Oceano

20 Vários outros oceanos


Toco com as pontas dos meus dedos na única onda do pingente que meus pais me deram. Permito-me fechar os olhos por um momento. Estou na ultima carteira da fileira. Ninguém vai me olhar.

A onda me dá um alívio, pois me lembro de Oceano. Da minha casa. Fazem dois dias desde que me levantei da cama e finalmente fui para a escola. Não aceitei nada ainda, mas desde que chegamos da viagem, meus pais estão estranhos, e só me convenci a vim para cá pois não queria que eles suspeitassem de algo. Mas eu sei que eles suspeitam.

Solto o pingente de onda e toco o de Riba. Meu coração aumenta de tamanho um milhão de vezes, e continuo com os olhos fechados. Eu penso em Riba. Penso em como suas feições me agradam e em como sua pele quente me fazia se sentir melhor. Seu cabelo tingindo era a única coisa que eu queria tocar nesse momento. Solto as asas brancas e pequenas do pingente. Ouço a voz de Timder.

– Que é que você tem, Leona? — Um dos poucos amigos que tenho — Timder — Está me olhando de uma maneira bem estranha. Abro os olhos e sorrio para ele. Tenho que manter o controle.

– Estou cansada, Tim — Reviro os olhos, ainda sorrindo — Eu te falei isso hoje de manhã...

– Você estava quase chorando, é sério.

Ignoro-o e copio por copiar a matéria de biologia que está na lousa. Não sei onde está a professora, e isso não me importa. Só quero resolver meus problemas.

Ainda estou tocando o pingente de Riba, quando outra coisa me vem a mente. Lylha e Mar. Meus amigos.

Sinto-me tonta quando lembro que não me despedi de nenhum dos dois, e como sinto-me mal. Meu peito está apertado e minha mente gira em torno do sol. Está fritando. Lentamente.

Cada instante que passa é uma dor diferente, e uma vontade de voltar no tempo absurda. Chorei os dois dias seguidos que se passaram, e mesmo assim, sei que tenho alguns outros oceanos inteiros para chorar ainda. Eu preciso de força para esquecer os dias mais felizes que vivi na minha vida. Eu tenho que esquecer.

*****

– Sexta tem luau, Leo — Tim está mordendo um hambúrguer, e eu estou sentada. Imóvel. Ao lado dele.

Lembro-me do tempo em que luares eram assustadores para mim. Lembro de quando me chamavam para ir só para tirar uma com a minha cara, pois sabiam que eu detestava água. Mas Tim não está fazendo isso. Ele está sendo amigo.

– Onde? — Pergunto da maneira mais interessada que eu consigo. Não quero sair de casa nunca mais.

– No reservatório — Ele responde. Assinto. O reservatório na verdade, é o lago de lazer do meu bairro, onde já foi usado como reservatório da prefeitura, porém hoje é abandonado pela mesma.

– Você vai?

– Sim — Ele diz, com um sorriso triste no canto da boca — Queria que você fosse, mas...

– Eu vou — Eu digo. Estou me surpreendendo cada vez mais comigo mesma. Tim também parece surpreso. — Posso ir com você?

– Tá brincando, não é? — Ele diz, sorrindo de verdade agora. Seu rosto está alegre. — É claro que pode.

Sorrio de maneira sincera. Mas a felicidade não chega em meus olhos.

*****

Chego em casa e jogo minha mochila na cama, sento-me nela e observo o Orgulho e Preconceito em cima da minha escrivaninha. Não toquei nele desde que cheguei de Los Angeles, e na verdade, não sei como ele fora parar ali. Meu pai ou minha mãe deve ter posto-o ali.

Engulo em seco. Talvez eles tenham me observado dormir.

Desde que chegamos de Los Angeles também, meus pais não conseguem esconder o nervosismo.

No jantar, ninguém fala a não ser Logan, e tudo o que ele fala são coisas da escola e sobre seus colegas e sobre brinquedos que ele quer. Minha mãe apenas concorda com a cabeça, e meu pai parece feito de cera. Ninguém se olha nos olhos, e isso está me cansando já.

Uma viagem mudou minha vida. Mudou nossa vida. Mas só a minha parece ter mudado para melhor.

Quando vou dormir, antes de deitar, ouço som de vozes do quarto dos meus pais. Sei que eles estão discutindo de novo. Imagino o porque.

Sento e choro. Choro metade do oceano que ainda tem dentro de mim, e mesmo depois de limpar os olhos, sinto-me tão cheia de água que vou para o banheiro e vomito tudo na privada.

Mas o pior são meus pensamentos. Por quem eu estou chorando?

*****

O resto da semana passa tão lentamente que partes do meu corpo parecem estar mortas.

Não sei como, mas me sinto tão mal quanto antes. Nutro sentimentos fortíssimos por tudo em Oceano ainda, e por todos. Alguns bons, alguns maus. Mas fortes.

Sinto que meus ossos e meu corpo está precisando de água o mais rápido possível. É uma fome de se sentir livre tão intensa que sinto meus pés vibrarem e o céu sucumbir. Não quero simplesmente entrar na água selvagem. Quero Oceano.

Durante a semana também, resolvi que não ia mais ao luau. Não sei porque, acho que eu precisava tentar ler Orgulho e Preconceito, mas eu precisava de tempo.

Quando falei isso para Tim, ele ficou meio emburrado, mas como sabia do meu problema, que na verdade não é mais um problema — apenas para mim não é mais um problema — ele não insistiu muito. Me perguntou até se eu queria que ele fosse assistir um filme comigo na minha casa.

Eu disse que não, claro. Não queria ninguém. Ninguém que não tivesse asas.

*****

Quando cheguei em casa na sexta-feira, encontrei a casa vazia e dei graças a Deus por isso. Precisava dormir e queria que tudo ficasse silencioso.

Deitei, mas não consegui fechar os olhos. toquei meus pingentes. Senti as lágrimas, e logo comecei a soluçar.

Levantei da minha cama e fui em direção aos quadros da minha escrivaninha que tinham nossa família na maioria neles. Olhei-os com meu céu desmoronando pela milésima vez naquela semana. Pisquei e a única coisa que eu fiz antes de atira-los para o chão foi dizer:

– Família?

Depois disso, só consegui ouvir o barulho do meu choro e de vidro quebrando. Acho que acabei pisando em um caco, mas logo eu estava sentada no chão, tentando quebrar cada pedaço daqueles quadros. Peguei uma foto em que estavam eu, meus pais e Logan. Olhei-a profundamente e silenciosamente. Minhas mãos tremiam e ardiam.

Eu poderia fazer várias coisas com ela, mas simplesmente deixei-a no chão. Varri tudo e limpei meus pés e minhas mãos. Quando ouvi a porta do carro bater, o que indicava que meus pais haviam chegado com Logan da escola, a única marca forte em mim era no meu coração.

Desci para o jantar.

*****

– Estou cansado de só eu falar — Logan diz, inocentemente, enquanto morde um pedaço de frango.

Suas palavras me fizeram embrulhar o estômago, e eu simplesmente falei:

– E eu estou cansada de nossos pais não se olharem mais.

Isso com certeza foi um choque para eles. Os talheres estalaram e meu coração gritou. Eu tinha a atenção deles.

– Quem disse isso a você, querida? — Minha mãe disse, na voz mais calma possível.

– Eu não sou cega — Falo, sem sentimento algum. — Até Logan percebeu algo.

– Suba para o quarto, Logan.. — Diz meu pai, ríspido.

Diferente do que eu imaginei, Logan saiu da mesa sem protestar. Meu pai estava voltando a me assustar. E eu não era a única com medo.

– O que está acontecendo com você, Leona? — Pergunta meu pai.

– Eu que tenho que perguntar isso para você, pai — Eu falo, olhando fixamente eu seus olhos. — Vocês dois parecem que viram fantasmas desde que chegamos de Los Angeles..

– Você está vendo coisas, minha filha.. — Minha mãe fala.

– Tem certeza, mamãe? — Não estou com medo mais, apenas estou irritada e estou desabafando o que segurei durante uma semana. — Então por quê ligou para mim aquele dia falando que Logan tinha desmaiado? Porque sabia que eu voltaria correndo e que eu não tinha como escolher entre Logan e...

Eu queria falar. Por um momento eu quase falo. Mas minha língua se perdeu nos meus pensamentos, e eu fiquei tão pálida quanto Coral era.

Minha mãe ficou mais branca que eu. Achei que ela fosse desmaiar, mas ela pareceu se conter.

Meu pai deu um murro fraco na mesa. Baixou a voz e a cabeça até mim e disse:

– Não quero esses assuntos na mesa...

– Que assuntos, pai? — Estou estourando, como uma bexiga que já passou do ponto de enchimento, mas que por algum motivo, estou gostando de estar assim.

– Leona... — Minha mãe está chorando. Ela sabia que eu descobrira algo. — Foi um erro, Hugo, um enorme erro. Se nós soubéssemos...

– Cale a boca, Amelia — Meu pai olha-a como se fosse mata-la. Não duvido.

Ninguém mais fala nada. E então eu simplesmente iria estourar se não saísse de lá.

Corro em direção a porta. Diferente do que pensei, não estou chorando. Nem uma lágrima sequer.

Pesco meu telefone no bolso de trás, e procuro por "Tim" nos contatos salvos.

No terceiro "bip" ele atende.

– Ainda está rolando o luau? — Eu falo. Depois disso, fecho a porta com força, como se pudesse trancar meus problemas dentro de algo.

Notas finais
[LEIAM] VOLTEI COM A FIC! NÃO PERCAM!