de nervosismo.

Eu realmente ia sair das cidades humanas!

Muitos pensamentos percorriam minha mente quando entrei procurando por alguém, a garagem estava vazia.

Fui para o cômodo lateral, onde se tratavam os pagamentos e escalas, e bati na porta. Afastei-me quando um garoto pardo, alto e forte, com um cabelo louro e espetado abriu a porta e abriu um sorriso galanteador ao me ver.

Luke não era de todo bonito, pelo menos não de rosto, mas sua personalidade conquistava a todos, e o tornava famoso entre as damas da cidade. Fora seu charme que me fizera derreter por ele quando éramos menores.

— Coral! — exclama com seu sorriso brilhante. Ele abre espaço para que eu entre e se junta a mim quando sento no pequeno sofá encostado na parede. — Você está radiante hoje.

Rio com seu comentário, e dou-lhe um abraço rápido.

— Boa tarde para você também, Luke. — Ele pisca. — Não achei a carruagem dourada, "que brilha como o sol", na garagem. — digo com um sorrisinho, olhando mais uma vez porta afora e vendo apenas as peças jogadas no chão e uma carroça sem roda.

— Ela está lá atrás. — responde, como se isso fosse o suficiente. — Quer beber algo?

Nego com a cabeça.

— Estou aqui para falarmos da viagem. — Vou direto ao ponto. Estava prestes a explodir de ansiedade.

— Eu sei, achei até que você viria mais cedo. Levando em conta como sua irmã saiu daqui. — ele ri, e o acompanho. Claire era muito engraçada.

— Me conta essa história de ganhar uma carruagem de graça de novo. O senhor que te deu esqueceu que normalmente se paga um conserto com dinheiro?

Luke continua rindo.

— Eu também estranhei, mas acho uma viagem para a capital bem melhor que algumas moedas, isso não posso negar.

— Em que lugar ficaremos quando chegarmos lá? — pergunto. Ainda tinha muita coisa a ser resolvida.

— Abner disse que estava tudo pronto para que ele fosse para Corselya. Ficaremos em sua casa de veraneio e seus servos que vivem lá já foram avisados que estamos indo em seu lugar. — respondeu. Olho-o estranha, não sabia quem era esse tal de Abner e nem que ele tinha uma casa na capital, então Luke completou: — O nome do senhor rico que deu a carruagem é Abner.

— Esse Abner te deu não só uma carruagem e uma oportunidade única de viajar, como também estadia, alimentação e serviço de quarto? — pergunto incrédula. — Ou ele é apenas um senhor que não sabe dar gorjetas, ou tem algo me cheirando muito estranho aqui.

Luke revira os olhos e se levanta, me pedindo para acompanhá-lo e ver a carruagem nos fundos.

— Abner é cliente nosso desde sempre. É um grande amigo dos meus pais, bem rico por sinal.

— Que ele é rico eu percebi. — rio sarcástica. — Agora faz sentido por que ele está sendo tão generoso, achava que era um estranho qualquer distribuindo presentes.

Acompanho-o para os fundos e vamos por uma portinha para uma sala cheia de carroças e carruagens cobertas por lençóis brancos. Não sabia como tinham entrado ali, mas sabia que eram muitas e de vários tamanhos.

Luke seguiu para o fim de um corredor de lençóis e sumiu em uma esquina, o sigo de longe e pelas luzes das tochas nas paredes consigo enxergar.

Expiro, surpresa com a coisa mais bela que já vira na vida em minha frente.

A carruagem era imensa. Maior do que a maioria que podiam ser vistas nas ruas de Ledy. Sabia assim que a vi que não me sentiria abafada ou qualquer aperto durante a viagem.

Era dourada, quase totalmente redonda, com portas e detalhes reluzentes, como se fossem folheados a ouro, também tinha um porta-malas atrás, consideravelmente largo, e um compartimento na frente, lugar onde ficaria o cocheiro, com assento estofado e limpo.

As rodas eram tão grandes que chegavam a cobrir quase totalmente a lateral da carruagem. Eram feitas de metal e tinham uma fina camada de emborrachado que provavelmente facilitava sua locomoção.

E os detalhes eram lindos. Desde pequenas borboletas de ouro a vinhedos repletos de folhas douradas, que cobriam seu exterior e se estendiam também para o interior.

Agora entendia porque Claire ficara tão empolgada em saber que viajaria numa diligência daquelas.

Luke me observava em silêncio, e só então percebi que estava quieta admirando aquela beleza a tempo demais.

Tento me expressar de algum modo mas acabo me engasgando com as palavras.

— Eu sei. — diz, como se lesse minha mente. — Também fiquei assim quando meu pai disse que eu tinha que dar uma conferida nela. Nunca vi nada igual. — Ele se aproxima da carruagem e dá uns tapinhas em sua roda. — Amanhã vou buscar os cavalos com Abner e falar com o cocheiro. Ele vai nos arranjar dois garanhões que irão aguentar a viagem muito bem. — Pega um pano do bolso e limpa o pouco de poeira que sujava a portinhola. — Creio que já estaremos prontos para pegar estrada depois de amanhã. Se tudo der certo, chegaremos no dia do desfile.

— Santo Criador... Vamos mesmo sair de Ledy?

Luke assente, e abre um sorriso para mim.

— Sim, minha cara Coral. — Seu olhar vai de encontro ao meu, tão excitado quanto. — Estamos finalmente saindo dessa porcaria de cidade humana.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.